{"id":310637,"date":"2023-08-09T08:18:32","date_gmt":"2023-08-09T11:18:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=310637"},"modified":"2023-08-09T10:21:58","modified_gmt":"2023-08-09T13:21:58","slug":"escavacoes-revelam-vala-comum-em-terra-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/escavacoes-revelam-vala-comum-em-terra-indigena\/","title":{"rendered":"Escava\u00e7\u00f5es revelam vala comum em terra ind\u00edgena"},"content":{"rendered":"<p>Pesquisadores comprovam por meio de escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas a exist\u00eancia de vala comum na Terra Ind\u00edgena de S\u00e3o Marcos, no Mato Grosso (MT), onde foram enterrados ind\u00edgenas v\u00edtimas de viola\u00e7\u00f5es de direitos na ditadura militar. O projeto envolve cientistas da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), da Polish Academy of Science, na Pol\u00f4nia, e da Universidade de Winnipeg, no Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Em 1966, a popula\u00e7\u00e3o xavante de Mar\u00e3iwats\u00e9d\u00e9 foi v\u00edtima de remo\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria de seu territ\u00f3rio tradicional para a regi\u00e3o de S\u00e3o Marcos, localizada a cerca de 500 quil\u00f4metros (km) de dist\u00e2ncia, onde viviam outros grupos xavante. A transfer\u00eancia foi feita em avi\u00f5es da For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira (FAB), em um contexto de epidemia de sarampo. Dezenas de ind\u00edgenas foram acometidos pela doen\u00e7a e morreram em poucos dias. Os mortos foram enterrados em uma vala comum na terra ind\u00edgena.<\/p>\n<p>A arque\u00f3loga forense Claudia Plens aponta que os relatos dessa ocorr\u00eancia j\u00e1 eram p\u00fablicos, mas ainda careciam de evid\u00eancias materiais para que as comunidades, que sofrem o impacto de desestrutura\u00e7\u00e3o social at\u00e9 hoje, pudessem lutar por alguma forma de repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEmbora existam relatos diversos sobre o processo hist\u00f3rico que culminou na vala comum, a materialidade da vala s\u00f3 foi confirmada agora\u201d, disse Plens, que \u00e9 professora do departamento de hist\u00f3ria da Unifesp e lidera a pesquisa.<\/p>\n<p>\u201cPor meio das entrevistas e, posteriormente, pelo georadar [m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea], conseguimos localizar a vala comum. N\u00e3o houve preserva\u00e7\u00e3o dos esqueletos. Mas, do ponto de vista da arqueologia forense, os dados do georadar, associados \u00e0s fei\u00e7\u00f5es no sedimento, s\u00e3o suficientes para identificar a vala comum\u201d, apontou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Segundo Plens, a confirma\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado do cruzamento de diversas informa\u00e7\u00f5es. Primeiramente, havia indica\u00e7\u00e3o da localiza\u00e7\u00e3o da vala em uma dilig\u00eancia realizada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), em 2017. Embora n\u00e3o haja preserva\u00e7\u00e3o dos esqueletos, as entrevistas no local e o uso do georadar acrescentaram elementos que levaram finalmente \u00e0s escava\u00e7\u00f5es. J\u00e1 a escava\u00e7\u00e3o mostrou a estratigrafia da vala \u2013 uma leitura das camadas de sedimento \u2013 que demonstrou a materialidade da vala.<\/p>\n<p>\u201cA posi\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o da vala, conforme lembrado pelos habitantes locais, foram confirmadas pelos dados do georadar. Isso mostrou que a nossa t\u00e9cnica de mapeamento foi capaz de detectar esta assinatura no solo, aproximando ci\u00eancia e mem\u00f3ria no registro de um doloroso epis\u00f3dio hist\u00f3rico ainda muito vivo entre aqueles que o testemunharam\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>A etapa de campo da pesquisa j\u00e1 foi toda executada. Al\u00e9m disso, entrevistas compuseram a fase de lingu\u00edstica do projeto e contribuem para compreens\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o tradicional do territ\u00f3rio. Segundo Plens, as entrevistas com os anci\u00e3os da etnia foram reveladoras quanto ao crime cometido pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos dados preliminares da pesquisa aponta que as primeiras v\u00edtimas foram enterradas em covas individuais. \u201cNo entanto, a voracidade e o impacto do sarampo foi de tal forma que dezenas de pessoas morriam diariamente, sendo imposs\u00edvel os sepultamentos individuais. Neste sentido, as v\u00edtimas passaram a ser sepultadas em vala comum\u201d, revelou a arque\u00f3loga.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, a comunidade de S\u00e3o Marcos j\u00e1 vinha sendo acometida pelo sarampo ao longo dos anos devido ao contato com os n\u00e3o ind\u00edgenas, o que j\u00e1 havia resultado em dezenas de v\u00edtimas. \u201cPara isso [transfer\u00eancia dos ind\u00edgenas], houve toda uma articula\u00e7\u00e3o entre o pessoal da agropecu\u00e1ria Sui\u00e1 Missu, militares e os mission\u00e1rios salesianos que estavam em S\u00e3o Marcos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Paulo Delgado, professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e integrante da equipe, lembrou que o contexto da trag\u00e9dia que vitimou dezenas de xavante se insere nos grandes projetos de cunho desenvolvimentistas do governo militar. \u201cNaquela \u00e9poca, por meio de incentivos fiscais do governo federal, houve financiamentos de grandes empreendimentos agropecu\u00e1rios na regi\u00e3o Centro-Oeste. Um destes empreendimentos atingiu em cheio o territ\u00f3rio xavante de Maraiwats\u00e9d\u00e9\u201d, disse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores comprovam por meio de escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas a exist\u00eancia de vala comum na Terra Ind\u00edgena de S\u00e3o Marcos, no Mato Grosso (MT), onde foram enterrados ind\u00edgenas v\u00edtimas de viola\u00e7\u00f5es de direitos na ditadura militar. 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