{"id":310749,"date":"2023-08-11T04:59:28","date_gmt":"2023-08-11T07:59:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=310749"},"modified":"2023-08-11T04:59:28","modified_gmt":"2023-08-11T07:59:28","slug":"abismo-de-incertezas-precisa-ser-contornado-para-evitarmos-o-pior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/abismo-de-incertezas-precisa-ser-contornado-para-evitarmos-o-pior\/","title":{"rendered":"Abismo de incertezas precisa ser contornado para evitarmos o pior"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Hoje, negar a crise clim\u00e1tica \u00e9 apenas insensatez.&#8221; O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva se valeu desta frase nesta quarta-feira (9) ao iniciar um pronunciamento \u00e0 imprensa ap\u00f3s a conclus\u00e3o da C\u00fapula da Amaz\u00f4nia. Era o fim de uma reuni\u00e3o de dois dias em Bel\u00e9m (PA) na qual chefes de Estado e ministros de oito pa\u00edses por onde se estende o bioma amaz\u00f4nico buscaram definir a\u00e7\u00f5es conjuntas para proteger a floresta e as pessoas que vivem na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi apenas a quarta vez, desde 1989, que pa\u00edses membros da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado de Coopera\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nica (OTCA) se encontraram para debater os problemas em comum que enfrentam. E a primeira vez que a c\u00fapula se deu em um contexto extraordin\u00e1rio de compreens\u00e3o por parte dos governantes de que a Amaz\u00f4nia est\u00e1 muito perto do colapso e que o planeta est\u00e1 mergulhado em uma s\u00e9ria emerg\u00eancia clim\u00e1tica que s\u00f3 tende a piorar.<\/p>\n<p>Eu e minha colega Anna Beatriz Anjos passamos os \u00faltimos cinco dias em Bel\u00e9m acompanhando essas discuss\u00f5es. E logo no primeiro dia ouvimos um diplomata brasileiro afirmar, preocupado, o diagn\u00f3stico que vem sendo desenhado j\u00e1 h\u00e1 algum tempo pela ci\u00eancia: &#8220;A situa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia \u00e9 dram\u00e1tica&#8221;.<\/p>\n<p>Dita em uma conversa informal \u2013 em off, como dizemos no jarg\u00e3o jornal\u00edstico \u2013, a frase me chamou aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o porque seu conte\u00fado seja uma novidade, mas justamente por ser dita assim num bate-papo de corredor. Como se a situa\u00e7\u00e3o tivesse sido introjetada. Como se de repente se tivesse acordado para a realidade. E agora aquele tipo de reuni\u00e3o de l\u00edderes se daria em um contexto diferente de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8221; Por causa do desmatamento, que j\u00e1 levou 17% da cobertura original da floresta na Pan-Amaz\u00f4nia \u2013 21% se considerarmos s\u00f3 a por\u00e7\u00e3o brasileira do bioma \u2013, e das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a Amaz\u00f4nia se aproxima do chamado ponto de n\u00e3o retorno.<\/p>\n<p>O conceito estima que a partir de uma perda X da vegeta\u00e7\u00e3o, que hoje se considera ser algo entre 20% a 25%, a floresta comece a perder suas caracter\u00edsticas principais e sua capacidade de prover servi\u00e7os como chuva e absor\u00e7\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico, o CO2.<\/p>\n<p>Globalmente, o cen\u00e1rio \u00e9 estarrecedor. O aquecimento do planeta n\u00e3o \u00e9 mais proje\u00e7\u00e3o para o futuro. Como diz M\u00e1rcio Astrini, secret\u00e1rio executivo do Observat\u00f3rio do Clima, n\u00e3o \u00e9 preciso olhar gr\u00e1ficos de proje\u00e7\u00e3o de temperatura para entender o que est\u00e1 acontecendo \u2013 basta abrir a janela. O exemplo mais evidente disso foi o \u00faltimo julho, o m\u00eas mais quente do registro hist\u00f3rico para o planeta, com temperatura m\u00e9dia j\u00e1 1,5\u00baC superior que a m\u00e9dia para o per\u00edodo de 1850-1900. No Brasil, o m\u00eas tamb\u00e9m foi o mais quente.<\/p>\n<p>O conhecimento da emerg\u00eancia aparentemente foi absorvido pelos l\u00edderes ali presentes, como evidencia a fala de Lula. Se n\u00e3o h\u00e1 negacionismo, o passo seguinte deveria ser agir, n\u00e9? Mas a resposta a esse contexto n\u00e3o veio \u00e0 altura da crise que os governantes tinham acabado de reconhecer.<\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9m, documento assinado pelos oito pa\u00edses membros da OTCA (Brasil, Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela), traz como um dos pilares a &#8220;a\u00e7\u00e3o urgente&#8221; para evitar que a maior floresta tropical do mundo atinja o ponto de n\u00e3o retorno. Mas n\u00e3o estabelece metas concretas para isso.<\/p>\n<p>Havia a expectativa, por exemplo, de que os pa\u00edses se comprometeriam conjuntamente com uma meta de zerar o desmatamento, o que n\u00e3o ocorreu. Alguns pa\u00edses j\u00e1 t\u00eam metas pr\u00f3prias nesse sentido, como o Brasil e a Col\u00f4mbia, mas houve resist\u00eancia de pa\u00edses, como a Bol\u00edvia, para tamb\u00e9m se comprometerem.<\/p>\n<p>A maior decep\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, veio da n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o de nenhum compromisso referente a combust\u00edveis f\u00f3sseis. \u00c9 a queima deles, afinal de contas, que mais colabora para o aquecimento global.<\/p>\n<p>&#8221; Mesmo se o desmatamento da Amaz\u00f4nia for zerado em breve, o ponto de n\u00e3o retorno ainda poder\u00e1 ser alcan\u00e7ado se a temperatura subir demais, causando mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que podem tornar a floresta mais seca e fr\u00e1gil.<br \/>\nO presidente da Col\u00f4mbia, Gustavo Petro, queria um compromisso no \u00e2mbito da OTCA para que se eliminasse a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na regi\u00e3o, o que n\u00e3o foi aceito. O tema \u00e9 sens\u00edvel no Brasil, onde est\u00e1 em debate a extra\u00e7\u00e3o de \u00f3leo e g\u00e1s na Foz do Amazonas.<\/p>\n<p>O projeto de prospec\u00e7\u00e3o foi vetado pelo Ibama, mas a Petrobras recorreu. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e pol\u00edticos locais do Amap\u00e1 e do Par\u00e1 \u2013 inclusive o governador do Estado, Helder Barbalho, que vai ser o anfitri\u00e3o da Confer\u00eancia do Clima da ONU em 2025, s\u00e3o fortes defensores da explora\u00e7\u00e3o. Petro cobrou essa incoer\u00eancia em seu discurso na abertura da c\u00fapula.<\/p>\n<p>&#8220;Nesta quest\u00e3o da crise clim\u00e1tica, a ci\u00eancia, o movimento social e a pol\u00edtica caminham por caminhos diferentes. Cada vez mais o movimento social se une com a ci\u00eancia, e cada vez mais a pol\u00edtica \u00e9 aprisionada e acaba na ret\u00f3rica&#8221;, disse Petro. Para ele, o interesse no conforto promovido pelos combust\u00edveis encarcera a pol\u00edtica. &#8220;A pol\u00edtica n\u00e3o pode escapar dos interesses econ\u00f4micos que derivam do chamado capital f\u00f3ssil.&#8221;<\/p>\n<p>No discurso mais forte do evento, o \u00fanico que pareceu levar em conta a urg\u00eancia do momento, Petro deu um pux\u00e3o de orelha coletivo: &#8220;\u00c9 por isso que a ci\u00eancia se desespera. E o movimento social \u2013 que no fundo responde \u00e0 humanidade \u2013 acaba se desesperando e vendo na pol\u00edtica uma esp\u00e9cie de muro surdo que n\u00e3o pode agir. \u00c9 por isso que as COPs (Confer\u00eancias do Clima da ONU) falham, quando o rel\u00f3gio se move rumo \u00e0 extin\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>E seguiu: &#8220;Se estamos \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o da vida, se \u00e9 nesta d\u00e9cada que temos de tomar as decis\u00f5es e se somos n\u00f3s os pol\u00edticos que devemos tom\u00e1-las, ent\u00e3o, o que estamos fazendo?&#8221;<\/p>\n<p>Para o presidente colombiano, ao contr\u00e1rio de pol\u00edticos de direita, que muitas vezes simplesmente negam que o problema exista, os de esquerda acabam tamb\u00e9m exercendo um outro tipo de negacionismo ao adiar a decis\u00e3o prorrogando o problema sob a justificativa de estarem fazendo um processo de transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vou reproduzir mais um trecho, porque o discurso dele foi muito bom (d\u00e1 para ler inteiro, em espanhol, aqui). &#8220;A direita tem uma sa\u00edda f\u00e1cil, que \u00e9 o negacionismo, negar a ci\u00eancia. Da\u00ed para a irracionalidade, da\u00ed para o fascismo, \u00e9 f\u00e1cil. J\u00e1 o fez no s\u00e9culo 20. Para os progressistas \u00e9 muito dif\u00edcil. A\u00ed gera outro tipo de negacionismo que \u00e9, mais ou menos, vamos adiar as decis\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 o caso do petr\u00f3leo e a floresta, diz. &#8220;O que causa a extin\u00e7\u00e3o \u00e9 o uso do petr\u00f3leo? [Proteger] a floresta nos ajudaria a salvar vidas? O que estamos fazendo? Permitindo que os hidrocarbonetos sejam explorados na selva? Isso n\u00e3o \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o completa? Se a selva produz petr\u00f3leo, ent\u00e3o est\u00e1 matando a humanidade. Em duplo efeito, porque deixa de ser selva, deixa de ser esponja e ao mesmo tempo emite CO2.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 suficiente apenas zerar o desmatamento para salvar a floresta, frisou Petro. &#8220;A ci\u00eancia diz que mesmo se plant\u00e1ssemos \u00e1rvores em todo o mundo, n\u00e3o conseguir\u00edamos absorver o que \u00e9 emitido a cada ano em CO2. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 abandonar carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s. Mesmo se conseguirmos em algum momento frear o desmatamento, os danos produzidos e acumulados, de qualquer forma acabariam com a floresta at\u00e9 mesmo por processos naturais, como sua queima devido ao aquecimento global.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o poderia ser mais cristalino. As evid\u00eancias cient\u00edficas est\u00e3o todas a\u00ed. As a\u00e7\u00f5es correspondentes, n\u00e3o. Poucas horas depois da fala do presidente, o ministro Silveira apareceu na sala onde a imprensa estava acompanhando o evento para dar uma breve entrevista. Foi metralhado por perguntas sobre o assunto \u2013 em uma a\u00e7\u00e3o n\u00e3o combinada, mas espantosamente bem coordenada do reportariado.<\/p>\n<p>Em meio a um monte de jornalistas que cobrem meio ambiente e pol\u00edtica ambiental, todos mais do que familiarizados com o que diz a ci\u00eancia sobre o assunto, Alexandre Silveira questionou o consenso cient\u00edfico. Disse n\u00e3o existir evid\u00eancias sobre por quanto tempo o planeta ainda pode queimar combust\u00edveis f\u00f3sseis. Pois \u00e9&#8230; s\u00f3 que a ci\u00eancia \u00e9 bem clara em dizer que j\u00e1 n\u00e3o dever\u00edamos estar iniciando mais nenhum novo investimento nisso. E que dever\u00edamos estar reduzindo as opera\u00e7\u00f5es existentes.<\/p>\n<p>Meu colega Claudio Angelo, jornalista veterano de ci\u00eancia e meio ambiente, hoje coordenador de comunica\u00e7\u00e3o do Observat\u00f3rio do Clima, comparou o desenrolar da C\u00fapula da Amaz\u00f4nia com a COP de Copenhague, em 2009, momento em que se imaginava que o mundo fecharia um acordo para conter as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2013 o que s\u00f3 ocorreu seis anos depois, no Acordo de Paris.<\/p>\n<p>&#8220;Os alco\u00f3licos an\u00f4nimos dizem que reconhecer o problema \u00e9 o primeiro passo para resolv\u00ea-lo. S\u00f3 que o sistema multilateral, como est\u00e1 estruturado hoje, \u00e9 incapaz de dar o passo seguinte&#8221;, ele me falou.<\/p>\n<p>&#8220;Em 2009, quase 200 pa\u00edses se reuniram em Copenhague sob um diagn\u00f3stico dram\u00e1tico de crise clim\u00e1tica e tentaram fechar um acordo multilateral para atac\u00e1-la. A percep\u00e7\u00e3o na \u00e9poca era de que aquela seria a \u00faltima chance da humanidade de evitar as piores consequ\u00eancias do aquecimento global. O que aconteceu depois? A d\u00e9cada ap\u00f3s Copenhague registrou o maior aumento de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa da hist\u00f3ria da humanidade&#8221;, complementou.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses sabem para onde est\u00e3o rumando, mas n\u00e3o conseguem deixar de ir pra l\u00e1. Ao menos n\u00e3o na velocidade que seria recomend\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Hoje, negar a crise clim\u00e1tica \u00e9 apenas insensatez.&#8221; O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva se valeu desta frase nesta quarta-feira (9) ao iniciar um pronunciamento \u00e0 imprensa ap\u00f3s a conclus\u00e3o da C\u00fapula da Amaz\u00f4nia. 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