{"id":310892,"date":"2023-08-13T06:45:24","date_gmt":"2023-08-13T09:45:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=310892"},"modified":"2023-08-13T09:38:50","modified_gmt":"2023-08-13T12:38:50","slug":"andre-hawking-do-xadrez-sabe-pregar-uma-peca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/andre-hawking-do-xadrez-sabe-pregar-uma-peca\/","title":{"rendered":"Andr\u00e9, Hawking do xadrez, sabe pregar uma pe\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>O Monte Branco de Courmayeur, na fronteira da It\u00e1lia com a Fran\u00e7a, \u00e9 o ponto mais alto da Uni\u00e3o Europeia. Fica a 4 mil 748 metros acima do n\u00edvel do mar. Andr\u00e9 Montanha (originalmente Montagna, dos seus antepassados, que tiveram o sobrenome aportuguesado nesta terra tupiniquim), tem o racioc\u00ednio mais r\u00e1pido do que os ventos que sopram velozes sobre os Alpes. Se, de um lado, enfrenta dificuldades para movimentar os membros inferiores e superiores, de outro, demonstra ter neur\u00f4nios acima da m\u00e9dia de qualquer um de n\u00f3s, seus simples irm\u00e3os mortais.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 n\u00e3o \u00e9 um Stephen Hawking, \u00e9 verdade. Mas os dois t\u00eam algo em comum que vai al\u00e9m da cadeira de rodas &#8211; a intelig\u00eancia. Foi com esse rapaz de 44 anos, nascido no Gama e hoje residente em Taguatinga (duas das maiores cidades do quadradinho do Distrito Federal), que dividi a tarde e o in\u00edcio da noite do s\u00e1bado, 12. Nos separando, um tabuleiro de xadrez, com as pe\u00e7as de terracota, a quem presenteei na certeza de que voltarei \u00e0 sua casa mais vezes.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Stephen, acometido ao longo da vida por esclerose lateral amiotr\u00f3fica, Andr\u00e9 j\u00e1 veio ao mundo com dificuldades motoras. Mas ele n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed pra isso. Ri, brinca, desce da cadeira, engatinha, volta, come um p\u00e3o de queijo fresquinho, uma fatia de bolo de mandioca (que prefiro dizer de macaxeira) e sorve uma x\u00edcara de caf\u00e9 esfumegante.<\/p>\n<p>Decidimos jogar. No in\u00edcio da partida, para n\u00e3o derrubar pe\u00e7as praticamente embaralhadas, pede-me para abrir, ele com as brancas, pe\u00e3o quatro rei. Um lance tradicional de iniciantes, raramente empregado por enxadristas, digamos assim, mais experientes. Sinalizei que atacaria com minhas pretas, arrastando o pe\u00e3o para a casa tr\u00eas do cavalo do rei. Qual o qu\u00ea. \u00c0 medida em que bispos e pe\u00f5es se espalhavam estrategicamente sobre o tabuleiro, Andr\u00e9 foi devorando minhas pe\u00e7as. Levou-me a rainha e deixou-me em xeque. Levantei-me, fui fumar na cal\u00e7ada e disse l\u00e1 para meus bot\u00f5es: &#8220;De principiante, esse rapaz n\u00e3o tem nada&#8221;.<\/p>\n<p>De volta ao jogo, quebrei a cabe\u00e7a na tentativa de n\u00e3o tomar um mate. Andr\u00e9, j\u00e1 com o tabuleiro menos congestionado, movimentava as pe\u00e7as com a velocidade de um enxadrista que disputa uma partida contra o advers\u00e1rio e o rel\u00f3gio. Mas, por fim, consegui, em lances de magia, arrancar um empate. Rimos e nos parabenizamos, sob os olhares lacrimosos dos pais dele. Uma nova rodada de caf\u00e9, bolo, p\u00e3o de queijo. E outra ida \u00e0 cal\u00e7ada. Desta vez, acompanhado por meu amigo em sua cadeira de rodas.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 muito bom no xadrez, disse-me ele, com voz pastosa. Repliquei que n\u00e3o esperava um advers\u00e1rio t\u00e3o dif\u00edcil. E Andr\u00e9 sorriu como uma crian\u00e7a que ganha seu primeiro pirulito.<\/p>\n<p>Par\u00eanteses. Nos conhecemos h\u00e1 pouco menos de um m\u00eas. Foi na noite de 20 de julho, no Grupo de Assist\u00eancia Social e Espiritual S\u00e3o Francisco de Assis, em \u00c1guas Claras. Vem a ser uma institui\u00e7\u00e3o espiritualista frequentada por cat\u00f3licos, evang\u00e9licos, judeus, mu\u00e7ulmanos e das mais diferentes religi\u00f5es afro-brasileiras, como umbanda e candombl\u00e9. L\u00e1 h\u00e1 um dia dedicado ao expurgo. Nessas oportunidades, vive-se em meio a frequentadores de entidades do popularmente dito terreiro de macumba. Na primeira ida, me foi confiada a miss\u00e3o de, sempre que poss\u00edvel, ir jogar xadrez com um cadeirante. Fim do adendo. Volta-se \u00e0 narrativa original.<\/p>\n<p>Na segunda partida, Andr\u00e9 veio com sede de vit\u00f3ria. Esbarrava e derrubava uma ou outra pe\u00e7a, a que me apressava a repor na devida casa. Ele se desculpava, agradecia; eu sugeria que segurasse o bode bravio dos Alpes. &#8220;Vou ganhar de voc\u00ea&#8221;, dizia. Em um lance r\u00e1pido, levou-me o bispo do rei para a bolsa da sua rainha. Observei, por\u00e9m, que deixara o flanco aberto.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00e9ra a\u00ed, Andr\u00e9. Vou fumar. Mas cuidado com essa rainha.<\/p>\n<p>Estava na cal\u00e7ada quando o vi engatinhando para dentro de casa. Voltou com uma pequena caixa de xadrez. Abriu. Pe\u00e7as multicoloridas, produzidas manualmente sabe-se l\u00e1 se por descendentes de incas e astecas, ou por monges tibetanos. Algo de rar\u00edssima preciosidade.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 seu, Jos\u00e9. Estou retribuindo o presente.<\/p>\n<p>Agradeci, recusei. Meu presente, respondi, \u00e9 estar aqui jogando com voc\u00ea.<\/p>\n<p>Voltamos \u00e0 mesa. Eu havia alertado para os riscos de ele ter avan\u00e7ado com a rainha. Ganhei a partida com xeque-mate de bispo.<\/p>\n<p>&#8211; Realmente voc\u00ea \u00e9 bom no xadrez, Jos\u00e9. Vai voltar aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Vou, Andr\u00e9. Dia 26.<\/p>\n<p>&#8211; Venha mais cedo, almoce com a gente. E papai canta e toca viol\u00e3o enquanto a gente joga.<\/p>\n<p>Est\u00e1 a\u00ed mais uma prova da intelig\u00eancia desse meu novo amigo. O pai, o velho Montagna que tem nas veias o sangue dos Alpes e cabelos prateados como os meus, abre um sorriso e fala do seu repert\u00f3rio. De Nelson Gon\u00e7alves a Noel Rosa. Melhor que isso, nem Vivaldi. Dia 26 volto l\u00e1. Se perder, j\u00e1 tenho uma desculpa na ponta da l\u00edngua: <em>Il cantante<\/em> distraiu-me.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Monte Branco de Courmayeur, na fronteira da It\u00e1lia com a Fran\u00e7a, \u00e9 o ponto mais alto da Uni\u00e3o Europeia. Fica a 4 mil 748 metros acima do n\u00edvel do mar. 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