{"id":310961,"date":"2023-08-14T00:58:16","date_gmt":"2023-08-14T03:58:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=310961"},"modified":"2023-08-14T09:00:51","modified_gmt":"2023-08-14T12:00:51","slug":"luta-dos-puyanawa-resgata-cultura-e-protege-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/luta-dos-puyanawa-resgata-cultura-e-protege-amazonia\/","title":{"rendered":"Luta dos Puyanawa resgata cultura e protege Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>Os ind\u00edgenas da etnia Puyanawa, que vivem h\u00e1 tempos imemoriais na regi\u00e3o do Vale do Juru\u00e1, oeste do Acre, tentam consolidar o resgate de uma cultura ancestral que foi fortemente desagregada com o avan\u00e7o das atividades extrativas durante o ciclo da borracha, no s\u00e9culo passado. No fim de julho, a comunidade, localizada no munic\u00edpio de M\u00e2ncio Lima, a cerca de 700 quil\u00f4metros (km) de Rio Branco, recebeu um grupo de 70 influenciadores digitais para uma imers\u00e3o promovida pelo projeto Creators Academy, como forma de dar visibilidade \u00e0 causa ind\u00edgena e seus modos de vida associados \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, em tempos de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Assim como outras etnias da Floresta Amaz\u00f4nica, o contato ocorrido com os invasores n\u00e3o ind\u00edgenas resultou em expropria\u00e7\u00e3o de terras, separa\u00e7\u00f5es familiares, assassinatos e mortes decorrentes de doen\u00e7as. Al\u00e9m disso, muitos foram obrigados a trabalhar nos seringais e proibidos de exercer seus costumes tradicionais, criando uma sobreposi\u00e7\u00e3o com a cultura branca ocidental que at\u00e9 hoje se reflete na sociedade local.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s fomos um povo detectado aqui em 1905, e em 1910 foi a captura de nossos antepassados. Ficamos escravizados do coronel M\u00e2ncio Lima at\u00e9 1950, quando ele faleceu&#8221;, relata o cacique Joel Puyanawa (foto).<\/p>\n<p>O coronel foi um dos maiores seringalistas do Acre na primeira metade do s\u00e9culo 20 e o principal respons\u00e1vel pela opress\u00e3o dos povos origin\u00e1rios da regi\u00e3o. A coloniza\u00e7\u00e3o liderada por ele resultou na ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e na funda\u00e7\u00e3o de \u00e1reas urbanas, inclusive no munic\u00edpio que leva seu nome.<\/p>\n<p><strong>Da espolia\u00e7\u00e3o \u00e0 resist\u00eancia<\/strong><br \/>\n&#8220;Meus bisav\u00f3s tiveram o desprazer do contato for\u00e7ado com os n\u00e3o ind\u00edgenas, certamente fomos obrigados a n\u00e3o praticar nem um tra\u00e7o cultural que envolvesse a identidade do meu povo. \u00c9 \u00f3bvio que o coronel M\u00e2ncio Lima, o mesmo que por sua miser\u00e1vel crueldade quase dizimou meu povo por inteiro, n\u00e3o ia deixar que nosso povo continuasse a perpetuar sua identidade, sua apar\u00eancia e seu idioma&#8221;, escreveu Caroline Puyanawa em um texto publicado nas redes sociais na semana em que celebra o Dia Internacional dos Povos Ind\u00edgenas, no \u00faltimo dia 9 de agosto.<\/p>\n<p>&#8220;Meu nome no registro de nascimento \u00e9 Caroline Lima da Costa, [mas] este &#8216;Lima&#8217; nunca pertenceu a ningu\u00e9m da minha fam\u00edlia, temos essa marca no nosso nome porque todo puyanawa que nascia era como se fosse objeto de pertencimento deste Coronel&#8221;, acrescentou Carolina, que tem 24 anos, \u00e9 estudante de tecnologia em agroecologia e artes\u00e3 em sua comunidade. S\u00f3 a partir de 2012 os puyanawa passaram a ter o direito de usar esse nome nas certid\u00f5es de nascimento, e a grande maioria dos cerca de 750 ind\u00edgenas da etnia ainda n\u00e3o conseguiu efetivar a mudan\u00e7a. Esse per\u00edodo marca tamb\u00e9m a retomada mais forte da cultura puyanawa, que nunca desapareceu, mas foi muito amea\u00e7ada.<\/p>\n<p>Segundo o cacique Joel, em 1983, quando come\u00e7aram os primeiros trabalhos de reconhecimento oficial dos puyanawa para fins de demarca\u00e7\u00e3o \u2013 que s\u00f3 se efetivaria em 2001 \u2013, havia apenas 16 falantes da l\u00edngua do seu povo, que faz parte do tronco lingu\u00edstico Pano, falado por povos ind\u00edgenas em partes do Brasil, Peru e da Bol\u00edvia. Joel tinha apenas 14 anos quando viu seu av\u00f4 cantar no idioma puyanawa pela primeira vez. J\u00e1 indicado a cacique, em 2008, Joel percebeu, durante um encontro cultural de povos ind\u00edgenas do Acre, que haviam perdido contato com a ess\u00eancia de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. &#8220;N\u00e3o sab\u00edamos sequer cantar em nosso idioma, n\u00e3o conhec\u00edamos as t\u00e9cnicas de artesanato e ainda pouco da medicina tradicional&#8221;, revela.<\/p>\n<p>A partir daquele momento, Joel e outros parentes lideraram um trabalho na comunidade que ajudou a fomentar uma afirma\u00e7\u00e3o de orgulho \u00e9tnico de seu povo e a reconstru\u00e7\u00e3o de la\u00e7os quase perdidos. Ouvindo os mais anci\u00e3os ainda vivos, aprenderam o idioma, que atualmente \u00e9 ensinado na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica oferecidas nas aldeias. Contando com a solidariedade de outros povos ind\u00edgenas da regi\u00e3o, como os Ashaninka, reconstitu\u00edram quase todo o repert\u00f3rio de conhecimento sobre artesanato e medicinas ancestrais, como o uso do rap\u00e9 e da Ayahuasca. &#8220;Houve uma cobran\u00e7a espiritual, que exigiu de n\u00f3s o conhecimento sobre nossa pr\u00f3pria ancestralidade&#8221;, afirma Joel.<\/p>\n<p><strong>Artesanato e agricultura<\/strong><br \/>\n&#8220;O artesanato \u00e9 a identidade de um povo, como sua l\u00edngua, e tem sido um dos principais aspectos do fortalecimento da cultura puyanawa&#8221;, afirma Val\u00e9ria Puyanawa, que, assim como outras mulheres e homens da comunidade, desenvolve uma variedade de mais de 35 itens, de vestu\u00e1rio, adornos e objetos de uso cerimonial. Um dos exemplos \u00e9 a tecelagem de tucum\u00e3, o uso de jenipapo e bambu.<\/p>\n<p>No caso das pe\u00e7as adornadas penas e ossos de animais, a produ\u00e7\u00e3o vem sendo controlada e somente os ind\u00edgenas podem usar, como forma de desestimular a preda\u00e7\u00e3o da fauna, que vem sendo fiscalizada por \u00f3rg\u00e3os ambientais por quem adquire esse tipo de pe\u00e7a. Pr\u00f3ximo ao centro comunit\u00e1rio da terra ind\u00edgena, h\u00e1 uma casa de artesanato que exp\u00f5e e comercializa os trabalhos manuais feito pelos puyanawa.<\/p>\n<p>Outra tradi\u00e7\u00e3o que virou uma importante fonte de renda para a comunidade \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o da farinha de mandioca. Original do continente sul-americano e cultivada por povos origin\u00e1rios h\u00e1 milhares de anos, a mandioca \u00e9 tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o dos puyanawa. &#8220;\u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o que vem dos nossos antepassados que a gente mant\u00e9m de p\u00e9, \u00e9 uma refer\u00eancia&#8221;, diz Lucas Puyanawa, no dia em que recebeu os visitantes na Casa de Farinha montada na aldeia, que mostra como \u00e9 feito todo o processo de beneficiamento da mandioca.<\/p>\n<p>Por ano, os ind\u00edgenas produzem mais de 500 toneladas de farinha, que s\u00e3o consumidas por eles pr\u00f3prios e vendidas no mercado local de M\u00e2ncio Lima. Por causa da mandioca e dos ro\u00e7ados de milho, feij\u00e3o, frutas e outras culturas, os ind\u00edgenas passaram pelo per\u00edodo mais dram\u00e1tico da pandemia sem depender da doa\u00e7\u00e3o de alimentos, como ocorreu em comunidades pobres de todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Potencialidades<\/strong><br \/>\n&#8220;Uma coisa que fica evidente para gente \u00e9 que os povos da floresta n\u00e3o est\u00e3o pedindo assistencialismo. As solu\u00e7\u00f5es est\u00e3o ali, eles est\u00e3o reflorestando. H\u00e1 14 anos, o territ\u00f3rio dos puyanawa era um lugar devastado, e hoje a gente v\u00ea uma floresta rica, um ch\u00e3o abundante. A gente precisa fortalecer o trabalho que eles est\u00e3o fazendo&#8221;, destaca a empreendedora social Kamila Camilo, idealizadora do projeto Creators Academy, numa men\u00e7\u00e3o aos modos de produ\u00e7\u00e3o em harmonia com a selva e os trabalhos de reflorestamento que a comunidade tem feito no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Para Kamila, ap\u00f3s a visita de influenciadores digitais na regi\u00e3o, e as trocas de saberes que resultaram dos encontros, fica para os puyanawa, a partir de agora, a possibilidade de receber outros grupos e trabalhar o turismo de base comunit\u00e1ria, como alternativa econ\u00f4mica para comunidades tradicionais. &#8220;\u00c9 algo que acreditamos na Creators.&#8221;<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m teve uma experi\u00eancia &#8220;transformadora&#8221; na visita ao territ\u00f3rio Puyanawa foi a jornalista Nathalia Arcuri, criadora do canal Me Poupe!, com mais de 7,4 milh\u00f5es de inscritos na plataforma de v\u00eddeo e cerca de 5 milh\u00f5es em outras redes sociais. O projeto \u00e9 voltado para educa\u00e7\u00e3o financeira a partir de uma linguagem simples, com informa\u00e7\u00f5es sobre finan\u00e7as pessoais por meio de uma comunica\u00e7\u00e3o direta e educativa. Na visita aos puyanawa, a convite da Creators Academy, Arcuri chegou a se reunir com os ind\u00edgenas para discutir sustentabilidade econ\u00f4mica e social e afirma ter sa\u00eddo fortalecida com os conhecimentos adquiridos dos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>&#8220;Para os puyanawa, dinheiro n\u00e3o \u00e9 acumular, mas \u00e9 oportunidade, acesso. Isso \u00e9 algo eu ainda n\u00e3o tinha escutado, sempre foi dito que dinheiro era seguran\u00e7a, sa\u00fade, outras coisas. E eles me falam como dinheiro foi como foi a mola propulsora para terem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o&#8221;, relata. &#8220;\u00c9 um povo que entende o significado do suficiente, em contraposi\u00e7\u00e3o ao excesso.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os ind\u00edgenas da etnia Puyanawa, que vivem h\u00e1 tempos imemoriais na regi\u00e3o do Vale do Juru\u00e1, oeste do Acre, tentam consolidar o resgate de uma cultura ancestral que foi fortemente desagregada com o avan\u00e7o das atividades extrativas durante o ciclo da borracha, no s\u00e9culo passado. No fim de julho, a comunidade, localizada no munic\u00edpio de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":310962,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-310961","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310961","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=310961"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310961\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":310963,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310961\/revisions\/310963"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/310962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=310961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=310961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=310961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}