{"id":311118,"date":"2023-08-16T06:11:16","date_gmt":"2023-08-16T09:11:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=311118"},"modified":"2023-08-16T08:17:09","modified_gmt":"2023-08-16T11:17:09","slug":"millor-100-anos-de-nascimento-e-muitas-saudades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/millor-100-anos-de-nascimento-e-muitas-saudades\/","title":{"rendered":"Mill\u00f4r, 100 anos de nascimento e muitas saudades"},"content":{"rendered":"<p>Se estivesse vivo, o desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista brasileiro Mill\u00f4r Fernandes estaria completando, nesta quarta-feira (16), seu centen\u00e1rio de nascimento. Mill\u00f4r Fernandes, nome art\u00edstico de Milton Viola Fernandes, nasceu no sub\u00farbio carioca do M\u00e9ier, em 16 de agosto de 1923, e morreu em 27 de mar\u00e7o de 2012, na mesma cidade, ganhando notoriedade por suas colunas de humor gr\u00e1fico em publica\u00e7\u00f5es como Veja, O Pasquim e Jornal do Brasil.<\/p>\n<p>\u201cMill\u00f4r \u00e9 uma das grandes mentes do nosso pa\u00eds. Um artista gr\u00e1fico fascinante, al\u00e9m de grande escritor. Conheci a arte de Mill\u00f4r nas publica\u00e7\u00f5es do Pasquim e revista Veja. Nunca o conheci pessoalmente. Trabalhei no Globo com a sua companheira, Cora R\u00f3nai. As frases e as s\u00e1tiras que ele escrevia, muito e magistralmente transcrevia para o papel. Nas artes gr\u00e1ficas, a liberdade de tra\u00e7o e cores foi o grande aprendizado que tirei de seu talento. Mill\u00f4r Fernandes, Jaguar e J.Carlos me ensinaram bastante com seus tra\u00e7os encantadores. Mill\u00f4r Fernandes, um g\u00eanio, uma intelig\u00eancia rara. Eu o vejo e entendo assim\u201d. Essa \u00e9 a lembran\u00e7a que o cartunista, ilustrador e designer Claudio Duarte disse ter de Mill\u00f4r Fernandes, em depoimento \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>O tamb\u00e9m cartunista Carlos Amorim trabalhou no jornal O Pasquim de 1984 a 1992, mas n\u00e3o chegou a privar da companhia de Mill\u00f4r, que deixou o jornal anos antes, em 1975, por discord\u00e2ncias com a equipe. Mas, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, Amorim destacou que \u201cMill\u00f4r sempre foi o farol dessa turma toda. Ziraldo pedia a b\u00ean\u00e7\u00e3o para o Mill\u00f4r, Jaguar pedia a b\u00ean\u00e7\u00e3o para Mill\u00f4r. Depois que ele saiu, l\u00e1 pelo n\u00famero 300, foi um divisor de \u00e1guas\u201d. Segundo Carlos Amorim, Mill\u00f4r levava o humor a s\u00e9rio. \u201cTanto \u00e9 que dizia: jornalismo \u00e9 oposi\u00e7\u00e3o. O resto \u00e9 armaz\u00e9m de secos e molhados\u201d. Segundo lembra Amorim, o Pasquim sofreu muito ap\u00f3s a sa\u00edda dele. \u201cPoderia ter ficado mais tempo, at\u00e9 o seu falecimento\u201d. Afirmou ainda, que toda essa turma que \u00e9 destaque nos jornais hoje \u201cbebia na fonte do Mill\u00f4r, como Tarso de Castro, Fausto Wolff. Ele era o guru mesmo, de carteirinha\u201d.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><br \/>\nO escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, Geraldo Carneiro, definiu Mill\u00f4r como um privil\u00e9gio da cultura brasileira. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, afirmou que Mill\u00f4r \u201canalfabetizou a minha gera\u00e7\u00e3o com as sess\u00f5es de Pif Paf e Van Gogo na revista O Cruzeiro em que nunca respeitou as normas da sem\u00e2ntica e da sintaxe\u201d. Para Carneiro, aquelas sess\u00f5es era uma refer\u00eancia deliciosa para quem foi crian\u00e7a nos anos de 1950 e 1960.<\/p>\n<p>\u201cCostumo dizer que ele tinha um processador mental inigual\u00e1vel. Suas respostas eram an\u00e1rquicas e engra\u00e7ad\u00edssimas. Era uma figura maravilhosa, n\u00e3o s\u00f3 pelo intelecto, mas tamb\u00e9m pela \u00e9tica, pela retid\u00e3o intelectual. Era um dos caras mais bacanas da hist\u00f3ria do Brasil\u201d. Geraldo Carneiro trabalhou com Mill\u00f4r Fernandes tr\u00eas vezes, sendo duas para cinema e uma para teatro. Fizeram dois roteiros em parceria, ambos para o cineasta Jom Tob Azulay. \u201cFoi um trabalho delicioso, embora n\u00f3s discord\u00e1ssemos em tudo na vida cotidiana, concordamos em tudo na hora de trabalhar juntos\u201d. Carneiro adaptou tamb\u00e9m para o teatro uma tradu\u00e7\u00e3o que Mill\u00f4r tinha feito de Shakespeare da pe\u00e7a A Megera Domada. \u201cTrabalhamos juntos tr\u00eas vezes. Foi um prazer imenso trabalhar com ele porque era uma pessoa de uma criatividade e uma capacidade de compreens\u00e3o de qualquer ideia que fosse lan\u00e7ada. Enfim, era uma figura muito rara por essa capacidade\u201d.<\/p>\n<p>Mill\u00f4r Fernandes era, contudo, um cr\u00edtico ferrenho da Academia Brasileira de Letras (ABL). \u201cIa ficar chatead\u00edssimo ao saber que alguns amigos, como eu e Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti entramos para a ABL. Ia nos tratar com algum desprezo e muito deboche, com certeza. Ele tinha horror de qualquer institui\u00e7\u00e3o. Era um iconoclasta perfeito\u201d, concluiu Geraldo Carneiro.<\/p>\n<p>Algumas frases de Mill\u00f4r se tornaram c\u00e9lebres. Entre elas, selecionamos algumas:<\/p>\n<p>A morte \u00e9 compuls\u00f3ria, a vida n\u00e3o.<\/p>\n<p>Amor n\u00e3o \u00e9 coisa para amador.<\/p>\n<p>A vida seria muito melhor se n\u00e3o fosse di\u00e1ria.<\/p>\n<p>O ruim das amizades eternas s\u00e3o os rompimentos definitivos.<\/p>\n<p>Todo homem nasce original e morre pl\u00e1gio.<\/p>\n<p>Livrai-me da justi\u00e7a, que dos malfeitores me livro eu.<\/p>\n<p>Me arrancam tudo \u00e0 for\u00e7a e depois me chamam de contribuinte.<\/p>\n<p><strong>Pequena biografia<\/strong><br \/>\nPor descuido dos pais, Mill\u00f4r Fernandes acabou registrado quase um ano depois do nascimento, ganhando como data oficial o dia 27 de maio de 1924. No ano seguinte, seu pai Francisco Fernandes morre subitamente, aos 36 anos de idade, deixando sua m\u00e3e Maria Viola Fernandes vi\u00fava aos 27 anos, com quatro filhos para criar. Em 1934, perde a m\u00e3e para o c\u00e2ncer. Mill\u00f4r e os irm\u00e3os s\u00e3o separados. O menino, ent\u00e3o com 11 anos, vai morar com a av\u00f3 em um quarto no fundo do quintal da casa do tio materno Francisco, na Estrada Nova da Pavuna.<\/p>\n<p>F\u00e3 de hist\u00f3rias em quadrinhos, copiava quadro por quadro as aventuras de Flash Gordon, de autoria de Alex Raymond. Na opini\u00e3o do pr\u00f3prio Mill\u00f4r, essa foi a &#8220;maior e mais leg\u00edtima influ\u00eancia&#8221; em sua forma\u00e7\u00e3o de humorista e escritor. Estimulado pelo tio Ant\u00f4nio, envia um desenho para o peri\u00f3dico carioca O Jornal. O trabalho \u00e9 aceito e publicado, lhe rendendo 10 mil r\u00e9is como pagamento.<\/p>\n<p>O dia 15 de mar\u00e7o de 1938 marcou o in\u00edcio de sua profiss\u00e3o como jornalista; foi quando passou a trabalhar na revista O Cruzeiro. Para fortalecer os conhecimentos para sua carreira, matriculou-se no Liceu de Artes e Of\u00edcios do Rio de Janeiro, onde estudou entre 1938 e 1942. Aos 17 anos, adotou o nome art\u00edstico Mill\u00f4r Fernandes, gra\u00e7as \u00e0 p\u00e9ssima caligrafia do escriv\u00e3o que transformava o nome Milton em Mill\u00f4r.<\/p>\n<p>Na revista A Cigarra, estreou em 1945, sob o pseud\u00f4nimo V\u00e3o Gogo, a se\u00e7\u00e3o O Pif-Paf em parceria com o cartunista P\u00e9ricles. No ano seguinte, lan\u00e7a Eva sem costela \u2014 Um livro em defesa do homem, assinando como Ad\u00e3o J\u00fanior. Em 1948, casa-se com Wanda Rubino, com quem teve dois filhos: Ivan e Paula. Em 1949, lan\u00e7a o livro Tempo e Contratempo sob o pseud\u00f4nimo Emmanuel V\u00e3o Gogo. Produz seu primeiro roteiro cinematogr\u00e1fico, &#8220;Modelo 19&#8221;. Em 1953, estreia sua primeira pe\u00e7a teatral, Uma mulher em tr\u00eas atos, encenada no Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Em 1957, Mill\u00f4r exp\u00f5e seus desenhos e pinturas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A partir de 1958, passa a manter sozinho a coluna O pif-paf, cuja p\u00e1gina dupla semanal \u00e9 sempre assinada com o pseud\u00f4nimo V\u00e3o Gogo e suas varia\u00e7\u00f5es. Isso s\u00f3 deixaria de acontecer em 1962, quando ele assume definitivamente o pr\u00f3prio nome. Em 1960, estreia no Teatro da Pra\u00e7a, no Rio, a pe\u00e7a Um elefante no caos, que rende a Mill\u00f4r o pr\u00eamio de &#8220;melhor autor&#8221; da Comiss\u00e3o Municipal de Teatro. Em 1964, Mill\u00f4r d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de uma coluna semanal no Di\u00e1rio Popular, de Portugal, em parceria que durou dez anos. No ano seguinte, em parceria com Fl\u00e1vio Rangel, escreve o musical Liberdade liberdade, que estreia no Teatro Opini\u00e3o, no Rio.<\/p>\n<p>Em 1969, passa de fiel colaborador a uma das principais for\u00e7as do jornal O Pasquim, quando grande parte do quadro colaboradores foi presa pela ditadura militar. Em 1970, com a reda\u00e7\u00e3o desfalcada de alguns de seus principais nomes, Mill\u00f4r e Henfil, com a ajuda de Chico Buarque, Glauber Rocha e Odete Lara, entre outros amigos, se esfor\u00e7aram para manter em funcionamento o jornal, que n\u00e3o deixou de circular uma s\u00f3 vez. Mill\u00f4r acaba assumindo a presid\u00eancia do Pasquim em 1972, reorganiza as finan\u00e7as do seman\u00e1rio, salvando-o da fal\u00eancia, mas decide sair em 1975, sem apoio da equipe. Em 1976, escreve para Fernanda Montenegro a pe\u00e7a \u00c9&#8230;, que acabaria se tornando seu maior sucesso teatral, no Teatro Maison de France. Em 1980, Mill\u00f4r conhece a jornalista Cora R\u00f3nai, com quem manteria um relacionamento pelo resto de sua vida. Comemora 50 anos de jornalismo em 1988. Depois de trabalhar para v\u00e1rios jornais e revistas, adere ao computador e lan\u00e7a, em 2000, O Saite Mill\u00f4r Online, no qual publica novos textos e desenhos e resgata antigos trabalhos. A iniciativa, considerada pioneira na internet brasileira, acaba sendo um grande sucesso.<\/p>\n<p>A ironia e a s\u00e1tira que usava nos textos para criticar as for\u00e7as dominantes tornaram-no alvo da censura. Em fevereiro de 2011, no Rio, sofre um acidente vascular cerebral isqu\u00eamico (AVC). Com a sa\u00fade fragilizada, morre em 27 de mar\u00e7o de 2012, aos 88 anos de idade, em seu apartamento em Ipanema, zona sul do Rio. O corpo foi cremado no dia 29, no Cemit\u00e9rio do Caju, zona portu\u00e1ria do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Com passagem marcante pelos ve\u00edculos impressos mais importantes do pa\u00eds, Mill\u00f4r \u00e9 considerado uma das principais figuras da imprensa brasileira no s\u00e9culo 20. Tinha orgulho, por outro lado, de sua atua\u00e7\u00e3o desportiva, sendo um dos inventores do frescobol que lan\u00e7ou na praia de Ipanema, com alguns amigos, em 1958. Em 6 de julho de 2012, foi homenageado com o batismo do Largo do Mill\u00f4r, entre as praias do Diabo e do Arpoador. Em 27 de maio de 2013, ganhou um banco incorporado a um monumento com sua silhueta desenhada por Chico Caruso e batizado de O Pensador de Ipanema.<\/p>\n<p>Um ano depois da morte de Mill\u00f4r, seu filho Ivan dividiu o acervo deixado pelo pai em tr\u00eas partes. Os mais de 120 livros passaram para a agente liter\u00e1ria Lucia Riff; a produ\u00e7\u00e3o teatral ficou a cargo da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de M\u00fasica e Artes (Abramus); enquanto as ilustra\u00e7\u00f5es e arquivos pessoais foram transferidos para o Instituto Moreira Salles (IMS).<\/p>\n<p>Amizade<br \/>\nEm texto escrito por Fernanda Montenegro e publicado em seu livro fotobiogr\u00e1fico, em 2018, a atriz homenageia o amigo de longa data:<\/p>\n<p>\u201cMill\u00f4r: retrato 3X4<br \/>\nCorajosamente \u00e0 maneira do pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Mill\u00f4r, duas s\u00edlabas fortes, desconcertantes e gentis, cuja rima pode ser flor e tamb\u00e9m dor. Os olhos eram de \u00e1guia, mas, tamb\u00e9m de pintassilgo, colibri, sabi\u00e1.<\/p>\n<p>A express\u00e3o verbal adquiria nele a for\u00e7a do substantivo. Por isso, a palavra lhe vinha sempre multidividida em punhais.<\/p>\n<p>Desgarrado de toda e qualquer gera\u00e7\u00e3o, flutuava acima daquela em que vivia, nessa terra de ningu\u00e9m, onde \u00e9 perigoso estar s\u00f3 e, mais perigoso ainda, acompanhado.<\/p>\n<p>Seu ato de viver tinha todas as d\u00favidas certas. E era um ser m\u00edtico para n\u00f3s que dificilmente e aparentemente lhe conhec\u00edamos a ess\u00eancia. A quem o frequentava regateava o aplauso f\u00e1cil porque sempre buscou, nos desv\u00e3os dessa n\u00e3o troca, a verdade do gesto, da palavra e da finitude.<\/p>\n<p>Esmiu\u00e7ava os contrastes e aceitava combativamente as vacila\u00e7\u00f5es dos que abdicam.<\/p>\n<p>Estoico diante da gl\u00f3ria, \u201cque n\u00e3o fica, n\u00e3o eleva, n\u00e3o honra nem consola\u201d, resistiu sempre a toda e qualquer apoteose, embora, com toda justi\u00e7a, a ambicionasse.<\/p>\n<p>Como lembran\u00e7a de uma dura inf\u00e2ncia de menino \u00f3rf\u00e3o, no seu medo, jamais se acovardou. Seu rosto guardava recorda\u00e7\u00f5es que a mem\u00f3ria lutava para n\u00e3o esquecer. Acreditava no perigo da aus\u00eancia, por isso, sempre estava e nunca ficava. Sua op\u00e7\u00e3o era ainda estar vivo quando o ultimo respirasse. N\u00e3o acreditava em Deus, mas, tinha com Ele excessiva intimidade e nessa n\u00e3o f\u00e9, transcendendo, conseguiu chegar aos conclusivos 88 ou 89 anos em pouqu\u00edssimos segundos, o que lamentamos, lamentamos, lamentamos.<\/p>\n<p>Era vis\u00edvel que Mill\u00f4r esteve sempre preparado para o Grande Dia. Algumas decis\u00f5es tomadas: a de morrer, olhando o sol no horizonte. A de sempre brincar de Deus como uma crian\u00e7a. A de absolutamente s\u00f3 crer no destino. E no final, como um cigano ou um poeta, escutar para sempre o silencio na luz absoluta\u201d. Assinado: Fernanda Montenegro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se estivesse vivo, o desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista brasileiro Mill\u00f4r Fernandes estaria completando, nesta quarta-feira (16), seu centen\u00e1rio de nascimento. 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