{"id":311984,"date":"2023-09-01T06:01:54","date_gmt":"2023-09-01T09:01:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=311984"},"modified":"2023-09-01T05:22:40","modified_gmt":"2023-09-01T08:22:40","slug":"rolao-preto-vem-para-provar-que-capitao-nao-manda-em-general","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rolao-preto-vem-para-provar-que-capitao-nao-manda-em-general\/","title":{"rendered":"Rol\u00e3o Preto vem para provar que capit\u00e3o n\u00e3o manda em general"},"content":{"rendered":"<p>Parafraseando o imortal Milton Nascimento, h\u00e1 um menino, h\u00e1 um moleque morando sempre em meu cora\u00e7\u00e3o. Toda a vez que o adulto balan\u00e7a ele vem para me dar a m\u00e3o. Embora saiba que o ontem j\u00e1 se foi e que o anteontem n\u00e3o volta mais, recorro \u00e0 mem\u00f3ria toda vez que tenho necessidade de esquecer que meu mundo, que j\u00e1 se resumiu a festivais, hoje \u00e9 muito mais amplo. N\u00e3o preciso de Jair, de Bolsonaro, do Messias, tampouco de Luiz In\u00e1cio ou de Lula para viver. Entretanto, \u00e9 minha inspira\u00e7\u00e3o que me faz sonhar acordado com a volta \u00e0quele peda\u00e7o de ch\u00e3o que chamava eufemisticamente de campo de futebol. Eram dois tocos, muita pedra, cacos de vidro, pregos enferrujados e meninos preocupados somente com a alegria pr\u00e9 ou p\u00f3s-trabalho escolar. N\u00e3o fazia parte do meu di\u00e1rio de bordo ser craque, rei, mito ou milion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Me bastava ser peladeiro. Queria ser apenas o que podia ser. E j\u00e1 era muito. Os que ascenderam viravam meus \u00eddolos, mas permaneceram amigos de inf\u00e2ncia, vizinhos, colegas de bairro. Muitos da minha gera\u00e7\u00e3o conviveram \u2013 e convivem &#8211; com Zico, Roberto Dinamite (+), Junior, Leandro, Jairzinho, Ad\u00edlio, Paulo C\u00e9sar Caju, D\u00e9, Andrade, Rom\u00e1rio, Zinho, Djalminha, Nunes, Dario, Reinaldo, entre outros. Os vivos s\u00e3o amigos, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o admitem ser chamados de &#8220;par\u00e7as&#8221;. Al\u00e9m de amb\u00edgua, a conota\u00e7\u00e3o \u00e9 parcimoniosa demais. Como jogador na inf\u00e2ncia, como torcedor e, depois, como rep\u00f3rter esportivo, minha primeira, segunda e terceira op\u00e7\u00f5es jamais passaram do conv\u00edvio civilizado.<\/p>\n<p>No meu tempo, o mesmo do Jair, jogar futebol significava vestir a camisa, o cal\u00e7\u00e3o, cal\u00e7ar a chuteira de couro cru e partir para a batalha. Chuteira com cores berrantes, cal\u00e7\u00f5es acima do p\u00fabis, lacinhos no cabelo ou penteados desconcertantes n\u00e3o eram recomend\u00e1veis. Literalmente, o pau come\u00e7ava a cantar na escolha dos times: os dois melhores n\u00e3o podiam estar do mesmo lado. Eles tiravam par ou \u00edmpar e escolhiam seus respectivos companheiros de pelada. Ser escolhido por \u00faltimo era uma grande humilha\u00e7\u00e3o. Tempos de vacas mag\u00e9rrimas, um time jogava sem camisa e o outro com camisa. O pior de cada equipe era o goleiro, a n\u00e3o ser que tivesse algu\u00e9m com voca\u00e7\u00e3o para guarda-metas. A falta de goleiros impunha um rod\u00edzio: todos agarravam at\u00e9 sofrer um gol. Engolir um peru era sin\u00f4nimo de jubila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A regra geral \u00e9 que os piores jogavam naturalmente na zaga. O dono da bola jogava sempre no mesmo time do melhor jogador. N\u00e3o tinha juiz. As faltas eram marcadas no grito: se um de n\u00f3s fosse atingido, gritava como se tivesse quebrado uma perna. Quando a bola sa\u00eda pela lateral, o grito era do tipo possessivo: &#8220;\u00c9 nossa!&#8221;. A norma tamb\u00e9m se aplicava aos escanteios. Les\u00f5es como arrancar a tampa do ded\u00e3o do p\u00e9, ralar o joelho, sangrar o nariz e outras menos dram\u00e1ticas eram normais. Para isso existia o bom e recomendad\u00edssimo Merthiolate, aquele que arde igual a porta de entrada do inferno e que cicatriza inclusive feridas decorrentes do confisco de joias apropriadas desonestamente. Lances pol\u00eamicos eram resolvidos no grito ou, se fosse o caso, na porrada. Nem em sonho, o pega para capar inclu\u00eda vandalismo sobre pr\u00e9dios representativos da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Havia disputa. Nela, os advers\u00e1rios n\u00e3o viravam inimigos. O capit\u00e3o falava pela maioria nas reprimendas com o outro lado. Ele nunca usava as prerrogativas do STF para ficar em sil\u00eancio. Nas quatro linhas, o capit\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o mandava em coronel ou general. Deixa pra l\u00e1. Com ou sem quebra-pau, a partida acabava quando todos estavam cansados, quando anoitecia ou quando a m\u00e3e do dono da bola mandava ele ir para casa. Mesmo com 15 x 0 para um dos lados, a pelada acabava com o famoso &#8220;quem faz, ganha&#8221;. Rua de baixo contra rua de cima &#8211; valendo garrafa de Coca-Cola e rum Montilla &#8211; e o estridente grito &#8220;paroooou&#8221;, ecoado sempre que se aproximava um carro, uma mulher gr\u00e1vida ou uma crian\u00e7a. N\u00e3o existia Adidas, Nike, Puma. Era Kichute ou descal\u00e7o. E o goleiro n\u00e3o usava luvas. No m\u00e1ximo, havaianas na m\u00e3o.<\/p>\n<p>O melhor de tudo eram os apelidos. Por exemplo, joguei com Ti\u00e7\u00e3o, Pez\u00e3o, Pombo, Peruca, Jerico, Porquito, Chocolate, Jorge Caraca, Chupeta, Ximbica, Remela, Piolho, Toco, Toquinho, Boquinha, Ninica, Caramelo, Timb\u00f3, Cuca, Beludo, Rolinha, Caipora e Saci. Nenhum deles era &#8220;par\u00e7a&#8221;, mas n\u00e3o se incomodava com as alcunhas. Como hoje a maioria dos pernas de pau com cabelinhos descoloridos prefere ser chamado pelo nome composto \u2013 os t\u00e9cnicos n\u00e3o s\u00e3o diferentes -, fiquei positivamente surpreso ao ser informado que o Cruzeiro de Minas Gerais estaria sondando um novo treinador portugu\u00eas chamado Rol\u00e3o Preto, em substitui\u00e7\u00e3o ao Pepa. Que fofo! Ordem dada, ordem cumprida. Lembrou tua inf\u00e2ncia? Ent\u00e3o, fostes uma crian\u00e7a e um torcedor normal, sem frescuras, chuteiras cor de rosa, brincos na orelha ou patriotismo sem nexo. Nada contra, mas, assim como Jair e Michelle Bolsonaro, opto por um denunciante sil\u00eancio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parafraseando o imortal Milton Nascimento, h\u00e1 um menino, h\u00e1 um moleque morando sempre em meu cora\u00e7\u00e3o. Toda a vez que o adulto balan\u00e7a ele vem para me dar a m\u00e3o. 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