{"id":312353,"date":"2023-09-07T00:00:21","date_gmt":"2023-09-07T03:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=312353"},"modified":"2023-09-07T07:39:57","modified_gmt":"2023-09-07T10:39:57","slug":"historiadora-diz-que-7-de-setembro-foi-tracado-de-forma-elitista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/historiadora-diz-que-7-de-setembro-foi-tracado-de-forma-elitista\/","title":{"rendered":"Historiadora diz que 7 de Setembro foi tra\u00e7ado de forma elitista"},"content":{"rendered":"<p>\u201cOuviram do Ipiranga as margens pl\u00e1cidas de um povo heroico o brado retumbante\u201d. Assim come\u00e7a o Hino Nacional brasileiro, em alus\u00e3o ao dia 7 de setembro de 1822, quando o Dom Pedro I bradou: \u201cIndepend\u00eancia ou morte\u201d, tornando o Brasil uma p\u00e1tria livre de Portugal. A hist\u00f3ria, no entanto, embora repetida e eternizada em pinturas, livros e at\u00e9 mesmo no hino do pa\u00eds, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim, segundo historiadoras entrevistados pela Ag\u00eancia Brasil. N\u00e3o ocorreu em apenas um dia e envolve muitas disputas, interesses, quest\u00f5es sociais e econ\u00f4micas que, de certa forma, perpetuam-se at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m de ter sido um processo longo, de muitos anos, as lutas pela independ\u00eancia \u2013 e esse \u00e9 um ponto importante, por muito tempo se acreditou que a independ\u00eancia do Brasil foi uma grande negocia\u00e7\u00e3o intraelite, \u2013 obedeciam a l\u00f3gicas econ\u00f4micas, pol\u00edticas, sociais e demogr\u00e1ficas pr\u00f3prias, particulares \u00e0s v\u00e1rias capitanias da Am\u00e9rica portuguesa. S\u00f3 posteriormente essas capitanias se tornariam uma unidade chamada Brasil. Hoje, a historiografia j\u00e1 usa at\u00e9 o termo no plural, as independ\u00eancias do Brasil\u201d, explica a historiadora Adriana Barreto, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, n\u00e3o havia estados, e o Brasil era dividido nas chamadas capitanias, criadas pelo rei portugu\u00eas D. Jo\u00e3o III em 1534. Esses 15 lotes de terras foram entregues a pessoas de confian\u00e7a da coroa respons\u00e1veis por desenvolv\u00ea-las, sempre em prol de Portugal. O sistema vigorou at\u00e9 pouco antes da data formal da independ\u00eancia, em 1822.<\/p>\n<p>O Brasil, no entanto, ap\u00f3s quase 300 anos da domina\u00e7\u00e3o portuguesa, prospera economicamente e passa a ter uma elite local que deseja usufruir cada vez mais da produ\u00e7\u00e3o, sem precisar pagar impostos a Portugal. A pr\u00f3pria coroa portuguesa estava presente no Brasil desde 1808, quando a fam\u00edlia real fugiu da Europa por conta das invas\u00f5es de Napole\u00e3o Bonaparte, o que distanciava ainda mais as rela\u00e7\u00f5es com Portugal.<\/p>\n<p>Segundo a historiadora Wlamyra Albuquerque, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na \u00e9poca, o Brasil se sustentava em dois pilares fundamentais: por um lado a produ\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira e do caf\u00e9 e, por outro lado, a escravid\u00e3o. \u201cNaquele momento estava na berlinda a manuten\u00e7\u00e3o de uma sociedade escravista agr\u00edcola e que demandava uma independ\u00eancia, uma autonomia pol\u00edtica para fazer com que esses neg\u00f3cios continuassem funcionando, continuassem a ser muito lucrativos. A ruptura com Portugal \u00e9 um arranjo para fazer com que esse territ\u00f3rio se transformasse em um pa\u00eds com liberdade econ\u00f4mica para continuar fazendo valer esses neg\u00f3cios baseados na escravid\u00e3o\u201d, diz a historiadora, que acrescenta: \u201cSurgimos como na\u00e7\u00e3o para tentar manter os lucros com uma economia muito pujante na \u00e9poca, que era a economia a\u00e7ucareira e do caf\u00e9 baseada no trabalho escravo.\u201d<\/p>\n<p>Adriana Barreto ressalta que n\u00e3o foram apenas as elites que tiveram um papel importante nesse acordo de independ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cA tese da aus\u00eancia de lutas e de participa\u00e7\u00e3o popular no processo de independ\u00eancia do Brasil se enraizou muito na an\u00e1lise do que se passou no Rio de Janeiro. As narrativas sempre destacavam as viagens e costuras pol\u00edticas realizadas por D. Pedro com as elites de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. Todavia, se a gente foca sobre o que se passou nas ruas da cidade entre 1821 e 1822, \u00e9 poss\u00edvel ver uma participa\u00e7\u00e3o popular incr\u00edvel\u201d, diz a historiadora.<\/p>\n<p><strong>Escolha da data<\/strong><br \/>\nO Brasil tornou-se independente de Portugal, mas seguiu tendo como imperador D. Pedro I e seguiu com a escravid\u00e3o at\u00e9 1888. A data de 7 setembro, como conta Adriana Barreto, foi uma escolha. \u201cUma data concorrente era o 12 de outubro, anivers\u00e1rio de D. Pedro. Foi nesta data que, tamb\u00e9m em 1822, ocorreu a aclama\u00e7\u00e3o do pr\u00edncipe D. Pedro como imperador do Brasil. Mas, com sua abdica\u00e7\u00e3o ao trono, em abril de 1831, a partir de um movimento pol\u00edtico liberal com forte base popular, o 12 de outubro foi extinto, e o 7 de setembro se firmou como data de funda\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio do Brasil\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Apesar da escolha de uma data, segundo as historiadoras entrevistadas, a independ\u00eancia foi um processo que durou anos. Prova disso \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia no dia 2 de julho, na Bahia. A data marca a expuls\u00e3o, em 1823, das tropas portuguesas que ainda resistiam \u00e0 Independ\u00eancia declarada no ano anterior, em um movimento que contou com a participa\u00e7\u00e3o popular. Qualquer autoridade lusitana remanescente foi extirpada do poder.<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio em torno da data, de um brado retumbante, um povo heroico, e, sobretudo, uma data capaz de unir toda a popula\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m foi uma constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma hist\u00f3ria branca. Ind\u00edgenas n\u00e3o aparecem, popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o aparece. A pr\u00f3pria ideia de povo est\u00e1 muito dilu\u00edda, a gente n\u00e3o tem uma hist\u00f3ria din\u00e2mica e polif\u00f4nica\u201d, observa a historiadora Yna\u00ea Lopes dos Santos, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p>\n<p>De acordo com Yna\u00ea dos Santos (foto), \u00e9 a partir da constru\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia e da forma\u00e7\u00e3o do Brasil como pa\u00eds que v\u00e3o sendo criados tamb\u00e9m os mitos de exist\u00eancia de uma sociedade pac\u00edfica, inviabilizando as v\u00e1rias disputas e revoltas que marcam a hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>Esses elementos tamb\u00e9m refor\u00e7am o mito de uma democracia racial no pa\u00eds, ou seja, que n\u00e3o existe preconceito por conta de ra\u00e7a, e que o racismo, quando se manifesta, \u00e9 algo individual.<\/p>\n<p>\u201cEssa constru\u00e7\u00e3o permite o exerc\u00edcio de poder de um grupo que construiu para si esse poder. O mito da democracia racial mant\u00e9m a ordena\u00e7\u00e3o racista, mant\u00e9m todos os privil\u00e9gios, naturalizando esses privil\u00e9gios\u201d, diz ela. \u201cEsse 7 de Setembro \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria muito branca e elitista e \u00e9 proposital.\u201d<\/p>\n<p>Para os ind\u00edgenas, que j\u00e1 habitavam o Brasil antes mesmo de ele ser chamado Brasil, a constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio do 7 de Setembro \u00e9 ainda mais excludente.<\/p>\n<p>\u201cPara falar do 7 de Setembro \u00e9 fundamental a gente entender o que foi, de 1500 at\u00e9 hoje, a constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds, que primeiro era col\u00f4nia e, depois, passa a ser um pa\u00eds na independ\u00eancia. Em todo esse per\u00edodo a gente vai ter uma nega\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, vai construindo uma narrativa de que n\u00f3s n\u00e3o temos nada para oferecer\u201d, diz a historiadora e professora Marize Guarani, uma das fundadoras da Associa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena Aldeia Maracan\u00e3.<\/p>\n<p>Segundo Yna\u00ea dos Santos, todas essas quest\u00f5es precisam ser levadas em considera\u00e7\u00e3o nas comemora\u00e7\u00f5es da independ\u00eancia do Brasil. \u201cEu acho que o 7 de Setembro, por mais que seja uma data muito complicada, \u00e9 um marco que ainda funciona para explicar uma s\u00e9rie de quest\u00f5es. O que eu acho que precisa ser feito \u00e9 um olhar cr\u00edtico para essa data, entendendo que essa data n\u00e3o \u00e9 fim do processo, porque \u00e9 assim que a gente entende a independ\u00eancia do Brasil, como se come\u00e7asse e terminasse no 7 de setembro. Ela \u00e9 o in\u00edcio de um processo que vai se desenrolar durante muitos meses e s\u00f3 vai terminar no dia 2 de julho\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 fundamental tamb\u00e9m que, junto com essa compreens\u00e3o mais processual, traga outros sujeitos que participaram dessa hist\u00f3ria, para que a gente tenha inclusive uma compreens\u00e3o mais profunda do dinamismo da hist\u00f3ria brasileira\u201d, completa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOuviram do Ipiranga as margens pl\u00e1cidas de um povo heroico o brado retumbante\u201d. Assim come\u00e7a o Hino Nacional brasileiro, em alus\u00e3o ao dia 7 de setembro de 1822, quando o Dom Pedro I bradou: \u201cIndepend\u00eancia ou morte\u201d, tornando o Brasil uma p\u00e1tria livre de Portugal. 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