{"id":312356,"date":"2023-09-07T00:00:11","date_gmt":"2023-09-07T03:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=312356"},"modified":"2023-09-07T07:48:36","modified_gmt":"2023-09-07T10:48:36","slug":"museu-do-ipiranga-ajuda-a-repensar-historia-da-independencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/museu-do-ipiranga-ajuda-a-repensar-historia-da-independencia\/","title":{"rendered":"Museu do Ipiranga ajuda a repensar hist\u00f3ria da Independ\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Inaugurado h\u00e1 um ano durante as celebra\u00e7\u00f5es do bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil, o Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, localizado na capital paulista, n\u00e3o s\u00f3 ficou mais moderno e acess\u00edvel, como tamb\u00e9m inovou, ao trazer para sua curadoria uma preocupa\u00e7\u00e3o de ser mais plural e cr\u00edtico sobre suas obras.<\/p>\n<p>Monumentos que homenageiam figuras e situa\u00e7\u00f5es controversas, como est\u00e1tuas de bandeirantes, por exemplo, continuam a figurar por seus espa\u00e7os expositivos, mas agora passaram a ser encarados como documentos hist\u00f3ricos, ou seja, obras que informam ou refletem sobre um modo de se pensar \u00e0 \u00e9poca. Ao lado deles, novas vis\u00f5es foram acrescentadas, ajudando a repensar o processo hist\u00f3rico de constru\u00e7\u00e3o do Brasil, inclusive a que trata sobre a independ\u00eancia, celebrada nesta quinta-feira (7).<\/p>\n<p>Uma das 11 exposi\u00e7\u00f5es de longa dura\u00e7\u00e3o que integram o novo museu tem exatamente a preocupa\u00e7\u00e3o de repensar a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica brasileira. Chamada de Uma Hist\u00f3ria do Brasil, a mostra percorre tr\u00eas espa\u00e7os antigos do edif\u00edcio-monumento, que foram tombados por \u00f3rg\u00e3os de preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio: o sagu\u00e3o de entrada, a escadaria monumental e o sal\u00e3o nobre, onde h\u00e1 a famosa pintura Independ\u00eancia ou Morte!, de Pedro Am\u00e9rico.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o Uma Hist\u00f3ria do Brasil apresenta a decora\u00e7\u00e3o que foi projetada para o edif\u00edcio visando \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es do primeiro centen\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil, em 1922, pelo ent\u00e3o diretor da institui\u00e7\u00e3o, Afonso Taunay (1876-1958).<\/p>\n<p>&#8220;[Nessa \u00e9poca], o Museu Paulista buscava se firmar como s\u00edmbolo nacional justamente para legitimar seu papel pol\u00edtico das elites paulistas do come\u00e7o do s\u00e9culo 20. Ent\u00e3o, a constru\u00e7\u00e3o desse memorial, com essa narrativa dos bandeirantes como pioneiros, e S\u00e3o Paulo como protagonista da hist\u00f3ria nacional, buscava apoiar, no passado, uma legitimidade da situa\u00e7\u00e3o no presente [de economia cafeeira]\u201d, disse Isabela Ribeiro de Arruda, educadora e supervisora da equipe de educa\u00e7\u00e3o, museografia e a\u00e7\u00e3o cultural do Museu Paulista, em entrevista \u00e0 <em>Ag\u00eancia Brasil.<\/em><\/p>\n<p>Com o tombamento, o memorial precisou manter a configura\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 reforma, com obras que exaltam os colonizadores, os bandeirantes e personagens e eventos ligados \u00e0 Independ\u00eancia. Mesmo mantidos tais s\u00edmbolos, o Museu do Ipiranga n\u00e3o \u00e9 o mesmo daquela \u00e9poca. \u201cEm 2022, o Museu do Ipiranga \u00e9 muito diferente do Museu Paulista do in\u00edcio do s\u00e9culo. As cole\u00e7\u00f5es foram se alterando e se ampliando ao longo do tempo tamb\u00e9m. O museu j\u00e1 n\u00e3o se enxerga como um museu da independ\u00eancia ou sobre a independ\u00eancia, mas como um museu em que uma de suas exposi\u00e7\u00f5es trabalha com a mem\u00f3ria de constru\u00e7\u00e3o dessa ideia de independ\u00eancia\u201d, explicou Isabela.<\/p>\n<p>\u201cO pr\u00f3prio t\u00edtulo [dessa exposi\u00e7\u00e3o] procura problematizar a ideia de que h\u00e1 uma hist\u00f3ria \u00fanica, ou verdadeira, provocando a gente a pensar que essa \u00e9 uma hist\u00f3ria, uma constru\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria, realizada h\u00e1 mais de 100 anos, para quem enxergava a narrativa da hist\u00f3ria brasileira com um determinado vi\u00e9s. Mas hoje, as curadorias do museu tentam problematizar essa constru\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou a educadora.<\/p>\n<p>Um exemplo disso \u00e9 uma pintura instalada na regi\u00e3o da escadaria, que retrata um bandeirante. Na obra, o bandeirante est\u00e1 apoiado sobre uma arma, destacado em primeiro plano, e rodeado por figuras ind\u00edgenas. Acima da pintura, h\u00e1 a inscri\u00e7\u00e3o Ciclo de Ca\u00e7a ao \u00cdndio.<\/p>\n<p>\u201cChegamos a discutir [na curadoria] se poder\u00edamos alterar ou trocar esse t\u00edtulo e se ele estaria no tombamento. Mas, al\u00e9m de n\u00e3o podermos alter\u00e1-lo, a curadoria entendeu que a perman\u00eancia de tais imagens e t\u00edtulos como um documento seria algo que nos ajudaria a lembrar que essa narrativa teve for\u00e7a socialmente por muito tempo\u201d, disse Isabela.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, quando falamos em demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, em marco temporal e em embates sobre a preserva\u00e7\u00e3o de monumentos p\u00fablicos com a mesma tem\u00e1tica, a perman\u00eancia desses elementos dentro do museu permite que o debate seja garantido e que tenhamos isso como mem\u00f3ria que traz reflex\u00e3o sobre o presente. \u00d3bvio que n\u00e3o \u00e9 um debate simples, porque esbarra em subjetividades e direitos, tanto de mem\u00f3ria quanto de esquecimento. Mas, enquanto espa\u00e7o p\u00fablico, nos propomos a manter o debate vivo para que n\u00e3o seja algo apagado da mem\u00f3ria do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p><strong>Pluralidade e Contrapontos<\/strong><br \/>\nComo o espa\u00e7o expositivo n\u00e3o poderia ser alterado por causa do tombamento, a estrat\u00e9gia pensada pela curadoria do novo museu para problematizar a narrativa foi usar recursos multim\u00eddia. \u201cA exposi\u00e7\u00e3o Uma Hist\u00f3ria do Brasil e as outras exposi\u00e7\u00f5es do eixo Para Entender a Sociedade contam com recursos que a gente chama de contrapontos, que s\u00e3o recursos multim\u00eddia e interativos que trazem uma vis\u00e3o sobre o tema daquela exposi\u00e7\u00e3o sob um olhar de outros grupos sociais\u201d, disse Isabela.<\/p>\n<p>Os contrapontos s\u00e3o feitos, por exemplo, por meio de depoimentos gravados de l\u00edderes ind\u00edgenas e de movimentos sociais. \u201cA ideia \u00e9 que seja realmente um olhar de fora sobre os temas que trabalhamos aqui no museu. S\u00e3o recursos interessantes para a gente pensar o museu como um espa\u00e7o plural \u2013 n\u00e3o s\u00f3 do pr\u00f3prio museu assumir o compromisso de rever suas narrativas curatoriais, mas tamb\u00e9m em acolher outros olhares sobre essas sistem\u00e1ticas.\u201d<\/p>\n<p>Um dos objetivos do novo Museu Paulista \u00e9 dar visibilidade a uma parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira que esteve silenciada do processo hist\u00f3rico, como negros, ind\u00edgenas e mulheres. \u201cUm dos principais objetivos, ao problematizar essa narrativa, \u00e9 identificar quais s\u00e3o os personagens que foram inseridos ou escolhidos para estar nessas narrativas e quais n\u00e3o est\u00e3o, quais s\u00e3o as aus\u00eancias. Claro que temos presen\u00e7as que s\u00e3o problem\u00e1ticas como, por exemplo, uma pintura [instalada na parede do lado direito, pr\u00f3xima ao teto da escadaria principal do museu] em que h\u00e1 uma pessoa negra representada. A representa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito problem\u00e1tica porque [essa figura negra] tem uma costura totalmente distorcida e uma rela\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o expl\u00edcita em rela\u00e7\u00e3o a um outro personagem, branco, que est\u00e1 ereto\u201d, disse a curadora.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o de um \u00fanico personagem negro, a exposi\u00e7\u00e3o Uma Hist\u00f3ria do Brasil apresenta apenas tr\u00eas mulheres, \u201cnum pante\u00e3o de homens, quase todos brancos\u201d, acrescentou Isabela. Uma dessas mulheres \u00e9 Leopoldina, primeira esposa do imperador Dom Pedro I. H\u00e1 tamb\u00e9m uma pintura que retrata Maria Quit\u00e9ria, que lutou pela independ\u00eancia do Brasil na Bahia; e Joana Ang\u00e9lica, uma religiosa que foi assassinada durante o processo de independ\u00eancia. \u201cH\u00e1 tamb\u00e9m alguns personagens ind\u00edgenas que est\u00e3o representados, mas numa chave de submiss\u00e3o e de assimila\u00e7\u00e3o do processo colonial.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA ideia do museu \u00e9 problematizar como essas representa\u00e7\u00f5es foram feitas e o que elas trazem, enquanto informa\u00e7\u00e3o e objetivo, no momento de sua produ\u00e7\u00e3o e quais foram as reverbera\u00e7\u00f5es dessas imagens ao longo do tempo, que foram muito difundidas em livros did\u00e1ticos, cinemas e diversas m\u00eddias, inclusive em memes. O museu \u00e9 um lugar para provocar reflex\u00f5es, e n\u00e3o necessariamente para dar respostas prontas\u201d, completou.<\/p>\n<p><strong>Independ\u00eancia ou Morte!<\/strong><br \/>\nA obra mais conhecida do Museu Paulista \u00e9 o quadro Independ\u00eancia ou Morte!, produzido pelo pintor paraibano Pedro Am\u00e9rico. \u201cA pintura foi produzida em Floren\u00e7a, na It\u00e1lia, praticamente concomitante com a constru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio pr\u00e9dio. Ela foi produzida para estar nesse espa\u00e7o [o sal\u00e3o nobre]\u201d, explicou Isabela.<\/p>\n<p>De acordo com a educadora, na obra, Pedro Am\u00e9rico inseriu elementos propositadamente para identificar o epis\u00f3dio da Independ\u00eancia como um acontecimento paulista, que se deu na regi\u00e3o do Ipiranga, local onde hoje est\u00e1 localizado o museu. \u201cEle inseriu na tela o Riacho do Ipiranga com uma grande dramaticidade, com a pata do cavalo resvalando na \u00e1gua. A gente tem tamb\u00e9m o pr\u00f3prio relevo do terreno, com esse declive. E ele tamb\u00e9m inseriu uma edifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a Casa do Grito, que recebeu este nome por conta da pintura. Mas algo que temos sempre que lembrar \u00e9 que a pintura Independ\u00eancia ou Morte! foi produzida muitos anos depois do acontecimento, mais de 60 anos depois do epis\u00f3dio do 7 de setembro de 1822. A pr\u00f3pria Casa do Grito n\u00e3o existia em 1822\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o restauro, a pintura continuou a ocupar o espa\u00e7o para o qual tinha sido inicialmente pensada. S\u00f3 que agora novos elementos inseridos no sal\u00e3o nobre permitem que o visitante obtenha outras informa\u00e7\u00f5es sobre a tela de Pedro Am\u00e9rico. \u201cInserimos aqui no sal\u00e3o nobre um recurso multim\u00eddia que mostra um pouco da produ\u00e7\u00e3o [da pintura], com seus esbo\u00e7os e registros textuais. O que buscamos trabalhar com essa pintura \u00e9 a ideia de que ela \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o, de que ela foi pensada quase como uma celebra\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria da independ\u00eancia, e n\u00e3o como uma pretensa representa\u00e7\u00e3o da realidade\u201d, disse Isabela.<\/p>\n<p>\u00c9 com esses elementos multim\u00eddia, os contrapontos e uma reflex\u00e3o sobre seu papel hist\u00f3rico que o Museu Paulista concebe uma nova curadoria, fomentando em seu p\u00fablico o questionamento sobre os s\u00edmbolos e imagens que det\u00e9m em seu acervo. \u201cProcuramos aqui n\u00e3o fazer o papel de um profeta do passado de forma a voltarmos e consertarmos essa narrativa, j\u00e1 que ela sempre ter\u00e1 problemas e ser\u00e1 um raio-X de seu pr\u00f3prio tempo. Mas queremos pensar um pouco sobre que outras narrativas podemos construir hoje, como elegemos atores, her\u00f3is e destaques e que efeitos isso pode ter ao longo do tempo. O museu se prop\u00f5e a ser esse espa\u00e7o de debate.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inaugurado h\u00e1 um ano durante as celebra\u00e7\u00f5es do bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil, o Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, localizado na capital paulista, n\u00e3o s\u00f3 ficou mais moderno e acess\u00edvel, como tamb\u00e9m inovou, ao trazer para sua curadoria uma preocupa\u00e7\u00e3o de ser mais plural e cr\u00edtico sobre suas obras. 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