{"id":312537,"date":"2023-09-09T00:18:24","date_gmt":"2023-09-09T03:18:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=312537"},"modified":"2023-09-09T12:23:48","modified_gmt":"2023-09-09T15:23:48","slug":"os-erros-do-governo-sao-erros-que-nos-matam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/os-erros-do-governo-sao-erros-que-nos-matam\/","title":{"rendered":"&#8216;Os erros do governo s\u00e3o erros que nos matam&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>A frase que uso no t\u00edtulo foi dita na \u00faltima segunda-feira (4) por Sarah Marques, mulher negra, de 42 anos, lideran\u00e7a da comunidade pesqueira Caranguejo Tabaiares, em Pernambuco.<\/p>\n<p>Ela se referia \u00e0s lutas por territ\u00f3rio que j\u00e1 levaram a vida de tantos defensores de direitos humanos e do meio ambiente no Brasil, como ocorreu recentemente com a l\u00edder quilombola m\u00e3e Bernardete. Mas tamb\u00e9m \u00e0 aus\u00eancia do Estado na prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, especialmente das comunidades mais vulner\u00e1veis, contra os eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n<p>A comunidade de Sarah fica no Recife. Na regi\u00e3o metropolitana da cidade, 133 pessoas morreram em decorr\u00eancia de chuvas intensas no ano passado, a maior trag\u00e9dia do tipo no Estado desde 1966.<\/p>\n<p>O desabafo foi feito durante evento promovido pelos minist\u00e9rios de Meio Ambiente e de Ci\u00eancia e Tecnologia para debater a revis\u00e3o do Plano Nacional de Adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Sarah foi uma dos representantes dos movimentos socioambientais convidados para contribuir com os trabalhos dentro de uma perspectiva de justi\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>O conceito prop\u00f5e que se leve em conta que as consequ\u00eancias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas atingem de forma muito diferente e desigual tanto as pessoas quanto os pa\u00edses, conforme seus recursos e grau de vulnerabilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 um problema que se escancara na nossa frente quase toda semana. Ao mesmo tempo em que o semin\u00e1rio come\u00e7ava em Bras\u00edlia, um ciclone extratropical, combinado com uma frente fria e impulsionado pelo fen\u00f4meno do El Ni\u00f1o, chegava ao Rio Grande do Sul \u2013 foi o quarto do tipo desde junho, e o mais letal at\u00e9 agora. Pelo menos 39 pessoas tinham morrido at\u00e9 a manh\u00e3 desta quinta-feira (7).<\/p>\n<p>\u00c9 mais um evento extremo para a lista dos muitos que t\u00eam ocorrido com maior frequ\u00eancia no Brasil nos \u00faltimos anos, levando dezenas, \u00e0s vezes centenas de vidas, como no Recife. S\u00f3 para lembrar mais um particularmente marcante, o temporal em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, litoral norte de S\u00e3o Paulo, no come\u00e7o do ano, deixou 65 mortos.<\/p>\n<p>&#8221; N\u00e3o s\u00e3o os eventos em si os respons\u00e1veis por tantas perdas, mas a falta de condi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds em lidar com essas situa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 est\u00e3o mais frequentes e intensas e tendem a piorar quanto mais quente ficar o planeta em decorr\u00eancia do excesso de gases de efeito estufa que a humanidade joga na atmosfera.<br \/>\nO Brasil recome\u00e7a s\u00f3 agora a olhar para essa situa\u00e7\u00e3o, depois de ter ficado anos sem lidar com o problema.<\/p>\n<p>O pa\u00eds tem desde 2009 uma Pol\u00edtica Nacional sobre Mudan\u00e7a do Clima, que estabelece a a necessidade de agir em duas vertentes do problema: mitiga\u00e7\u00e3o (que \u00e9 reduzir as causas do aquecimento global, combatendo as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa) e adapta\u00e7\u00e3o (que \u00e9 preparar o pa\u00eds para lidar com as consequ\u00eancias que vir\u00e3o mesmo se as emiss\u00f5es ca\u00edssem a zero de um dia para outro).<\/p>\n<p>Os anos passaram, medidas foram tomadas para reduzir as emiss\u00f5es (principalmente por meio do combate ao desmatamento da Amaz\u00f4nia, que chegou ao menor n\u00edvel em 2012), mas a adapta\u00e7\u00e3o foi ficando de escanteio. S\u00f3 em 2016, \u00e0s v\u00e9speras do impeachment de Dilma Rousseff, foi lan\u00e7ado um Plano Nacional de Adapta\u00e7\u00e3o. Mas sua cria\u00e7\u00e3o se deu por meio de uma portaria do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, ele n\u00e3o foi encampado por outras pastas e nunca chegou a ser implementado.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que at\u00e9 hoje a maior parte do Brasil praticamente n\u00e3o conta com nenhum tipo de preparo nem em termos de preven\u00e7\u00e3o nem para lidar com agilidade de modo a conter perdas, a evitar mortes. Da\u00ed a fala de Sarah: &#8220;Os erros do governo s\u00e3o erros que nos matam&#8221;.<\/p>\n<p>Ela pedia que as comunidades afetadas sejam realmente integradas \u00e0 tomada de decis\u00f5es. &#8220;O governo vai continuar errando se n\u00e3o estiver com a gente, se n\u00e3o escutar o povo, se n\u00e3o for uma conversa direta e misturada. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 virem aqui os t\u00e9cnicos e tome n\u00famero que voc\u00ea n\u00e3o entende. \u00c9 uma conversa direta de quem sofre isso na pele, quem est\u00e1 na linha de frente com a arma apontada na cabe\u00e7a porque est\u00e1 defendendo o seu territ\u00f3rio&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Uma das coisas que se busca corrigir agora \u00e9 justamente a aus\u00eancia dessa perspectiva (n\u00e3o havia o conceito de justi\u00e7a clim\u00e1tica no plano de 2016), mas tamb\u00e9m a falta de integra\u00e7\u00e3o com outros minist\u00e9rios.<\/p>\n<p>O novo plano de adapta\u00e7\u00e3o, que se insere em um esfor\u00e7o mais amplo de construir um Plano Clima para o Brasil, ser\u00e1 constru\u00eddo no \u00e2mbito do Comit\u00ea Interministerial (CIM), criado no come\u00e7o do ano, com 19 minist\u00e9rios. Sob comando da Casa Civil, \u00e9 esse grupo que vai definir as a\u00e7\u00f5es do pa\u00eds contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Passados nove meses, por\u00e9m, o comit\u00ea ainda n\u00e3o se reuniu at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>O evento de segunda-feira, considerado o pontap\u00e9 inicial desses trabalhos, reuniu uma parte desse grupo, as titulares dos minist\u00e9rios do Meio Ambiente (Marina Silva), da Ci\u00eancia (Luciana Santos), dos Povos Ind\u00edgenas (Sonia Guajajara) e da Igualdade Racial (Anielle Franco). Justamente as que j\u00e1 conhecem de cor e salteado o tamanho do problema.<\/p>\n<p>Eu tive a oportunidade de estar neste mesmo evento. Fui convidada a abrir os debates e pude me dirigir diretamente \u00e0s ministras. Como jornalista que cobre h\u00e1 mais de 20 anos esta agenda, fui instada a trazer algumas provoca\u00e7\u00f5es ao debate e uma das coisas que apontei foi a falta de todos os outros minist\u00e9rios naquele evento.<\/p>\n<p>Por que est\u00e1vamos ali falando de justi\u00e7a clim\u00e1tica sem a presen\u00e7a da Agricultura, das Minas e Energia, da Fazenda, da Casa Civil? Se s\u00e3o eles os gestores dos setores que mais t\u00eam a ver com injusti\u00e7as j\u00e1 praticadas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo uma quest\u00e3o de tempo.<\/p>\n<p>O drama da humanidade estar alterando todo o sistema atmosf\u00e9rico do planeta \u00e9 que os eventos extremos \u2013 que sempre aconteceram \u2013 tendem a ficar mais frequentes, mais intensos.<\/p>\n<p>A primeira parte do \u00faltimo relat\u00f3rio do IPCC, lan\u00e7ada em agosto de 2021, apontou que eventos de temperaturas extremas que antes ocorriam uma vez a cada dez anos, agora j\u00e1 ocorrem provavelmente 2,8 vezes nesse mesmo per\u00edodo. Situa\u00e7\u00f5es de ondas de calor que antes ocorriam uma vez a cada 50 anos, agora provavelmente ocorrem 4,8 vezes.<\/p>\n<p>&#8220;Em escala global, projeta-se que eventos extremos di\u00e1rios de precipita\u00e7\u00e3o se intensifiquem em cerca de 7% para cada 1\u00baC de aquecimento global. A propor\u00e7\u00e3o de ciclones tropicais intensos (categorias 4-5) e as velocidades m\u00e1ximas dos ventos dos ciclones tropicais mais intensos devem aumentar em escala global com o aumento do aquecimento global&#8221;, escrevem os cientistas no sum\u00e1rio para tomadores de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de Sarah, a secret\u00e1ria Nacional de Mudan\u00e7a do Clima, Ana Toni, apresentou uma s\u00e9rie de dados sobre como o pa\u00eds j\u00e1 est\u00e1 sendo afetado e deu uma dimens\u00e3o num\u00e9rica do problema. Citando dados de um estudo do Banco Mundial, ela mostrou que desastres no Brasil no per\u00edodo de 1991 a 2021 resultaram em 4.374 mortes, 8,25 milh\u00f5es de desabrigados e 98,57 milh\u00f5es afetados de algum modo (a maior parte nos estados de SC, MG e RS).<\/p>\n<p>Entre 1995 e 2021, apontou, os danos e preju\u00edzos de desastres climatol\u00f3gicos, hidrol\u00f3gicos e meteorol\u00f3gicos (que incluem estiagem e seca, enxurradas, inunda\u00e7\u00f5es, deslizamentos e vendavais e ciclones) foram da ordem de R$ 537 bilh\u00f5es. &#8220;Custa muito n\u00e3o se adaptar, custa muito n\u00e3o combater as mudan\u00e7as do clima&#8221;, resumiu.<\/p>\n<p>&#8220;Adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais uma op\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria. A emerg\u00eancia clim\u00e1tica \u00e9 uma realidade e a gente tem de lidar com ela. Se a gente n\u00e3o tiver o olhar da justi\u00e7a clim\u00e1tica [nesse processo], a gente poder\u00e1 condenar algumas comunidades a um est\u00e1gio de pobreza eterno se a gente n\u00e3o tiver a perspectiva da justi\u00e7a clim\u00e1tica como um pilar da pol\u00edtica clim\u00e1tica&#8221;, reconheceu.<\/p>\n<p>Ana Toni e sua chefe, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, sabem que \u00e9 preciso ter pressa. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica nesta semana, Marina detalhou que espera em breve ter uma pol\u00edtica nacional de enfrentamento \u00e0s consequ\u00eancias dos eventos extremos. &#8220;N\u00e3o posso pagar para ver&#8221;, disse Marina. &#8220;A gente n\u00e3o tem tempo clim\u00e1tico, assim como n\u00e3o tem tempo pol\u00edtico&#8221;, frisou a secret\u00e1ria.<\/p>\n<p>O Brasil perdeu tempo, perdeu pelo menos seis anos em que muita coisa poderia ter sido feita para proteger vidas. Quantos ainda v\u00e3o morrer no Brasil at\u00e9 que se tenha um plano de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a do clima?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A frase que uso no t\u00edtulo foi dita na \u00faltima segunda-feira (4) por Sarah Marques, mulher negra, de 42 anos, lideran\u00e7a da comunidade pesqueira Caranguejo Tabaiares, em Pernambuco. 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