{"id":312882,"date":"2023-09-14T07:34:15","date_gmt":"2023-09-14T10:34:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=312882"},"modified":"2023-09-14T09:17:17","modified_gmt":"2023-09-14T12:17:17","slug":"imprensa-negra-luta-ha-190-anos-contra-um-racismo-enraizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/imprensa-negra-luta-ha-190-anos-contra-um-racismo-enraizado\/","title":{"rendered":"Imprensa negra luta h\u00e1 190 anos contra um racismo enraizado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cCriminoso seria o homem de cor, se na crise mais arriscada, na ocasi\u00e3o em que os agentes do Poder desembainham as espadas dando profundos golpes na Constitui\u00e7\u00e3o, na Liberdade (&#8230;) guardasse mudo sil\u00eancio, filho da coa\u00e7\u00e3o, ou do terror.\u201d<\/p>\n<p>O texto acima est\u00e1 em uma das edi\u00e7\u00f5es do primeiro jornal da imprensa negra no Brasil: O Mulato ou O Homem de C\u00f4r, criado h\u00e1 exatos 190 anos, no dia 14 de setembro de 1833. A mensagem \u00e9 representativa de uma miss\u00e3o que une comunicadores negros do passado e do presente: a de n\u00e3o se calar diante da intimida\u00e7\u00e3o, da viola\u00e7\u00e3o de direitos e de amea\u00e7as \u00e0 liberdade.<\/p>\n<p>Naquele contexto, o peri\u00f3dico denunciava a pris\u00e3o arbitr\u00e1ria de um homem negro, Maur\u00edcio Jos\u00e9 de Lafuente, acusado de vadiagem e de porte ilegal de arma. O que foi prontamente rebatido por uma s\u00e9rie de provas. Se avan\u00e7armos para os dias atuais, h\u00e1 uma clara continuidade. Movimentos sociais e pesquisadores t\u00eam denunciado incessantemente as abordagens policiais racistas e a criminaliza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de negros: o grupo responde por 68% dos que est\u00e3o hoje em pres\u00eddios no pa\u00eds, segundo o Anu\u00e1rio do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>Entre as diferentes formas de enfrentamento do racismo, o jornalismo vem sendo, de acordo com especialistas ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil, uma ferramenta importante de den\u00fancia, debate e reflex\u00e3o durante quase dois s\u00e9culos. Diversas vozes e canais de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam oferecido alternativas aos discursos dominantes de exclus\u00e3o e desigualdade.<\/p>\n<p>\u201cDesde o in\u00edcio at\u00e9 agora, os ve\u00edculos da imprensa negra t\u00eam em comum esse sentimento de n\u00e3o se sentirem representados e contemplados da maneira correta pela m\u00eddia hegem\u00f4nica empresarial. Eles trazem narrativas importantes de autorrefer\u00eancia, j\u00e1 que s\u00e3o feitos por pessoas negras&#8221;, diz Jonas Pinheiro, jornalista na Revista Afirmativa.<\/p>\n<p>&#8220;Quando as pessoas contam as pr\u00f3prias hist\u00f3rias, trazem determinadas sensibilidades e perspectivas que s\u00e3o negligenciadas pela grande m\u00eddia empresarial, que na maioria das vezes \u00e9 racista\u201d, completa Pinheiro, pesquisador na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o e cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).<\/p>\n<p>H<strong>omem de C\u00f4r: o in\u00edcio<\/strong><br \/>\nOs primeiros cap\u00edtulos da imprensa negra no Brasil podem ser contados a partir da trajet\u00f3ria de Francisco de Paula Brito, um homem negro que nasceu em 1809 no Rio de Janeiro. Quando jovem, aprendeu a arte gr\u00e1fica na Tipografia Imperial e Nacional, ex-Impress\u00e3o R\u00e9gia, e seguiu carreira em outros empreendimentos como compositor, diretor das prensas, redator, tradutor e contista.<\/p>\n<p>Francisco de Paula Brito \u00e9 reconhecido por dois feitos hist\u00f3ricos: ter sido o primeiro editor de Machado de Assis, maior nome da literatura brasileira, e o editor do pasquim O Homem de C\u00f4r, primeiro peri\u00f3dico da imprensa negra no pa\u00eds. Impresso na Tipografia Fluminense de Paula Brito, do qual era propriet\u00e1rio, o jornal teve apenas cinco edi\u00e7\u00f5es, mas abriu as portas para todos os que viriam depois.<\/p>\n<p>A partir do terceiro n\u00famero, o nome foi mudado para O Mulato ou O Homem de C\u00f4r. A escravid\u00e3o, ainda em vigor no pa\u00eds, n\u00e3o foi tema do jornal, que estava mais focado em denunciar a discrimina\u00e7\u00e3o racial contra pessoas negras livres. Durante o ano de 1833, uma das principais bandeiras foi a de atacar as dificuldades impostas aos negros para conseguir cargos p\u00fablicos civis, pol\u00edticos e militares. Ainda no mesmo ano, entre setembro e novembro, outros peri\u00f3dicos desse segmento surgiriam inspirados pelo pioneiro: Brasileiro Pardo, O Cabrito, O Crioulinho e O Lafuente.<\/p>\n<p>Demorariam 43 anos at\u00e9 que uma nova manifesta\u00e7\u00e3o da imprensa negra surgisse. Foi apenas em 1876, no Recife, que come\u00e7ou a circular o jornal O Homem. Pouco depois ser\u00e1 a vez de S\u00e3o Paulo, com A P\u00e1tria e O Progresso, ambos em 1899, e de Porto Alegre, com O Exemplo, de 1892. O peri\u00f3dico ga\u00facho teria a maior dura\u00e7\u00e3o at\u00e9 ali da imprensa negra, sendo encerrado em 1930, por problemas financeiros.<\/p>\n<p>Na disserta\u00e7\u00e3o sobre imprensa negra do s\u00e9culo 19, a historiadora Ana Fl\u00e1via Magalh\u00e3es Pinto apresenta uma defini\u00e7\u00e3o do que caracterizaria esses tipos de ve\u00edculos: s\u00e3o \u201cjornais feitos por negros; para negros; veiculando assuntos de interesse das popula\u00e7\u00f5es negras\u201d. Em comum tamb\u00e9m a postura de desafiar as tentativas de silenciamento.<\/p>\n<p>\u201cEsses momentos iniciais da imprensa negra no Brasil demonstram que, a despeito de in\u00fameros contratempos \u2013 entre os quais o pr\u00f3prio escravismo e seus instrumentos afins \u2013, negros aqui formularam uma fala pr\u00f3pria e tornaram-na p\u00fablica. Ainda que n\u00e3o tenham alcan\u00e7ado simultaneamente todo o territ\u00f3rio nacional, esses impressos s\u00e3o parte do esfor\u00e7o coletivo de controlar os c\u00f3digos da domina\u00e7\u00e3o e subvert\u00ea-los\u201d, diz o trecho da disserta\u00e7\u00e3o de Ana Fl\u00e1via. Atualmente, ela ocupa o cargo de diretora-geral do Arquivo Nacional.<\/p>\n<p><strong>S\u00e9culo 20<\/strong><br \/>\nAo longo do s\u00e9culo 20, o n\u00famero de ve\u00edculos da imprensa negra se multiplicou. No Rio Grande do Sul, surge o A Alvorada, publicado entre 1907 e 1965, com interrup\u00e7\u00f5es. Depois A Tesoura (1924), A Revolta (1925) e O Tagarela (1929). Em Minas Gerais, circulam A Verdade (1904) e o Ra\u00e7a (1935). Em S\u00e3o Paulo, O Menelick (1915), O Xauter (1916), A Rua (1916), O Bandeirante (1918), O Alfinete (1918), A Liberdade (1919), A Sentinela (1920), Kosmos (1922), Clarim d\u2019Alvorada (1924), Elite (1924), Progresso (1928) e A Voz da Ra\u00e7a (1933). Esse \u00faltimo era publicado pela Frente Negra Brasileira (1931-1937), principal organiza\u00e7\u00e3o negra do pa\u00eds no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Mais para a frente viriam O Novo Horizonte (1946), Mundo Novo (1950), Nosso Jornal (1951), Not\u00edcias de \u00c9bano (1957), O Mutir\u00e3o (1958), al\u00e9m das revistas Senzala (1946) e N\u00edger (1960). No Rio de Janeiro, destaque para A Voz da Negritude (1953).<\/p>\n<p>A maioria das publica\u00e7\u00f5es teve vida curta. Em alguns casos, durando poucas edi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o indo al\u00e9m do primeiro ano de vida. O historiador Jo\u00e3o Paulo Lopes explica que \u00e9 preciso levar em conta o contexto social daqueles que produziam e liam os peri\u00f3dicos.<\/p>\n<p>&#8220;Os custos para publicar um jornal eram altos. Geralmente, o pagamento se dava por meio de rateio entre os editores e os ativistas, se o jornal tivesse v\u00ednculo com alguma associa\u00e7\u00e3o do movimento negro. Outros conseguiam verba com publicidade, o que ajudava a custear a publica\u00e7\u00e3o por um tempo maior. E outros dependiam de assinaturas. E quando os leitores eram afetados por crises econ\u00f4micas, podiam deixar de pagar pelas publica\u00e7\u00f5es, o que afetava a circula\u00e7\u00e3o. Mas nem tudo era s\u00f3 financeiro. De tempos em tempos, essas publica\u00e7\u00f5es sofriam ataques, eram empasteladas em momentos de crise pol\u00edtica e ditaduras&#8221;, explica o historiador Jo\u00e3o Paulo Lopes.<\/p>\n<p>Vale mencionar especialmente o caso do jornal Quilombo, liderado por Abdias Nascimento: pol\u00edtico, artista, ativista e criador do movimento cultural Teatro Experimental do Negro (TEN). O Quilombo teve dez edi\u00e7\u00f5es entre dezembro de 1948 e julho de 1950. E adotou agenda pol\u00edtica marcante contra \u201ca piedade e o filantropismo aviltantes\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra, al\u00e9m de refor\u00e7ar a import\u00e2ncia de uma luta ativa contra o racismo no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Com o fim da ditadura, se destacariam jornais fundados por pessoas que passaram pelo Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978, tendo como pautas centrais a desconstru\u00e7\u00e3o do \u201cmito da democracia racial\u201d e a den\u00fancia do racismo estrutural. Alguns exemplos s\u00e3o o Ti\u00e7\u00e3o (1977), o Objetivo (1977), Jornegro (1977), Negrice (1977), O Saci (1978), Vissungo (1979), Pixaim (1979), a Voz do Negro (1984), o \u00c1fricas Gerais (1995), El\u00eami (1985), o Irohin (1996) e a revista Ra\u00e7a, de circula\u00e7\u00e3o nacional (1996).<\/p>\n<p>&#8220;O que existe em uma marca comum, que conecta os jornais desde o Homem de C\u00f4r, \u00e9 a discrimina\u00e7\u00e3o e o preconceito. Claro, com diferen\u00e7as de contexto hist\u00f3rico. No s\u00e9culo 19, vivemos ainda no seio de uma sociedade escravocrata, e as publica\u00e7\u00f5es est\u00e3o levantando quest\u00f5es do homem negro n\u00e3o escravizado nos primeiros anos do pa\u00eds independente&#8221;, diz Lopes.<\/p>\n<p>&#8220;Com a aboli\u00e7\u00e3o, a luta \u00e9 contra o racismo estrutural, desdobrado nas mais diversas formas, frentes e caras. Nas institui\u00e7\u00f5es, na pol\u00edcia, no mercado de trabalho, nas escolas, no campo, no acesso \u00e0 terra&#8221;, acrescenta o historiador.<\/p>\n<p><strong>Passado e futuro<\/strong><br \/>\nNesse conjunto de peri\u00f3dicos hist\u00f3ricos, um em especial prepara edi\u00e7\u00e3o comemorativa para resgatar debates do passado e repens\u00e1-los a luz dos problemas atuais: A revista Ti\u00e7\u00e3o, de Porto Alegre, que originalmente circulou em 1977. Com artigos de jornalistas, soci\u00f3logos e professores, o projeto pretende confrontar os diferentes contextos e analisar em que pontos houve avan\u00e7os ou retrocessos nos desafios enfrentados pela popula\u00e7\u00e3o negra no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Jeanice Dias Ramos, que participou do Ti\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1970, \u00e9 uma das pessoas que lideram o projeto atual, que depende de apoio financeiro para ser finalizado. Mas, assim como aconteceu antes, ela acredita que a import\u00e2ncia do tema h\u00e1 de mobilizar diferentes pessoas em torno da revista.<\/p>\n<p>\u201cNaquela \u00e9poca, com todas as dificuldades, era incr\u00edvel o n\u00famero de pessoas que queriam participar do Ti\u00e7\u00e3o. As reuni\u00f5es de pauta tinham at\u00e9 70 pessoas. Eram praticamente assembleias ou plen\u00e1rias. N\u00e3o era s\u00f3 discuss\u00e3o entre jornalistas, era uma comunidade toda querendo participar\u201d, relembra Jeanice.<\/p>\n<p>\u201cE, se voc\u00ea observar as pautas daquele per\u00edodo, elas continuam novas. Falam de quest\u00f5es at\u00e9 hoje n\u00e3o resolvidas dentro da negritude. Todos os t\u00f3picos foram aprofundados na revista e os problemas s\u00e3o muito atuais.\u201d<\/p>\n<p>Por essa continuidade hist\u00f3rica de lutas e demandas, Jeanice entende que os ve\u00edculos da imprensa negra v\u00e3o continuar sendo canais de express\u00e3o e den\u00fancia fundamentais no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cA m\u00eddia negra d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para que a comunidade negra se aproprie dos seus pr\u00f3prios problemas. Que consiga visualizar e superar os desafios que s\u00e3o inerentes aos negros. S\u00e3o quest\u00f5es sociais e b\u00e1sicas de sobreviv\u00eancia. Somos majoritariamente pobres. E temos que lutar diariamente pelo p\u00e3o, pela condu\u00e7\u00e3o, pelo trabalho. N\u00e3o temos uma vida f\u00e1cil. Falta o viver bem para a comunidade negra. Quando um negro adolescente sai de casa, a m\u00e3e fica em p\u00e2nico. Ser\u00e1 que essa crian\u00e7a volta para casa? Essa \u00e9 a nossa realidade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cCriminoso seria o homem de cor, se na crise mais arriscada, na ocasi\u00e3o em que os agentes do Poder desembainham as espadas dando profundos golpes na Constitui\u00e7\u00e3o, na Liberdade (&#8230;) guardasse mudo sil\u00eancio, filho da coa\u00e7\u00e3o, ou do terror.\u201d O texto acima est\u00e1 em uma das edi\u00e7\u00f5es do primeiro jornal da imprensa negra no Brasil: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":312883,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-312882","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312882","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=312882"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312882\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":312922,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312882\/revisions\/312922"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/312883"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=312882"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=312882"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=312882"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}