{"id":312887,"date":"2023-09-14T07:30:49","date_gmt":"2023-09-14T10:30:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=312887"},"modified":"2023-09-14T07:46:39","modified_gmt":"2023-09-14T10:46:39","slug":"jornalistas-negros-desafiam-abordagens-racistas-da-midia-tradicional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jornalistas-negros-desafiam-abordagens-racistas-da-midia-tradicional\/","title":{"rendered":"Negros desafiam abordagens racistas da m\u00eddia tradicional"},"content":{"rendered":"<p>Durante o s\u00e9culo 19, uma parte da popula\u00e7\u00e3o negra entendeu que a imprensa poderia ser uma ferramenta de luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial. Foram criados canais espec\u00edficos para comunicar lutas e demandas da \u00e9poca. Quase dois s\u00e9culos depois, faz sentido continuar existindo uma imprensa negra? O n\u00famero expressivo de ve\u00edculos que atualmente se identificam e se apresentam a partir dessa categoria s\u00e3o respostas contundentes \u00e0 pergunta.<\/p>\n<p>Comunicadores negros t\u00eam reivindicado cada vez mais um lugar de protagonismo e refor\u00e7ado a necessidade de abordar os problemas sociais do pa\u00eds a partir das estruturas raciais que os sustentam. A imprensa tradicional \u00e9 criticada por n\u00e3o responder satisfatoriamente a essas demandas. Do ponto de vista do conte\u00fado, pessoas brancas e negras s\u00e3o tratadas de formas diferentes nas mat\u00e9rias. Quando se analisam os sujeitos que produzem as informa\u00e7\u00f5es, profissionais negros ainda s\u00e3o minoria nas reda\u00e7\u00f5es. E, quando est\u00e3o l\u00e1, raramente ocupam postos de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Exemplos da imprensa negra no s\u00e9culo 21 n\u00e3o faltam, como o Portal Geled\u00e9s, o Hist\u00f3ria Preta, o Afropress, o Atl\u00e2ntico Negro, a Revista Afirmativa, o Nossos passos v\u00eam de longe e a Cultne.TV. Para entender um pouco da perspectiva e dos objetivos dessas m\u00eddias mais recentes, a Ag\u00eancia Brasil entrevistou os fundadores de dois sites, criados h\u00e1 menos de dez anos, engajados em uma comunica\u00e7\u00e3o antirracista: o Alma Preta e o Not\u00edcia Preta.<\/p>\n<p>O primeiro surgiu em 2015, a partir de um coletivo de estudantes negros da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e \u00e9 comandado pelo jornalista Pedro Borges. O segundo foi lan\u00e7ado em 2018 pela jornalista Thais Bernardes. Ela j\u00e1 tinha experi\u00eancia em outras empresas de m\u00eddia tradicionais e decidiu investir em um projeto editorial de combate \u00e0s desigualdades.<\/p>\n<p>Nesta quinta-feira (14), comemoram-se os 190 anos do primeiro jornal da imprensa negra no Brasil: O Mulato ou O Homem de C\u00f4r, criado no dia 14 de setembro de 1833.<\/p>\n<p><strong>Imprensa negra x imprensa branca<\/strong><br \/>\nExistem diferen\u00e7as bem demarcadas entre a imprensa negra e as m\u00eddias tidas como mais generalistas? Para o cofundador e diretor do Alma Preta, Pedro Borges, a discuss\u00e3o parte dos pr\u00f3prios princ\u00edpios de segmenta\u00e7\u00e3o e universalidade.<\/p>\n<p>\u201cQuando \u00e9 preto, \u00e9 considerado segmentado. Mas quem disse que a grande m\u00eddia \u00e9 universal e n\u00e3o \u00e9 segmentada? \u00c9 muito pouco enquadrar ve\u00edculos como o nosso em uma categoria de jornalismo de nicho. N\u00f3s utilizamos as mesmas t\u00e9cnicas jornal\u00edsticas que outros colegas de profiss\u00e3o. Mas o sujeito branco e masculino se v\u00ea no lugar da universalidade. E identifica o outro com um sujeito racializado e segmentado. Esses grandes canais de comunica\u00e7\u00e3o privilegiam o di\u00e1logo com uma classe m\u00e9dia e com uma elite branca. Ent\u00e3o, eles n\u00e3o s\u00e3o segmentados?\u201d, questiona Pedro.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a, nesse sentido, n\u00e3o estaria na escolha dos temas e acontecimentos a serem cobertos pelos jornalistas, mas na perspectiva que se adota em rela\u00e7\u00e3o a eles. Borges enfatiza que o Alma Preta tem um olhar de destaque para grupos de periferias e o desejo de comunicar para transformar a realidade.<\/p>\n<p>\u201cEntendo que a m\u00eddia negra hoje tamb\u00e9m tem reivindicado um lugar de universalidade. A nossa cobertura est\u00e1 longe de ser recortada em casos de discrimina\u00e7\u00e3o racial. Fazemos uma cobertura de agendas que s\u00e3o centrais do Brasil. E o racismo \u00e9 um elemento que estrutura a sociedade brasileira. Desigualdade de moradia, sa\u00fade, seguran\u00e7a p\u00fablica, alimenta\u00e7\u00e3o, ambiental: todas elas t\u00eam como pano de fundo a desigualdade racial. Logo, cabe \u00e0 imprensa negra cobrir todos esses assuntos\u201d, diz Pedro Borges.<\/p>\n<p><strong>A not\u00edcia e o negro<\/strong><br \/>\nSegundo Thais Bernardes, diretora e fundadora do Not\u00edcia Preta, a m\u00eddia tradicional sempre esteve alinhada aos interesses de uma elite pol\u00edtica e econ\u00f4mica branca. Por isso, refor\u00e7a e dissemina o racismo ao cobrir os fatos do dia a dia, principalmente quando sujeitos negros est\u00e3o no foco da not\u00edcia.<\/p>\n<p>\u201cHistoricamente, em que lugar aparecia o negro no jornal do s\u00e9culo 19? Ele estava no lugar do \u2018procura-se negro fuj\u00e3o\u2019 ou \u2018vende-se uma escrava\u2019. Hoje esse lugar \u00e9 o da editoria geral. O que mudou sobre os nossos corpos sendo vendidos no in\u00edcio do s\u00e9culo 19 e os nossos corpos desumanizados nos anos atuais? Se voc\u00ea acessar os jornais, as pessoas est\u00e3o ali como pessoas \u00e0 margem da sociedade. Existe capa de jornal nos anos 2000 com pessoas negras amarradas em poste\u201d, diz Thais Bernardes.<\/p>\n<p>\u201cQuando h\u00e1 uma opera\u00e7\u00e3o dentro de uma favela, a m\u00eddia tradicional sempre vai come\u00e7ar com \u2018segundo a pol\u00edcia, essa opera\u00e7\u00e3o foi feita para combater tal coisa\u2019. Ela vai partir sempre do lado institucional. N\u00f3s partimos do lado do morador. De quem \u00e9 atingido por aquilo. Podemos falar das consequ\u00eancias da opera\u00e7\u00e3o policial: das crian\u00e7as que ficaram sem aula e dos postos de sa\u00fade fechados. Fazer um jornalismo antirracista \u00e9 entender para quem estamos falando, \u00e9 fazer uma comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o violenta. Isso \u00e9 que define o lead, a parte principal da not\u00edcia\u201d, complementa Thais.<\/p>\n<p><strong>Mercado de trabalho<\/strong><br \/>\nMovimentos recentes passam a impress\u00e3o de que mais empresas de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam se preocupado em responder \u00e0s demandas sociais por maior diversidade racial em seus quadros. Seja por meio de processos seletivos para a contrata\u00e7\u00e3o de pessoas negras ou, no caso de meios que trabalham com v\u00eddeo, colocar mais rostos negros nas telas. Mas, para Thais e Pedro, essas a\u00e7\u00f5es ainda s\u00e3o insuficientes.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o quero representatividade. Eu quero equidade. Porque a representatividade significa ter uma pessoa ali e, pronto, o grupo todo est\u00e1 representado? Ser\u00e1 que h\u00e1 pessoas negras entre diretores e editores? Ou elas ficam apenas na reportagem e na frente da televis\u00e3o? O que mudamos na estrutura se n\u00e3o ocuparmos lugares de poder e tomada de decis\u00e3o? Enquanto isso n\u00e3o acontecer, a gente tem a\u00ed a s\u00edndrome do preto \u00fanico, que justifica um discurso de que a empresa \u00e9 diversa\u201d, analisa Thais.<\/p>\n<p>Canais de imprensa voltados para a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados antirracistas acabam sendo espa\u00e7os mais receptivos para os profissionais negros e permitem que eles ocupem outras posi\u00e7\u00f5es para al\u00e9m da subalternidade.<\/p>\n<p>\u201cTemos uma necessidade objetiva e cotidiana no Brasil de a popula\u00e7\u00e3o negra se organizar para ter um espa\u00e7o em que possa falar e ser ouvida. At\u00e9 os dias de hoje, a gente pode identificar uma gigantesca discrep\u00e2ncia racial nas reda\u00e7\u00f5es brasileiras. Ainda temos uma imprensa brasileira que, no corpo geral, \u00e9 majoritariamente branca. E na dire\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais raro ainda encontrar algu\u00e9m negro. Isso acontece em casos excepcionais. Os \u00fanicos locais onde isso acontece com frequ\u00eancia s\u00e3o os canais da m\u00eddia negra\u201d, diz Pedro Borges.<\/p>\n<p><strong>Manual de jornalismo antirracista<\/strong><br \/>\nNo in\u00edcio de agosto, o Alma Preta lan\u00e7ou um manual de reda\u00e7\u00e3o antirracista. Ele traz um conjunto de princ\u00edpios que devem nortear o trabalho jornal\u00edstico, a partir das experi\u00eancias editorias do portal. A ideia \u00e9 que ele seja lido e sirva de reflex\u00e3o para comunicadores em geral, independentemente de estarem ligados aos ve\u00edculos da imprensa negra.<\/p>\n<p>190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: Alma Preta<br \/>\nPedro Borges diz que a m\u00eddia negra cobre agendas que s\u00e3o centrais para o pa\u00eds &#8211; Alma Preta<br \/>\n\u201cEm uma cobertura, voc\u00ea tem uma diversidade de pontos, de olhares, de palcos. \u00c9 preciso respeitar as pessoas que foram vitimadas em determinados processos. Seja desde uma pessoa que foi alvo de uma a\u00e7\u00e3o policial, algu\u00e9m despachado por uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse, ou v\u00edtima de grilagem e viol\u00eancia. Muitas vezes o jornalismo se limita a ouvir a fonte oficial e, quando escuta outras pessoas, vira uma nota de rodap\u00e9. Nosso trabalho n\u00e3o pode ser um release de seguran\u00e7a p\u00fablica. Precisamos ouvir e checar todos os lados da hist\u00f3ria\u201d, diz Pedro Borges.<\/p>\n<p><strong>Escola de Comunica\u00e7\u00e3o Antirracista<\/strong><br \/>\nNo fim de agosto, o Not\u00edcia Preta lan\u00e7ou a Escola de Comunica\u00e7\u00e3o Antirracista, com o objetivo de ir al\u00e9m da divulga\u00e7\u00e3o de not\u00edcias. A proposta \u00e9 combater o racismo tamb\u00e9m por meio da educa\u00e7\u00e3o. O p\u00fablico-alvo s\u00e3o os comunicadores que desejam conhecer ou aprofundar um trabalho antirracista. Entre os cursos oferecidos, destaque para Assessoria de Imprensa, Semi\u00f3tica e Racismo, e Hist\u00f3ria da Imprensa Negra no Brasil. A escola oferece cursos no formato online, mas tamb\u00e9m tem op\u00e7\u00f5es profissionalizantes presenciais, por meio de uma parceria com o Senac Rio.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem outra forma de voc\u00ea ser uma pessoa antirracista que n\u00e3o seja aprendendo e estudando. Criamos essa escola para que todos possam ter acesso a esse conhecimento. Sejam jornalistas ou outras pessoas interessadas em aprender\u201d, disse Thais.<\/p>\n<p>\u201cO jornalismo \u00e9 uma ferramenta de educa\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o social. Quando uma pessoa l\u00ea uma mat\u00e9ria, est\u00e1 aprendendo algo. E ser um jornalista antirracista n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ser negro. Todo mundo deve ser antirracista.\u201d<\/p>\n<p><strong>Legados e continuidades<\/strong><br \/>\nDurante os estudos no Brasil e na Europa, Thais n\u00e3o teve aulas sobre imprensa negra nos cursos de jornalismo. Ela defende que \u00e9 fundamental resgatar essa hist\u00f3ria e apresent\u00e1-la para os que trabalham hoje com comunica\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, conhecer mais dos 190 anos de lutas e iniciativas da imprensa negra ajuda a situar o pr\u00f3prio presente. A profiss\u00e3o ganha contornos e miss\u00f5es ainda maiores.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 fundamental para o comunicador entender que os nossos passos v\u00eam de longe. \u00c0s vezes, as pessoas me dizem que o meu trabalho \u00e9 pioneiro. N\u00e3o! O jornalismo que eu fa\u00e7o \u00e9 o jornalismo do Homem de Cor, do Mulato, do Abdias Nascimento, que fez comunica\u00e7\u00e3o antirracista h\u00e1 muito tempo. O que eu fa\u00e7o \u00e9 uma continuidade do que os meus antepassados fizeram. E espero honrar minimamente esse caminho que eles tra\u00e7aram para gente poder estar aqui\u201d, reflete Thais Bernardes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o s\u00e9culo 19, uma parte da popula\u00e7\u00e3o negra entendeu que a imprensa poderia ser uma ferramenta de luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial. Foram criados canais espec\u00edficos para comunicar lutas e demandas da \u00e9poca. Quase dois s\u00e9culos depois, faz sentido continuar existindo uma imprensa negra? 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