{"id":313449,"date":"2023-09-25T07:16:20","date_gmt":"2023-09-25T10:16:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=313449"},"modified":"2023-09-25T07:16:20","modified_gmt":"2023-09-25T10:16:20","slug":"na-primavera-do-amanha-so-ele-ficou-no-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/na-primavera-do-amanha-so-ele-ficou-no-passado\/","title":{"rendered":"Na primavera do amanh\u00e3, s\u00f3 ele ficou no passado"},"content":{"rendered":"<p>Uma vez soldado raso, sempre soldado raso. E n\u00e3o adianta o sujeito da ora\u00e7\u00e3o j\u00e1 ter comandado general, almirante e brigadeiro. Caso fortuito. Com a mesma rapidez, voltou ao ostracismo da caserna e, mesmo sem mandato, est\u00e1 definitivamente no umbral da pol\u00edtica, tamb\u00e9m conhecido por baixo clero. Exatamente como em uma novela da V\u00eanus Platinada, o personagem escolhido para ser o astro central da trama acabou se transformando em um dos maiores vil\u00f5es do hor\u00e1rio nobre da vida nacional. Morreu bem antes do fim e, agora, ter\u00e1 de esperar para que sua triste hist\u00f3ria vire um remake da meia noite no Canal Viva, aquele que cobra para replicar coisas que a gente n\u00e3o aguenta mais assistir.<\/p>\n<p>Tudo teria come\u00e7ado quando, por falta de op\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, um suposto atleta do Riocentro virou &#8220;capet\u00e3o&#8221; de alpargata. A fragata partiu antes da pisada dele na linha de chegada. Da\u00ed, em decorr\u00eancia de seus rompantes animalescos, lhe foi dada a oportunidade de seguir carreira no paraquedismo, embora a voca\u00e7\u00e3o do camarada incendi\u00e1rio de bancas de jornais fosse a cavalaria. No meio dos alaz\u00f5es, ele encontrou Jorge, o da Capad\u00f3cia, e ent\u00e3o descobriu que, al\u00e9m dele, s\u00f3 os filhos e meia d\u00fazia de emburrecidos patriotas acreditavam que poderiam viver em mundo absurdo. Ele percebeu tarde demais que, se estamos s\u00f3s quando estamos s\u00f3s, \u00e9 porque estamos em p\u00e9ssima companhia.<\/p>\n<p>Segunda-feira, primeiro dia \u00fatil do m\u00eas da primavera, \u00e9 a \u00e9poca em que normalmente acordamos mais felizes e esperan\u00e7osos. Certo? Errado! Despertei meio capit\u00e3o, meio general e me levantei certo de que vivi e continuo vivendo como meu personagem, o soldado raso. Gra\u00e7as a Deus. Minha dor foi perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. O problema \u00e9 a saudade do que eu e minha gera\u00e7\u00e3o experimentamos at\u00e9 o primeiro golpe. Sorte a nossa que, por conta das bizarrices de toupeiras travestidas de terroristas, o segundo foi engolido com farinha, maionese e leite condensado. A alegria maior \u00e9 ser informado que o ontem e o anteontem n\u00e3o voltam mais. Melhor ainda \u00e9 que ele ficou no passado. N\u00e3o volta.<\/p>\n<p>Quanto ao amanh\u00e3, tudo pode acontecer. Menos com ele. Saudosista assumido, a proposta era come\u00e7ar a primavera escrevendo reminisc\u00eancias, discorrendo sobre coisas diferentes, menos t\u00f3xicas, mais pitorescas. Mas como fugir desta louca hist\u00f3ria que parece n\u00e3o ter fim? Pelo menos as boas not\u00edcias do fim do inverno s\u00e3o que o tenente-coronel Mauro Cid abriu a boca e que furaram o saco de joias e o coturno abarrotado de minutas almirantadas sobre a f\u00e9 cega do poder sob baionetas, garruchas e tanques fumacentos da Marinha brasileira. Para o bem do Brasil e do povo brasileiro, a lamban\u00e7a chegou ao topo do quepe dos terrivelmente honestos.<\/p>\n<p>Entre cobras e lagartos, tamb\u00e9m sa\u00edram do lama\u00e7al patri\u00f3tico fundamentalistas estelionat\u00e1rios que, em nome de Deus, usavam a f\u00e9 dos ing\u00eanuos para roub\u00e1-los. Se \u00e9 que existem, os verdadeiros evang\u00e9licos devem estar com o pesco\u00e7o enterrado no formigueiro com vergonha dos pastores descarados. N\u00e3o queria falar desse ou daquele. A ideia era buscar nos amigos inspira\u00e7\u00e3o para lembrar de pessoas e de coisas que a gente tem de guardar do lado esquerdo do c\u00e9rebro e do peito. Inesquec\u00edveis, artistas como Paulo Gracindo, Luiz Gustavo, Tarc\u00edsio Meira, S\u00e9rgio Cardoso, Chacrinha, Tim Maia, Taiguara, Belchior, Fagner, Arl\u00eanio L\u00edvio, Cassiano, Erasmo Carlos, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Tom, Vin\u00edcius, Maysa e Rita Lee, entre outros, encantavam nossa semana e iluminavam as tardes musicais de s\u00e1bado e domingo.<\/p>\n<p>Nos est\u00e1dios, a festa ficava por conta dos p\u00e9s de Jairzinho, G\u00e9rson, Rivelino, Pel\u00e9, Zico, Roberto Dinamite, Junior, Leandro, Dario, Falc\u00e3o, Edu, Gilson Nunes, D\u00e9 e mais uma infinidade de jogadores inesquec\u00edveis. Acabaram os craques, surgiram pernas de pau endinheirados. Sumiram com os astros da m\u00fasica, inventaram os cantantes de uma nota s\u00f3. O que fazer se n\u00e3o temos mais o brilho de Cauby, Caetano, Milton Nascimento, Nelson Gon\u00e7alves, Chico, Gil, Vandr\u00e9, Renato Russo, Nara Le\u00e3o, Elis Regina e Vander Lee? Nada! Chorar, lamentar e morrer de t\u00e9dio ao ouvir Anitta, Ludmilla, Wesley Safad\u00e3o, J\u00e3o, Fiuk, Banda Calypso, Lu\u00edsa Sonza, Lexa, Juliette, Gil do Vigor, Luan Santana e Gusttavo Lima. Assim como o Messias, eles tamb\u00e9m faturam horrores, mas enganam, desencantam e comprovam uma m\u00e1xima muito particular: \u00c9ramos felizes e sab\u00edamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vez soldado raso, sempre soldado raso. E n\u00e3o adianta o sujeito da ora\u00e7\u00e3o j\u00e1 ter comandado general, almirante e brigadeiro. Caso fortuito. Com a mesma rapidez, voltou ao ostracismo da caserna e, mesmo sem mandato, est\u00e1 definitivamente no umbral da pol\u00edtica, tamb\u00e9m conhecido por baixo clero. 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