{"id":313846,"date":"2023-10-02T07:08:44","date_gmt":"2023-10-02T10:08:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=313846"},"modified":"2023-10-02T07:20:11","modified_gmt":"2023-10-02T10:20:11","slug":"dogma-ou-tabu-o-aborto-precisa-ser-discutido-por-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dogma-ou-tabu-o-aborto-precisa-ser-discutido-por-todos\/","title":{"rendered":"Dogma ou tabu, o aborto precisa ser discutido por todos"},"content":{"rendered":"<p>Ao se utilizar do personagem Hamlet para afirmar que \u201ch\u00e1 mais coisas entre o c\u00e9u e a terra do que pode imaginar nossa v\u00e3 filosofia\u201d, William Shakespeare tinha por inten\u00e7\u00e3o informar que a racionalidade e reflex\u00e3o s\u00e3o fundamentais para o ser humano. Obviamente que, por si s\u00f3, ambas n\u00e3o t\u00eam a capacidade de explicar o que ocorre no mundo.<\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XX e XXI, a hipocrisia se consolidou de tal forma na sociedade que hoje, apesar da Intelig\u00eancia Artificial, ainda fazemos cara de paisagem diante de temas que a maioria do povo brasileiro n\u00e3o admite discutir. Um dos assuntos mais atuais do Brasil, o aborto virou tabu principalmente em decorr\u00eancia dos valores \u00e9ticos, morais, filos\u00f3ficos, biol\u00f3gicos e religiosos dos intervenientes, isto \u00e9, dos part\u00edcipes.<\/p>\n<p>S\u00e3o valores consider\u00e1veis e justos. No entanto, nenhum de n\u00f3s tem o monop\u00f3lio da sabedoria ou da verdade. \u00c9 uma tem\u00e1tica controversa e que precisa ser debatida sem julgamentos, emo\u00e7\u00f5es, religiosidades, tampouco conven\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica, porque, queiramos ou n\u00e3o, descriminalizado ou n\u00e3o, a pr\u00e1tica continuar\u00e1 existindo.<\/p>\n<p>Dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) revelam que anualmente 25 milh\u00f5es de abortos inseguros s\u00e3o realizados no mundo, dos quais cerca de 800 mil no Brasil. Dessas, 200 mil recorrem ao SUS para tratar as sequelas de procedimentos malfeitos.<\/p>\n<p>Portanto, a despeito da criminaliza\u00e7\u00e3o e dos estigmas, o aborto, assim como a menstrua\u00e7\u00e3o, a menopausa e a gravidez, \u00e9 um evento comum na vida das mulheres ricas e pobres. A diferen\u00e7a \u00e9 que, mesmo proibido, as madames com conhecimento e dinheiro procuram cl\u00ednicas para interromper uma gravidez indesejada ou de risco.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica abortiva das que n\u00e3o t\u00eam recursos ser\u00e1 sempre mediada por uma amiga e executada por um charlat\u00e3o do tipo a\u00e7ougueiro. N\u00e3o h\u00e1 o que se discutir do ponto de vista crist\u00e3o e espiritual. A vida \u00e9 um bem inalien\u00e1vel e somente Deus pode interromp\u00ea-la. N\u00e3o esque\u00e7amos que a vida come\u00e7a na concep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, principalmente nos casos de estupro, \u00e9 fundamental que, antes das cr\u00edticas e de pr\u00e9-julgamentos, se ou\u00e7am as interessadas, como fez a ministra Rosa Weber, primeira integrante do STF a votar pela descriminaliza\u00e7\u00e3o do tema. Vale lembrar que a maioria dos estupros ocorre dentro de casa ou em ambientes conhecidos. Ou seja, perdeu-se no tempo o argumento hip\u00f3crita de defesa da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Diariamente, o notici\u00e1rio mostra pastores, padres e pais de santo envolvidos com abuso sexual, inclusive de menores. Esse caos social parece de somenos import\u00e2ncia. \u00c9 mais f\u00e1cil atacar quem mostra a cara e demonizar as Na\u00e7\u00f5es Unidas, institui\u00e7\u00e3o que se preocupa em garantir a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade de milh\u00f5es de mulheres pelo mundo e, por isso, cobram um posicionamento do Brasil.<\/p>\n<p>Nada de anormal. Anormal \u00e9 divulgar como demon\u00edaca qualquer iniciativa de discuss\u00e3o a respeito da mat\u00e9ria. Anormais tamb\u00e9m s\u00e3o as verdades absolutas que, na opini\u00e3o dos falsos pregadores, devem ser ensinadas com autoridade. A quest\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 que determinados segmentos n\u00e3o discutem e n\u00e3o deixam ningu\u00e9m discutir. Transformaram a pol\u00eamica em dogma.<\/p>\n<p>Prosaicamente, nada fazem para solucionar, minimizar ou esconder o problema que deveria ser de todos. Como \u00e9 de interesse nacional, \u00e9 imperativo que o debate saia das mesas dos grupos antiaborto, os que se intitulam \u201cpr\u00f3-vida\u201d, e dos que advogam pela liberdade da mulher, os denominados \u201cpr\u00f3-escolha\u201d. O Brasil quer e precisar opinar. N\u00e3o adianta correr para tr\u00e1s. Temos de olhar e jogar para frente.<\/p>\n<p>Em resumo, os certames n\u00e3o devem ser considerados alterca\u00e7\u00f5es ou disputas entre direita e esquerda, entre crist\u00e3o e ateu. Se h\u00e1 o conflito, vamos argumentar antes que as querelas se transformem em plataforma eleitoral para candidatos que n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para quem sobrevive ou morre de um aborto. Entre a fantasia e a realidade, tentemos o bom senso.<\/p>\n<p>Temos mecanismos para dirimir esse tipo de imbr\u00f3glio. O artigo 2\u00ba. da Constitui\u00e7\u00e3o estabelece que o plebiscito e o referendo s\u00e3o consultas formuladas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para que se delibere sobre mat\u00e9ria de acentuada relev\u00e2ncia, como \u00e9 o aborto. No plebiscito, o povo decide sobre uma proposta antes dela ser elaborada pelo Congresso. No referendo, o Congresso apresenta uma proposi\u00e7\u00e3o finalizada e o povo a acata ou a rejeita. Simples assim. Nenhum de n\u00f3s \u00e9 o senhor da raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao se utilizar do personagem Hamlet para afirmar que \u201ch\u00e1 mais coisas entre o c\u00e9u e a terra do que pode imaginar nossa v\u00e3 filosofia\u201d, William Shakespeare tinha por inten\u00e7\u00e3o informar que a racionalidade e reflex\u00e3o s\u00e3o fundamentais para o ser humano. 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