{"id":314065,"date":"2023-10-05T07:05:00","date_gmt":"2023-10-05T10:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=314065"},"modified":"2023-10-05T07:11:48","modified_gmt":"2023-10-05T10:11:48","slug":"de-torcedor-a-corno-todo-brasileiro-tem-um-pouco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/de-torcedor-a-corno-todo-brasileiro-tem-um-pouco\/","title":{"rendered":"De torcedor a corno, todo brasileiro tem um pouco"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto esperava o t\u00e1xi para a esta\u00e7\u00e3o lunar, usei largamente o bonde da minha rua. Nos estribos da marinete, circulei entre o sagrado da Igreja Sertaneja Coice do Capeta e o profano da Vila Mimosa, onde descobri que n\u00e3o podia passar por esta vida, envelhecer e n\u00e3o participar de uma festa dessa. Depois de algumas tentativas frustradas de convers\u00e3o \u00e0 seita Meninos de Deus, optei por ingressar no CCC do meu bairro.<\/p>\n<p>Os tempos eram bicudos e nada simp\u00e1ticos aos que j\u00e1 tinham a alegria como modus vivendi. Aceitar as regras e as ordens da \u00e9poca era sin\u00f4nimo de assumir como nossa a encena\u00e7\u00e3o do milagre brasileiro e, ao mesmo tempo, fingir que est\u00e1vamos adaptados \u00e0quela realidade sem sentido.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o inventaram uma tal ca\u00e7ada aos comunistas. Por isso, minha ades\u00e3o ao Comando de Ca\u00e7a aos Cornos, entidade filantr\u00f3pica e paramilitar, destinada a combater, carinhosa e efetivamente, o movimento contr\u00e1rio aos galhos que nascem (ou j\u00e1 nasceram) no couro cabeludo de todo brasileiro.<\/p>\n<p>Lembrando que o tal do chifre \u00e9 somente uma besteirinha que colocaram em nossas cabe\u00e7as, divirjo categoricamente daqueles que juram que nunca usaram o penduricalho, que pode ser fixo ou de tarraxa. Obviamente que, apenas por uma quest\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, a maioria de n\u00f3s n\u00e3o sabe. Melhor assim, pois evitamos contratempos, rea\u00e7\u00f5es desavisadas ou respostas mentirosas a cada esquina.<\/p>\n<p>Dizer que \u00e9 intriga da oposi\u00e7\u00e3o ou coisa de fofoqueiros tamb\u00e9m n\u00e3o cola mais. Aprendi cedo com Dona Giselda, a gerente da Vila Mimosa, que, mais funcional do que a terapia de casal, \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o. Escolada na sali\u00eancia, mestra na horizontal e doutora nos ensinamentos do prazer, a prendada senhora dizia sempre que, sentado, deitado ou cornificado, o bom da vida \u00e9 viver. O resto \u00e9 morrer para a vida.<\/p>\n<p>Sobre o tema, ap\u00f3s consultas nos 26 estados da Federa\u00e7\u00e3o e no Distrito Federal, descobri que h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es estaduais. Em s\u00e3o Paulo, a terapia ainda \u00e9 o que vale.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, onde \u00e9 prefer\u00edvel ser corno do que nunca ter chegado perto de uma potranca, o neg\u00f3cio vira \u201ctrisal\u201d. Em alguns estados do Nordeste, o cidad\u00e3o at\u00e9 agradece por dividir com o chamado Ricard\u00e3o a mulher que ela acha mais feia do que a Maga Patol\u00f3gica. Em outras pra\u00e7as nordestinas, o marido tra\u00eddo pega a peixeira, mata os tra\u00edras e, no dia seguinte, j\u00e1 est\u00e1 casado com outra sereia. Tamb\u00e9m tem aqueles que se fantasiam da abundante e f\u00e9rtil Cornuc\u00f3pia e v\u00e3o dan\u00e7ar frevo nas ladeiras de Olinda.<\/p>\n<p>Em Curitiba, o sujeito ignora o fato e n\u00e3o reage, pois se recusa a falar com estranho. J\u00e1 o mineiro mata o antagonista e mant\u00e9m o casamento, exatamente como determina a Tradicional Fam\u00edlia Mineira (TFM).<\/p>\n<p>H\u00e1 locais (melhor n\u00e3o dizer onde) em que o marido expulsa a esposa de casa e firma rela\u00e7\u00e3o com o marmanjo. Em estados do Centro-Oeste, a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 inesperada, depressiva, musical e financeiramente muito mais vi\u00e1vel do que o casamento.<\/p>\n<p>Por exemplo, o anedot\u00e1rio confirma a tese de que os goianos cornificados, depois de curar a depress\u00e3o, saem \u00e0s ruas com a viola na m\u00e3o em busca de um parceiro para montar mais uma dupla sertaneja. Radical, raivoso e despreocupado com o sofrimento das massas, o corno brasiliense segue para o Congresso Nacional e sugere ao primeiro deputado ou senador que encontre a cria\u00e7\u00e3o de mais um imposto.<\/p>\n<p>Gosto mesmo \u00e9 dos baianos, cuja maior alegria \u00e9 a constante pregui\u00e7a. Como tenho medo da robustez f\u00edsica e da baianidade silenciosa do povo da terra de Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, claro que nunca entrei em detalhes sobre o chifre no Pelourinho ou na Pra\u00e7a Castro Alves. No entanto, \u00e9 obvio que para o baiano esse neg\u00f3cio de arrumar amante, tirar a roupa, fazer sexo e ser descoberto pelo marido alheio d\u00e1 muito trabalho, d\u00e1 uma canseira, um sono danado.<\/p>\n<p>Fosse viva, Dona Giselda certamente teria me ensinado que o tubar\u00e3o que deixa a filha de Poseidon em casa e sai para comer sardinha normalmente vira peixe boi. De minha parte, acho mau-caratismo zoar o corno. Afinal, ele foi o \u00fanico fiel. Ser ou n\u00e3o ser, pouco importa. N\u00e3o se pode colher rosas sem temer os espinhos.<\/p>\n<p>Importante e triste \u00e9 nossa depend\u00eancia. Somos t\u00e3o dependentes que at\u00e9 para ser corno precisamos da ajuda da mulher. E quem nunca foi que atire a primeira pedra. Pelo sim, pelo n\u00e3o, rogo a Deus pela galha nossa de todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto esperava o t\u00e1xi para a esta\u00e7\u00e3o lunar, usei largamente o bonde da minha rua. Nos estribos da marinete, circulei entre o sagrado da Igreja Sertaneja Coice do Capeta e o profano da Vila Mimosa, onde descobri que n\u00e3o podia passar por esta vida, envelhecer e n\u00e3o participar de uma festa dessa. 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