{"id":314112,"date":"2023-10-05T16:29:45","date_gmt":"2023-10-05T19:29:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=314112"},"modified":"2023-10-06T09:03:32","modified_gmt":"2023-10-06T12:03:32","slug":"314112-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/314112-2\/","title":{"rendered":"S\u00edtios arqueol\u00f3gicos s\u00e3o marca do Marco Temporal"},"content":{"rendered":"<p>Nem 1988. Nem mesmo 1500. Em meio ao acalorado debate que tomou conta do Brasil nos \u00faltimos meses em torno da tese que prop\u00f5e o estabelecimento de uma data \u2013 um marco temporal \u2013 para que se defina quais ind\u00edgenas t\u00eam direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o da sua terra, uma pesquisa cient\u00edfica que acaba de ser publicada traz elementos novos que d\u00e3o uma ideia do tamanho, e do impacto, da ocupa\u00e7\u00e3o milenar dos povos origin\u00e1rios na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Um mapeamento feito com uma tecnologia conhecida como Lidar (ferramenta de sensoriamento remoto que emite feixes de laser) estimou a exist\u00eancia de algo entre 10 mil e 23 mil s\u00edtios arqueol\u00f3gicos ainda desconhecidos, escondidos sob a densa floresta em toda a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>S\u00e3o locais onde, por mais de 12 mil anos, viveram sociedades complexas, que constru\u00edram estruturas de terra e domesticaram plantas, alterando a paisagem em seu entorno de modo a torn\u00e1-la mais produtiva. As modifica\u00e7\u00f5es profundas, feitas entre 1.500 e 500 anos atr\u00e1s, mas com efeitos de longo prazo, moldaram a floresta \u00e0 composi\u00e7\u00e3o que conhecemos hoje.<\/p>\n<p>\u00c9 um baita trabalho multidisciplinar, elaborado por 230 pesquisadores, de 156 institui\u00e7\u00f5es do Brasil e de mais 23 pa\u00edses, que foi publicado nesta quinta-feira (5) na revista cient\u00edfica Science, uma das mais prestigiosas do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;A enorme extens\u00e3o dos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos e florestas modificadas pelo homem em toda a Amaz\u00f4nia \u00e9 extremamente importante para estabelecer uma compreens\u00e3o precisa das intera\u00e7\u00f5es entre as sociedades humanas, a floresta amaz\u00f4nica e o clima da Terra&#8221;, escrevem os autores, liderados pelo ge\u00f3grafo Vinicius Peripato, doutorando em sensoriamento remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e por Luiz Arag\u00e3o, chefe da Divis\u00e3o de Observa\u00e7\u00e3o da Terra do Inpe.<\/p>\n<p>&#8220;Considerando a extens\u00e3o generalizada de locais modificados por pr\u00e1ticas de cultivo e manejo pr\u00e9-colombianas, a Amaz\u00f4nia pode ser vista como um antigo sistema socioecol\u00f3gico, com respostas de longo prazo \u00e0s mudan\u00e7as do clima&#8221;, continuam.<\/p>\n<p>A revela\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em si \u00e9 interessant\u00edssima (confesso que meu lado rep\u00f3rter-nerd-de-ci\u00eancia vibrou quando eu vi o paper). Com uma varredura inicial com o Lidar, em uma \u00e1rea que representa apenas 0,08% da Amaz\u00f4nia, eles encontraram sob a copa das \u00e1rvores 24 s\u00edtios desconhecidos, com diversas estruturas feitas pelos povos origin\u00e1rios, como aldeias fortificadas, estruturas de defesa e cerimoniais, assentamentos em topos de montanha, al\u00e9m de geoglifos.<\/p>\n<p>Eles identificaram tamb\u00e9m, ao redor desses locais, a ocorr\u00eancia de diversas esp\u00e9cies de \u00e1rvores com sinais de domestica\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, elas foram intencionalmente manejadas para estar mais pr\u00f3ximas aos assentamentos, de modo a prover alimento e outros recursos. \u00c9 o caso da castanha do par\u00e1 (Bertholletia excelsa), da maca\u00faba (Acrocomia aculeata), do araticum (Annona montana), da pupunha (Bactris gasipaes), do a\u00e7a\u00ed (Euterpe oleracea), entre dezenas de outras.<\/p>\n<p>A partir desse achado, combinado com dados de outros 961 s\u00edtios que j\u00e1 tinham sido encontrados anteriormente com metodologias mais tradicionais \u2013 por meio de imagens de sat\u00e9lite de alta resolu\u00e7\u00e3o, em \u00e1reas desmatadas \u2013, os pesquisadores desenvolveram uma modelagem que estimou a poss\u00edvel exist\u00eancia de mais de 10 mil estruturas semelhantes ao longo da bacia amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u00c9 a primeira vez que se tenta determinar o tamanho e a escala dessa ocupa\u00e7\u00e3o humana na regi\u00e3o. S\u00f3 por isso o trabalho j\u00e1 mereceria ser muito bem divulgado.<\/p>\n<p>Mas resolvi tratar desse artigo hoje neste espa\u00e7o tamb\u00e9m pelas muitas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que ele carrega, considerando o momento atual.<\/p>\n<p>&#8221; N\u00e3o \u00e9 de hoje que a arqueologia prop\u00f5e que muita gente viveu na Amaz\u00f4nia antes da chegada dos europeus \u00e0s Am\u00e9ricas, em sociedades complexas e estruturadas, e que a ideia de que l\u00e1 havia uma floresta pristina, intocada, n\u00e3o se sustentava. Arque\u00f3logos como Eduardo Neves, da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo), h\u00e1 tempos prop\u00f5em que a floresta foi moldada por essas popula\u00e7\u00f5es e que o que hoje conhecemos \u00e9 resultado em parte desse trabalho.<\/p>\n<p>O trabalho publicado hoje, assinado por ge\u00f3grafos, arque\u00f3logos, bi\u00f3logos, ec\u00f3logos, engenheiros, estat\u00edsticos, entre outros, traz evid\u00eancias dessa import\u00e2ncia humana. &#8220;A floresta foi ocupada e modificada pelos povos pr\u00e9-colombianos ao longo dos s\u00e9culos, e o estudo demonstra isso, seja pela ampla distribui\u00e7\u00e3o dessas constru\u00e7\u00f5es de terra, ou at\u00e9 mesmo pela domestica\u00e7\u00e3o florestal atrav\u00e9s da introdu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies espec\u00edficas de seus interesses&#8221;, me explicou Peripato.<\/p>\n<p>E o interessante, disse ele, \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel observar que a rela\u00e7\u00e3o desses povos com a floresta &#8220;estava mais voltada \u00e0 sua utiliza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da preserva\u00e7\u00e3o que a rela\u00e7\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Pedi que ele explicasse como foi poss\u00edvel concluir isso. &#8220;Evid\u00eancias de preserva\u00e7\u00e3o est\u00e3o ligadas ao padr\u00e3o da floresta nesses locais. Existe a evid\u00eancia da domestica\u00e7\u00e3o, mas nada que extrapolasse os locais pr\u00f3ximos \u00e0s estruturas ali desenvolvidas nem altera\u00e7\u00f5es que comprometessem o desenvolvimento florestal. Eles dependiam da floresta para alimenta\u00e7\u00e3o, uso medicinal e diversos insumos&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Conversei rapidamente tamb\u00e9m com Eduardo Neves, pioneiro em propor essa interfer\u00eancia importante dos povos origin\u00e1rios sobre a floresta. Para ele, o trabalho representa um divisor de \u00e1guas para a teoria e deveria ser apreciado dentro do contexto pol\u00edtico atual.<\/p>\n<p>&#8220;Nessa discuss\u00e3o horrorosa do marco temporal, o trabalho tem um valor pol\u00edtico importante porque demonstra a presen\u00e7a ind\u00edgena muito antiga, criando paisagens, modificando a natureza, e que mostra como n\u00e3o faz o menor sentido, \u00e0 luz das evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas, estabelecer um marco em 1988, um crit\u00e9rio arbitr\u00e1rio para definir a presen\u00e7a ind\u00edgena&#8221;, comentou.<\/p>\n<p>Peripato tamb\u00e9m falou sobre isso. &#8220;A pr\u00f3pria diversidade observada nos achados arqueol\u00f3gicos tamb\u00e9m prova que \u00e9 sens\u00edvel generalizar esses povos como se fossem todos iguais. Al\u00e9m da presen\u00e7a deles ao longo dos s\u00e9culos, tamb\u00e9m fica evidente a rela\u00e7\u00e3o que eles possuem com a floresta desde a sua subsist\u00eancia a seus rituais religiosos.&#8221;<\/p>\n<p>Agora pare e pense no argumento de que os descendentes desses povos, que n\u00e3o estavam nas suas terras no momento da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o, muito provavelmente porque foram expulsos delas, n\u00e3o t\u00eam mais direito algum a essas terras por uma decis\u00e3o do Congresso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem 1988. Nem mesmo 1500. Em meio ao acalorado debate que tomou conta do Brasil nos \u00faltimos meses em torno da tese que prop\u00f5e o estabelecimento de uma data \u2013 um marco temporal \u2013 para que se defina quais ind\u00edgenas t\u00eam direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o da sua terra, uma pesquisa cient\u00edfica que acaba de ser publicada [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":311641,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-314112","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314112","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=314112"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314112\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":314173,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314112\/revisions\/314173"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/311641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=314112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=314112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=314112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}