{"id":314175,"date":"2023-10-06T18:02:21","date_gmt":"2023-10-06T21:02:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=314175"},"modified":"2023-10-06T18:03:55","modified_gmt":"2023-10-06T21:03:55","slug":"cercado-por-hienas-lula-vive-com-mao-na-frente-e-outra-atras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cercado-por-hienas-lula-vive-com-mao-na-frente-e-outra-atras\/","title":{"rendered":"Cercado por hienas, Lula vive com m\u00e3o na frente e outra atr\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>Na sequ\u00eancia do \u00f3bito do &#8220;presidencialismo de coaliz\u00e3o&#8221;, um invento acad\u00eamico, vivenciamos significativas altera\u00e7\u00f5es no funcionamento das institui\u00e7\u00f5es. De apar\u00eancia superficial, elas no entanto podem resultar em dist\u00farbios estruturais na natureza do regime, mutante a partir do jogo das for\u00e7as pol\u00edticas do sistema. Evidentemente sem jamais amea\u00e7ar os interesses da classe dominante. Ocorrem, repito, na superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Tratam-se de recomposi\u00e7\u00e3o dos pesos e compet\u00eancias dos poderes da Rep\u00fablica, que se processa no mundo da vida real, \u00e0 margem do ordenamento constitucional, ainda intacto na sua formalidade. Embora n\u00e3o responda a um chamamento do processo social, o redemoinho atende a necessidades do processo pol\u00edtico, ditadas, na origem, pela crise da representatividade que nos acompanha desde sempre.<\/p>\n<p>Soma-se a isso uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que n\u00e3o se conforma no pronunciamento eleitoral de 2022. A resist\u00eancia \u00e9 f\u00e1tica, e caminha da Faria Lima \u00e0 caserna, reanimada com a impunidade com que a afaga o Minist\u00e9rio da Defesa, sob controle do castro, hoje como dantes.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno abarca algo al\u00e9m da crise do presidencialismo tout court, para nele p\u00f4r de manifesto a fragilidade do Poder Executivo e mesmo de sua chefia, como se ver\u00e1, em que pese a legitima\u00e7\u00e3o emprestada pela soberania popular, fonte da democracia liberal, como \u00e9 descrita nos manuais escolares.<\/p>\n<p>O fato objetivo sobre o qual nos debru\u00e7amos \u00e9 este: jamais, na Rep\u00fablica em suas fases de relativa normalidade, os poderes constitucionais cl\u00e1ssicos foram t\u00e3o desarm\u00f4nicos e jamais tanto disputaram entre si a hegemonia, como agora.<\/p>\n<p>Se nos idos de 2013 o aprofundamento da crise pol\u00edtica j\u00e1 o anunciava, para os que tinham olhos para ver, o fen\u00f4meno presente de desorganiza\u00e7\u00e3o institucional deita ra\u00edzes em 2016, quando a C\u00e2mara dos Deputados, sob o comando de um meliante, logrou paralisar o Executivo e, afinal, cassar o mandato leg\u00edtimo e legal da presidente Dilma Rousseff, a pretexto de um crime ausente.<\/p>\n<p>Para o novo presidente do STF, ministro Lu\u00eds Roberto Barroso, o fen\u00f4meno, que ele celebra como avan\u00e7o civilizat\u00f3rio, tem origem nos m\u00e9ritos da Carta de 1988, a partir de cujo mandato &#8220;O Estado voltou ao seu tamanho natural, o Legislativo se expandiu, e o Judici\u00e1rio viveu seu momento de expressiva ascens\u00e3o institucional&#8221;.<\/p>\n<p>Sem abdicar do projeto protofascista, o capit\u00e3o autorit\u00e1rio (de triste mem\u00f3ria) \u00e9 obrigado a ceder espa\u00e7os de governo ao Legislativo; da\u00ed em diante, o presidente da C\u00e2mara, principalmente quando enfeixa a ger\u00eancia do &#8220;Centr\u00e3o&#8221;, entra a agir como se primeiro-ministro f\u00f4ra, em um presidencialismo canhestro que come\u00e7a a assumir as fei\u00e7\u00f5es de um Frankenstein.<\/p>\n<p>\u00c9 o presidencialismo transformista de nossos dias. O Executivo \u00e9 obrigado a ceder espa\u00e7o ao Congresso e ambos se encontram em frente a um Judici\u00e1rio sedento de holofotes e poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 2022 a democracia se v\u00ea momentaneamente salva (ainda hoje comemoramos sua sobreviv\u00eancia), mas o decreto da soberania popular n\u00e3o fornece a Lula as precondi\u00e7\u00f5es de um governo forte, na tradi\u00e7\u00e3o presidencialista brasileira.<\/p>\n<p>Ademais da estreita margem de votos com que coroa o vencedor, elege um Congresso majoritariamente reacion\u00e1rio \u2013 o mais reacion\u00e1rio e fisiol\u00f3gico de quantos a hist\u00f3ria registra \u2013, comprometido com a mis\u00e9ria da pol\u00edtica, desapegado a valores \u00e9ticos. S\u00e3o essas condi\u00e7\u00f5es \u2013 uma maioria que enseja o controle das vota\u00e7\u00f5es \u2013 que o credenciam a partilhar o governo.<\/p>\n<p>Na primeira legislatura da democratiza\u00e7\u00e3o, o deputado Roberto Cardoso Alves, l\u00edder do &#8220;Centr\u00e3o&#8221; daqueles anos, cunhou express\u00e3o que ficaria famosa nas antessalas dos gabinetes de neg\u00f3cios: &#8220;\u00c9 dando que se recebe&#8221;, que Arthur Lira atualizou para &#8220;\u00c9 recebendo [cargos e verbas e prebendas] que se d\u00e1 votos&#8221;.<\/p>\n<p>Embora perdidas as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, o &#8220;Centr\u00e3o&#8221; ganha o governo mediante a f\u00f3rmula da coabita\u00e7\u00e3o, e o governo que venceu com um discurso de centro-esquerda \u00e9 condenado a governar com a direita parlamentar, guardi\u00e3 do atraso, de quem depende sua estabilidade.<\/p>\n<p>Nesse novo presidencialismo, constru\u00eddo ao sabor da conjuntura, releva como paradigma da nova ordem a recente reuni\u00e3o do presidente do Senado Rodrigo Pacheco com ministros do governo Lula (guardando convalesc\u00eancia de uma delicada cirurgia) para discutir combate \u00e0 fome, garantia de seguran\u00e7a alimentar e redu\u00e7\u00e3o do desperd\u00edcio de alimentos, cl\u00e1ssicas fun\u00e7\u00f5es de governo.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es objetivas favorecem tanto o Poder Legislativo quanto o Judici\u00e1rio, sempre em preju\u00edzo do Executivo. O STF assumiu o papel de agente supremo das institui\u00e7\u00f5es, algo como um novo &#8220;poder moderador&#8221; (t\u00e3o requisitado pelos fardados), legislando, ditando linhas de a\u00e7\u00e3o e, at\u00e9, julgando, sem perda de sua natureza eminentemente pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Significativo, sintom\u00e1tico at\u00e9, \u00e9 o discurso de posse do novo presidente do Supremo, falando como se assumisse a presid\u00eancia da Rep\u00fablica, eis que apresenta uma plataforma de governo, assim resumida: combate \u00e0 pobreza; desenvolvimento econ\u00f4mico-social sustent\u00e1vel; prioridade m\u00e1xima para a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica; investimento relevante em ci\u00eancia e tecnologia; investimento em saneamento b\u00e1sico; habita\u00e7\u00e3o popular; retorno do Brasil \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a global em mat\u00e9ria ambiental.<\/p>\n<p>Plataforma ambiciosa, grandiloquente, que parece n\u00e3o caber nos estreitos limites do artigo 102 da nossa maltratada Constitui\u00e7\u00e3o, que cuida das atribui\u00e7\u00f5es do STF.<\/p>\n<p>O Executivo parece ressentir-se do cerco, enfraquecido em face das articula\u00e7\u00f5es levadas a cabo com o presidente da C\u00e2mara e gerente do &#8220;Centr\u00e3o&#8221; que desnaturaram o minist\u00e9rio original, pre\u00e7o cobrado para evitar as amarguras que marcaram o frustrado segundo governo Dilma, aquele que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>Enquanto Congresso e STF disputam a cogest\u00e3o, os militares voltam a agir como um poder aut\u00f4nomo e, perigosamente para a democracia enferma, tudo permanece como dantes no castelo de Abrantes. Ou seja, \u00e0 margem da sociedade real.<\/p>\n<p><strong>*Ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia no primeiro governo Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na sequ\u00eancia do \u00f3bito do &#8220;presidencialismo de coaliz\u00e3o&#8221;, um invento acad\u00eamico, vivenciamos significativas altera\u00e7\u00f5es no funcionamento das institui\u00e7\u00f5es. De apar\u00eancia superficial, elas no entanto podem resultar em dist\u00farbios estruturais na natureza do regime, mutante a partir do jogo das for\u00e7as pol\u00edticas do sistema. Evidentemente sem jamais amea\u00e7ar os interesses da classe dominante. 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