{"id":314480,"date":"2023-10-11T08:27:03","date_gmt":"2023-10-11T11:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=314480"},"modified":"2023-10-11T08:27:03","modified_gmt":"2023-10-11T11:27:03","slug":"terra-da-malandragem-rio-faz-festa-ate-para-enterrar-o-pinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/terra-da-malandragem-rio-faz-festa-ate-para-enterrar-o-pinto\/","title":{"rendered":"Terra da malandragem, Rio faz festa at\u00e9 para enterrar o Pinto"},"content":{"rendered":"<p>Celeiros de grandes manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, culturais e sociais, as periferias das grandes cidades, notadamente as do Rio de Janeiro, s\u00e3o f\u00e1bricas de craques de futebol, de sambistas, de mestres de gafieira, de dan\u00e7arinos multim\u00eddias e, lamentavelmente, de reis do crime. Como escrevi recentemente, no mesmo patamar dos bailes funk e das feijoadas com pagode, os vel\u00f3rios na ex-Cidade Maravilhosa s\u00e3o motes para longas e inesquec\u00edveis festas. Depois de 12, 13 horas de convers\u00ea, paquera, beberagem, piadas em profus\u00e3o e muita, muita cacha\u00e7a, o defunto s\u00f3 \u00e9 lembrado quando o padre ensaia o Pai Nosso ou quando o coveiro toca o sino que indica a hora de adentrar a morada final. \u00c9 a\u00ed que a turma da vela\u00e7\u00e3o procura saber o nome do morto.<\/p>\n<p>L\u00e1 do fundo da capela algu\u00e9m grita: \u00c9 seu Pinto, que passou dessa para melhor por conta de um mal s\u00fabito. Mal s\u00fabito? Deixa pra l\u00e1. Morreu e agora vamos enterrar o Pinto e cuidar de dona Pinta. Quem se habilita? Como supostamente se trata de uma balzaquiana quase donzela, h\u00e1 sempre unanimidade entre os vivos. Dizem as m\u00e1s l\u00ednguas que a disputa normalmente fica entre os dois mais encorpados nativos do bairro. A bem da verdade, o encorpamento \u00e9 simbolicamente f\u00edsico, pois viuvez feminina \u00e9 um estado de esp\u00edrito e gera o tal do topa tudo pelo prazer. Por isso, a necessidade de pensar no futuro obriga a mo\u00e7oila de preto a esquecer bonitezas e buscar a fus\u00e3o perfeita entre as coisas, isto \u00e9, o am\u00e1lgama, que \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o da falta disso com a aus\u00eancia daquilo. \u00c9 isso que d\u00e1 liga.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 quando a comunidade inteira sabe que os dois chegavam juntos bem antes do seu Pinto desviver. Enterraram o Pinto, mas as maledic\u00eancias, geralmente causadas pela inveja, n\u00e3o cessam. Eu, por exemplo, n\u00e3o gosto de fofoca, mas n\u00e3o consigo guardar segredo. Dizer que dona Pinta ciscava de costas e de frente talvez seja um franciscano pleonasmo. N\u00e3o interessa. Importante \u00e9 que a vi\u00fava sabia entrar para dentro e sair para fora. Embora redund\u00e2ncia rime com abund\u00e2ncia, devo dizer que, no caso em quest\u00e3o, o chifre trocado n\u00e3o d\u00f3i. Ali\u00e1s, esse trem antigo apelidado de chifre \u00e9 somente uma coisa que colocam, tempor\u00e1ria ou definitivamente, em nossas cabe\u00e7as. Incomoda, mas n\u00e3o d\u00f3i, principalmente se \u00e9 corno do corno.<\/p>\n<p>Engana-se quem acredita que aquele calombo que nasce e cresce na testa dos homens \u2013 eventualmente no das mulheres \u2013 \u00e9 coisa do modernismo. E n\u00e3o \u00e9 liberdade po\u00e9tica. Os cornos s\u00e3o origin\u00e1rios dos tempos dos imperadores. Quem nunca leu a hist\u00f3ria do ditador J\u00falio C\u00e9sar e de sua segunda mulher, Pomp\u00e9ia Sula, aquela a quem nunca bastou ser honesta. Ela tinha de parecer honesta. Tudo porque o louco e apaixonado Publius Clodius, fantasiado de tocadora de lira, clandestinamente entrou na festa que Pompeia havia promovido apenas para mulheres. Conta a hist\u00f3ria que n\u00e3o aconteceu, mas, como todo castigo para corno \u00e9 pouco, o tirano J\u00falio C\u00e9sar pediu o div\u00f3rcio, sob a alega\u00e7\u00e3o de que \u201ca mulher de C\u00e9sar deve estar acima de qualquer suspeita\u201d.<\/p>\n<p>Desconhe\u00e7o qualquer safadeza surub\u00e1tica de Nero, o h\u00e9tero (?), mas, nos bastidores do Congresso Nacional, corre \u00e0 boca pequena que o ca\u00e7ador J\u00falio C\u00e9sar, enquanto marido de Calp\u00farnia, pegava a belezura da Cle\u00f3patra, ex-mulher de Ptolomeu XIII. Eita que balb\u00fardia das boas. Mas o que tem a Roma antiga a ver com a profus\u00e3o de sons e de artistas das periferias das grandes cidades? Tudo. S\u00e3o as periferias que tamb\u00e9m colaboram com a produ\u00e7\u00e3o do que temos de pior em nossa sociedade: os pol\u00edticos, filhotes pe\u00e7onhentos de nossa apodrecida pol\u00edtica. Do mesmo modo que jamais consegui atinar para aquela quest\u00e3o il\u00f3gica sobre o ovo e a galinha, tamb\u00e9m nunca procurei saber a respeito da velocidade do cuspe, muito menos sobre quem veio primeiro: as prostitutas, as carpideiras ou os pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Nunca soube dos ovos do Pinto. Na verdade, nunca quis saber. Sei apenas que minha narrativa est\u00e1 chegando ao fim e ainda n\u00e3o encontrei um prenome para o finado Pinto. N\u00e3o poderia encerrar t\u00e3o afetiva hist\u00f3ria sem lembrar que, no momento em que enterravam o Pinto, dona Pinta teve um princ\u00edpio de siricutico, caiu em si, perdeu-se em saudades e, por pouco, n\u00e3o ocorreu ali mesmo um ato pra l\u00e1 de cabuloso. Al\u00e9m da profus\u00e3o de cornos, um bando de carpideiras (algumas com pinta de que j\u00e1 haviam provado do Pinto) contiveram a ensandecida vi\u00fava. Antes que algum desavisado confunda prostitutas e carpideiras com pol\u00edticos, devo registrar que as primeiras s\u00e3o m\u00e3es zelosas e as segundas mo\u00e7as de fam\u00edlia pagas para chorar em vel\u00f3rios. Embora sejam filhos de ambas, os pol\u00edticos nem sempre conseguem se livrar daquele apelido medonho de bons filhos&#8230; da m\u00e3e.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celeiros de grandes manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, culturais e sociais, as periferias das grandes cidades, notadamente as do Rio de Janeiro, s\u00e3o f\u00e1bricas de craques de futebol, de sambistas, de mestres de gafieira, de dan\u00e7arinos multim\u00eddias e, lamentavelmente, de reis do crime. 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