{"id":314530,"date":"2023-10-12T12:13:11","date_gmt":"2023-10-12T15:13:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=314530"},"modified":"2023-10-12T12:13:11","modified_gmt":"2023-10-12T15:13:11","slug":"mudanca-climatica-antecipa-onda-de-calor-em-30-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mudanca-climatica-antecipa-onda-de-calor-em-30-anos\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7a clim\u00e1tica antecipa onda de calor em 30 anos"},"content":{"rendered":"<p>O brasileiro, em geral, tem uma rela\u00e7\u00e3o de amor com o calor. Hoje \u00e9 feriado e tudo o que a maioria de n\u00f3s quer \u00e9 aproveitar o dia quente, de prefer\u00eancia na praia, na piscina, num parque, num rio. Brincando numa tina d&#8217;\u00e1gua, que seja. A gente tende a n\u00e3o achar o calor um problema. Somos um pa\u00eds tropical. Calor \u00e9 normal pra gente.<\/p>\n<p>E quando n\u00e3o \u00e9? &#8220;Ah, Giovana, n\u00e3o venha me falar, justo hoje, que n\u00e3o \u00e9 pra gostar de calor&#8221;, imaginando o caro leitor pensando. Nada&#8230; eu at\u00e9 gosto. Quando estou de folga, o que n\u00e3o \u00e9 o caso hoje \u2013 mas juro que n\u00e3o estou aqui azarando o seu descanso!<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9: e quando n\u00e3o \u00e9 normal?<\/p>\n<p>A gente teve uma experi\u00eancia bizarra disso recentemente. Aquela onda de calor que atingiu o Brasil e a Am\u00e9rica do Sul em setembro, ainda antes mesmo de acabar com o inverno, com temperaturas passando de 40\u00baC em v\u00e1rias partes do pa\u00eds e v\u00e1rios recordes de calor quebrados, n\u00e3o foi normal.<\/p>\n<p>&#8221; Porque todo o clima j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais normal. O calor\u00e3o de setembro foi pelo menos 100 vezes mais prov\u00e1vel de acontecer por causa das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Porque n\u00f3s, humanos, j\u00e1 alteramos o clima de tal maneira que ondas de calor extremo est\u00e3o muito mais comuns de acontecer do que antes&#8221;.<\/p>\n<p>Esse c\u00e1lculo foi divulgado por um grupo de cientistas do Brasil e do exterior no come\u00e7o desta semana. Eles fizeram uma an\u00e1lise conhecida como &#8220;estudo de atribui\u00e7\u00e3o&#8221;, que busca avaliar a probabilidade de as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas atuais do planeta \u2013 como a enorme quantidade de g\u00e1s carb\u00f4nico que est\u00e1 acumulada na atmosfera por causa da nossa queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis, desmatamento e agropecu\u00e1ria \u2013 influenciar ou n\u00e3o a ocorr\u00eancia de um determinado evento.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 tentar medir se uma dada ocorr\u00eancia se deu apenas dentro da varia\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica natural do planeta \u2013 sim, mesmo sem aquecimento global, eventos extremos acontecem de vez em quando \u2013, ou se ela seria muito improv\u00e1vel de ocorrer se n\u00e3o fosse justamente o estresse extra a que a Terra est\u00e1 sujeita.<\/p>\n<p>E a conclus\u00e3o foi que as temperaturas do per\u00edodo teriam sido de 1,4\u00baC a 4,3\u00baC mais baixas se n\u00f3s n\u00e3o estiv\u00e9ssemos aquecendo o planeta com nossas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa. Se a temperatura m\u00e9dia do planeta continuar subindo, esses eventos ficar\u00e3o ainda mais comuns e mais quentes.<\/p>\n<p>Com um aquecimento global de 2\u00baC acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais, ondas de calor como essa podem ser ainda cinco vezes mais prov\u00e1vel de ocorrer do que j\u00e1 foi hoje, e ainda de 1,1\u00baC a 1,6\u00baC mais quente.<\/p>\n<p>Bati um papo r\u00e1pido com o pesquisador brasileiro Lincoln Alves, do Inpe, que faz parte do World Weather Attribution \u2013 o grupo que conduziu o estudo, e perguntei se ele tinha se surpreendido com os resultados. Alves \u00e9 membro do IPCC, o painel cient\u00edfico da ONU sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que vem alertando h\u00e1 d\u00e9cadas sobre o problema.<\/p>\n<p>E ele me respondeu com um riso nervoso: &#8220;O que nos surpreende \u00e9 que aquilo que a gente projetava que iria acontecer num horizonte de 30 anos j\u00e1 est\u00e1 acontecendo agora.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a onda de calor do Brasil. O mesmo grupo analisou neste ano, por exemplo, os intensos inc\u00eandios florestais que atingiram o Canad\u00e1, a extrema onda de calor que atingiu a Europa, a Am\u00e9rica do Norte e a China em julho, e as tempestades que atingiram o Mediterr\u00e2neo, em especial a L\u00edbia, em setembro. Todos esses eventos foram piorados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A ideia de analisar rapidamente o que tinha acabado de acontecer no Brasil foi justamente uma tentativa de mostrar que nada do que est\u00e1 acontecendo \u00e9 mais normal. &#8220;Altas temperaturas fazem parte do cotidiano das pessoas no Brasil e por causa disso n\u00e3o se leva muito em considera\u00e7\u00e3o o impacto que o calor tem na vida, tanto do ponto de vista ambiental \u2013 o calor traz seca, tem impacto na agricultura, nos recursos h\u00eddricos \u2013, mas no pr\u00f3prio bem estar das pessoas&#8221;, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Mas, em geral, esses impactos demoram a ser sentidos ou contabilizados. O impacto direto do calor\u00e3o na sa\u00fade, por exemplo, demora para ser medido. S\u00f3 em julho, um ano depois da onda de calor que atingiu a Europa no ver\u00e3o de 2022, saiu um estudo na revista Nature Medicine estimando que mais de 61 mil mortes podem ter morrido em decorr\u00eancia das altas temperaturas.<\/p>\n<p>O ver\u00e3o de 2022 tinha sido o mais quente do registro hist\u00f3rico na regi\u00e3o. O de 2023 o superou. Organiza\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas estimam que este deve ser o ano mais quente desde o in\u00edcio das medi\u00e7\u00f5es, no fim do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Os pesquisadores tamb\u00e9m quiseram analisar a onda de calor porque este \u00e9 um ano de ocorr\u00eancia do El Ni\u00f1o, o fen\u00f4meno natural de aquecimento das \u00e1guas do Pac\u00edfico que sempre acaba impactando o clima no Brasil. Muito do que est\u00e1 acontecendo, como a seca no Amazonas e as chuvas no sul do pa\u00eds, se imagina que esteja apenas na conta dele. Mas o estudo considerou que, para a nossa onda de calor, o El Ni\u00f1o pode at\u00e9 ter tido alguma influ\u00eancia, mas o principal motivo foram mesmo as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 importante porque, de novo, n\u00e3o d\u00e1 mais para olhar um ano de El Ni\u00f1o apenas com base em como foram anos anteriores em que o fen\u00f4meno ocorreu. Em um planeta mais quente, em que atmosfera e oceanos como um todo est\u00e3o muito mais quentes, o futuro n\u00e3o \u00e9 mais como era antigamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O brasileiro, em geral, tem uma rela\u00e7\u00e3o de amor com o calor. Hoje \u00e9 feriado e tudo o que a maioria de n\u00f3s quer \u00e9 aproveitar o dia quente, de prefer\u00eancia na praia, na piscina, num parque, num rio. Brincando numa tina d&#8217;\u00e1gua, que seja. A gente tende a n\u00e3o achar o calor um problema. 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