{"id":314532,"date":"2023-10-12T12:29:53","date_gmt":"2023-10-12T15:29:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=314532"},"modified":"2023-10-12T12:29:53","modified_gmt":"2023-10-12T15:29:53","slug":"revoltas-populares-criam-imenso-barril-de-polvora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/revoltas-populares-criam-imenso-barril-de-polvora\/","title":{"rendered":"Revoltas populares criam imenso barril de p\u00f3lvora"},"content":{"rendered":"<p>Houve uma d\u00e9cada de revoltas populares de 2010 at\u00e9 \u00e0 pandemia em 2020. Essas revoltas abalaram os alicerces da ordem global. Denunciaram a domina\u00e7\u00e3o corporativa, os cortes de austeridade e exigiram justi\u00e7a econ\u00f3mica e direitos civis. Nos EUA houve protestos em todo o pa\u00eds centrados nos acampamentos do Occupy, que duraram 59 dias. Houve erup\u00e7\u00f5es populares na Gr\u00e9cia, Espanha, Tun\u00edsia, Egito, Bahrein, I\u00eamen, S\u00edria, L\u00edbia, Turquia, Brasil, Ucr\u00e2nia, Hong Kong, Chile e durante a Revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 Luz de Velas da Coreia do Sul. Pol\u00edticos desacreditados foram demitidos na Gr\u00e9cia, Espanha, Ucr\u00e2nia, Coreia do Sul, Egito, Chile e Tun\u00edsia.<\/p>\n<p>A reforma, ou pelo menos a promessa dela, dominou o discurso p\u00fablico. Parecia anunciar uma nova era. Depois veio a ressaca. As aspira\u00e7\u00f5es dos movimentos populares foram esmagadas. O controle estatal e a desigualdade social expandiram-se. N\u00e3o houve mudan\u00e7a significativa. Na maioria dos casos, as coisas pioraram. A extrema direita emergiu triunfante.<\/p>\n<p>O que aconteceu? Como \u00e9 que uma d\u00e9cada de protestos em massa que pareciam anunciar a abertura democr\u00e1tica, o fim da repress\u00e3o estatal, um enfraquecimento do dom\u00ednio das corpora\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es financeiras globais e uma era de liberdade se transformou num fracasso ignominioso? O que correu mal? Como \u00e9 que os odiados banqueiros e pol\u00edticos mantiveram ou recuperaram o controlo? Quais s\u00e3o as ferramentas eficazes para nos livrarmos da domina\u00e7\u00e3o corporativa?<\/p>\n<p>Vincent Bevins, no seu novo livro \u201cIf We Burn: The Mass Protest Decade and the Missing Revolution\u201d, descreve como falhamos em diversas frentes.<\/p>\n<p>Os \u201ctecno-otimistas\u201d que pregavam que os novos media digitais eram uma for\u00e7a revolucion\u00e1ria e democratizante n\u00e3o previram que governos autorit\u00e1rios, empresas e servi\u00e7os de seguran\u00e7a interna poderiam aproveitar estas plataformas digitais e transform\u00e1-las em motores de vigil\u00e2ncia generalizada, censura e ve\u00edculos de propaganda e desinforma\u00e7\u00e3o. As plataformas de redes sociais que possibilitaram os protestos populares voltaram-se contra n\u00f3s.<\/p>\n<p>Muitos movimentos de massas, por n\u00e3o terem conseguido implementar estruturas organizacionais hier\u00e1rquicas, disciplinadas e coerentes, foram incapazes de se defenderem. Nos poucos casos em que movimentos organizados alcan\u00e7aram o poder, como na Gr\u00e9cia e nas Honduras, os financiadores e as empresas internacionais conspiraram para recuperar o poder. Na maioria dos casos, a classe dominante preencheu rapidamente os vazios de poder criados por estes protestos. Ofereceram novas marcas para reembalar o sistema antigo. Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual a campanha de Obama de 2008 foi nomeada campe\u00e3 de marketing do ano pela Advertising Age. Ganhou o voto de centenas de profissionais de marketing, chefes de ag\u00eancias e fornecedores de servi\u00e7os de marketing reunidos na confer\u00eancia anual da Associa\u00e7\u00e3o de Anunciantes Nacionais. Venceu os vice-campe\u00f5es Apple e Zappos.com. Os profissionais sabiam. A marca Obama era o sonho de um profissional de marketing.<\/p>\n<p>Muitas vezes, os protestos assemelhavam-se a manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, com pessoas a invadir espa\u00e7os p\u00fablicos e a criar um espet\u00e1culo medi\u00e1tico, em vez de se envolverem numa rutura sustentada, organizada e prolongada do poder. Guy Debord captura a futilidade desses espet\u00e1culos\/protestos no seu livro \u201cSociedade do Espet\u00e1culo\u201d, observando que a era do espet\u00e1culo significa que aqueles fascinados por suas imagens s\u00e3o \u201cmoldados \u00e0s suas leis\u201d.<\/p>\n<p>Anarquistas e antifascistas, como os do bloco negro, muitas vezes quebravam janelas, atiravam pedras contra a pol\u00edcia e derrubavam ou queimavam carros. Atos aleat\u00f3rios de viol\u00eancia, saques e vandalismo foram justificados no jarg\u00e3o do movimento, como componentes de \u201cselvagem\u201d ou \u201cinsurrei\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea\u201d. Est\u00e1 \u201cpornografia de motins\u201d encantou os media, muitos dos que nela se envolveram e, n\u00e3o por coincid\u00eancia, a classe dominante que a utilizou para justificar mais repress\u00e3o e demonizar os movimentos de protesto. A aus\u00eancia de teoria pol\u00edtica levou os ativistas a utilizarem a cultura popular, como o filme \u201cV de Vingan\u00e7a\u201d, como pontos de refer\u00eancia. As ferramentas muito mais eficazes e incapacitantes de campanhas educativas de base, greves e boicotes foram frequentemente ignoradas ou marginalizadas.<\/p>\n<p>Karl Marx dizia a prop\u00f3sito: \u201cAqueles que n\u00e3o conseguem representar-se ser\u00e3o representados\u201d.<\/p>\n<p>Vincent Bevins no seu novo livro \u201cIf We Burn: The Mass Protest Decade and the Missing Revolution\u201d faz uma disseca\u00e7\u00e3o brilhante e magistralmente relatada sobre a ascens\u00e3o dos movimentos populares globais, os erros autodestrutivos cometidos, as estrat\u00e9gias que as elites corporativas e governantes empregaram para manter o poder e esmagar as aspira\u00e7\u00f5es de uma popula\u00e7\u00e3o frustrada, bem como uma explora\u00e7\u00e3o das t\u00e1ticas que os movimentos populares devem empregar para contra-atacar com sucesso.<\/p>\n<p>\u201cNa d\u00e9cada dos protestos de massas, as explos\u00f5es nas ruas criaram situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, muitas vezes por acidente\u201d, escreve Bevins. \u201cMas um protesto est\u00e1 muito mal equipado para tirar vantagem de uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, e esse tipo espec\u00edfico de protesto \u00e9 especialmente mau nisso.\u201d<\/p>\n<p>Ativistas experientes entrevistados por Bevins concordam com este ponto.<\/p>\n<p>\u201cOrganizem-se\u201d, diz Hossam Bahgat, o ativista eg\u00edpcio dos direitos humanos, a Bevin no livro. \u201cCriem um movimento organizado. E n\u00e3o tenham medo da representa\u00e7\u00e3o. Pens\u00e1vamos que representa\u00e7\u00e3o era elitismo, mas na verdade \u00e9 a ess\u00eancia da democracia.\u201d<\/p>\n<p>O esquerdista ucraniano Artem Tidva concorda. \u201cEu costumava ser mais anarquista\u201d, diz Tidva no livro. \u201cNaquela altura todos queriam fazer uma assembleia; sempre que havia um protesto, tinha que haver uma assembleia. Mas penso que qualquer revolu\u00e7\u00e3o sem um partido trabalhista organizado apenas dar\u00e1 mais poder \u00e0s elites econ\u00f3micas, que j\u00e1 est\u00e3o muito bem organizadas.\u201d<\/p>\n<p>O historiador Crane Brinton, no seu livro \u201cThe Anatomy of Revolution\u201d, escreve que as revolu\u00e7\u00f5es t\u00eam pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es discern\u00edveis. Ele cita o descontentamento que afeta quase todas as classes sociais, sentimentos generalizados de aprisionamento e desespero, expetativas n\u00e3o concretizadas, uma solidariedade unificada contra uma pequena elite no poder, uma recusa por parte de acad\u00e9micos e pensadores em continuar a defender as a\u00e7\u00f5es da classe dominante, uma incapacidade do governo para responder \u00e0s necessidades b\u00e1sicas dos cidad\u00e3os, uma perda constante de vontade dentro da pr\u00f3pria elite no poder e deser\u00e7\u00f5es do n\u00facleo duro, um isolamento paralisante que deixa a elite no poder sem quaisquer aliados ou apoio externo e, finalmente, uma crise financeira. As revolu\u00e7\u00f5es come\u00e7am sempre, escreve ele, fazendo exig\u00eancias imposs\u00edveis que, se o governo as cumprisse, significariam o fim das antigas configura\u00e7\u00f5es de poder. Mas o mais importante \u00e9 que os regimes desp\u00f3ticos colapsam sempre primeiro por dentro. Quando sectores do aparelho governativo \u2013 pol\u00edcia, servi\u00e7os de seguran\u00e7a, sistema judici\u00e1rio, media, burocratas governamentais \u2013 deixarem de atacar, prender, encarcerar ou atirar sobre manifestantes, quando deixarem de obedecer \u00e0s ordens, o velho e desacreditado regime ficar\u00e1 paralisado e terminal.<\/p>\n<p>Mas estas formas internas de controlo durante a d\u00e9cada de protestos raramente vacilaram. Podem, como no Egipto, virar-se contra as figuras de proa do antigo regime, mas tamb\u00e9m trabalharam para minar os movimentos populares e os l\u00edderes populistas. Eles sabotaram os esfor\u00e7os para arrancar o poder das corpora\u00e7\u00f5es globais e dos oligarcas. Eles impediram ou demitiram os populistas. A campanha cruel travada contra Jeremy Corbyn e seus apoiantes quando liderava o Partido Trabalhista durante as elei\u00e7\u00f5es gerais do Reino Unido de 2017 e 2019, por exemplo, foi orquestrada por membros do seu pr\u00f3prio partido, corpora\u00e7\u00f5es, a oposi\u00e7\u00e3o conservadora, comentadores famosos, uma grande imprensa que ampliou as difama\u00e7\u00f5es e assassinatos de car\u00e1ter, membros do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico e os servi\u00e7os de seguran\u00e7a do pa\u00eds. Sir Richard Dearlove, antigo chefe do MI6, a secreta brit\u00e2nica, advertiu publicamente que o l\u00edder trabalhista era um \u201cperigo atual para o nosso pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas disciplinadas n\u00e3o s\u00e3o, por si s\u00f3, suficientes, como provou o governo de esquerda Syriza [NR] da Gr\u00e9cia. Se a lideran\u00e7a de um partido anti-sistema n\u00e3o estiver disposta a libertar-se das estruturas de poder existentes, ser\u00e1 cooptada ou esmagada quando as suas exig\u00eancias forem rejeitadas pelos centros de poder reinantes. Em 2015, \u201ca lideran\u00e7a do Syriza estava convencida de que se rejeitasse um novo resgate, os credores europeus cederiam face \u00e0 agita\u00e7\u00e3o financeira e pol\u00edtica generalizada\u201d, diz Costas Lapavitsas, antigo deputado do Syriza e professor de economia na Escola de Economia Oriental e Estudos Africanos, Universidade de Londres, em 2016.<\/p>\n<p>\u201cCr\u00edticos bem-intencionados salientaram repetidamente que o euro tinha um conjunto r\u00edgido de institui\u00e7\u00f5es com a sua pr\u00f3pria l\u00f3gica interna que simplesmente rejeitaria as exig\u00eancias de abandono da austeridade e amortiza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida\u201d, explicou Lapivistas. \u201cAl\u00e9m disso, o Banco Central Europeu estava pronto a restringir o fornecimento de liquidez aos bancos gregos, estrangulando a economia \u2013 e com ela o governo Syriza.\u201d Foi precisamente isso que aconteceu.<\/p>\n<p>\u201cAs condi\u00e7\u00f5es no pa\u00eds tornaram-se cada vez mais desesperadas \u00e0 medida que o governo absorvia as reservas de liquidez, os bancos secavam e a economia mal funcionava\u201d, escreveu Lapivistas. \u201cO Syriza \u00e9 o primeiro exemplo de um governo de esquerda que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o cumpriu as suas promessas, como tamb\u00e9m adotou o programa da oposi\u00e7\u00e3o, por atacado.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o tendo conseguido obter quaisquer compromissos da Troika \u2013 Banco Central Europeu, Comiss\u00e3o Europeia e FMI \u2013 o Syriza \u201cadotou uma dura pol\u00edtica de excedentes or\u00e7amentais, aumentou impostos e vendeu bancos gregos a fundos especulativos, privatizou aeroportos e portos, e est\u00e1 prestes a cortar pens\u00f5es. O novo resgate condenou uma Gr\u00e9cia atolada em recess\u00e3o a um decl\u00ednio a longo prazo, uma vez que as perspectivas de crescimento s\u00e3o fracas, os jovens instru\u00eddos est\u00e3o a emigrar e a d\u00edvida nacional pesa fortemente\u201d, escreveu ele. \u201cO Syriza falhou n\u00e3o porque a austeridade seja invenc\u00edvel, nem porque uma mudan\u00e7a radical seja imposs\u00edvel, mas porque, desastrosamente, n\u00e3o estava disposto e n\u00e3o estava preparado para desafiar diretamente o euro\u201d, observou Lapavitsas. \u201cA mudan\u00e7a radical e o abandono da austeridade na Europa exigem um confronto direto com a pr\u00f3pria uni\u00e3o monet\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo iraniano-americano Asef Bayat, que viveu tanto a Revolu\u00e7\u00e3o Iraniana em 1979 em Teer\u00e3o como a revolta de 2011 no Egito, distingue entre condi\u00e7\u00f5es subjetivas e objetivas para as revoltas da Primavera \u00c1rabe que eclodiram em 2010. Os manifestantes podem ter-se oposto \u00e0s pol\u00edticas neoliberais, mas tamb\u00e9m foram moldados pela \u201csubjetividade\u201d neoliberal. \u201cAs revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes careciam do tipo de radicalismo que marcou a maioria das outras revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX\u201d, escreve Bayat no seu livro \u201cRevolu\u00e7\u00e3o sem Revolucion\u00e1rios: Entendendo a Primavera \u00c1rabe\u201d. \u201cAo contr\u00e1rio das revolu\u00e7\u00f5es da d\u00e9cada de 1970 que adotaram um poderoso impulso socialista, anti-imperialista, anticapitalista e de justi\u00e7a social, os revolucion\u00e1rios \u00e1rabes estavam mais preocupados com as quest\u00f5es gerais dos direitos humanos, da responsabilidade pol\u00edtica e da reforma jur\u00eddica. As vozes predominantes, tanto seculares como isl\u00e2micas, consideravam o mercado livre, as rela\u00e7\u00f5es de propriedade e a racionalidade neoliberal como garantidas \u2013 uma vis\u00e3o de mundo acr\u00edtica que apenas defenderia da boca para fora as preocupa\u00e7\u00f5es genu\u00ednas das massas pela justi\u00e7a social e distribui\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Como escreve Bevins, uma \u201cgera\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos criados para ver tudo como se fosse um empreendimento comercial foi desradicalizada, passou a ver esta ordem global como \u2018natural\u2019 e tornou-se incapaz de imaginar o que \u00e9 necess\u00e1rio para realizar uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o.\u201d Steve Jobs, o CEO da Apple, morreu em outubro de 2011 durante o acampamento Occupy no Parque Zuccotti. Para minha consterna\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios dos que estavam no acampamento queriam fazer um memorial em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>As revoltas populares, escreve Bevins, \u201cfizeram um excelente trabalho ao abrir buracos nas estruturas sociais e criar v\u00e1cuos pol\u00edticos\u201d. Mas os vazios de poder foram rapidamente preenchidos no Egipto pelos militares, no Bahrein, pela Ar\u00e1bia Saudita e pelo Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo e em Kiev, por um \u201cconjunto diferente de oligarcas e nacionalistas militantes bem organizados\u201d. Na Turquia, acabou sendo preenchido por Recep Tayyip Erdo\u011fan. Em Hong Kong foi Pequim.<\/p>\n<p>\u201cO protesto de massas estruturado horizontalmente, coordenado digitalmente e sem lideran\u00e7a \u00e9 fundamentalmente ileg\u00edvel\u201d, escreve Bevins. \u201cN\u00e3o see pode olhar para isso ou fazer perguntas e chegar a uma interpreta\u00e7\u00e3o coerente baseada em evid\u00eancias. Pode-se reunir factos, com certeza \u2013 milh\u00f5es deles. Mas n\u00e3o seremos capazes de us\u00e1-los para construir uma leitura confi\u00e1vel. Isto significa que o significado destes eventos ser-lhes-\u00e1 imposto de fora. Para compreender o que pode acontecer ap\u00f3s qualquer explos\u00e3o de protesto, n\u00e3o devemos apenas prestar aten\u00e7\u00e3o a quem est\u00e1 \u00e0 espera nos bastidores para preencher um v\u00e1cuo de poder. \u00c9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o em quem tem o poder de definir o levante em si.\u201d<\/p>\n<p>Em suma, devemos opor o poder organizado ao poder organizado. Esta \u00e9 uma verdade que estrategistas revolucion\u00e1rios como Vladimir Lenin, que viam a viol\u00eancia anarquista como contraproducente, entenderam. A falta de estruturas hier\u00e1rquicas nos recentes movimentos de massas, feita para impedir um culto \u00e0 lideran\u00e7a e garantir que todas as vozes fossem ouvidas, embora nobre nas suas aspira\u00e7\u00f5es, tornou os movimentos presas f\u00e1ceis. Na \u00e9poca em que o Parque Zuccotti contava com centenas de pessoas participando das Assembleias Gerais, por exemplo, a prolifera\u00e7\u00e3o de vozes e opini\u00f5es significou paralisia.<\/p>\n<p>\u201cSem uma teoria revolucion\u00e1ria, n\u00e3o pode haver movimento revolucion\u00e1rio\u201d, escreve Lenin. As revolu\u00e7\u00f5es exigem organizadores qualificados, autodisciplina, uma vis\u00e3o ideol\u00f3gica alternativa, arte e educa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1rias. Requerem ruturas sustentadas do poder e, sobretudo, l\u00edderes que representem o movimento. As revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o projetos longos e dif\u00edceis que levam anos para serem realizados, destruindo lenta e muitas vezes imperceptivelmente os alicerces do poder. As revolu\u00e7\u00f5es bem sucedidas do passado, juntamente com os seus te\u00f3ricos, deveriam ser o nosso guia, e n\u00e3o as imagens ef\u00e9meras que nos impressionam na m\u00eddia dominante.<\/p>\n<p><strong>* Jornalista, Pr\u00e9mio Pullitzer<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve uma d\u00e9cada de revoltas populares de 2010 at\u00e9 \u00e0 pandemia em 2020. Essas revoltas abalaram os alicerces da ordem global. Denunciaram a domina\u00e7\u00e3o corporativa, os cortes de austeridade e exigiram justi\u00e7a econ\u00f3mica e direitos civis. Nos EUA houve protestos em todo o pa\u00eds centrados nos acampamentos do Occupy, que duraram 59 dias. 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