{"id":314816,"date":"2023-10-17T08:38:38","date_gmt":"2023-10-17T11:38:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=314816"},"modified":"2023-10-17T12:40:10","modified_gmt":"2023-10-17T15:40:10","slug":"diversao-manual-embalada-pelo-catecismo-de-zefiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/diversao-manual-embalada-pelo-catecismo-de-zefiro\/","title":{"rendered":"Divers\u00e3o manual embalada pelo \u201ccatecismo\u201d de Z\u00e9firo"},"content":{"rendered":"<p>Disc\u00edpulo ainda erecto dos quadrinhos pouco republicanos de Carlos Z\u00e9firo, o \u201ccatecismo\u201d de 11 entre dez meninos das d\u00e9cadas de 50, 60 e 70, sobrevivi, mas as m\u00e3os at\u00e9 hoje se ressentem dos calos decorrentes das picantes hist\u00f3rias desenhadas e publicadas, paralela e dissimuladamente, por Alcides Aguiar Caminha. Desenhista, ilustrador, compositor e, nas horas vagas, funcion\u00e1rio da Divis\u00e3o de Imigra\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho, Caminha, um exemplar chefe de fam\u00edlia, metaforicamente carregou a minha por longo tempo. E sem deixar cair. Deixou de carregar com a chegada ao Brasil de um tal Hugh Hefner, fundador daquela abomin\u00e1vel revista porn\u00f4-er\u00f3tica Playboy, a publica\u00e7\u00e3o masculina mais vendida no mundo.<\/p>\n<p>Depois da Playboy, vieram outras despudoradas e profanas revistas de mulher pelada, entre elas Ele&amp;Ela, Status, Homem e Sexy, todas namoradas contumazes e manuais da molecada sem grana para a fren\u00e9tica frequ\u00eancia de uma tresloucada casa de sali\u00eancia. Gra\u00e7as ao Deus acima de tudo, minhas prefer\u00eancias sempre foram a Globo Rural, Capricho e S\u00e9timo C\u00e9u. De vez em quando me arriscava a ler Os Vingadores, Capit\u00e3o Marvel e Superman. Todas eram por demais agrad\u00e1veis, mas nem de longe glamourosas como os ensinamentos de Carlos Z\u00e9firo, pseud\u00f4nimo do bo\u00eamio, mas s\u00e9rio Alcides Caminha.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o aprendizado vespertino e obrigat\u00f3rio da tabuada, diariamente arrumava um tempo para rezar no \u201ccatecismo\u201d. A regra era clara: enquanto a m\u00e3o esquerda acordava o gigante adormecido, a m\u00e3o direita era posta nas costas at\u00e9 ficar dormente. Conclu\u00edda a devo\u00e7\u00e3o, come\u00e7ava a divers\u00e3o, que s\u00f3 acabava no \u00faltimo Pai Nosso da novena em homenagem \u00e0 vizinha do sobrado. O \u201ccatecismo\u201d era t\u00e3o sagrado para a gurizada erecta que, nos 70, incomodou o general que tiranicamente comandava o Brasil. Com o morto na sombra h\u00e1 tempos, sua excel\u00eancia do tronco mole determinou uma severa investiga\u00e7\u00e3o para descobrir o autor daquelas obras pornogr\u00e1ficas, sobre as quais ele certamente babava entre uma e outra tortura.<\/p>\n<p>Foram tantas as goza\u00e7\u00f5es (no literal) que, de forma coronel e generalizada, a investiga\u00e7\u00e3o terminou inconclusa. N\u00e3o havia como punir quem fazia tanto bem aos homens brasileiros. Vem dessa \u00e9poca alguns pensamentos filos\u00f3ficos s\u00e9rios e emblem\u00e1ticos, os quais carrego comigo at\u00e9 hoje. Por exemplo, o mais c\u00e9lebre \u00e9 assinado por Einstein: \u201cEu nunca penso no futuro. Ele vem em breve\u201d. O de Arist\u00f3teles n\u00e3o se aplica a mim: \u201cCasar ou ficar solteiro? Qualquer que seja a decis\u00e3o, vir\u00e1 o arrependimento\u201d. Me associo ao de Ren\u00e9 Descartes: \u201cO pouco que aprendi at\u00e9 agora \u00e9 quase nada, comparado ao que ignoro. Penso, logo existo\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, nenhum deles se iguala ao que cunhei logo ap\u00f3s o primeiro apelo manual na sequ\u00eancia do meu d\u00e9but na leitura ortodoxa e oxfordiana do \u201ccatecismo\u201d: Mais vale um seio na m\u00e3o do que dois no suti\u00e3. Mesmo sem o mesmo brilho de antes, continuo me valendo dele nos dias atuais. Sem o \u201ccatecismo\u201d \u00e0 m\u00e3o, passei a bengala para o Kid e hoje estou mais para o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, cuja m\u00e1xima \u00e9 an\u00e1rquica, clara, simples e definitiva: \u201cDe onde menos se espera da\u00ed \u00e9 que n\u00e3o sai nada\u201d. Esta \u00e9 a raz\u00e3o de eu ter incorporado o chap\u00e9u ao vestu\u00e1rio di\u00e1rio: fazer sombra para o morto. Lament\u00e1vel, mas nascemos juntos e ele morreu antes. Coisas da vida.<\/p>\n<p>Sobre Carlos Z\u00e9firo, fa\u00e7o minhas as palavras de M\u00e1rio Quintana: \u201cT\u00e3o bom morrer de amor e continuar vivo\u201d. Homem de v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es, Alcides Aguiar Caminha n\u00e3o viveu apenas para mostrar aos meninos dos anos 50, 60 e 70 que as m\u00e3os servem para v\u00e1rias coisas, inclusive para lavar o bilau em velocidades extremas. Como compositor, ele assinou numerosos sambas e can\u00e7\u00f5es, com destaque para alguns sambas de enredo para a Mangueira e para a imortal A Flor e o Espinho, escrita em parceria com Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. A identidade secreta de Alcides Caminha somente foi revelada em 1991, um ano antes de sua morte, devido a uma reportagem assinada pelo corintiano Juca Kfouri na revista Playboy. A exemplo de Elvis Presley, Carlos Z\u00e9firo n\u00e3o morreu. Ele ainda vive no imagin\u00e1rio dos meninos que ultrapassaram a flor da idade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disc\u00edpulo ainda erecto dos quadrinhos pouco republicanos de Carlos Z\u00e9firo, o \u201ccatecismo\u201d de 11 entre dez meninos das d\u00e9cadas de 50, 60 e 70, sobrevivi, mas as m\u00e3os at\u00e9 hoje se ressentem dos calos decorrentes das picantes hist\u00f3rias desenhadas e publicadas, paralela e dissimuladamente, por Alcides Aguiar Caminha. 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