{"id":315043,"date":"2023-10-19T14:18:55","date_gmt":"2023-10-19T17:18:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=315043"},"modified":"2023-10-19T14:19:01","modified_gmt":"2023-10-19T17:19:01","slug":"estrada-do-holocausto-do-povo-palestino-liga-nakba-a-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/estrada-do-holocausto-do-povo-palestino-liga-nakba-a-gaza\/","title":{"rendered":"Estrada do holocausto do povo palestino liga Nakba a Gaza"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;O povo alem\u00e3o \u00e9 um s\u00f3 corpo, mas sua integridade est\u00e1 amea\u00e7ada. Para manter a sa\u00fade do povo, \u00e9 preciso curar o corpo infestado de parasitas.&#8221; \u2013 Adolf Hitler, Minha Luta<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;Nem eletricidade, nem comida, nem \u00e1gua, nem g\u00e1s. Estamos lidando com animais humanos e agindo de acordo.&#8221; \u2013Yoav Gallant, Ministro da Defesa de Israel<\/em><\/p>\n<p>Concerto de elos, a Hist\u00f3ria \u00e9 tecida por fatos que se explicam uns pelos outros, como as ondas do mar, que se parecem aut\u00f4nomas, quando toda vaga \u00e9 a sequ\u00eancia da anterior e ao mesmo tempo o impulso da onda seguinte. Um feito, um evento, uma transforma\u00e7\u00e3o social, uma ruptura ou uma composi\u00e7\u00e3o explicam outros sucessos, numa cadeia de interdepend\u00eancia causal em que atuam elementos pol\u00edticos, econ\u00f4micos, culturais e sociais, em n\u00edveis que n\u00e3o podemos estabelecer \u00c9 essa correla\u00e7\u00e3o sequencial que d\u00e1 sentido aos acontecimentos e \u00e0 vida pol\u00edtica, o produto dial\u00e9tico do encontro do conflito com a harmonia, entre racionalidade e irracionalidade, arb\u00edtrio e necessidade, for\u00e7a e debilidades, contradi\u00e7\u00f5es e ant\u00edteses.<\/p>\n<p>O fato hist\u00f3rico \u00e9 sempre contingente, fixado em espa\u00e7o certo, fung\u00edvel e irrecuper\u00e1vel, n\u00e3o repet\u00edvel sen\u00e3o nas cl\u00e1ssicas forma\u00e7\u00f5es de farsa e trag\u00e9dia. Assim se explica porque o processo social \u00e9 um continuum: os mortos acicatam os vivos, e o passado n\u00e3o reconhece seu lugar; est\u00e1 sempre presente. Descurar a hist\u00f3ria \u00e9 a op\u00e7\u00e3o certa para o erro de avalia\u00e7\u00e3o, ou a medida certa para a interven\u00e7\u00e3o distorcida.<\/p>\n<p>Uma das formas mais corriqueiras de fugir da realidade, e assim fugir de seu significado para emprestar-lhe outro, \u00e9 trat\u00e1-lo como fen\u00f4meno isolado, aut\u00f4nomo, desistorizado. \u00c9 o que faz a grande imprensa ocidental <em>soi dissant<\/em> livre e isenta, embora dependente do grande capital internacional, que lhe fornece sumo e ideologia, e dita sua vers\u00e3o particular\u00edssima dos fatos, quando, sabidamente, a hist\u00f3ria \u00e9 uma sequ\u00eancia de causalidades. Como na ci\u00eancia, a hist\u00f3ria n\u00e3o conhece efeito sem causa: a &#8220;paz&#8221; s\u00f3 se proclama depois da guerra.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica, por\u00e9m, pode guardar conceitos distintos para fen\u00f4menos semelhantes. A chamada &#8220;opini\u00e3o p\u00fablica internacional&#8221; grafou como &#8220;crime contra o direito internacional&#8221; a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia por uma R\u00fassia que alegava o direito de defesa em face das amea\u00e7as \u00e0 sua seguran\u00e7a. E n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que se tratam de crimes, a invas\u00e3o e a ocupa\u00e7\u00e3o. Mas para a mesma opini\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o constituem crimes a invas\u00e3o de Gaza e o assassinato de milhares de civis. Ningu\u00e9m ousa chamar \u00e0s barras do tribunal penal internacional, como criminoso de guerra, que \u00e9, o comandante do ataque genocida contra os palestinos.<\/p>\n<p>A crise de hoje no Oriente m\u00e9dio chega como escombro das \u00faltimas guerras do mundo ocidental, e se insere no jogo da disputa geopol\u00edtica das \u00faltimas d\u00e9cadas \u2013 a mudan\u00e7a de guarda. E mais se acirra quanto mais os EUA desconfiam da fatalidade c\u00edclica de sua decad\u00eancia, que, no entanto, cobrar\u00e1 ainda muitas guerras at\u00e9 seu desfecho, que pode ser ou n\u00e3o o temido armagedon. Trata-se, por enquanto, a guerra de hoje, de cap\u00edtulo doloroso, mas ainda n\u00e3o o mais cruel, de um vasto derramamento de sangue. \u00c9 o raio antes da tempestade. At\u00e9 seu ep\u00edlogo viveremos, como vivemos, \u00e0 merc\u00ea de todas as guerras: a guerra econ\u00f4mica, os bloqueios, as guerras h\u00edbridas, as guerras aparentemente isoladas, a guerra ideol\u00f3gica preparando o terreno para o confronto de for\u00e7as e a domina\u00e7\u00e3o, escrevendo a vers\u00e3o dos fatos, que \u00e9 sempre a do vencedor.<\/p>\n<p>Em <em>O que fazer com o militar,<\/em>\u00a0Manuel Domingos Neto observa que todas as guerras compreendem o permanente combate de opini\u00e3o, a estrat\u00e9gica conquista de &#8220;cora\u00e7\u00f5es e mentes&#8221;. Essa infantaria prepara o desembarque dos &#8220;marines&#8221; de todos os ex\u00e9rcitos. Somos instrumento das disputas de espa\u00e7o, marcas do conflito que p\u00f5e em confronto as pot\u00eancias que conformam a disputa hegem\u00f4nica. Somos parte, pela simples condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia, mas sem podermos ser sujeito do processo hist\u00f3rico, ditado pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em uma geopol\u00edtica que nos \u00e9 imposta.<\/p>\n<p>A guerra \u00e9 mundial porque interfere nos interesses das for\u00e7as que disputam a hegemonia do globo. O conflito, que se instala no Oriente e divide os \u00e1rabes, j\u00e1 chegou \u00e0 Europa depois de contaminar a \u00c1sia e quase destruir a \u00c1frica, fen\u00f4meno pouco valorado porque n\u00e3o vitima brancos. Uma for\u00e7a \u00e9 o mar, outra o rochedo. Em meio ao entrechoque est\u00e1 o molusco, que s\u00e3o as periferias do poder. N\u00e3o disp\u00f5em de audi\u00eancia, nem s\u00e3o ouvidas quando ousam falar.<\/p>\n<p>A troca de mando \u00e0s vezes cobra s\u00e9culos, pede uma longa gesta\u00e7\u00e3o, lenta e grave, e a d\u00e9livrance \u00e9 de dif\u00edcil estimativa. Estamos em tr\u00e2nsito entre a pretens\u00e3o de unipolaridade comandada pelos EUA, no rasto da debacle da URSS, e a pretens\u00e3o de bipolaridade anunciada com a emerg\u00eancia da Eur\u00e1sia, liderada por uma China capitalista e poderosa. O poder n\u00e3o se compartilha, como ensinou Maquiavel e cantou o bardo com a triste saga do infeliz Rei Lear. Assim os principados, assim os imp\u00e9rios, assim as rep\u00fablicas, na guerra e na paz, que, no final das contas s\u00e3o irm\u00e3s siamesas.<\/p>\n<p>Em nome dessa beliger\u00e2ncia, necessidade do imp\u00e9rio, o primeiro-ministro de Israel se dirige aos palestinos, que sonha eliminar: &#8220;Vamos transformar Gaza numa ilha deserta. Aos cidad\u00e3os de Gaza eu digo: voc\u00eas devem partir agora. Vamos atacar todos e cada um dos cantos da faixa&#8221;.<\/p>\n<p>Mas os palestinos n\u00e3o t\u00eam para onde fugir, n\u00e3o mais est\u00e3o livres as grandes jornadas pelo Egito, embora carreguem nas costas o destino-penit\u00eancia que j\u00e1 foi dos hebreus. Fogem de casa para tentar sobreviver, mas n\u00e3o encontram trilha para caminhar, nem um Mois\u00e9s para lhes abrir o Mar Vermelho. N\u00e3o h\u00e1 mais Cana\u00e3 e dos palestinos foi tomada a terra prometida. A ONU, j\u00e1 sem raz\u00e3o de ser, n\u00e3o tem for\u00e7as sequer para negociar um corredor humanit\u00e1rio. Praticamente se limita a lan\u00e7ar apelos exasperados nas redes sociais, como o cidad\u00e3o comum, perplexo e impotente.<\/p>\n<p>Com seus mais de dois milh\u00f5es de habitantes, virtuais prisioneiros, o gueto de Gaza \u00e9 o maior e mais superlotado conjunto prisional do mundo. Algo como milhares de Carandirus a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 a pot\u00eancia que amea\u00e7a esmagar Gaza? Israel, Estado protetorado dos EUA, por quem \u00e9 armado, e hoje protegido pelo que o Imp\u00e9rio tem de mais sofisticado como arma de guerra; investe R$ 120 bilh\u00f5es nas suas for\u00e7as armadas e servi\u00e7os de seguran\u00e7a. Controla as fronteiras, os c\u00e9us, a costa mar\u00edtima, as telecomunica\u00e7\u00f5es e a economia da Palestina.<\/p>\n<p>Israel ocupa 22 mil km\u00b2 abrigando uma popula\u00e7\u00e3o de 9, 3 milh\u00f5es de habitantes. Gaza \u00e9 uma estreita faixa de 365 km\u00b2 esmagada entre o inimigo luciferino e o mar.<\/p>\n<p>O livro dessa hist\u00f3ria j\u00e1 tem muitas p\u00e1ginas vividas, e n\u00e3o h\u00e1 nada de novo no front. Entre 1933 e 1936, cerca de 60.000 judeus chegam \u00e0 Palestina, fugindo \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es do nazismo. Em 1948 a ONU consagra a funda\u00e7\u00e3o do Estado de Israel ocupando mais de 78% do territ\u00f3rio da Palestina. O pre\u00e7o n\u00e3o seria m\u00f3dico para os despejados: destru\u00eddas 530 aldeias, 15 mil palestinos assassinados, 750.000 condenados ao ex\u00edlio na sua pr\u00f3pria terra.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria se repete, como trag\u00e9dia. Gaza \u00e9 a Vars\u00f3via do s\u00e9culo XXI, sem os louros do hero\u00edsmo que adorna o Levante daqueles 60 mil judeus a quem s\u00f3 foi dado escolher o meio da morte certa: nas c\u00e2meras de exterm\u00ednio dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, ou na batalha desigual contra o opressor. Antes de se tornar a terra arrasada de hoje, Gaza, aquela estreita faixa espremida nas f\u00edmbrias do mar, era habitada por mais de dois milh\u00f5es de pessoas. Cabe-lhes agora, como coube aos judeus do Gueto, t\u00e3o-s\u00f3 escolher o instrumento da morte, muito pr\u00f3ximo do suic\u00eddio: permanecer sob os bombardeios ou seguir a di\u00e1spora for\u00e7ada, sem rumo, sem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Os judeus do Gueto optaram por morrer lutando, e lhes rendemos merecidas homenagens. Agora dizemos aos palestinos que n\u00e3o lutem.<\/p>\n<p>Gaza foi transformada em monstruoso gueto a c\u00e9u aberto. O massacre \u00e9 a Guernica do mal iniciado s\u00e9culo XXI, \u00e0 espera de um Picasso. Mas esse horror desperta apenas estupefa\u00e7\u00e3o, em meio \u00e0 indiferen\u00e7a e cinismo que confundem a moralmente imperiosa defesa da vida de palestinos e outros n\u00e3o-brancos como sauda\u00e7\u00e3o ao terrorismo, indefens\u00e1vel em quaisquer de suas a\u00e7\u00f5es. O manique\u00edsmo \u00e9 o mais primitivo dos julgamentos humanos.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as israelenses precisam voltar a suas casas em Israel s\u00e3s e salvas, para o afago de suas m\u00e3es, para os abra\u00e7os de suas irm\u00e3s e irm\u00e3os nas linhas de combate; precisam voltar para suas fam\u00edlias, na sua maioria colonos nascidos fora de Israel. Mas as crian\u00e7as palestinas n\u00e3o t\u00eam para onde voltar. J\u00e1 n\u00e3o t\u00eam lar; tomaram-lhes a terra sua e de seus antepassados, e hoje s\u00e3o condenadas a sumir da face da terra. Muitas j\u00e1 s\u00e3o \u00f3rf\u00e3s desta guerra e de outras guerras.<\/p>\n<p>Na prepara\u00e7\u00e3o dos ataques contra Gaza e seus civis \u2013 incluindo crian\u00e7as, mulheres e velhos, escolas e hospitais, bairros e pr\u00e9dios residenciais \u2013 a democracia ocidental-crist\u00e3, com as armas de Israel, cortou o acesso dos palestinos a \u00e1gua, energia, alimentos e medicamentos. E foi determinada a di\u00e1spora em curso. Aos que tentam fugir na imin\u00eancia de nova Nakba, ou cat\u00e1strofe, o Egito nega passagem, enquanto as belonaves americanas controlam o Mediterr\u00e2neo. Sua simples presen\u00e7a instila temor nos civis, mas o l\u00e9xico pol\u00edtico hegem\u00f4nico n\u00e3o permite a classifica\u00e7\u00e3o de terrorismo.<\/p>\n<p>Nada, por\u00e9m, \u00e9 suficiente para mexer com os brios crist\u00e3os. Ao final, sobrar\u00e3o destro\u00e7os, sucata de tudo, mas principalmente destro\u00e7os de gente. Mas essa gente n\u00e3o conta. S\u00e3o palestinos, povo sem p\u00e1tria, sem terra, de quem n\u00f3s (os ocidentais) tomamos tudo: a vida dos que perecem e a esperan\u00e7a dos que sobreviverem; a todos negamos a expectativa de exist\u00eancia. Ao fim e ao cabo, o p\u00f3; amanh\u00e3 t\u00e3o-s\u00f3 um registro hist\u00f3rico, como L\u00eddice. E o in\u00fatil Conselho de Seguran\u00e7a da ONU continuar\u00e1 se reunindo e os EUA (que acabam de vetar resolu\u00e7\u00e3o proposta pelo Brasil, que pedia um cessar-fogo entre o Hamas e a for\u00e7a ocupante) a ditar regras sobre democracia e liberdade, pensando em sua crise interna.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo visual dos bombardeios riscando os c\u00e9us, trazido pelos notici\u00e1rios da televis\u00e3o, se apresenta para nosso desfastio pequeno-burgu\u00eas como se fora um videogame, tal qual aquele em que se converteu o bombardeio do Iraque pelos EUA. Imagens das quais retiramos a alma. Fascinados pelo show das bombas, n\u00e3o nos perguntamos sobre que e sobre quem elas caem. O espet\u00e1culo de m\u00edsseis e drones iluminando os c\u00e9us de uma Gaza \u00e0s escuras se justifica por si, em sua est\u00e9tica m\u00f3rbida.<\/p>\n<p>O raio de sol em c\u00e9u azul, a suposta surpresa do atentado terrorista, \u00e9 simplesmente um dos momentos cruciais de 75 anos de ocupa\u00e7\u00e3o e 16 anos de embargo sobre Gaza. Como lembrava William Faulkner: o passado nunca est\u00e1 morto; ali\u00e1s, nunca \u00e9 passado. De onde v\u00eam as surpresas?<\/p>\n<p>O Israel feito Estado pela &#8220;comunidade internacional&#8221; em louvor \u00e0 liberdade e ao direito de ser, \u00e9 hoje um Estado teol\u00f3gico-colonial, uma for\u00e7a de ocupa\u00e7\u00e3o, anacronismo hist\u00f3rico alimentado pela pol\u00edtica expansionista e guerreira do Pent\u00e1gono, voltada \u00e0 disputa presente e futura com a Eur\u00e1sia, como o n\u00e1ufrago que tenta fugir das ondas. Como a Inglaterra ao tempo de seu Imp\u00e9rio precisou refazer o mapa do Oriente, os EUA, ocupada a Europa, est\u00e3o determinados em conter em suas m\u00e3os o Oriente M\u00e9dio. Faz\u00ea-lo guerrear, dividir o mundo \u00e1rabe, amea\u00e7ar de extin\u00e7\u00e3o sociedades milenares, \u00e9 alternativa t\u00e1tica a servi\u00e7o da hegemonia.<\/p>\n<p>O tempo est\u00e1 ficando escasso para uma humanidade sem luz.<\/p>\n<p><strong>*Ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia no primeiro governo Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O povo alem\u00e3o \u00e9 um s\u00f3 corpo, mas sua integridade est\u00e1 amea\u00e7ada. Para manter a sa\u00fade do povo, \u00e9 preciso curar o corpo infestado de parasitas.&#8221; \u2013 Adolf Hitler, Minha Luta &#8220;Nem eletricidade, nem comida, nem \u00e1gua, nem g\u00e1s. 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