{"id":315160,"date":"2023-10-22T07:01:24","date_gmt":"2023-10-22T10:01:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=315160"},"modified":"2023-10-22T07:01:44","modified_gmt":"2023-10-22T10:01:44","slug":"fogo-cruzado-na-mare-deixa-milhares-de-criancas-sem-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fogo-cruzado-na-mare-deixa-milhares-de-criancas-sem-escola\/","title":{"rendered":"Fogo cruzado na Mar\u00e9 deixa milhares de crian\u00e7as sem escola"},"content":{"rendered":"<p>Andrezza pede para eu ligar mais tarde; est\u00e1 colocando o filho para dormir a soneca da tarde. H\u00e1 dez dias, Ra\u00ed, 4 anos, est\u00e1 sem aulas, assim como outras 17 mil crian\u00e7as e adolescentes que estudam na Mar\u00e9. Desde que come\u00e7ou a mais recente opera\u00e7\u00e3o policial, em 9 de outubro de 2023, 44 escolas fecharam na regi\u00e3o, onde vivem 140 mil fam\u00edlias. S\u00f3 neste ano, j\u00e1 s\u00e3o 20 dias sem aulas.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior para Lua, 7 anos, que est\u00e1 em fase de alfabetiza\u00e7\u00e3o: sua escola fica em Ramos, fora da Mar\u00e9, e por isso n\u00e3o para por causa de mais uma opera\u00e7\u00e3o policial, mas n\u00e3o h\u00e1 como lev\u00e1-la ao col\u00e9gio. &#8220;Ela me diz todos os dias: &#8216;M\u00e3e, eu n\u00e3o aguento mais ficar sem ir na escola'&#8221;, conta Andrezza, igualmente angustiada. &#8220;As provas dela est\u00e3o chegando, ela sente que est\u00e1 ficando defasada porque foi uma semana intensa de leitura e ela est\u00e1 perdendo&#8221;.<\/p>\n<p>Pergunto se ela n\u00e3o vai \u00e0 escola porque os acessos da Mar\u00e9 est\u00e3o fechados, mas a resposta de Andrezza me pega como um soco. &#8220;A gente n\u00e3o tem como sair porque \u00e9 muito perigoso. Mesmo nessa opera\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o est\u00e1 tendo um n\u00famero t\u00e3o grande de v\u00edtimas, tem confronto. Agora, por exemplo, est\u00e1 tendo um tiroteio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Agora, enquanto voc\u00ea est\u00e1 falando comigo?&#8221;, insisto. Ela confirma: &#8220;Sim. Agora. Estamos fechados em casa. Eu, as duas crian\u00e7as e o meu marido, n\u00f3s dois sem poder trabalhar. \u00c9 isso, a gente fica com a renda completamente comprometida e com as crian\u00e7as muito estressadas, porque eles ouvem n\u00e9? \u00c9 muito pesado para eles, enfrentar essa realidade assim t\u00e3o pequenos&#8221;.<\/p>\n<p>De acordo com dados do Fogo Cruzado, 268 crian\u00e7as e adolescentes foram mortos em opera\u00e7\u00f5es policiais no Rio nos \u00faltimos sete anos.<\/p>\n<p>Andrezza Paulo, 28 anos, mora na Mar\u00e9 desde os 7 anos de idade. Para se graduar em Comunica\u00e7\u00e3o Social na Universidade Federal Fluminense (UFF) teve que superar muitos obst\u00e1culos, inclusive opera\u00e7\u00f5es policiais que v\u00e1rias vezes a impediram de ir \u00e0s aulas, como v\u00ea se repetir com seus filhos. Em 2014, quando a Mar\u00e9 foi ocupada pelo Ex\u00e9rcito, sua fam\u00edlia assistia a um jogo do Brasil na Copa do Mundo em um restaurante, quando a av\u00f3, ent\u00e3o com 67 anos, levou um tiro de borracha de um soldado. &#8220;Foi no dia do 7 a 1 para a Alemanha. Um dos soldados cismou que um dos rapazes que estava assistindo o jogo estava olhando pra ele, ficou aquela briga e ele simplesmente come\u00e7ou a atirar para todos os lados e pegou na minha av\u00f3. Ela tem a marca do tiro na barriga at\u00e9 hoje. Isso em um restaurante cheio de gente, com meus sobrinhos de 6 anos, na mesa&#8221;, diz, com indigna\u00e7\u00e3o na voz.<\/p>\n<p>Hoje ela trabalha no Mar\u00e9 de Not\u00edcias, jornal comunit\u00e1rio que tamb\u00e9m ficou impedido de circular durante a opera\u00e7\u00e3o policial. A publica\u00e7\u00e3o faz parte da Redes da Mar\u00e9, organiza\u00e7\u00e3o fundada em 1997 por moradores e ex-moradores com diversos projetos educacionais e de cidadania, incluindo o monitoramento da viol\u00eancia nas opera\u00e7\u00f5es policiais e assist\u00eancia jur\u00eddica para os moradores. A entidade tamb\u00e9m est\u00e1 entre aquelas que se mobilizaram pela ADPF 635, a ADPF das Favelas, a\u00e7\u00e3o no STF que em 2020 suspendeu as opera\u00e7\u00f5es policiais nas favelas durante a pandemia e conseguiu decis\u00f5es favor\u00e1veis da Corte para garantir o direito dos moradores nas a\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n<p>De sua viv\u00eancia na comunidade ao estudo dos dados dessas opera\u00e7\u00f5es, Andrezza tem uma certeza: as opera\u00e7\u00f5es policiais trazem apenas sofrimento para os moradores da Mar\u00e9. &#8220;Com a ADPF 635, algumas viola\u00e7\u00f5es diminu\u00edram bastante. As opera\u00e7\u00f5es que eram sanguin\u00e1rias, vamos colocar assim, diminu\u00edram absurdamente, s\u00e3o pontuais. Antes da ADPF pelo menos uma vez ao m\u00eas tinha uma opera\u00e7\u00e3o que levava no m\u00ednimo tr\u00eas, quatro, cinco mortes. Agora tivemos uma pessoa morta na opera\u00e7\u00e3o. Mas o Bope continua a entrar sem c\u00e2mera nos uniformes, apesar da decis\u00e3o do STF&#8221;, aponta, ecoando as den\u00fancias registradas pelo jornal em que trabalha. &#8220;E a const\u00e2ncia dessas opera\u00e7\u00f5es, hoje \u00e9 o sexto dia de opera\u00e7\u00e3o em dez dias no m\u00eas, atrapalha muito tamb\u00e9m. Porque efetivamente n\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o de sucesso. Eles nem chegam perto dos chef\u00f5es do crime organizado, enquanto os chefes de fam\u00edlia ficam sem trabalhar. Meu marido tem uma barbearia que ele n\u00e3o pode abrir, assim como os muitos empreendedores, e estamos falando de empreendedores de necessidade. Qual \u00e9 o foco dessas opera\u00e7\u00f5es?&#8221;, questiona.<\/p>\n<p>Sem controle externo da pol\u00edcia, iniciativas como a Redes de Mar\u00e9, que acompanham as opera\u00e7\u00f5es in loco, coletam dados e documentam den\u00fancias acabam funcionando como &#8220;um sinal para as autoridades de que tem gente olhando&#8221;, como diz o professor da UFF, Daniel Hirata, doutor em Sociologia e pesquisador do N\u00facleo de Estudos de Cidadania, Conflito e Viol\u00eancia Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 faz 40 anos que, de forma mais ou menos ininterrupta, as opera\u00e7\u00f5es policiais s\u00e3o o principal instrumento de a\u00e7\u00e3o p\u00fablica na \u00e1rea de seguran\u00e7a do Rio de Janeiro. N\u00f3s j\u00e1 mostramos em diversos relat\u00f3rios que a maior parte dessas opera\u00e7\u00f5es s\u00e3o absolutamente ineficientes tanto para o controle da criminalidade comum como da criminalidade organizada&#8221;, explica o pesquisador, acrescentando que os relat\u00f3rios tamb\u00e9m demonstram &#8220;que h\u00e1 um direcionamento muito maior das opera\u00e7\u00f5es policiais para o tr\u00e1fico de drogas do que para as mil\u00edcias&#8221;.<\/p>\n<p>Para Hirata, as opera\u00e7\u00f5es continuam &#8220;porque s\u00e3o a\u00e7\u00f5es de alta visibilidade, espetaculares, que transmitem a ideia de que se est\u00e1 combatendo o crime&#8221;. &#8220;Elas t\u00eam um apelo comunicacional e portanto um retorno do ponto de vista pol\u00edtico-eleitoral que \u00e9 bastante importante. Isso me parece a grande efic\u00e1cia das opera\u00e7\u00f5es policiais&#8221;, aponta.<\/p>\n<p>O mais triste \u00e9 que o pa\u00eds j\u00e1 tem estudos e pesquisadores para propor um modelo mais humano e eficaz de seguran\u00e7a p\u00fablica. &#8220;Eu estava conversando com um epidemiologista outro dia, e ele estava falando como se conseguiu erradicar rapidamente tantas doen\u00e7as no Brasil com decis\u00f5es acertadas e pol\u00edticas p\u00fablicas eficientes. Na \u00e1rea de seguran\u00e7a \u00e9 a mesma coisa. N\u00e3o adianta insistir em opera\u00e7\u00f5es policiais que n\u00e3o atingem os dois pilares de sustenta\u00e7\u00e3o dos grupos armados: sua base econ\u00f4mica, os neg\u00f3cios, e o amparo pol\u00edtico que sustenta a exist\u00eancia desses grupos. Tem maneiras muito mais eficientes de combater a criminalidade, sem impactar tanto a vida, a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o e a renda das comunidades&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no s\u00e9timo dia de opera\u00e7\u00f5es na Mar\u00e9, Andrezza e seus filhos continuam trancados em casa, entre tiros e sonhos partidos. &#8220;A gente tem que manter a cabe\u00e7a fria mesmo muito preocupados porque n\u00e3o tem nenhuma previs\u00e3o de quando isso vai acabar&#8221;, ela me disse. &#8220;J\u00e1 vai ser muito dif\u00edcil de recuperar esse tempo que n\u00f3s estamos sem trabalhar, as crian\u00e7as sem estudar em \u00e9poca de provas na escola, eu fico pensando tamb\u00e9m em quem tem filhos no Ensino M\u00e9dio, com o Enem batendo na porta. \u00c9 o futuro que se perde, n\u00e3o tem como recuperar&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andrezza pede para eu ligar mais tarde; est\u00e1 colocando o filho para dormir a soneca da tarde. H\u00e1 dez dias, Ra\u00ed, 4 anos, est\u00e1 sem aulas, assim como outras 17 mil crian\u00e7as e adolescentes que estudam na Mar\u00e9. Desde que come\u00e7ou a mais recente opera\u00e7\u00e3o policial, em 9 de outubro de 2023, 44 escolas fecharam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":315161,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-315160","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=315160"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315160\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":315162,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315160\/revisions\/315162"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/315161"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=315160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=315160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=315160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}