{"id":315300,"date":"2023-10-24T07:28:27","date_gmt":"2023-10-24T10:28:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=315300"},"modified":"2023-10-24T07:28:16","modified_gmt":"2023-10-24T10:28:16","slug":"rio-vive-a-rotina-do-caos-do-purgatorio-de-janeiro-a-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rio-vive-a-rotina-do-caos-do-purgatorio-de-janeiro-a-janeiro\/","title":{"rendered":"Rio vive a rotina do caos do purgat\u00f3rio de janeiro a janeiro"},"content":{"rendered":"<p>Como carioca de ber\u00e7o e de cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tenho por h\u00e1bito falar ou escrever sobre as mazelas do Rio de Janeiro. Tentar explic\u00e1-las, nem pensar. Falidos econ\u00f4mica, pol\u00edtica e socialmente, o Estado e a cidade do Rio sofrem o pior de seus tempos. A sist\u00eamica m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o, a roubalheira e o assalto executado por pol\u00edticos, empres\u00e1rios e categorias organizadas, entre elas a Pol\u00edcia, o tr\u00e1fico e, agora, as mil\u00edcias quebraram de vez o que estava de p\u00e9. E fizeram o servi\u00e7o com tal efici\u00eancia que vai ser muito dif\u00edcil qualquer proposta de recupera\u00e7\u00e3o. Desde 1975, com a fus\u00e3o entre o Estado do Rio e a Guanabara, a decad\u00eancia se instalou de mala e cuia na cidade que j\u00e1 foi capital do Brasil col\u00f4nia, do Brasil Imp\u00e9rio e Distrito Federal do Brasil Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A partir dos anos 90, quando todos os governadores e presidentes da Assembleia Legislativa est\u00e3o ou estiveram presos, o Rio se desmilinguiu como estado e como cidade, servindo hoje, em boa parte de sua extens\u00e3o, como quartel general da mil\u00edcia ou como reduto intranspon\u00edvel do tr\u00e1fico. No meio dessa tr\u00e1gica cultura de arrendamento dos morros e das comunidades, vive o povo trabalhador que n\u00e3o consegue descobrir, entre outras coisas, a quem recorrer quando chove e quando acaba o g\u00e1s, a luz, a \u00e1gua. \u00c9 a mexicaniza\u00e7\u00e3o do Rio. Hist\u00f3ricas, as raz\u00f5es da fal\u00eancia carioca e fluminense talvez tenham tomado vulto em 1960, com a transfer\u00eancia da capital para o Planalto Central.<\/p>\n<p>Pode ser. O que \u00e9 inconceb\u00edvel \u00e9 a eterna culpabilidade de Juscelino Kubitschek e do pre\u00e7o do barril do petr\u00f3leo nos anos 70 pela sequ\u00eancia de gest\u00f5es p\u00edfias e comprometidas com a bandidagem. De Leonel Brizola a Cl\u00e1udio Castro, atual governador, o que mudou al\u00e9m da troca de denomina\u00e7\u00e3o das favelas, hoje comunidades? Nada, a n\u00e3o ser o conluio deslavado, expl\u00edcito e inaceit\u00e1vel entre boa parte das pol\u00edcias e o tr\u00e1fico. E tudo isso passa batido ou tem a participa\u00e7\u00e3o da m\u00e1fia de gravata. Carioca e ex-diretor-geral da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal, Silvinei Vasques e seu ent\u00e3o chefe, Jair Bolsonaro, s\u00e3o acusados de numerosas irregularidades na corpora\u00e7\u00e3o, sempre a partir do Rio de Janeiro. Querem pior?<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de um governo ou governante \u00e9 aquela que nunca \u00e9 feita. Perdido em suas claudicantes palavras, o governador Cl\u00e1udio Castro \u00e9 um desses que, a exemplo de seu esvaziado e ineleg\u00edvel l\u00edder, parece cachimbo em boca de b\u00eabado. N\u00e3o sabe o que faz, o que diz, muito menos porque o colocaram no Pal\u00e1cio Guanabara, sede do governo fluminense. O fato \u00e9 que o meu Rio acabou. Em recente passagem pela cidade fundada por Est\u00e1cio de S\u00e1 em mar\u00e7o de 1565, pude constatar que o est\u00e1gio falimentar do antigo Estado da Guanabara n\u00e3o \u00e9 apenas pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social. Tamb\u00e9m est\u00e1 beirando o caos interpessoal e moral. Al\u00e9m da saudade maravilhosa, restou ao carioca raiz a vizinha Niter\u00f3i, a eterna melhor vista do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Procurei desembestadamente, mas nem os negros lindos da Rua do Ouvidor consegui encontrar. A Confeitaria Colombo, recinto que, mesmo nascido na cidade, s\u00f3 conhecia de fotos, hoje vive rodeada de camel\u00f4s e, \u00e0 noite, sofre a concorr\u00eancia de mendigos e mo\u00e7as apegadas \u00e0 profiss\u00e3o da sali\u00eancia. Est\u00e1 l\u00e1 a Confeitaria Colombo, \u00e0 Rua Gon\u00e7alves Dias, 34, mas falta o higt society do s\u00e9culo passado. As donzelas restantes e as madames afamadas agora s\u00f3 frequentam o ex-glamouroso local de t\u00eanis e sand\u00e1lia rasteirinha. Nem pensar um salto no piso de paralelep\u00edpedo ou pedras portuguesas. O problema para as senhoras e senhoritas \u00e9 que faltam as pedras e muitos dos paralelep\u00edpedos. \u00c9 o retrato do abandono do centro do Rio. Arrast\u00f5es, tiroteios em pra\u00e7as p\u00fablicas e \u00f4nibus incendiados n\u00e3o s\u00e3o mais uma vis\u00e3o do capeta. \u00c9 a infeliz rotina do carioca.<\/p>\n<p>Atualmente, a cidade \u00e9 formada em parte por pessoas que matam ou mandam matar. As demais se satisfazem lendo a not\u00edcia dos assassinatos. \u201c\u00c9 o Rio 40 graus, cidade maravilha, purgat\u00f3rio da beleza e do caos\u201d. Embora ache que a vida entre o mar e montanha seja uma pe\u00e7a de teatro que n\u00e3o permite ensaios, continuo achando que a felicidade \u00e9 uma passagem para o Rio de Janeiro. Uma pena que, para os governantes e pol\u00edticos silenciosos diante da viol\u00eancia esmagadora, se bem-produzido e maquiado tudo fica bonito. O meu Rio de Janeiro \u00e9 um exemplo disso. Como diz o pensador Ricardo Absal\u00e3o Soares, apesar da alegria, do maneirismo, dos sambistas e pagodeiros, o que de mais expressivo se revela \u00e9 o caos instalado no Rio de Janeiro a janeiro. Parafraseando Mill\u00f4r Fernandes, o pior do Rio de hoje n\u00e3o \u00e9 morrer. \u00c9 n\u00e3o poder espantar as moscas do poder.<\/p>\n<p><strong>*Presidente do Conselho Editorial de <em>Notibras<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como carioca de ber\u00e7o e de cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tenho por h\u00e1bito falar ou escrever sobre as mazelas do Rio de Janeiro. Tentar explic\u00e1-las, nem pensar. Falidos econ\u00f4mica, pol\u00edtica e socialmente, o Estado e a cidade do Rio sofrem o pior de seus tempos. 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