{"id":315535,"date":"2023-10-27T08:11:43","date_gmt":"2023-10-27T11:11:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=315535"},"modified":"2023-10-27T08:13:25","modified_gmt":"2023-10-27T11:13:25","slug":"zeca-waldick-e-rossi-ensinam-que-so-covarde-foge-do-inimigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/zeca-waldick-e-rossi-ensinam-que-so-covarde-foge-do-inimigo\/","title":{"rendered":"Zeca, Waldick e Rossi ensinam que s\u00f3 covarde foge do inimigo"},"content":{"rendered":"<p>Dizem as boas e as m\u00e1s l\u00ednguas que a bebida mata lentamente. A estes, respondo singela e laconicamente que n\u00e3o tenho pressa. N\u00e3o sou abst\u00eamio, mas bebo pouco porque o pouco que bebo me transforma em uma outra pessoa. Essa, infelizmente, bebe pra cacete. Pelo sim, pelo n\u00e3o, sigo os ensinamentos do fil\u00f3sofo Zeca Pagodinho. Segundo ele, cerveja e cacha\u00e7a s\u00e3o os piores inimigos do ser humano. No entanto, o homem que foge dos inimigos \u00e9 um covarde. Centrado e consciente dos meus direitos e deveres, \u00e0s vezes passo do ponto e acabo me achando parecido com uma caixa de isopor: \u00e9 s\u00f3 encher de cerveja que voc\u00ea leva para qualquer lugar. Para alguns, n\u00e3o. Para a funer\u00e1ria, nem morto.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou dependente dos botecos, mas inegavelmente \u00e9 na mesa de um bar onde as risadas se transformam em trilha sonora e a cerveja vira o aplauso do homem. \u00c9 o lar no qual crio as melhores lembran\u00e7as e dou as melhores gargalhadas. Pai biol\u00f3gico da filosofia cotidiana, o botequim \u00e9 o local em que deixo a gordura presa no torresmo, amarro a lingui\u00e7a su\u00edna com o cord\u00e3o, esque\u00e7o a espuma do \u00f3dio no fundo do copo encardido e fixo as cores dos meus olhos no colorido dos ovos arrumados na estufa sobre o balc\u00e3o. Sentado no banco de pl\u00e1stico e de p\u00e9s bambos, a amizade \u00e9 a por\u00e7\u00e3o de batata frita. Exageros \u00e0 parte, para mim a melhor rede social ainda \u00e9 uma mesa cheia de birita e rodeada de amigos. Que eu me lembre, nunca fiz amigos bebendo leite ou iogurte.<\/p>\n<p>Todo mundo tem uma hist\u00f3ria de boteco para contar. Afinal, sempre \u00e9 poss\u00edvel coletar boas mem\u00f3rias desse lugar. Que o diga nosso imortal Reginaldo Rossi, amigo daquele gar\u00e7om que, em uma mesa de bar, cansou de escutar centenas de casos de amor. Meu caro Reginaldo, voc\u00ea partiu e deixou nossos cora\u00e7\u00f5es em peda\u00e7os. Fique tranquilo, pois j\u00e1 paguei sua conta, mas, se estiver tomando uma, me diga se no c\u00e9u \u00e9 como aqui na Terra, onde no bar todo mundo \u00e9 igual. Embora eu n\u00e3o concorde com o que dizia ao gar\u00e7om que homenageou, voc\u00ea j\u00e1 achou um desses profissionais para encher o saco? Com certeza n\u00e3o, porque pegou no sono antes de se deitar no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Her\u00f3i dos bo\u00eamios, dos eternos amantes dos bares e prost\u00edbulos, Waldick Soriano, o baiano que tamb\u00e9m reina nos c\u00e9us, era frequentador ass\u00edduo do Bar do Lico Leite, em Caetit\u00e9, sua terra natal. Sem papa na l\u00edngua, o brega dos ricos, enquanto solfejava Eu n\u00e3o sou cachorro n\u00e3o, dizia ao amigo Z\u00e9 Gomes, outro que j\u00e1 se aventurou por detr\u00e1s das nuvens: \u201cMeu lema \u00e9 sorriso para os dias bons, paci\u00eancia para os dias ruins e cerveja para todos os dias. Minha vida \u00e9 um litro aberto\u201d. Grandes Waldick, Reginaldo e Z\u00e9, n\u00e3o penso em ir agora, mas quero estar pronto para o dia do ju\u00edzo final. Por isso, me digam com quem andam e eu direi quantas cervejas levar no momento do acerto de contas.<\/p>\n<p>Por enquanto, estou por aqui firme e forte. Agrade\u00e7o as cartas, mas n\u00e3o respondo, pois prefiro n\u00e3o digitar quando bebo. N\u00e3o tenho medo de ficar ruim, at\u00e9 porque se fosse para ficar bom eu tomaria rem\u00e9dio. Lembro de minha inf\u00e2ncia, quando morria de medo de b\u00eabado. Hoje sei que a gente n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m. Estou s\u00f3 e s\u00f3brio, mas realizado. Fui ao pediatra de plant\u00e3o e ele mandou seguir meu cora\u00e7\u00e3o. Atendi \u00e0 recomenda\u00e7\u00e3o e acabei no bar, local em que a alma se enche de alegria. No div\u00e3 do analista, me mandaram tomar ju\u00edzo, mas s\u00f3 achei samba, suor e cerveja. Novamente recorri aos preceitos de Zeca Pagodinho e decidi n\u00e3o deixar para amanh\u00e3 o que posso beber hoje.<\/p>\n<p>S\u00f3 para lembrar meus leitores, ao me encaminhar para o \u00faltimo par\u00e1grafo desta botequeira narrativa j\u00e1 estava mais acabrunhado do que o padre nos estertores da d\u00e9cima-terceira missa. Como um craque na arte de sair ileso dos pileques, tamb\u00e9m sou movido ao mate e ao suco de lim\u00e3o dos cal\u00e7ad\u00f5es de Bangu e de Campo Grande, dos bairros dos grandes prazeres de minha vida. Ali\u00e1s, parafraseando J\u00e2nio Quadros, bebo de tudo porque \u00e9 l\u00edquido. Se fosse s\u00f3lido, com\u00ea-lo-ia. Dizer que bebida em exagero n\u00e3o mata \u00e9 o mesmo que dizer que tamanho n\u00e3o \u00e9 documento e que dinheiro n\u00e3o traz felicidade. N\u00e3o conhe\u00e7o a autoria de tais afirma\u00e7\u00f5es, mas certamente \u00e9 de um pobre do pinto pequeno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem as boas e as m\u00e1s l\u00ednguas que a bebida mata lentamente. A estes, respondo singela e laconicamente que n\u00e3o tenho pressa. N\u00e3o sou abst\u00eamio, mas bebo pouco porque o pouco que bebo me transforma em uma outra pessoa. Essa, infelizmente, bebe pra cacete. 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