{"id":315698,"date":"2023-10-30T02:21:05","date_gmt":"2023-10-30T05:21:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=315698"},"modified":"2023-10-30T02:21:05","modified_gmt":"2023-10-30T05:21:05","slug":"no-bar-do-jair-nao-como-nem-o-jilo-dos-patriotas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/no-bar-do-jair-nao-como-nem-o-jilo-dos-patriotas\/","title":{"rendered":"No bar do Jair, n\u00e3o como nem o jil\u00f3 dos patriotas"},"content":{"rendered":"<p>Embora adore escrever sobre botecos e frases de botequim, n\u00e3o sou um adorador de bares. Frequento-os, mas apenas socialmente. Aprendi com o colega jornalista Apar\u00edcio Torelly, o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, que o f\u00edgado faz mal \u00e0 bebida. Por isso, fujo dela quando estou dormindo. O problema \u00e9 que a marvada me acorda e me arrasta sistematicamente para uma nova soneca. A verdade \u00e9 que estou bebendo pouco, pois sempre me lembro de quantas bebi no dia anterior. Perdul\u00e1rio por natureza, de tudo o que ganhei na vida, 90% eu bebi. Os 10% restantes dei para o gar\u00e7om.<\/p>\n<p>Sei que nada sei, mas o pouco que sei aprendi com o s\u00e1bio mestre dos par\u00e7as Zeca Pagodinho, Dicr\u00f3, Bezerra da Silva e Mussum, os tr\u00eas \u00faltimos j\u00e1 no reino dos c\u00e9us. Refiro-me a Vin\u00edcius de Moraes, para quem a bebida vem de nossa ancestralidade. Profundo conhecedor dos destilados, mesmo acordado o poeta maior das noitadas de bossa nova confundia o amigo u\u00edsque com cachorro engarrafado. Por isso, depois de perder a inf\u00e2ncia e de abandonar a chata e controlada vida do Itamaraty, a primeira coisa que Vin\u00edcius pediu no internacional Bar Veloso, hoje Garota de Ipanema, foi uma mamadeira de Johnnie Walker 12 anos.<\/p>\n<p>Menos radical, Pagodinho \u00e9 amante do suco de cevada, preferencialmente gelado. Abst\u00eamio quando est\u00e1 no soro, o pagodeiro de Xer\u00e9m lembra uma caixa de isopor: \u00e9 s\u00f3 encher de cerveja que a gente leva para qualquer lugar. Beberam e bebem. Por isso, estes e outros bebedores famosos permanecem como vinho, azeite ou amigo de inf\u00e2ncia. S\u00e3o eternos, ainda que tenham prazo de validade. Importante \u00e9 o legado, as frases e os pensamentos autografados e emoldurados nas paredes das tabernas, tascas ou pubs do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Uma delas, de autoria do jornalista e cartunista Mill\u00f4r Fernandes, revela que, de todas as taras sexuais, n\u00e3o existe nenhuma mais estranha do que a abstin\u00eancia. Como n\u00e3o me abstenho nunca, discordo em parte do relator, na medida em que \u201cn\u00e3o procuro algu\u00e9m para me encontrar e sim para me perder\u201d. Sou daqueles que, incorporando Vin\u00edcius, duvida que o amor seja infinito. Infinito talvez seja a capacidade de amar. Amante inveterado, \u201cn\u00e3o quero mais esse neg\u00f3cio de voc\u00ea longe de mim\u201d. Todavia, mais uma vez lembro do poeta para, antecipadamente, indagar sobre a pagadora do enterro e das flores caso eu morra de amor.<\/p>\n<p>Condenado \u00e0 esperan\u00e7a igualzinho o Brasil, tenho antipatia pelo Jair Messias desde que ele, a exemplo do Diabo, come\u00e7ou a comprar almas. Estava criada a sociedade consumista do bolsonarismo tir\u00e2nico. Ainda bem que a alma enruga antes da pele. Por conta dessa constata\u00e7\u00e3o de Mill\u00f4r, os bolsonaristas acabaram como um macaco que n\u00e3o deu certo. Pelo menos, o legado do Jair \u00e9 inquestionavelmente honesto. Ou seja, a gente at\u00e9 pode desconfiar da admira\u00e7\u00e3o dos patriotas pela estranha figura do mito. O que n\u00e3o se questiona \u00e9 o \u00f3dio que eles nutrem pelos antagonistas. O \u00f3dio \u00e9 sempre sincero. Em resumo, \u201ccomo s\u00e3o admir\u00e1veis as pessoas que n\u00e3o conhecemos bem\u201d.<\/p>\n<p>Partir dos bares e chegar a Jair n\u00e3o \u00e9 de todo estranho. Afinal, ele \u00e9 o prot\u00f3tipo daqueles companheiros de boteco, os quais admiramos porque n\u00e3o sabemos quem e como s\u00e3o. Ap\u00f3s o terceiro trago juntos, n\u00e3o queremos mais conversar. \u00c9 o malandro agulha, primo do pato, que nasce com os dedos colados para n\u00e3o usar alian\u00e7a. \u00c9 o tal que acha f\u00e1cil passar a mulher para tr\u00e1s, mas tem dificuldade de pass\u00e1-la adiante. S\u00e3o como os melhores amigos do Jap\u00e3o. Est\u00e3o a 20 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia e quando est\u00e3o acordadas eu estou dormindo. Esse tipo de \u201ccliente\u201d nem os donos de bares aguentam. Para eles, fiado s\u00f3 quando maiores de 90 anos e, mesmo assim, acompanhados dos pais. O resumo da \u00f3pera \u00e9 simples: no bar em que o Jair degusta frango com farofa, eu n\u00e3o como nem o jil\u00f3 dos patriotas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora adore escrever sobre botecos e frases de botequim, n\u00e3o sou um adorador de bares. Frequento-os, mas apenas socialmente. Aprendi com o colega jornalista Apar\u00edcio Torelly, o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, que o f\u00edgado faz mal \u00e0 bebida. Por isso, fujo dela quando estou dormindo. 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