{"id":315825,"date":"2023-11-01T07:55:39","date_gmt":"2023-11-01T10:55:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=315825"},"modified":"2023-11-01T07:55:14","modified_gmt":"2023-11-01T10:55:14","slug":"velhinhos-so-vivem-da-metafora-de-gases-venosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/velhinhos-so-vivem-da-metafora-de-gases-venosos\/","title":{"rendered":"&#8216;Velhinhos&#8217; s\u00f3 vivem da met\u00e1fora de gases venosos"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s alguns bons pares de anos de engodo pol\u00edtico e governamental, finalmente deixamos de ser o pa\u00eds do futuro. Hoje, depois de quase cinco d\u00e9cadas do milagre econ\u00f4mico ditatorial, minha gera\u00e7\u00e3o atingiu o marco civilizat\u00f3rio da terceira idade. Conforme o Censo 2022, a popula\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 57% mais envelhecida. Sou daqueles que j\u00e1 est\u00e1 na segunda fase da vida, mas n\u00e3o me acho velho. Pelo contr\u00e1rio. Sou um jovem que aprendeu com o tempo a n\u00e3o se preocupar com a longevidade. Quando a noite cai e l\u00e1 se vai mais um dia vivido, respiro, suspiro e digo: Estou no lucro. Na pr\u00e1tica, como n\u00e3o estou em condi\u00e7\u00e3o de dar maus exemplos, decidi que a fase \u00e9 dar bons conselhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se conseguirei, porque, desde a inf\u00e2ncia, minha velhice est\u00e1 em uma caixa de bombons. Perten\u00e7o a um passado recente, quando virgindade ainda era documento registrado em cart\u00f3rio. Ou seja, apesar de lamentar a tirania que me pro\u00edbe os prazeres da juventude, n\u00e3o consigo raciocinar sobre o etarismo, muito menos a respeito da finitude. Que ela venha sem pressa e, quem sabe, quando eu deixar de ter ressentimentos pela ideia de ficar velho. Embora tenha vivido com louvor o glamour da vida em tecnicolor, vejo hoje com certo pavor a vida que me \u00e9 oferecida em preto e branco. Sei que tenho em abund\u00e2ncia o que a mocidade mais deseja: a prud\u00eancia de saber envelhecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho pacto com a solid\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o penso no envelhecimento de minhas emo\u00e7\u00f5es. Por isso, n\u00e3o me sinto um n\u00e1ufrago. Se n\u00e3o pratico o esporte do sexo como praticava, pelo menos n\u00e3o me abstive at\u00e9 agora. Salvo nos meses de fevereiro, dias 15 e 30 de cada m\u00eas l\u00e1 estou furando o cart\u00e3o de ponto no parquinho de divers\u00e3o. Tenho pena dos vizinhos, pois os gritos de dor selvagem em substitui\u00e7\u00e3o aos sussurros do prazer j\u00e1 assustaram at\u00e9 os bombeiros chamados para conter os urros do encontro do trem fantasma com a mulher barbada. Me deixaram em paz depois de, com muito pesar, eu mostrar aos soldados do fogo que a brasa n\u00e3o tem mais fogo, tampouco fa\u00edsca.<\/p>\n<p>Com algum sacrif\u00edcio, as oito em uma hora da juventude se transformaram em uma em oito horas na velhice. E da\u00ed. \u00c9 o ciclo natural da vida. Envelheci com a tranquilidade de um jabuti, que anda pouco para n\u00e3o perder de vista a jabutia. Como n\u00e3o uso \u00f3culos, busco, mas n\u00e3o encontro mais a seriedade. Ali\u00e1s, acho que nunca nos demos bem. Otimista por convic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o por diletantismo, sou pragm\u00e1tico e objetivo em tudo que fa\u00e7o e digo. Nem mesmo quando escrevo costumo ficar arrodeando em busca de reunir o tico e o teco. Se n\u00e3o sei, digo que n\u00e3o sei e pronto. Meu pragmatismo \u00e9 de tal modo singular que, seguindo os ensinamentos do ator Paulo C\u00e9sar Pereio, caso um dia a vida me vire as costas, passo a m\u00e3o na bunda dela.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que tenho pouco ju\u00edzo, mas s\u00f3 faria isso de forma metaf\u00f3rica, como imaginei metaforicamente no dia em que pensei abrir uma casa de sali\u00eancia para, numa situa\u00e7\u00e3o de fal\u00eancia, fazer uso do estoque. Deus me livre de tal pensamento. N\u00e3o tenho e jamais terei essa compet\u00eancia. O que tenho s\u00e3o aqueles pequenos vermes inescrupulosos chamados calorias, os quais se escondem em meu guarda-roupa e, \u00e0 noite, costuram e apertam minhas roupas. Vivi a plenitude da vida. Mesmo pleno, at\u00e9 hoje n\u00e3o entendi algumas diferen\u00e7as entre machos e f\u00eameas. Por exemplo, quando uma mulher fica gr\u00e1vida \u00e9 comum todos alisarem sua barriga e parabenizarem-na pelo futuro rebento. A estranheza \u00e9 pelo fato de nunca ter visto algu\u00e9m alisar o Z\u00e9 Bigorna e dizer: \u201cBom trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Nem mesmo o urologista (o m\u00e9dico mais procurado pelos mais velhos) faz isso. Pelo contr\u00e1rio. Eles olham o bilau alheio com desprezo, pegam-no com nojo, mas cobram como se o tivessem batizado novamente. Nada muito estranho para quem se acostumou com as perip\u00e9cias dos m\u00e9dicos durante o check up anual. Parecem os mec\u00e2nicos de autom\u00f3veis com nossas m\u00e1quinas obsoletas. Na \u00faltima revis\u00e3o de 60 mil km, fui informado que n\u00e3o tenho defeito de f\u00e1brica. Os problemas s\u00e3o os naturais do desgaste. O motor, a homocin\u00e9tica, as velas e os filtros est\u00e3o limpos. O cano de descarga tem v\u00e1rias folgas, da\u00ed o excesso de gases venosos e poluentes. O carburador funciona com apenas uma boca, as cassuletas batem com dificuldade, mas ainda aguentam o tranco. Quase carecas, os pneus precisam de calibragem. O problema \u00e9 com a alavanca do c\u00e2mbio. Bamba e sem engatar sequer a primeira, s\u00f3 pega bem quando eu encaixo na banguela, mesmo assim no escuro e com o injetor ligado na tomada 220 e operando como fio terra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s alguns bons pares de anos de engodo pol\u00edtico e governamental, finalmente deixamos de ser o pa\u00eds do futuro. 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