{"id":316637,"date":"2023-11-10T13:40:08","date_gmt":"2023-11-10T16:40:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=316637"},"modified":"2023-11-10T14:03:43","modified_gmt":"2023-11-10T17:03:43","slug":"imobilismo-do-governo-mergulha-lula-na-propria-crise-existencial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/imobilismo-do-governo-mergulha-lula-na-propria-crise-existencial\/","title":{"rendered":"Imobilismo do governo mergulha Lula na pr\u00f3pria crise existencial"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 exatamente um ano a rep\u00fablica afastava de sua intimidade a amea\u00e7a do projeto protofascista, representada pela possibilidade concreta da reelei\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o Bolsonaro. Como a rep\u00fablica de 1946 com seu liberalismo weimariano era a resposta l\u00f3gica da democracia \u00e0 ditadura do &#8220;Estado Novo&#8221;, o retrocesso encaminhado em 2018 (desdobramento, por seu turno, do golpe de 2016), seria o reverso da plenitude democr\u00e1tica oferecida pelo regime da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, vencidos os 21 anos da ditadura militar instaurada em 1\u00ba de abril de 1964, cuja ideologia, contudo, renascera como chorume.<\/p>\n<p>Em 2022 o fantasma que nos rondava como press\u00e1gio de uma trag\u00e9dia iminente era a promessa do aprofundamento do regime autocr\u00e1tico, de \u00edndole militar e reacion\u00e1ria, intrinsecamente autorit\u00e1rio e antinacional que haviam sido os quatro anos do bolsonarismo, doravante \u2013 e isso nos atordoava os democratas de todos os matizes \u2013 referendado pelo pronunciamento da soberania popular. E sabemos todos como foi dif\u00edcil transpor o Rubic\u00e3o do dia 30 de outubro de 2022! Ao fim e ao cabo logramos proclamar a vit\u00f3ria da institucionalidade democr\u00e1tica (que assim muito fica a dever \u00e0 esquerda brasileira), e ao inv\u00e9s da conserva\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria temida, no 1\u00ba de janeiro quem subiu a rampa foi a promessa de um governo nascido nas lutas sociais e marcadamente comprometido com a centro-esquerda brasileira que come\u00e7ou a se articular a partir das memor\u00e1veis jornadas de 1989.<\/p>\n<p>Temos, pois, o que comemorar, mas esta n\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria toda, pois na dif\u00edcil vit\u00f3ria eleitoral, fecho de uma campanha despolitizada em pa\u00eds j\u00e1 naquela altura tanto ou mais polarizado quanto em 1964, n\u00e3o houve espa\u00e7o para o debate ideol\u00f3gico, de modo que n\u00e3o se ensejou \u00e0s for\u00e7as socialistas e de esquerda em seu painel mais amplo a exposi\u00e7\u00e3o de suas cr\u00edticas ao sistema capitalista e a defesa de suas teses fundamentais. P\u00f4de assim disputar o voto (a despolitiza\u00e7\u00e3o foi a um tempo uma imposi\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es da campanha e uma op\u00e7\u00e3o t\u00e1tica), e f\u00ea-lo bem, mas n\u00e3o lhe foi poss\u00edvel conquistar &#8220;cora\u00e7\u00f5es e mentes&#8221;. O objeto, afinal, n\u00e3o era a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, mas impedir a continuidade do bolsonarismo na presid\u00eancia. E, certificaram os fatos, n\u00e3o se tratava de tarefa f\u00e1cil. Ademais, os sucessos eleitorais a partir de 2002 se mostraram mais concretos e desfrut\u00e1veis que as vit\u00f3rias pol\u00edticas, como a de 1989, e logo a esquerda trocou o proselitismo de longo prazo pelos frutos do imediato ensejados pelo eleitoralismo.<\/p>\n<p>Por todas as raz\u00f5es demonstr\u00e1veis, o fato objetivo que se oferece \u00e0 an\u00e1lise \u00e9 que, vencidos o pleito, a intentona de janeiro e as primeiras tentativas de desestabiliza\u00e7\u00e3o do novo governo, e nada obstante o que as investiga\u00e7\u00f5es policiais e judici\u00e1rias v\u00eam revelando da domesticidade do bolsonarismo, a direita fascista e golpista, seu campo, permanece forte, organizada e politicamente ativa, mantendo v\u00ednculos os mais estreitos com a caserna, a Faria Lima, o agroneg\u00f3cio e o neopentecostalismo atrasado, enquanto partilha o controle do Congresso com o Centr\u00e3o e todas as catervas de assaltantes do er\u00e1rio, e por seu interm\u00e9dio manipula o Or\u00e7amento da Uni\u00e3o. Governa Minas Gerais, Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nada menos de 67%do PIB nacional! (Dados do IBGE para 2020). Esta \u00e9 a rep\u00fablica em que se transformou o sonho dos constituintes de 1988, e, nas conting\u00eancias presentes, ponderadas as ilus\u00f5es e os pesadelos, ainda devemos saudar sua sobreviv\u00eancia e protestar o compromisso de defend\u00ea-la.<\/p>\n<p>Eleito, Lula \u00e9 jungido a governar em um regime transformista, que, se n\u00e3o \u00e9 mais o presidencialismo da ordem constitucional, ainda n\u00e3o \u00e9 um parlamentarismo de fato, ou consensual (como foi o do Segundo Reinado), embora o presidente da rep\u00fablica de hoje, para governar ou simplesmente conservar a faixa, seja obrigado a compartilhar o poder executivo com o presidente da C\u00e2mara dos Deputados, como se fora este um primeiro-ministro, fun\u00e7\u00f5es nas quais se investe (exercendo-as de fato), diante da fragilidade parlamentar da base governista. Mas n\u00e3o o faz por esp\u00edrito republicano, sen\u00e3o para mercadejar votos de curral inomin\u00e1vel em troca do acesso \u00e0 m\u00e1quina p\u00fablica que enseja ao administrador desonesto o acesso \u00e0s tetas do er\u00e1rio.<\/p>\n<p>Como lembrava o s\u00e1bio Conselheiro Ac\u00e1cio, as consequ\u00eancias v\u00eam depois, mas, em nosso caso, elas j\u00e1 marchavam a galope no rasto das negocia\u00e7\u00f5es dos feiticeiros do Planalto. Incumbidos de adquirir votos na C\u00e2mara e no Senado ao pre\u00e7o da cess\u00e3o de minist\u00e9rios (e verbas) e bancos sociais como a Caixa Econ\u00f4mica Federal ao Centr\u00e3o, terminaram pondo em jogo a pr\u00f3pria alma do governo, mergulhado em crise existencial.<\/p>\n<p>O minist\u00e9rio de hoje \u2013 um caleidosc\u00f3pio de for\u00e7as de esquerda, centro, direita e uma caterva de parasitas dos mais diversos matizes e especialidades \u2013 \u00e9, j\u00e1, um minist\u00e9rio velho e envilecido pelas aquisi\u00e7\u00f5es bastardas. Sem unidade pol\u00edtica, ideol\u00f3gica ou program\u00e1tica, sem unidade de princ\u00edpios, ser\u00e1 sempre um minist\u00e9rio pro tempore, aberto a implantes e transplantes sempre que uma vota\u00e7\u00e3o decisiva ati\u00e7ar o \u00e2nimo chantagista do Centr\u00e3o e seu Capo dei capi, que acumula essas relevantes fun\u00e7\u00f5es com as de presidente da C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>Na inseguran\u00e7a t\u00e1tica, a alternativa presente parece ser adiar as decis\u00f5es estrat\u00e9gicas. Fica para outros tempos menos severos, por exemplo, a decis\u00e3o hamletiana entre arrocho fiscal ou d\u00e9ficit zero (cobrado pela banca e seus porta-vozes na grande imprensa), ou o investimento visando ao desenvolvimento econ\u00f4mico, de cujo pleito Lula fez uma raz\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o lado mais vis\u00edvel da crise do poder institucional, mas o presidente precisa ouvir, e ouvir com muita aten\u00e7\u00e3o, e em seguida ceder generosos espa\u00e7os de interesse a outros agentes cons\u00f3cios do sistema, embora alheios \u00e0 soberania popular: a caserna, a Faria Lima, o Banco Central e os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, aparelhos ideol\u00f3gicos do grande capital. Ou seja, o Pal\u00e1cio do Planalto repousa t\u00e3o-s\u00f3 naqueles dias em que deveria receber as centrais sindicais, os movimentos sociais de modo geral. Mas se esse v\u00e1cuo enseja um pouco de distens\u00e3o, consideradas as pautas sempre pesadas do dia a dia, a aus\u00eancia dos trabalhadores, ademais de indicar as limita\u00e7\u00f5es de nosso pacto democr\u00e1tico, deixa o presidente mais distante das for\u00e7as populares, o \u00fanico instrumento de que disp\u00f5e para vencer o c\u00edrculo de giz caucasiano no qual o sistema pretende ret\u00ea-lo, como se a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as hoje desfavor\u00e1vel fosse ora uma fatalidade decretada pelo Olimpo, ora um determinismo hist\u00f3rico, em todo caso irremov\u00edvel pela forca humana. Quando n\u00e3o \u00e9 nem uma coisa nem outra, sen\u00e3o uma conting\u00eancia que sempre pode ser enfrentada por um governo origin\u00e1rio da mobiliza\u00e7\u00e3o das grandes massas populares.<\/p>\n<p>Muitas podem ser as raz\u00f5es do erro, do nosso governo, nas rela\u00e7\u00f5es com o castro, que por fim estimulam a indisciplina e favorecem o esp\u00edrito de corpo que caracterizam o papel do militar brasileiro, desafeito aos seus deveres constitucionais e funcionalmente desaparelhado para a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o que justifica o alto custo da caserna: a defesa nacional. Mas \u00e9 dif\u00edcil entender a decis\u00e3o pol\u00edtica de legitimar o abomin\u00e1vel art. 142 da Constitui\u00e7\u00e3o, ao invoc\u00e1-lo para uma vez mais levar as for\u00e7as armadas \u2013 repetindo erros crassos \u2013 a atuarem no Rio de Janeiro como auxiliares da pol\u00edcia fluminense no combate ao crime organizado, no contrapelo de sua destina\u00e7\u00e3o prec\u00edpua, que \u00e9 a defesa da soberania nacional. E o faz em momento o mais grave do cen\u00e1rio internacional, conturbado pelas disputas hegem\u00f4nicas que acentuam a crise geopol\u00edtica internacional, com guerras localizadas, guerras de conquista e viola\u00e7\u00f5es de soberania que podem estar anunciando um conflito generalizado, em face do qual as forcas armadas de hoje, pe\u00e7as do Estado brasileiro, n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es, sejam politicas e ideol\u00f3gicas (\u00e9 not\u00f3ria a depend\u00eancia do pensamento de nossos oficiais em rela\u00e7\u00e3o ao Pent\u00e1gono), sejam de treinamento, qualifica\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio tecnol\u00f3gico de armas e muni\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>O fascismo cresce no mundo. No Brasil, avan\u00e7a contando com o apoio das institui\u00e7\u00f5es estatais, da omiss\u00e3o das esquerdas de um modo geral, o que se revela na ren\u00fancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o e ao combate ideol\u00f3gico, tend\u00eancia que se vem consolidando desde os avan\u00e7os eleitorais de 2002, que ainda hoje servem de defesa para os fracassos pol\u00edticos de 2016 e 2018, que tanto contribu\u00edram para o desastre eleitoral que foram as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es proporcionais, levando o atual governo pagar o pre\u00e7o que se conhece e o pre\u00e7o que se pode estimar.<\/p>\n<p>O quadro conhecido de nosso continente &#8212; vivemos as angustiantes d\u00favidas quanto ao pleito argentino &#8212; indica uma quase revers\u00e3o de expectativas, se considerarmos o mapa pol\u00edtico contempor\u00e2neo face os dois primeiros governos Lula e o mandato de Dilma. Vale lembrar o desastre que foi Pedro Castillo no Peru, e o fiasco que vai se mostrando o governo do jovem e promissor Boric, um e outro exemplos fracassados de tentativa de composi\u00e7\u00e3o pelo alto com a direita vencida nas urnas, o que parece ser, at\u00e9 aqui, nossa perigosa estrat\u00e9gia, mais que uma conting\u00eancia. Em contraste, Petro vai se firmando na Col\u00f4mbia com uma postura de enfrentamento, mesmo sem maioria no Congresso. A inclina\u00e7\u00e3o pela direita indica o curso presente do Uruguai, do Equador e da Bol\u00edvia, sugerindo dificuldades para o Mercosul, para o BRICS e para a pol\u00edtica integracionista de Lula e Amorim, da maior relev\u00e2ncia para nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 important\u00edssimo participar do processo eleitoral (at\u00e9 porque trata-se, igualmente, de um processo pol\u00edtico que abre espa\u00e7o \u00e0 politiza\u00e7\u00e3o), mas seu objetivo n\u00e3o pode esgotar-se na pura e simples disputa do voto, pois seu objeto \u00e9 enfrentar a batalha pol\u00edtica e ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Assim deve ser entendida a memor\u00e1vel elei\u00e7\u00e3o de 2022, e assim se coloca para os socialistas a defesa do governo Lula: o contingente necess\u00e1rio que n\u00e3o encerra a luta toda, que deve ser a revolu\u00e7\u00e3o social, o objetivo que n\u00e3o pode ser descartado.<\/p>\n<p><strong>*Ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia no primeiro governo Lula.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 exatamente um ano a rep\u00fablica afastava de sua intimidade a amea\u00e7a do projeto protofascista, representada pela possibilidade concreta da reelei\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o Bolsonaro. 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