{"id":316978,"date":"2023-11-15T05:45:40","date_gmt":"2023-11-15T08:45:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=316978"},"modified":"2023-11-15T06:59:54","modified_gmt":"2023-11-15T09:59:54","slug":"confusoes-do-embaixador-e-genocidio-brasil-pisa-e-sopra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/confusoes-do-embaixador-e-genocidio-brasil-pisa-e-sopra\/","title":{"rendered":"Confus\u00f5es do embaixador e genoc\u00eddio&#8230; Brasil pisa e sopra"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto os ataques israelenses s\u00e3o cada vez mais intensos na Faixa de Gaza e n\u00e3o poupam sequer hospitais e abrigos da ONU, crescem cr\u00edticas de pa\u00edses tradicionalmente neutros, como o Brasil. Pela primeira vez autoridades brasileiras, a exemplo do assessor especial Celso Amorim, falaram que Israel comete genoc\u00eddio contra a popula\u00e7\u00e3o palestina.<\/p>\n<p>Os atritos nas rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre os dois pa\u00edses cresceram ainda mais na \u00faltima semana, quando o embaixador de Israel no Brasil, Daniel Zonshine, se reuniu com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Congresso Nacional. O encontro, que teve como foco mostrar imagens dos ataques do Hamas \u00e0 Israel no dia 7 de outubro, quando mais de 1,4 mil pessoas morreram e outras cerca de 240 foram sequestradas, ainda teve a presen\u00e7a de deputados de oposi\u00e7\u00e3o ao governo do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT).<\/p>\n<p>Amplamente divulgado nas redes sociais, tanto da embaixada israelense quanto do pr\u00f3prio diplomata, o caso gerou revolta entre membros do Pal\u00e1cio do Planalto, que j\u00e1 chegaram a declarar que a perman\u00eancia de Zonshine no pa\u00eds \u00e9 \u201cinsustent\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Para o professor de direito internacional Paulo Henrique Gon\u00e7alves Portela, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cdelicad\u00edssima\u201d. Conforme o especialista, um diplomata estrangeiro at\u00e9 pode se reunir com for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m encontros como esse t\u00eam que ser feitos \u201ccom cautela, de modo a n\u00e3o causar muita exposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAcredito que um poss\u00edvel di\u00e1logo entre o embaixador de Israel no Brasil e as for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o deveria ter sido feito de uma maneira muito mais discreta, de modo a evitar uma publicidade para as for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o. O que eu insisto \u00e9 que isso pode, sim, configurar interven\u00e7\u00e3o nos assuntos internos do Estado. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o extremamente delicada\u201d, frisa o analista, acrescentando que Daniel Zonshine pode ter desrespeitado o direito internacional previsto na Conven\u00e7\u00e3o de Viena, que rege as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas no mundo desde 1961.<\/p>\n<p>Membros importantes do PT tamb\u00e9m criticaram a atua\u00e7\u00e3o do embaixador israelense. O vice-l\u00edder do partido no Congresso, Lindbergh Farias, defendeu a expuls\u00e3o de Zonshine do pa\u00eds por ter cruzado a linha do aceit\u00e1vel. \u201cCriticou publicamente Lula e o governo, que desde o in\u00edcio do conflito s\u00f3 pregam e trabalham pela PAZ, e agora se re\u00fane com Bolsonaro e bolsonaristas pra fazer pol\u00edtica?\u201d, questionou na rede social X.<\/p>\n<p>A presidente petista, Gleisi Hoffmann, tamb\u00e9m confrontou Daniel Zonshine nas redes sociais por conta da \u201calian\u00e7a esp\u00faria\u201d com o ex-presidente Bolsonaro. Na mesma data, o diplomata ainda tentou antecipar as pris\u00f5es de dois brasileiros ligados ao grupo liban\u00eas Hezbollah suspeitos de planejarem ataques terroristas contra institui\u00e7\u00f5es judaicas no pa\u00eds, o que esquentou ainda mais a temperatura e fez o ministro da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, Fl\u00e1vio Dino, se pronunciar. Para Dino, nenhum representante de governo estrangeiro pode tentar \u201cantecipar resultado de investiga\u00e7\u00e3o conduzida pela Pol\u00edcia Federal\u201d.<\/p>\n<p>E com o retorno do grupo com 32 brasileiros que estava na Faixa de Gaza ao pa\u00eds ap\u00f3s intensas negocia\u00e7\u00f5es, o governo ganha mais for\u00e7a para tentar retirar o embaixador nomeado por Israel do Brasil sem atrapalhar futuras repatria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O doutor em direito constitucional Acacio Miranda da Silva Filho, professor da Escola Superior do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo, argumenta que as diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas dos governos brasileiro e israelense podem ter levado ao epis\u00f3dio. \u201cO governo israelense \u00e9 declaradamente de direita, tem uma postura efusiva e contundente nas suas rela\u00e7\u00f5es internacionais, e sabemos que hoje o governo brasileiro \u00e9 mais afinado \u00e0 esquerda. [\u2026] Obviamente isso acaba reverberando algumas diferen\u00e7as e, por vezes, gestos desastrosos como esses\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Mesmo com os atritos dos \u00faltimos dias, o professor Paulo Henrique Gon\u00e7alves Portela avalia que a possibilidade de o governo brasileiro adotar uma postura abertamente contr\u00e1ria a Israel \u00e9 quase nula.<\/p>\n<p>\u201cA posi\u00e7\u00e3o tradicional da pol\u00edtica externa brasileira em todos os conflitos internacionais \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o da maior neutralidade poss\u00edvel, do maior equil\u00edbrio poss\u00edvel. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que procura preconizar a preval\u00eancia do direito internacional e, portanto, trabalhar pela solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica das controv\u00e9rsias\u201d, pontua o especialista.<\/p>\n<p>Diferentemente de pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina como a Bol\u00edvia, que rompeu rela\u00e7\u00f5es com Tel Aviv em protesto \u00e0 magnitude da guerra que, s\u00f3 na Faixa de Gaza, j\u00e1 matou mais de 11 mil palestinos, o especialista acredita que a diplomacia brasileira quer evitar ainda mais tens\u00f5es nesse cen\u00e1rio. Ele lembra ainda que essa iniciativa traria grandes impactos internos ao governo Lula, \u201cem virtude da simpatia que Israel tem de in\u00fameros grupos religiosos e sociais\u201d, como \u00e9 o caso dos evang\u00e9licos.<\/p>\n<p>\u201cFaria com que o governo acabasse criando uma aresta desnecess\u00e1ria com esses grupos, no momento em que a pol\u00edtica brasileira ainda \u00e9 muito complexa, se ressente muito da polaridade dos \u00faltimos anos. N\u00e3o vejo, portanto, o Brasil adotando nenhuma posi\u00e7\u00e3o abertamente contr\u00e1ria a Israel\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Ac\u00e1cio Filho concorda e acrescenta que as rela\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas tamb\u00e9m s\u00e3o pautadas em interesses financeiros entre os pa\u00edses. \u201cEssas rela\u00e7\u00f5es podem degradar, mas em nenhum momento elas chegaram em um aspecto extremo, porque s\u00e3o pautadas em quest\u00f5es econ\u00f4micas, e, sob esse ponto de vista, a parceria Brasil-Israel \u00e9 bastante importante para os dois pa\u00edses\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do assessor especial da presid\u00eancia Celso Amorim, o presidente Lula j\u00e1 disse que o conflito em Gaza \u00e9 um genoc\u00eddio. \u201cSinceramente, eu n\u00e3o sei como um ser humano \u00e9 capaz de guerrear sabendo que o resultado dessa guerra \u00e9 a morte de crian\u00e7as inocentes\u201d, disse. Oficialmente, a diplomacia brasileira tem evitado usar a express\u00e3o. Mesmo assim, caso ocorra um reconhecimento, o professor Paulo Henrique Portela acredita que n\u00e3o deve atrapalhar a tradicional neutralidade das rela\u00e7\u00f5es internacionais brasileiras.<\/p>\n<p>\u201cA neutralidade n\u00e3o diz respeito a reconhecer ou n\u00e3o a exist\u00eancia de certos fatos, ela se perde quando o Estado toma parte do conflito. O Brasil poderia eventualmente reconhecer esse genoc\u00eddio para dizer a Israel que h\u00e1 um fato ocorrendo na Faixa de Gaza e [que], por conta disso, \u00e9 preciso sentar e conversar para tentar solucionar isso\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>De acordo com o especialista, a conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre genoc\u00eddio, que se limita a dizer que h\u00e1 \u201ccrime de guerra\u201d de Israel contra os palestinos, traz como genoc\u00eddio \u201catos cometidos com a inten\u00e7\u00e3o de destruir no todo ou em parte um grupo nacional, \u00e9tnico, radical ou religioso\u201d com atos sistem\u00e1ticos. \u201cCaberia avaliar, no caso da situa\u00e7\u00e3o em Gaza, a exist\u00eancia dessa pol\u00edtica, que tem um alvo, o povo palestino, que mora naquela regi\u00e3o, [e que] \u00e9 unido por uma certa cultura comum.\u201d<\/p>\n<p>Por fim, o analista de direito internacional avalia que as rela\u00e7\u00f5es entre Brasil e Israel nunca foram centrais para a pol\u00edtica externa de ambos os pa\u00edses. \u201cS\u00e3o rela\u00e7\u00f5es historicamente amistosas, s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es historicamente sem maiores problemas, sem grandes notas e grandes tra\u00e7os de diverg\u00eancias. H\u00e1 um hist\u00f3rico interessante do papel decisivo do Brasil nas reuni\u00f5es da Assembleia Geral da ONU, nas reuni\u00f5es da ONU que levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, mas, de resto, uma rela\u00e7\u00e3o sem maiores problemas, mas tamb\u00e9m sem maior destaque.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto os ataques israelenses s\u00e3o cada vez mais intensos na Faixa de Gaza e n\u00e3o poupam sequer hospitais e abrigos da ONU, crescem cr\u00edticas de pa\u00edses tradicionalmente neutros, como o Brasil. Pela primeira vez autoridades brasileiras, a exemplo do assessor especial Celso Amorim, falaram que Israel comete genoc\u00eddio contra a popula\u00e7\u00e3o palestina. 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