{"id":317045,"date":"2023-11-16T05:18:32","date_gmt":"2023-11-16T08:18:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=317045"},"modified":"2023-11-16T05:20:12","modified_gmt":"2023-11-16T08:20:12","slug":"republica-proclamada-e-nunca-consolidada-da-muitas-voltas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/republica-proclamada-e-nunca-consolidada-da-muitas-voltas\/","title":{"rendered":"Rep\u00fablica proclamada e nunca consolidada d\u00e1 muitas voltas"},"content":{"rendered":"<p>Estou atrasado um dia, mas, como todo brasileiro que se preza, tirei o feriado para gozar a vida. S\u00f3 a vida, \u00e9 claro. Por isso, s\u00f3 hoje decidi lembrar uma data escorpiana e inseticidamente parte do calend\u00e1rio gregoriano como o 319\u00ba dia do ano. Refiro-me ao 15 de novembro da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, quando o Ex\u00e9rcito nacional e civis se uniram, expulsaram a fam\u00edlia real e implantaram a Rep\u00fablica. Como n\u00e3o vivi aquela \u00e9poca, at\u00e9 hoje n\u00e3o sei se era melhor do que estamos.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a heran\u00e7a \u00e9 realmente maldita? Vamos \u00e0s muitas voltas da Rep\u00fablica do Brasil. Em 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro, montado em seu cavalo, o marechal alagoano Deodoro da Fonseca \u201cproclamou\u201d a primeira frase de efeito de um governante brasileiro: \u201cO melhor programa econ\u00f4mico do governo \u00e9 n\u00e3o atrapalhar aqueles que produzem, investem, poupam, empregam, trabalham e consomem\u201d, ou seja, o empresariado e o trabalhador.<\/p>\n<p>Passados 134 anos, a Rep\u00fablica j\u00e1 teve l\u00edderes ga\u00fachos, mineiros, cariocas, paulistas, pernambucanos, um falso alagoano e um ningu\u00e9m sabe de onde. A mesmice pol\u00edtica \u00e9 estonteante. O que talvez tenha mudado \u00e9 a for\u00e7a das frases produzidas pelos nossos homens p\u00fablicos dos altos escal\u00f5es, embora a conota\u00e7\u00e3o seja a mesma: somos o esterco do cavalo manco do bandido. Isto quando o bandido tem uma montaria.<\/p>\n<p>Cunhada por um advers\u00e1rio pol\u00edtico do ex-governador paulista Ademar de Barros, o jornalista e bi\u00f3grafo Paulo Junqueira Duarte, uma das express\u00f5es mais famosas (\u201cRouba, mas faz&#8221;) virou bord\u00e3o em refer\u00eancia ao governante que, embora corrupto, tamb\u00e9m \u00e9 visto como um benfeitor, algu\u00e9m que, de alguma forma, contribui com a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Coisas do Brasil de ontem, de hoje e de sempre. De Fonseca \u00e0 c\u00e9lebre frase de Get\u00falio Vargas, em 1954, foram algumas d\u00e9cadas. No entanto, o peso certamente foi o mesmo. At\u00e9 hoje considerado um dos presidentes mais importantes do Brasil, Vargas preferiu o suic\u00eddio a fazer as concess\u00f5es que lhe eram exigidas \u00e0 \u00e9poca: \u201cSerenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na Hist\u00f3ria\u201d. E de fato entrou.<\/p>\n<p>Naquele 22 de agosto de 54, Vargas acabou se tornando o primeiro e \u00fanico mito da pol\u00edtica nacional. Qualquer outro \u00e9 fraude. De presidente a presidente, l\u00e1 se v\u00e3o 39 mandat\u00e1rios desde a Rep\u00fablica. Tivemos os muito bons, os ruins, os muito ruins, os for\u00e7ados e aqueles que n\u00e3o disseram porque foram eleitos e, por isso, tiveram de deixar o poder pela porta dos fundos.<\/p>\n<p>Algumas das frases n\u00e3o passaram de ironia. Uma delas, durante a ditadura militar, foi dita por aquele general do qual n\u00e3o gostamos sequer de lembrar o nome: \u201cSinto-me feliz todas as noites quando ligo a televis\u00e3o para assistir ao jornal. Enquanto as not\u00edcias d\u00e3o conta de greves, agita\u00e7\u00f5es, atentados e conflitos em v\u00e1rias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o foi dito \u00e9 que o pr\u00f3prio general ufanista do \u201cAme-o ou Deixe-o\u201d proibia a veicula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias sobre greves, agita\u00e7\u00f5es, atentados, conflitos, desaparecimento de opositores ao regime e tortura nos agitados por\u00f5es da Rep\u00fablica fardada. Dessa forma, era f\u00e1cil evitar que as not\u00edcias ruins chegassem \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>JK tamb\u00e9m cunhou uma das p\u00e9rolas ao afirmar que a seca de 1956, ano em que assumiu a Presid\u00eancia, seria a \u00faltima a assolar o Nordeste. Errou apenas por 67 anos. Outro de nossos \u201cl\u00edderes\u201d se notabilizou por preferir o cheiro de cavalo a cheiro de povo e por afirmar que prendia e arrebentava quem se colocasse contra a abertura pol\u00edtica. Morreu e foi comido pelas formigas como qualquer outro cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Derrotado por Tancredo Neves em 1985, no Col\u00e9gio Eleitoral, Paulo Salim Maluf entrou para os anais ao defender singelamente os estupradores: \u201cSe est\u00e1 com desejo sexual, estupra, mas n\u00e3o mata\u201d. Felizmente, um desses man\u00edacos nunca chegou pr\u00f3ximo de uma das filhas do quase decujo.<\/p>\n<p>E h\u00e1 ainda o \u201cDuela a quien duela\u201d, durou pouco para quem se imaginou ca\u00e7ador eterno de maraj\u00e1s.<\/p>\n<p>As locu\u00e7\u00f5es foram tantas que vou me ater \u00e0s novidadeiras, \u00e0s ing\u00eanuas e \u00e0s mais idiotas. Na cabe\u00e7a do Marimbondo de Fogo Jos\u00e9 Sarney, \u201cGoverno \u00e9 igual violino: voc\u00ea toma com a esquerda e toca com a direita\u201d. Bem assim. Como o ca\u00e7ador foi cassado, sobrou para Itamar Franco a gloriosa recupera\u00e7\u00e3o do Fusca. Sacanagem, pois, para os mineiros, \u201ca pol\u00edtica \u00e9 como um croch\u00ea: n\u00e3o se pode dar ponto errado, sob pena de ter de come\u00e7ar tudo de novo\u201d. Itamar n\u00e3o errou.<\/p>\n<p>Sensato, Fernando Henrique Cardoso disse, logo ap\u00f3s a proeza do Plano Real, que \u201co mais importante para quem est\u00e1 governando n\u00e3o \u00e9 preservar o mercado, mas preservar as pessoas\u201d. Fomos, fomos de novo e voltamos \u00e0 tese de que \u201cnunca na hist\u00f3ria deste pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 presidenta, n\u00e3o podemos deixar de \u201csaudar a mandioca como uma das maiores conquistas do Brasil\u201d. Como ela bem disse, \u201cse tiv\u00e9ssemos estocado o vento, cada um respiraria o seu\u201d. E Z\u00e9 fini!<\/p>\n<p>N\u00e3o chegamos a tremer, mas com Temer todos ouvimos que \u201cmuitos votaram na Dilma porque eu era o candidato a vice\u201d. Uma pena perder tempo com ele, o pior presidente que o pa\u00eds j\u00e1 teve, mas que faz parte de qualquer narrativa sobre negacionismo ou golpismo. \u00c9 a prova da maldi\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cChega de frescura\u201d, \u201cCaguei\u201d, \u201cO Brasil tem de deixar de ser um pa\u00eds de maricas\u201d, \u201cO grande erro da ditadura foi torturar e n\u00e3o matar\u201d, \u201cOs gays n\u00e3o s\u00e3o semideuses. A maioria \u00e9 fruto do consumo de drogas\u201d s\u00e3o algumas das estultices regurgitadas por aquele cidad\u00e3o que nem a farda honrou.<\/p>\n<p>Pedro \u00c1lvares Cabral foi somente o descobridor, mas, do c\u00e9u, me autorizou a adaptar sua frase mais eloquente: \u201cPapuda \u00e0 vista\u201d. Luiz In\u00e1cio est\u00e1 a\u00ed para, quem sabe, consolidar a Rep\u00fablica de quase um s\u00e9culo e meio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou atrasado um dia, mas, como todo brasileiro que se preza, tirei o feriado para gozar a vida. S\u00f3 a vida, \u00e9 claro. Por isso, s\u00f3 hoje decidi lembrar uma data escorpiana e inseticidamente parte do calend\u00e1rio gregoriano como o 319\u00ba dia do ano. 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