{"id":317255,"date":"2023-11-19T04:38:27","date_gmt":"2023-11-19T07:38:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=317255"},"modified":"2023-11-19T05:59:13","modified_gmt":"2023-11-19T08:59:13","slug":"sionismo-esta-plantado-em-israel-como-um-cancro-profundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sionismo-esta-plantado-em-israel-como-um-cancro-profundo\/","title":{"rendered":"Sionismo est\u00e1 plantado em Israel como um cancro profundo"},"content":{"rendered":"<p>A atual brutal viol\u00eancia do Estado de Israel contra a popula\u00e7\u00e3o palestina n\u00e3o deveria surpreender ningu\u00e9m. A ideologia sionista sempre carregou em si a lenda de um povo sem terra ocupando uma terra sem povo. Na melhor das hip\u00f3teses, estariam lidando com uma popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o-civilizada, semib\u00e1rbara. Ap\u00f3s as a\u00e7\u00f5es militares do Hamas em 7 de outubro, v\u00e1rias lideran\u00e7as sionistas argumentaram, de forma direta ou indireta, que se tratavam de a\u00e7\u00f5es de desumanas e que, portanto, o Hamas e seus seguidores devem ser tratados como desumanos. Na verdade, \u00e9 assim que os sionistas desde sempre trataram e olharam para o povo Palestino.<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o veio junto com uma ideologia de superioridade e racismo, e, na impossibilidade de expulsar todos os palestinos com um sistema de apartheid, a vertente de esquerda argumentava que o sionismo iria libertar a regi\u00e3o da opress\u00e3o do feudalismo. Tratava-se de um socialismo para um povo s\u00f3. Hoje em dia o sionismo n\u00e3o \u00e9 mais laico, nem tem a fachada socialista dos Kibutz, ele assume de vez a cara de um extremismo de direita liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que ocupa, desde dezembro 2022, pela terceira vez, o posto (primeira de 1996-1999, segunda de 2009-2021).<\/p>\n<p>Yasser Arafat, o l\u00edder da Organiza\u00e7\u00e3o pela Liberta\u00e7\u00e3o de Palestina (OLP) de 1969 at\u00e9 sua morte, em 2004, comentou em uma entrevista no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 que o drama dos Palestinos era ser as v\u00edtimas das v\u00edtimas da hist\u00f3ria. De fato, embora, a ocupa\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o de terras \u00e1rabes pelo sionismo tenha come\u00e7ado antes, ganhou for\u00e7a na d\u00e9cada de 1930, como o avan\u00e7o do nazismo. Sob dom\u00ednio dos brit\u00e2nicos e com o avan\u00e7o r\u00e1pido da coloniza\u00e7\u00e3o sionista, houve uma primeira rea\u00e7\u00e3o em 1937 que ficou conhecida como a revolta \u00c1rabe, que chegou a controlar Jerusal\u00e9m, Nablus e Hebron. Para reprimir essa revolta, as mil\u00edcias sionistas e for\u00e7as armadas brit\u00e2nicas atuaram em sintonia. O autor Rashid Khalid registrou que cerca de 10% dos homens adultos na Palestina foram mortos. O primeiro dos muitos massacres contra o povo palestino que marcam o avan\u00e7o da coloniza\u00e7\u00e3o sionista das suas terras.<\/p>\n<p>Mas foi a ONU que, em 1948, decidiu, em nome do direito internacional, que os Palestinos deveriam ceder cerca de metade das suas terras para a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. Em 1948, quase a totalidade dos pa\u00edses africanos e grande parte dos asi\u00e1ticos n\u00e3o haviam ainda conquistado sua independ\u00eancia, logo, essa ONU que cometeu tamanha injusti\u00e7a foi basicamente branca, dominada pelos pa\u00edses do Norte, e, nesse caso, com um apoio incondicional da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que acreditava que o Estado sionista tenderia a favorecer o campo socialista, em um contexto no qual os pa\u00edses \u00e1rabes ainda estavam sob controle pol\u00edtico de monarquias conservadoras, aliadas do Ocidente.<\/p>\n<p>Essa decis\u00e3o da ONU, em um momento em que o Brasil estava na presid\u00eancia da Assembleia Geral (AGNU), com a figura muito respeitada em Israel, Osvaldo Aranha, s\u00f3 foi poss\u00edvel porque o mundo havia assistido ao Holocausto, um crime n\u00e3o s\u00f3 contra o povo judeu, mas contra a humanidade. Isso criou uma massa cr\u00edtica ideol\u00f3gica e pol\u00edtica para atender o pleito dos sionistas. H\u00e1, por\u00e9m, uma coisa fundamentalmente errada: o crime foi cometido na Europa, por europeus (nazistas e seus colaboradores ativos e passivos), mas quem teve de se sacrificar foi o povo palestino!<\/p>\n<p>Logo, os \u00e1rabes n\u00e3o tinham por que aceitar essa divis\u00e3o e tentaram, com a for\u00e7a militar impedir, em v\u00e3o, a instala\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. Isso resultou em uma destrui\u00e7\u00e3o massiva dos povoados palestinos e um \u00eaxodo for\u00e7ado, conhecido como o Nakba (em portugu\u00eas, a cat\u00e1strofe), em 1948. A ONU entrou para aliviar o sofrimento ao instalar o primeiro grande programa de apoio aos refugiados na sigla inglesa: UNRWA, que at\u00e9 hoje \u00e9 o maior programa para apoio a refugiados. A grande maioria da popula\u00e7\u00e3o em Gaza tem status de refugiada e, desde ent\u00e3o, a pol\u00edtica social e educacional nos campos de refugiados \u00e9 organizada e mantida pela ONU. Um trabalho importante, essencial e louv\u00e1vel, mas que n\u00e3o deixa de legitimar a coloniza\u00e7\u00e3o dos terras palestinas e a expuls\u00e3o da sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Passaram-se mais tr\u00eas guerras: em 1956, quando Israel ajudou as for\u00e7as brit\u00e2nicas e francesas contra o Egito do Gamal Abdel Nasser (1954-1970); em 1967 e 1973, quando Israel resistiu, com o apoio dos EUA, \u00e0 ofensiva das for\u00e7as armadas dos pa\u00edses \u00e1rabes lideradas por Egito e S\u00edria. O Estado de Israel se tornou o maior aliado dos EUA em apoio militar e pol\u00edtico desde ent\u00e3o. Era, e continua sendo, um pilar fundamental para exercer a hegemonia estadunidenses em uma regi\u00e3o que concentra mais da metade das reservas mundiais de petr\u00f3leo. Ao mesmo tempo, o lobby sionista nos EUA tinha se tornado mais poderoso, com enorme capacidade de influenciar a pol\u00edtica, a m\u00eddia e a academia no pa\u00eds. Foi a partir da guerra de 1967 que Gaza, Cisjord\u00e2nia e Gol\u00e3 passaram a ser militarmente ocupadas por Israel. Os primeiros dois territ\u00f3rios deveriam, junto com Jerusal\u00e9m Oriental, ser a base de um Estado Palestino. Na d\u00e9cada de 1970 e 1980, assistimos a v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria OLP, que ent\u00e3o era caracterizada pelos aliados de Israel como organiza\u00e7\u00e3o terrorista.<\/p>\n<p>Mas, na d\u00e9cada de 1960 e 1970, p\u00f3s-descoloniza\u00e7\u00e3o, a Assembleia Geral da mesma ONU (AGNU) come\u00e7ou a ser palco de contesta\u00e7\u00e3o contra a nega\u00e7\u00e3o dos direitos dos palestinos. Os povos rec\u00e9m-descolonizados, que hoje chamamos o \u201cSul Global\u201d, se identificaram com a luta dos palestinos, e, de l\u00e1 para c\u00e1, assistimos a v\u00e1rias resolu\u00e7\u00f5es aprovadas na Assembleia Geral (com a maioria dos votos) e vetadas no Conselho de Seguran\u00e7a (pelo veto dos EUA) em defesa dos Palestinos e contra a ocupa\u00e7\u00e3o ilegal da Cisjord\u00e2nia e Gaza. Houve no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970 inclusive a aprova\u00e7\u00e3o da resolu\u00e7\u00e3o da AGNU que classificou o sionismo como forma de racismo. Resolu\u00e7\u00e3o que foi revogada no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990. Mas Israel nunca se preocupou com isso e sabe que pode esticar a corda quanto quiser, que os EUA at\u00e9 podem ficar constrangidos, mas nunca v\u00e3o deixar de apo\u00e1-los.<\/p>\n<p>Ou seja, a ONU ganhou um segundo papel no conflito: al\u00e9m de aliviar o desastre humano, se tornou um palco de contesta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, sem efeito pr\u00e1tico. A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o vir\u00e1, portanto, da ONU, que foi ator principal do pecado, conforme explicado, e continua ref\u00e9m dos interesses hegem\u00f4nicos dos EUA e seus aliados. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o seja importante usar o espa\u00e7o para disputar a narrativa pol\u00edtica e muito menos negar a import\u00e2ncia das a\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o parecia estar em um impasse, at\u00e9 que, em 9 de dezembro de 1987, as popula\u00e7\u00f5es de Gaza, e sobretudo, da Cisjord\u00e2nia, resolveram enfrentar a for\u00e7a militar israelense com a cara e coragem, tendo como \u00fanica arma as pedras da sua terra no que ficou conhecida como a Intifadah. Dif\u00edcil caracterizar a popula\u00e7\u00e3o inteira como terrorista. Houve mudan\u00e7as na opini\u00e3o p\u00fablica na Europa, no contexto do fim da guerra fria, e nesse processo, a pr\u00f3pria OLP reconhece na pr\u00e1tica a exist\u00eancia do Estado de Israel, abra\u00e7ando ent\u00e3o o projeto da ONU da solu\u00e7\u00e3o de dois Estados. Isso culminou nos famosos acordos de Camp David, em 1992, mediados por Bill Clinton. Ou seja, a OLP fez todas as concess\u00f5es b\u00e1sicas, abriu m\u00e3o da luta armada e muitos imaginavam que se havia chegado a uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica com o reconhecimento dos direitos m\u00ednimos dos palestinos.<\/p>\n<p>Doce ilus\u00e3o. O que ficou claro de l\u00e1 para c\u00e1 \u00e9 que o Estado de Israel nunca levou a s\u00e9rio e nunca iria aceitar a cria\u00e7\u00e3o de um Estado Palestino. Partiu para uma ofensiva pra inviabilizar essa solu\u00e7\u00e3o ao estimular ocupa\u00e7\u00f5es ilegais da Cisjord\u00e2nia por colonos sionistas e separar a rela\u00e7\u00e3o entre Cisjord\u00e2nia e Gaza. Houve incentivos claros para inflamar as tens\u00f5es entre a Autoridade Palestina, das for\u00e7as da OLP na Cisjord\u00e2nia e do Hamas em Gaza. Ou seja, houve uma anexa\u00e7\u00e3o de fato de parte importante do territ\u00f3rio na Cisjord\u00e2nia, nas terras mais f\u00e9rteis e com controle das \u00e1guas subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>A dupla Trump e Netanyahu, com Bolsonaro dando sua contribui\u00e7\u00e3o, partiu para uma nova fase: apagar o conflito. Negar o status de refugiados, questionar a legitimidade da UNRWA e tirar o assunto da pauta. Para isso, precisava do apoio das lideran\u00e7as \u00e1rabes. Trump foi para a ofensiva para convenc\u00ea-los a reconhecer o Estado de Israel e fazer acordos de coopera\u00e7\u00e3o. Estes ganharam o nome de \u201cAcordos de Abrah\u00e3o\u201d. No caso do Marrocos, por exemplo, este ganhou em troca o reconhecimento por parte dos EUA do seu direito soberano sobre o Sahara Ocidental. Nesses Acordos de Abrah\u00e3o n\u00e3o estava o nenhum compromisso por parte de Israel com os palestinos. At\u00e9 que foi servido o fil\u00e9 mignon: o reconhecimento do Estado de Israel pela Ar\u00e1bia Saudita, pa\u00eds sede de Meca e centro da religi\u00e3o isl\u00e2mica, em particular do sunismo, a vertente do Islam majorit\u00e1ria entre os palestinos. Fazia muito tempo que esta monarquia conservadora apoiava na pr\u00e1tica os interesses dos EUA e Israel na regi\u00e3o, mas, da boca para fora, se mantinha solid\u00e1rio com o povo palestino. Ela assumiu, ent\u00e3o, de vez, sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que aconteceu no m\u00eas de outubro de 2023, 50 anos ap\u00f3s a invas\u00e3o do Sinai pelas for\u00e7as de Egito na Guerra de Outubro de 1973, foi uma rea\u00e7\u00e3o a esse processo de anexa\u00e7\u00e3o de fato da Cisjord\u00e2nia e ao apagamento da quest\u00e3o palestina de vez da agenda pol\u00edtica internacional. O terror contra o povo palestino n\u00e3o come\u00e7ou em 7 de outubro, mas ganhou novamente visibilidade perante a opini\u00e3o p\u00fablica. E por mais que os l\u00edderes \u00e1rabes tenham tentado durante anos se distanciar do problema, suas popula\u00e7\u00f5es reagiram em massa obrigando-os a se posicionarem novamente, pelo menos no discurso. Na Europa assistimos \u00e0 volta dos movimentos de solidariedade com o povo de palestino, visivelmente liderado por membros das comunidades provenientes de pa\u00edses do Sul Global, seja na primeira, segunda ou terceira gera\u00e7\u00e3o. O conflito ganhou a cara que tem: uma heran\u00e7a do colonialismo e imperialismo ocidental. N\u00e3o sabemos como essa fase do conflito vai terminar, mas \u00e9 certo que a tentativa de apagar o povo palestino foi derrotada.<\/p>\n<p><strong>*Professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC; membro do Observat\u00f3rio da Pol\u00edtica Externa e da Inser\u00e7\u00e3o Internacional do Brasil.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atual brutal viol\u00eancia do Estado de Israel contra a popula\u00e7\u00e3o palestina n\u00e3o deveria surpreender ningu\u00e9m. A ideologia sionista sempre carregou em si a lenda de um povo sem terra ocupando uma terra sem povo. Na melhor das hip\u00f3teses, estariam lidando com uma popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o-civilizada, semib\u00e1rbara. 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