{"id":317376,"date":"2023-11-21T05:53:31","date_gmt":"2023-11-21T08:53:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=317376"},"modified":"2023-11-21T06:25:46","modified_gmt":"2023-11-21T09:25:46","slug":"milei-faz-jogo-de-cena-ao-dizer-que-dara-costas-ao-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/milei-faz-jogo-de-cena-ao-dizer-que-dara-costas-ao-brasil\/","title":{"rendered":"Milei faz jogo de cena ao dizer que dar\u00e1 costas ao Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Eleito futuro presidente da Argentina, o ultraliberal Javier Milei ascendeu como um fen\u00f4meno na pol\u00edtica do pa\u00eds vizinho. Com ideias radicais sobre como gerir o pa\u00eds nos pr\u00f3ximos anos, ele defende, entre outras coisas, dolarizar a economia, afastar seu governo do presidente brasileiro Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, a quem chamou de corrupto, e retirar a Argentina do BRICS, ap\u00f3s o pa\u00eds iniciar seu processo de ades\u00e3o ao grupo em outubro.<\/p>\n<p>Especialistas em geopol\u00edtica do Continente explicam o que levou \u00e0 ascens\u00e3o de Milei e como a vit\u00f3ria do ultraliberal pode impactar nas rela\u00e7\u00f5es com o Brasil e o BRICS e no projeto de fortalecimento regional do governo brasileiro.<\/p>\n<p>Ximena Simpson, doutora em ci\u00eancia pol\u00edtica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisadora da Escola de Pol\u00edtica e Governo da Universidade Nacional de San Mart\u00edn, da Argentina, e coordenadora do Observat\u00f3rio de Pol\u00edtica e Economia Brasil-Argentina (Obra), destaca que a vit\u00f3ria de Milei se explica, em grande parte, pela situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Argentina.<\/p>\n<p>Ela cita a alta inflacion\u00e1ria do peso argentino, que j\u00e1 chega a 150%, e o \u00edndice de pobreza no pa\u00eds, que afeta 50% da popula\u00e7\u00e3o. \u201cO que est\u00e1 em crise n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a economia, mas a pol\u00edtica tradicional. H\u00e1 tamb\u00e9m a desesperan\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o de ver nas op\u00e7\u00f5es tradicionais uma poss\u00edvel mudan\u00e7a real na situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de vida\u201d, explica Ximena.<\/p>\n<p>Segundo ela, embora a elei\u00e7\u00e3o de Milei venha sendo comparada \u00e0 do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2018, h\u00e1 aspectos bastante diferentes entre os dois casos.<\/p>\n<p>\u201cA gente pode pensar que s\u00e3o dois exemplos da extrema-direita, mas Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 um outsider como Milei, ele tinha uma estrutura por tr\u00e1s que o Milei n\u00e3o tem. Ent\u00e3o, o Milei representa um discurso muito mais rupturista do que Bolsonaro.\u201d<\/p>\n<p>A professora destaca que Milei ter\u00e1 um desafio maior, principalmente no que diz respeito \u00e0 governabilidade. Isso porque ele n\u00e3o tem o apoio de governadores de prov\u00edncias ou de prefeitos, nem tem maioria na C\u00e2mara ou no Senado.<\/p>\n<p>\u201cEle vai ganhar governabilidade se aliando ao PRO [coaliz\u00e3o do ex-presidente Mauricio Macri], mas veremos como \u00e9 que ele vai jogar com essa nova coaliz\u00e3o, que vai ter dissid\u00eancias, porque muitos mileistas n\u00e3o concordam com essa coaliz\u00e3o (que foi eleitoral, firmada no \u00faltimo momento). Mas Milei vai precisar dela, sen\u00e3o ele n\u00e3o vai conseguir governar.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Milei ser anunciada, o presidente Lula publicou uma mensagem nas redes sociais parabenizando o novo governo argentino. Por\u00e9m, ele n\u00e3o citou nominalmente Milei.<\/p>\n<p>Questionada se isso poderia ser um ind\u00edcio de esfriamento de rela\u00e7\u00f5es, Ximena afirma considerar o oposto.<\/p>\n<p>\u201cPelo contr\u00e1rio, acho que a postura do Lula foi de aproxima\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de afastamento. Eu trataria de n\u00e3o colocar tanta \u00eanfase na quest\u00e3o de ele n\u00e3o ter citado o nome do Milei. Acho que o tu\u00edte de Lula foi muito diplom\u00e1tico e abriu uma porta para uma conversa com a Argentina, depois de Milei ter sido t\u00e3o enf\u00e1tico em dizer que n\u00e3o iria nem conversar com Lula. Acho que Lula est\u00e1 dando um passo \u00e0 frente, sabendo da import\u00e2ncia da Argentina para o Brasil.\u201d<\/p>\n<p>Ela ressalta que a vit\u00f3ria de Milei \u00e9 uma m\u00e1 not\u00edcia para o projeto regional do governo brasileiro, principalmente no que diz respeito ao Mercosul, mas diz que a diplomacia brasileira, ciente disso, est\u00e1 dando um passo \u00e0 frente.<\/p>\n<p>\u201cSe a Argentina vai conseguir ficar sem o Brasil, \u00e9 complicado pensar, sendo o Brasil o principal s\u00f3cio comercial do pa\u00eds. Acho que quem vai ter um papel relevante nesse contexto ser\u00e1 o empresariado. Porque uma das quest\u00f5es que o Milei falou foi que ele n\u00e3o vai se opor \u00e0 rela\u00e7\u00e3o comercial bilateral Brasil-Argentina, mas que isso n\u00e3o ser\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o do Estado, e que quem vai ter que manejar essa rela\u00e7\u00e3o comercial ser\u00e3o os empres\u00e1rios.\u201d<\/p>\n<p>Ela acrescenta, no entanto, que essa \u00e9 uma proposta um pouco fora da realidade, pois \u201cindiv\u00edduos n\u00e3o implementam o sistema de regula\u00e7\u00e3o internacional, mas sim o Estado\u201d.<\/p>\n<p>A especialista afirma que, pelo menos em m\u00e9dio prazo, n\u00e3o h\u00e1 margem pol\u00edtica para que Milei consiga implementar as medidas radicais que prop\u00f4s, como a retirada da Argentina do BRICS, o fechamento do Banco Central ou a dolariza\u00e7\u00e3o da economia. Isso porque a coaliz\u00e3o PRO, t\u00e3o essencial para a governabilidade de Milei, j\u00e1 se posicionou contra.<\/p>\n<p>\u201cEle pode chegar a ter essa margem se conseguir o apoio contundente do PRO. Se ele pode chegar a conseguir alguma coisa t\u00e3o radical, eu acho dif\u00edcil. Porque o PRO j\u00e1 se mostrou contr\u00e1rio ao fechamento do Banco Central. Eu acho complicado, n\u00e3o acho imposs\u00edvel, mas dif\u00edcil que ele avance nessas pol\u00edticas t\u00e3o radicais, pelo menos no m\u00e9dio prazo.\u201d<\/p>\n<p>Ximena acrescenta ainda que a implementa\u00e7\u00e3o de tais medidas vai depender de como se dar\u00e1 a reconfigura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds e dos resultados a serem apresentados na economia pelo governo Milei.<\/p>\n<p>J\u00e1 Lucho Karamaneff, doutor em ci\u00eancia pol\u00edtica da Universidade Nacional de San Mart\u00edn, aborda o papel do eleitorado jovem na elei\u00e7\u00e3o de Milei.<\/p>\n<p>Ele destaca que h\u00e1 setores historicamente peronistas dentro do eleitorado jovem que n\u00e3o apoiaram Milei. Por\u00e9m, fora dessa esfera, aqueles que apoiaram tiveram \u201cum papel muito importante na milit\u00e2ncia, com a divulga\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o das ideias de Milei, sobretudo nas redes sociais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOutro fator-chave \u00e9 que esses jovens passaram pelo menos a metade, em alguns casos mais da metade, de sua vida em crise econ\u00f4mica. A Argentina n\u00e3o cresce desde 2011. Al\u00e9m disso, h\u00e1 um processo inflacion\u00e1rio que se acentuou no \u00faltimo ano, com mais de 150% de infla\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Ele afirma que os jovens foram um dos setores mais afetados pela crise, assim como foram durante a pandemia.<\/p>\n<p>\u201cEsse grupo jovem ficou recluso durante mais de um ano. A Argentina teve uma quarentena extremamente rigorosa, que impediu os jovens de socializar de maneira presencial e se vincular com seus amigos, no col\u00e9gio, na escola, numa etapa muito importante do desenvolvimento da vida. E isso me parece que tamb\u00e9m influenciou justamente nesta busca de liberdade da qual fala Milei.\u201d<\/p>\n<p>Karamaneff acrescenta que os jovens que apoiaram Milei n\u00e3o temem uma poss\u00edvel ruptura democr\u00e1tica, pois consideram a democracia um sistema j\u00e1 estabelecido no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o jovens que viveram sempre em uma democracia, e o medo que havia em torno do Milei sobre o posicionamento autorit\u00e1rio e uma ruptura democr\u00e1tica n\u00e3o chegou a esse setor, porque entendem que n\u00e3o h\u00e1, efetivamente, um risco.\u201d<\/p>\n<p>Assim como Ximena, ele afirma que a implementa\u00e7\u00e3o das propostas radicais de Milei n\u00e3o devem se dar em curto ou m\u00e9dio prazo, j\u00e1 que dependem da reconfigura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e do apoio de governadores.<\/p>\n<p>\u201cEstamos presenciando na Argentina uma reconfigura\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico, com um realinhamento no Congresso, onde os governadores das prov\u00edncias v\u00e3o ter um papel-chave. A margem [para implementar as propostas de Milei] parece que, em parte, vai depender de qual agenda que finalmente se prop\u00f5e, que j\u00e1 est\u00e1 come\u00e7ando a mostrar hoje e que vai continuar se mostrando nas pr\u00f3ximas semanas, que ser\u00e3o muito conturbadas.\u201d<\/p>\n<p>Ele ressalta que o papel da diplomacia ser\u00e1 muito importante nesse momento de reconfigura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, \u201cespecialmente por parte de embaixadores de pa\u00edses do Mercosul, principalmente do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Nesse contexto, h\u00e1 muito trabalho a ser desenvolvido, j\u00e1 que Milei sinalizou que pretende viajar aos EUA e a Israel, antes de assumir a presid\u00eancia, mas que n\u00e3o vai ter uma rela\u00e7\u00e3o com o Brasil.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 que ver como se dar\u00e1 isso. E em todo caso, se ele vai poder levar a cabo sua agenda, me parece que hoje, na Argentina, h\u00e1 uma fragmenta\u00e7\u00e3o, sem uma for\u00e7a pol\u00edtica capaz de implementar um projeto de pa\u00eds. Se ele vai conseguir ou n\u00e3o, vai depender de como vai se reconfigurar todo o sistema agora.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleito futuro presidente da Argentina, o ultraliberal Javier Milei ascendeu como um fen\u00f4meno na pol\u00edtica do pa\u00eds vizinho. 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