{"id":317510,"date":"2023-11-22T10:22:01","date_gmt":"2023-11-22T13:22:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=317510"},"modified":"2023-11-22T11:02:02","modified_gmt":"2023-11-22T14:02:02","slug":"festival-de-gastronomia-mostra-diferentes-sabores-da-mare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/festival-de-gastronomia-mostra-diferentes-sabores-da-mare\/","title":{"rendered":"Festival de gastronomia mostra diferentes sabores da Mar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Nas ruas e becos estreitos da Mar\u00e9, o calor parece multiplicar. Enquanto uns improvisam chuveir\u00f5es e piscinas coletivas, o cearense Jorge passa o dia colado em uma churrasqueira. E n\u00e3o tem sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de 60 graus Celsius (\u00b0C) que desmanche o sorriso no rosto.<\/p>\n<p>O sufoco \u00e9 recompensado pelos elogios constantes dos clientes que se encantam com os 15 tipos de espetinhos que ele prepara. Carne, frango, porco, p\u00e3o de alho, queijo coalho. O card\u00e1pio \u00e9 variado.<\/p>\n<p>\u201cEstou h\u00e1 18 anos aqui nesse mesmo ponto. Sem parar. E nunca esperei chegar no lugar que eu estou hoje. Eu n\u00e3o tinha nem um banquinho para sentar. E agora pretendo abrir uma outra franquia o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Esse \u00e9 um caminho bom para a gente crescer. Se voc\u00ea chegar aqui e perguntar sobre o churrasco do Jorge, todo mundo vai saber onde fica\u201d, garante.<\/p>\n<p>Essa alegria tem um ingrediente extra. \u00c9 que ele est\u00e1 concorrendo na categoria Melhor Comida de Rua, do Comida de Favela, um festival gastron\u00f4mico organizado pela ONG Redes da Mar\u00e9 nas 16 favelas que comp\u00f5em o bairro na Zona Norte do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A outra categoria \u00e9 a de Melhor Comida de Bar, Restaurante ou Pens\u00e3o. Entre maio e junho desse ano, foram 110 estabelecimentos inscritos. Um comit\u00ea curador escolheu 17 deles para participar oficialmente do evento.<\/p>\n<p>At\u00e9 o dia 2 de dezembro, o p\u00fablico pode conhecer os participantes, provar o prato principal de cada um deles e indicar o preferido. Os votos v\u00e3o ser somados aos de jurados especializados. Os tr\u00eas primeiros de cada categoria v\u00e3o receber pr\u00eamios em dinheiro entre R$ 3 mil e R$ 10 mil. Mas todos ganham de alguma forma: eles recebem consultoria profissional para aperfei\u00e7oar o empreendimento, orienta\u00e7\u00f5es sobre normas de conserva\u00e7\u00e3o dos alimentos e atendimento ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o da feira foi em 2015. A segunda est\u00e1 ocorrendo s\u00f3 agora por falta de parcerias privadas e de apoio do poder p\u00fablico. A coordenadora do festival, Mariana Aleixo, diz esperar que o potencial econ\u00f4mico e social da Mar\u00e9 tenha maior reconhecimento.<\/p>\n<p>\u201cSomos negligenciados. Se pensarmos que a Mar\u00e9 tem 140 mil habitantes e 3.182 empreendimentos comerciais, a gente tem um poder econ\u00f4mico dentro desse territ\u00f3rio que existe a partir dos moradores. \u00c9 uma economia local que precisa ser valorizada, n\u00e3o apenas no sentido de observar que ela existe, mas de receber pol\u00edticas p\u00fablicas, recursos e financiamentos. Porque isso gera economia para toda a cidade\u201d.<\/p>\n<p>Para conseguir o pr\u00eamio, os espetinhos do Jorge v\u00e3o ter que superar concorrentes fortes como as empadas feitas por Filipe e Vera L\u00facia. O casal come\u00e7ou o neg\u00f3cio h\u00e1 quase 3 anos vendendo salgados na porta de casa e nas ruas da favela Nova Holanda. As vendas cresceram, eles compraram uma carrocinha e hoje t\u00eam uma loja fixa, a Ki Empada Boa. O sabor de frango com cream cheese foi o escolhido para participar da competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO festival acaba sendo uma \u00f3tima oportunidade para a gente e at\u00e9 para os outros estabelecimentos que n\u00e3o puderam participar. Mais pessoas ficam interessadas e passam a frequentar a Mar\u00e9. E ajuda a mudar aquele olhar de preconceito sobre a favela. A gente tem muito a oferecer e esse evento nos permite mostrar isso\u201d, diz Filipe Mariano.<\/p>\n<p>Se existe um lado competitivo do festival, tamb\u00e9m n\u00e3o falta uma rede de apoio. Dos organizadores, Felipe e Vera L\u00facia receberam uma ajuda providencial para administrar as redes sociais e o marketing do neg\u00f3cio. E da comunidade, vem novas ideias que animam a pensar em passos maiores no futuro.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 teve recheio aqui que a gente colocou porque as pessoas sugeriram e deram dicas. A gente acredita que possa expandir o neg\u00f3cio at\u00e9 para fora mais para a frente. \u00c9 a nossa meta, mas tudo aos poucos. Antes, vamos incrementando os sabores. Tem um bacalhau que estou planejando h\u00e1 uns meses\u201d, projeta Filipe.<\/p>\n<p><strong>Gigante do Parque Uni\u00e3o<\/strong><br \/>\nO Comida de Favela abrange neg\u00f3cios menores como os vistos acima, mas tamb\u00e9m tem entre os participantes aqueles que viram as vendas multiplicarem e se tornaram grandes empreendimentos. Logo na entrada da favela Parque Uni\u00e3o, um pr\u00e9dio verde se destaca pelo tamanho das demais casas. O Bar e Choperia Esperan\u00e7a tem quase 150 funcion\u00e1rios. Mais de 90% deles mora na Mar\u00e9. E recebe, em m\u00e9dia, 1,2 mil clientes por dia.<\/p>\n<p>Para escolher o prato que representaria o estabelecimento no festival, eles fizeram um concurso interno com funcion\u00e1rios. E a vencedora foi a Coxinha Arretada. O salgado e os ingredientes n\u00e3o foram escolhidos \u00e0 toa. Al\u00e9m do sabor, pesou o quanto o salgado seria representativo do encontro de culturas e tradi\u00e7\u00f5es brasileiras.<\/p>\n<p>\u201cO nosso restaurante \u00e9 nordestino. Carne seca e o nosso jerimum, ou ab\u00f3bora, s\u00e3o bem caracter\u00edsticos do Nordeste. E a coxinha \u00e9 um salgado que voc\u00ea encontra em todas as comunidades. Ent\u00e3o, a gente fez essa jun\u00e7\u00e3o e ficou bem bacana. O retorno tem sido muito positivo\u201d, diz Marcos Salles, gerente geral do Bar Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a nordestina no Comida de Favela \u00e9 algo a ser destacado e refor\u00e7a a heran\u00e7a trazida por migrantes que ajudaram a construir n\u00e3o s\u00f3 a Mar\u00e9, mas a cidade do Rio de Janeiro. Alguns n\u00fameros do festival ajudam a dar essa dimens\u00e3o: dos inscritos, 46,4% tinham donos de origem do Rio de Janeiro e 30,9% do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>O atual propriet\u00e1rio do Bar e Choperia Esperan\u00e7a, Rondinele, \u00e9 um desses exemplo. Ele veio de Hidrol\u00e2ndia, no Cear\u00e1, e trabalhou durante 13 anos no barzinho do sogro. Em 2006, herdou o neg\u00f3cio e conseguiu transformar no que \u00e9 hoje. O que era um neg\u00f3cio pequeno virou um exemplo para os outros estabelecimentos que sonham em crescer, atrair mais clientes e expandir os rendimentos.<\/p>\n<p><strong>Boteco LGBTI+<\/strong><br \/>\nA carioca Edissandra Oliveira e a paraibana Edinalva Montenegro decidiram abrir um bar h\u00e1 3 anos na favela Conjunto Pinheiro. Era para ser um empreendimento como qualquer outro do tipo, mas o acolhimento e incentivo da popula\u00e7\u00e3o LGBTI+ transformaram o local em um ponto de encontro para al\u00e9m das comidas e bebidas. As bandeiras arco-\u00edris distribu\u00eddas pelas paredes deixam claro que ali \u00e9 um espa\u00e7o de festa, diversidade e afeto.<\/p>\n<p>\u201cAqui virou uma refer\u00eancia da comunidade. At\u00e9 pensei que outras pessoas iriam implicar, mas todo mundo respeitou. Os clientes falam que em outros estabelecimentos n\u00e3o podem ficar \u00e0 vontade, conversar em paz e trocar um carinho, porque todo mundo fica olhando feio. Aqui, podem ser eles mesmos. Se tiver que namorar, se beijar, est\u00e3o tranquilos\u201d, conta Edissandra.<\/p>\n<p>O Boteco T\u00f4 Chegando concorre no festival com o Gurj\u00e3o de Frango. Mesmo que n\u00e3o ganhe o pr\u00eamio, os resultados j\u00e1 est\u00e3o aparecendo. Clientes de diferentes bairros do Rio t\u00eam ido conhecer o espa\u00e7o e t\u00eam se surpreendido com o que veem.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 bom que as pessoas percebem que a favela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 viol\u00eancia. Ela tem muita coisa boa. Tem gente que vem com fam\u00edlia, se surpreende e fica muito feliz. Porque tamb\u00e9m tem essa imagem de que por receber a popula\u00e7\u00e3o LGBT, \u00e9 bagun\u00e7a. E n\u00e3o. Aqui tem muito respeito por todos\u201d, defende Edissandra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas ruas e becos estreitos da Mar\u00e9, o calor parece multiplicar. Enquanto uns improvisam chuveir\u00f5es e piscinas coletivas, o cearense Jorge passa o dia colado em uma churrasqueira. E n\u00e3o tem sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de 60 graus Celsius (\u00b0C) que desmanche o sorriso no rosto. 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