{"id":317722,"date":"2023-11-25T05:12:14","date_gmt":"2023-11-25T08:12:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=317722"},"modified":"2023-11-25T05:46:23","modified_gmt":"2023-11-25T08:46:23","slug":"as-cotas-reservam-um-futuro-melhor-para-todo-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/as-cotas-reservam-um-futuro-melhor-para-todo-o-brasil\/","title":{"rendered":"\u201cAs cotas reservam um futuro melhor para todo o Brasil\u201d"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO bom conhecimento vem das diferentes perspectivas e experi\u00eancias. Ent\u00e3o acho que as a\u00e7\u00f5es afirmativas n\u00e3o s\u00e3o um ganho para os estudantes negros ou pobres cotistas, s\u00e3o um ganho para a sociedade brasileira. E eu espero que no futuro pr\u00f3ximo a gente tenha pessoas jovens, formadas, com essa preocupa\u00e7\u00e3o, formadas pela diversidade e que possam dar valor ao quanto que a equidade racial pode colocar o Brasil em outro lugar\u201d, diz M\u00e1rcia Lima, doutora em sociologia e professora licenciada da USP, universidade em que liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o das cotas, antes de aceitar o convite para compor a equipe da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco.<\/p>\n<p>M\u00e1rcia insiste que h\u00e1 uma distor\u00e7\u00e3o, no debate p\u00fablico, sobre a pol\u00edtica de cotas. \u201cEu quero dizer que s\u00e3o cotas sociais, e n\u00e3o cotas raciais. O princ\u00edpio da lei \u00e9 a reserva de vagas para estudantes de escola p\u00fablica. Depois vem a reserva de cotas por crit\u00e9rio de renda e, por fim, uma subcota racial. Mas voc\u00ea fala isso, a oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem essa escuta e est\u00e1 sempre batendo na tecla de que o branco pobre \u00e9 exclu\u00eddo da lei, o que n\u00e3o \u00e9 verdade\u201d.<\/p>\n<p>Acompanhe a entrevista, em que M\u00e1rcia Lima fala tamb\u00e9m das pr\u00f3ximas a\u00e7\u00f5es e metas do Minist\u00e9rio da Igualdade Racial:<\/p>\n<p><strong>Eu queria come\u00e7ar perguntando qual \u00e9 a principal a\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio, aquela que mais avan\u00e7ou nestes meses de 2023, primeiro ano do terceiro mandato do presidente Lula.<\/strong><\/p>\n<p>O que a gente mais avan\u00e7ou aqui \u00e9 justamente na institucionaliza\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio. Neste momento, ainda de muita constru\u00e7\u00e3o de agenda, a gente fez entregas muito importantes no primeiro pacote da igualdade racial, lan\u00e7ado em 21 de mar\u00e7o, fizemos boas entregas nos 100 dias de governo. Decretos importantes, relan\u00e7amos a programa Aquilomba Brasil. Estamos reconstruindo o Sistema Nacional de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial. Eu n\u00e3o destacaria neste momento uma \u00fanica pol\u00edtica, mas, sim, o quanto que esse conjunto de pol\u00edticas tem representado para a import\u00e2ncia e a a\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio. Lembrando que \u00e9 um minist\u00e9rio novo, vindo de um per\u00edodo muito dif\u00edcil. \u00c9 construir um novo minist\u00e9rio, mas tamb\u00e9m retomar a import\u00e2ncia e as a\u00e7\u00f5es da pauta de igualdade racial dentro do governo federal. Ent\u00e3o, acho que a gente est\u00e1 conseguindo demonstrar para a sociedade e, dentro deste governo que tem 37 minist\u00e9rios, a import\u00e2ncia do Minist\u00e9rio da Igualdade Racial.<\/p>\n<p><strong>Eu me recordo que em 2003 a m\u00eddia n\u00e3o tinha reservas ao criticar a cria\u00e7\u00e3o da Secretaria de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial, por considerar incha\u00e7o da m\u00e1quina, algo desnecess\u00e1rio. Eu imagino que depois de tudo que vivemos, essa abordagem diminuiu, pelo menos na m\u00eddia tradicional.<\/strong><\/p>\n<p>Eu concordo com voc\u00ea. S\u00e3o 20 anos de diferen\u00e7a e 20 anos em que o debate p\u00fablico sobre a quest\u00e3o racial se expandiu muito no Brasil, principalmente pelas pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas, pela lei de cotas na universidade e no servi\u00e7o p\u00fablico. A gente teve o epis\u00f3dio George Floyd, que teve impacto enorme. A pr\u00f3pria pandemia tamb\u00e9m recolocou muito a quest\u00e3o das desigualdades raciais. Realmente hoje n\u00e3o se tem o mesmo estranhamento.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, a gente vive um momento de muito retrocesso pol\u00edtico. Uma direita que \u00e9 muito fortalecida, inclusive dentro do Congresso. As dificuldades s\u00e3o de outra ordem. A imprensa tradicional, o mercado editorial, passaram por uma transforma\u00e7\u00e3o em termos de publicar sobre quest\u00e3o racial, publicar autores negros. Muita coisa positiva aconteceu. Mas hoje os desafios v\u00eam dessa direita, dessa rede social, muito raivosa.<\/p>\n<p><strong>O minist\u00e9rio identifica qual ataque nas redes \u00e9 mais frequente?<\/strong><\/p>\n<p>Ataques muito personalizados, contra pessoas p\u00fablicas e contra pessoas no comando do minist\u00e9rio. Mas a gente v\u00ea tamb\u00e9m que a agenda da a\u00e7\u00e3o afirmativa, das cotas, \u00e9 muito criticada. Eles criticam e batem num ponto que n\u00e3o faz muito sentido. Eu quero dizer que s\u00e3o cotas sociais, e n\u00e3o cotas raciais. O princ\u00edpio da lei \u00e9 a reserva de vagas para estudantes de escola p\u00fablica. Depois vem a reserva de cotas por crit\u00e9rio de renda e, por fim, uma subcota racial. Mas voc\u00ea fala isso, eles n\u00e3o t\u00eam essa escuta e est\u00e3o sempre batendo na tecla de que o branco pobre \u00e9 exclu\u00eddo da lei, o que n\u00e3o \u00e9 verdade. Enfrentamos uma t\u00e1tica que \u00e9 justamente essa invers\u00e3o, essa distor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu sempre costumo dizer que no Brasil tem dois grandes desafios para enfrentamento da desigualdade, que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o e a terra. Dois grandes patrim\u00f4nios da elite brasileira. As a\u00e7\u00f5es afirmativas e, ao mesmo tempo, a quest\u00e3o quilombola, em que o grande desafio do projeto \u00e9 sempre chegar na titula\u00e7\u00e3o de terras. A morte de m\u00e3e Bernadete, a morte de outras pessoas quilombolas, a viol\u00eancia, t\u00eam a ver com a posse da terra. Eu acho que a terra \u00e9 um capital muito, muito forte, muito central e que mexe realmente na estrutura de poder, assim como a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Quantas \u00e1reas quilombolas est\u00e3o pendentes de titula\u00e7\u00e3o, e qual \u00e9 a meta do minist\u00e9rio?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, ainda \u00e9 uma coisa que tem que ser retomada, fazer esse levantamento. H\u00e1 uma secretaria no minist\u00e9rio voltada especificamente para cuidar de quilombos e povos tradicionais de terreiros. A pol\u00edtica de titula\u00e7\u00e3o em larga escala \u00e9 uma pol\u00edtica de muito recurso, \u00e9 uma pol\u00edtica de bilh\u00f5es. A gente precisa avan\u00e7ar do reconhecimento da posse da terra para a titula\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 um processo muito demorado, inclusive juridicamente. O que o minist\u00e9rio tem feito bastante \u00e9 promover projetos que melhorem a estrutura desses territ\u00f3rios, para promover a perman\u00eancia das pessoas nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>E o tema dos territ\u00f3rios negros, para mim, est\u00e1 para al\u00e9m do territ\u00f3rio, no sentido que a gente normalmente utiliza o termo para falar das \u00e1reas rurais. A gente tamb\u00e9m tem a quest\u00e3o de territ\u00f3rios nas \u00e1reas urbanas, que s\u00e3o as periferias. Territ\u00f3rios negros e que sofrem os mesmos problemas. A gente viu isso muito na pandemia: como que o acesso a recursos desses territ\u00f3rios era diferenciado para espa\u00e7os mais negros ou menos negros. Eu estudei muito a desigualdade na Covid-19 e isso era uma coisa que chamava muita aten\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um grande desafio, que \u00e9 titular, mas tamb\u00e9m tem o desafio de dar condi\u00e7\u00f5es de vida para as pessoas nesses territ\u00f3rios.<\/p>\n<p><strong>Creio que essa tarefa de aperfei\u00e7oar as condi\u00e7\u00f5es de vida nos territ\u00f3rios exija o trabalho conjunto com outras pastas do governo. O minist\u00e9rio \u00e9 muito envolvido com a\u00e7\u00f5es transversais, que precisam de parceria. Os demais minist\u00e9rios t\u00eam sido parceiros de fato?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Eu acho que nesse ponto a ministra Anielle Franco tem um papel fundamental pela figura que ela representa, pela hist\u00f3ria que ela tem e a maneira como ela chega a esse minist\u00e9rio. Acho que ela traz a import\u00e2ncia de construir essa comunica\u00e7\u00e3o. A gente, obviamente, a depender da pauta, tem mais proximidade com um ou outro minist\u00e9rio. Mas a gente tem di\u00e1logos sempre muito profundos. Por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cotas na universidade, n\u00f3s trabalhamos muito com a deputada Dandara (PT-MG), que era a relatora do projeto, mas tamb\u00e9m com o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, Minist\u00e9rio de Povos Ind\u00edgenas, Direitos Humanos. N\u00f3s todos participamos da discuss\u00e3o desse processo de revis\u00e3o da Lei de Cotas no ensino superior. N\u00f3s estamos trabalhando muito tamb\u00e9m com o Minist\u00e9rio da Gest\u00e3o e Inova\u00e7\u00e3o, na quest\u00e3o da lei de cotas no servi\u00e7o p\u00fablico. Vamos lan\u00e7ar alguns programas ou planos que tamb\u00e9m envolvem muitos minist\u00e9rios. O programa Juventude Negra Viva tem 15 minist\u00e9rios. O Plano Nacional de A\u00e7\u00f5es Afirmativas, que est\u00e1 na minha pasta, tamb\u00e9m envolve muitos minist\u00e9rios. Nesses \u00faltimos seis meses houve um trabalho intenso com dois grupos interministeriais. E uma coisa que eu achei muito positiva do governo foi que na \u00e9poca de prepara\u00e7\u00e3o do Plano Plurianual (PPA), nosso minist\u00e9rio e os minist\u00e9rios das Mulheres e Povos Ind\u00edgenas participaram das oficinas de todos os outros minist\u00e9rios, para ver como que a gente poderia levar nossas pautas para dentro dos demais minist\u00e9rios, garantindo inclusive que eles vislumbrassem recursos financeiros para esses tr\u00eas grupos. A gente tem que liderar a constru\u00e7\u00e3o dessa pauta transversal, e tem conseguido engajamento dos minist\u00e9rios nesse processo.<\/p>\n<p><strong>Nos primeiros mandatos de Lula e Dilma, na \u00e1rea ambiental, existiam metas, como a de redu\u00e7\u00e3o do desmatamento, e os minist\u00e9rios envolvidos faziam reuni\u00f5es peri\u00f3dicas de avalia\u00e7\u00e3o, em que cada um prestava contas do que havia sido feito para atingir aquela meta. Imagino que para voc\u00eas isso tamb\u00e9m seja importante, embora a medi\u00e7\u00e3o de metas seja diferente.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Como todos os outros minist\u00e9rios tiveram que fazer no PPA, colocar no papel e apresentar quais s\u00e3o as metas, a gente tamb\u00e9m. H\u00e1 diferentes formas de medir esses indicadores. Neste primeiro ano, o que a gente est\u00e1 fazendo \u00e9 estabelecer esses indicadores. Por exemplo: letalidade da juventude negra, empregabilidade, pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas. No decreto que vai ser publicado, da lei de cotas no ensino superior, foi estipulado um grupo de acompanhamento dessas pol\u00edticas, algo que n\u00e3o foi feito antes. Quando a lei foi aprovada, em 2012, as universidades tinham um prazo para come\u00e7ar a implementar e deveria ter esse acompanhamento, s\u00f3 que a\u00ed vieram governos que n\u00e3o fizeram esse processo. O Inep tem condi\u00e7\u00f5es e vai nos dar meios de fazer esse acompanhamento. N\u00f3s estamos tamb\u00e9m construindo indicadores especificamente para acompanhar o Juventude Negra Viva, porque o projeto Juventude Negra Viva n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre a letalidade. Para enfrentar a letalidade desse grupo, a gente tem que olhar para educa\u00e7\u00e3o, tem que olhar para outros elementos, como o acesso ao emprego, que \u00e9 um dos grandes problemas da juventude negra no Brasil. A\u00ed cada minist\u00e9rio envolvido uma meta pr\u00e9-estabelecida.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea pode falar em alguma meta, por exemplo, da letalidade da popula\u00e7\u00e3o negra? Um \u00edndice que seja objetivo para quatro anos?<\/strong><\/p>\n<p>O plano que a gente vai lan\u00e7ar \u00e9 um plano para 12 anos. N\u00e3o adianta voc\u00ea achar que vai resolver determinados problemas hist\u00f3ricos e estruturais no curto ou m\u00e9dio espa\u00e7o de tempo. Mas a gente tem metas. Por exemplo, o Sistema Nacional de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial tem como meta a ades\u00e3o de estados e munic\u00edpios ao sistema. No programa de a\u00e7\u00f5es afirmativas, a gente est\u00e1 estabelecendo parcerias com outros minist\u00e9rios para concess\u00e3o de bolsas. As metas para as a\u00e7\u00f5es afirmativas, neste momento, uma delas a gente j\u00e1 cumpriu, que era a revis\u00e3o da lei de cotas. E ano que vem n\u00f3s temos a renova\u00e7\u00e3o da lei de cotas no servi\u00e7o p\u00fablico. Renovar a lei \u00e9 uma meta. O que n\u00e3o d\u00e1 para voc\u00ea estabelecer, neste caso das cotas no servi\u00e7o p\u00fablico, \u00e9 quantas pessoas v\u00e3o entrar, porque n\u00e3o sabemos quantos concursos ser\u00e3o abertos. O que temos hoje s\u00e3o cotas de 20% das vagas, e a gente quer passar para 30%. A gente aprovou no dia 21 de mar\u00e7o um decreto presidencial que estabelece que 30% dos cargos e fun\u00e7\u00f5es comissionados fossem preenchidos por pessoas negras. N\u00e3o \u00e9 uma reserva de vagas. Neste caso, at\u00e9 dezembro de 2025, a gente tem que ter esses 30%.<\/p>\n<p><strong>E sobre as cotas no ensino superior, a gente consegue falar tamb\u00e9m em metas num\u00e9ricas?<\/strong><\/p>\n<p>A meta \u00e9 50% de reserva de vagas para egressos da escola p\u00fablica. Dentro desses 50%, metade para estudantes de fam\u00edlias de at\u00e9 um sal\u00e1rio per capita, e a gente incluiu tamb\u00e9m agora os quilombolas como benefici\u00e1rios das pol\u00edticas. \u00c9 dif\u00edcil falar de uma meta de n\u00famero de estudantes. Para poder estabelecer uma meta, eu teria que te dizer quantos estudantes negros v\u00e3o terminar o Enem e v\u00e3o se candidatar. Na pandemia, houve uma redu\u00e7\u00e3o de 50% de estudantes pretos e pardos entre os inscritos para o Enem. A gente tem que fazer com que os estudantes continuem demandando e estando aptos a cursar o ensino superior.<\/p>\n<p><strong>A direita pode esvaziar pol\u00edticas p\u00fablicas sem extingui-las de forma expl\u00edcita, como neste caso do Enem.<\/strong><\/p>\n<p>No programa de perman\u00eancia estudantil, as bolsas foram reduzidas, o valor da bolsa n\u00e3o era atualizado. A pandemia criou muitos problemas para que os alunos negros e pobres continuassem nas universidades. Os seus provedores principais morrendo\u2026Eu vi essa experi\u00eancia na Universidade de S\u00e3o Paulo, de alunos que tinham pai e m\u00e3e cuidando, trabalhando para que eles pudessem cursar a universidade, e eles perderam esses provedores. N\u00e3o tinham mais como se manter na universidade. H\u00e1 muitas formas de esvaziar as pol\u00edticas. N\u00e3o ter concurso, por exemplo. Muitas universidades ficaram sem recurso nenhum. Tirar o dinheiro da perman\u00eancia estudantil, tirar o recurso da universidade, reduzir o n\u00famero de bolsas de gradua\u00e7\u00e3o e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma muito eficaz de comprometer a pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Para a juventude negra que sonha em ingressar no servi\u00e7o p\u00fablico, qual expectativa que voc\u00ea sugeriria que tivesse?<\/strong><\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Gest\u00e3o e Inova\u00e7\u00e3o, da ministra Esther Dweck, tem sido um grande parceiro nosso, principalmente na constru\u00e7\u00e3o dessa renova\u00e7\u00e3o da lei de cotas para concurso p\u00fablico. Como tamb\u00e9m est\u00e1 sendo parceiro na regulamenta\u00e7\u00e3o do decreto de 30% de vagas nos cargos e fun\u00e7\u00f5es comissionados. Nesse sentido, a ENAP, que \u00e9 a Escola Nacional de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, tamb\u00e9m. H\u00e1 diversos cursos para lideran\u00e7as, como o Lidera Gov, um curso que existe h\u00e1 muito tempo, e que teve agora uma edi\u00e7\u00e3o s\u00f3 para servidores negros, para que eles pudessem se capacitar para fun\u00e7\u00f5es comissionadas e cargos de lideran\u00e7a. A carreira no servi\u00e7o p\u00fablico para trabalhadores p\u00fablicos negros \u00e9 mais lenta, tem mais obst\u00e1culos do que para os demais. Eu estou esperan\u00e7osa que a gente vai, nessa nova vers\u00e3o, na renova\u00e7\u00e3o da lei 12.990, conseguir trazer bons quadros, inclusive porque a gente agora tem a\u00e7\u00f5es afirmativas que aumentaram o ingresso de pessoas negras no ensino superior. Eu acho que o ministro Camilo Santana tem se empenhado muito nessas quest\u00f5es de perman\u00eancia. Uma das primeiras coisas que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o anunciou foi aumento do n\u00famero de bolsas e do valor das bolsas. Embora a gente sempre fale que o valor da bolsa \u00e9 muito baixo, a depender da regi\u00e3o onde voc\u00ea est\u00e1 implementando essa bolsa, ela pode ser baixa, mas ela faz muita diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>A gente construiu agora tamb\u00e9m um apoio para bolsas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para jovens negros. Ent\u00e3o o aluno tem bolsa perman\u00eancia, mas ele tamb\u00e9m precisa ter acesso a inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, \u00e0 monitoria, porque \u00e9 isso que melhora a forma\u00e7\u00e3o dele dentro da universidade.<\/p>\n<p>E \u00e9 importante as institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m terem suas iniciativas nesses aspectos. E para isso a gente vai lan\u00e7ar no dia 20 de novembro o Programa Nacional de A\u00e7\u00f5es Afirmativas, cuja ideia \u00e9 justamente dar seguran\u00e7a jur\u00eddica, dar condi\u00e7\u00f5es de que as universidades p\u00fablicas e privadas, o mercado de trabalho p\u00fablico e privado, todo mundo possa se ancorar neste programa desenhado pelo governo federal e implementar essas pol\u00edticas. Os casos de judicializa\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es afirmativas, embora com todo o reconhecimento no Supremo Tribunal Federal, s\u00e3o muito recorrentes, principalmente para o concurso p\u00fablico. O objetivo do programa \u00e9 fornecer diretrizes para \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, autarquias federais. E tamb\u00e9m h\u00e1 o setor privado, que tamb\u00e9m nos procura muito, pedindo orienta\u00e7\u00f5es para implementar a\u00e7\u00f5es afirmativas.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o muito diferentes a miss\u00e3o de ser professora e essa, de ser gestora p\u00fablica? O que que \u00e9 mais emocionante, d\u00e1 mais sentido de realiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que n\u00e3o tem muito uma resposta padr\u00e3o, porque eu sempre fui uma docente, uma pesquisadora muito inquieta. Ent\u00e3o, eu sempre tenho vontade de mudar temas e inventar coisas na sala de aula, inventar formas de avalia\u00e7\u00e3o. Eu diria que eu tenho um conte\u00fado criativo muito forte dentro de mim, que \u00e0s vezes \u00e9 muito bom, mas que \u00e0s vezes tamb\u00e9m nos traz muitos desafios. Ent\u00e3o eu tinha essa inquietude de conhecer o que era fazer a gest\u00e3o p\u00fablica, formular uma pol\u00edtica p\u00fablica. Quando ensina pol\u00edticas p\u00fablicas, voc\u00ea fala das pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m dos processos pol\u00edticos, duas coisas muito conectadas. Quando voc\u00ea v\u00ea um projeto de lei que foi aprovado, na posi\u00e7\u00e3o de analista voc\u00ea critica, fala sobre aspectos que deveriam ter entrado no projeto, nas coisas que faltaram. No lugar do gestor, voc\u00ea enfrenta in\u00fameras barreiras constitucionais, um monte de quest\u00f5es que voc\u00ea simplesmente n\u00e3o pode fazer. Voc\u00ea tem que pensar o seguinte: \u2018bem, eu tenho que apresentar este projeto de lei, essa proposta para este Congresso, pra onde que eu vou?\u2019. Esse \u00e9 um dos grandes desafios, realmente ver a micropol\u00edtica, a pol\u00edtica do cotidiano, as negocia\u00e7\u00f5es que s\u00e3o necess\u00e1rias para voc\u00ea fazer uma boa pol\u00edtica p\u00fablica. Eu me lembro que quando eu estava estudando o ProUni, eu cheguei a entrevistar o hoje ministro da Fazenda, que na \u00e9poca era ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Fernando Haddad, e eu me lembro dele me dizer perfeitamente: \u2018Bem, o que n\u00f3s propusemos e o que saiu do Congresso foram coisas muito diferentes\u2019. Ent\u00e3o, nem tudo o que a gente tenta fazer, digamos assim, sai exatamente como a gente pensou.<\/p>\n<p><strong>Professora, voc\u00ea tem uma experi\u00eancia de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dentro da universidade, e agora vivencia uma experi\u00eancia dentro dessa pol\u00edtica mais institucional. Isso \u00e9 uma experi\u00eancia emocionante? Tem algo que pode atrair as novas gera\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que voc\u00ea usou a palavra certa. \u00c9 emocionante. E acho que \u00e9 muito importante para o jovem, pelo menos aquele que tenha forma\u00e7\u00e3o em \u00e1reas compat\u00edveis com a gest\u00e3o p\u00fablica, que eles se candidatem e ocupem esses espa\u00e7os. Eu conduzi minha carreira sempre muito atrelada \u00e0 pesquisa emp\u00edrica, e enxergando a pesquisa e a forma\u00e7\u00e3o intelectual, assim como forma\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m como um projeto pol\u00edtico. Estar aqui nessa perspectiva \u00e9 muito legal e muito importante. Eu tenho aprendido muito. E eu acho que n\u00f3s, cientistas sociais, a gente morre como profissional no dia que a gente em que deixa de aprender.<\/p>\n<p>Eu discutia muito isso na universidade: n\u00f3s estamos formando cientistas sociais para o s\u00e9culo 21? A minha aposta, digamos assim, \u00e9 numa nova gera\u00e7\u00e3o de gestores p\u00fablicos. As a\u00e7\u00f5es afirmativas v\u00e3o ser fundamentais para o futuro do Brasil, porque voc\u00ea n\u00e3o tem produ\u00e7\u00e3o de conhecimento sem diversidade. O bom conhecimento vem das diferentes perspectivas e experi\u00eancias. Ent\u00e3o acho que as a\u00e7\u00f5es afirmativas n\u00e3o s\u00e3o um ganho para os estudantes negros ou pobres cotistas, \u00e9 um ganho para a sociedade brasileira. E eu espero que no futuro pr\u00f3ximo a gente tenha pessoas jovens, formadas, com essa preocupa\u00e7\u00e3o, formadas pela diversidade e que possam dar valor ao quanto que a equidade racial pode colocar o Brasil em outro lugar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO bom conhecimento vem das diferentes perspectivas e experi\u00eancias. Ent\u00e3o acho que as a\u00e7\u00f5es afirmativas n\u00e3o s\u00e3o um ganho para os estudantes negros ou pobres cotistas, s\u00e3o um ganho para a sociedade brasileira. 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