{"id":317765,"date":"2023-11-25T08:24:43","date_gmt":"2023-11-25T11:24:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=317765"},"modified":"2023-11-25T08:24:43","modified_gmt":"2023-11-25T11:24:43","slug":"producao-de-documentario-provoca-casos-de-agressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/producao-de-documentario-provoca-casos-de-agressao\/","title":{"rendered":"Produ\u00e7\u00e3o de document\u00e1rio provoca casos de agress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista canadense Renaud Philippe, 39 anos, e sua esposa, a antrop\u00f3loga brasileira Ana Carolina Mira Porto, 38, afirmam ter sido agredidos por um grupo de homens encapuzados e armados enquanto trabalhavam no sudoeste do Mato Grosso do Sul, documentando o conflito fundi\u00e1rio que envolve comunidades ind\u00edgenas e produtores rurais.<\/p>\n<p>Segundo o casal, a agress\u00e3o ocorreu em Iguatemi (MS), na tarde da \u00faltima quarta-feira (22). Philippe e Ana participavam de uma assembleia do povo guarani kaiow\u00e1, a Aty Guasu, em uma \u00e1rea reivindicada como territ\u00f3rio tradicional ind\u00edgena na cidade de Caarap\u00f3, munic\u00edpio a cerca de 140 quil\u00f4metros de Iguatemi.<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia Brasil teve acesso ao boletim de ocorr\u00eancia registrado na Delegacia de Amambai. De acordo com a antrop\u00f3loga, ela e o marido decidiram deixar o evento ind\u00edgena e ir at\u00e9 uma aldeia de Iguatemi onde pretendiam filmar. O casal estava acompanhado por um morador da comunidade, identificado como Joel, e pelo engenheiro florestal Renato Farac Galata, 41 anos, que Ana e Philippe conheceram na assembleia ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s deixar Joel na aldeia, Ana, Philippe e Galata decidiram ir at\u00e9 a \u00e1rea urbana de Iguatemi para comer algo antes de come\u00e7arem as filmagens. No caminho, encontraram uma equipe do Departamento de Opera\u00e7\u00f5es de Fronteira, da Pol\u00edcia Militar (PM), que os abordou. Em depoimento, Galata mencionou que os policiais disseram que estavam apenas patrulhando a regi\u00e3o, sem mencionar nada que preocupasse o trio.<\/p>\n<p>Ainda em seus depoimentos, Ana Carolina, Philippe e Galata contaram que, quando retornavam \u00e0 aldeia, se depararam com uma barreira de carros bloqueando a estrada. Segundo Ana, havia dezenas de homens junto aos ve\u00edculos, muitos deles encapuzados e exibindo armas. A antrop\u00f3loga lembrou que um dos homens se aproximou do carro do trio e os alertou para que deixassem o local, pois ali \u201cficaria perigoso\u201d.<\/p>\n<p>Impedidos de prosseguir, Ana, Philippe e Galata deram meia-volta. Segundo a vers\u00e3o do jornalista canadense, parte dos desconhecidos os seguiram e, ao alcan\u00e7\u00e1-los, os fizeram descer do carro e se deitar no ch\u00e3o. Philippe contou que alertou os homens mascarados que era jornalista e que estava na regi\u00e3o a trabalho, o que n\u00e3o evitou que ele e os demais passassem a ser agredidos.<\/p>\n<p>Philippe diz ter recebido v\u00e1rios chutes nas costas e costelas. Ele tamb\u00e9m afirma que um dos agressores cortou um peda\u00e7o de seu cabelo com uma faca, amea\u00e7ando fazer o mesmo com Ana. De acordo com o trio, enquanto parte dos homens mascarados os agrediam, outros vasculhavam seus pertences pessoais.<\/p>\n<p>No boletim de ocorr\u00eancia, por roubo, consta que foram levados os passaportes de Ana e Philippe, al\u00e9m de cart\u00f5es banc\u00e1rios, um crach\u00e1 de identifica\u00e7\u00e3o de jornalista internacional, duas c\u00e2meras e lentes fotogr\u00e1ficas, baterias, dois celulares, uma bolsa e outros objetos.<\/p>\n<p>Ana, Philippe e Galata afirmam ter sido amea\u00e7ados de morte caso n\u00e3o deixassem a regi\u00e3o no mesmo dia. Libertados, os tr\u00eas encontraram uma equipe do N\u00facleo de Defesa dos Direitos dos Povos Ind\u00edgenas, da Defensoria P\u00fablica estadual, que realizava uma inspe\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima ao local onde o trio afirma ter sido agredido.<\/p>\n<p><strong>Conflitos<\/strong><br \/>\nPara entidades ind\u00edgenas, a agress\u00e3o se insere no contexto de viol\u00eancia contra as comunidades ind\u00edgenas de Mato Grosso do Sul, estado marcado pela disputa por terras entre ind\u00edgenas e produtores rurais.<\/p>\n<p>Segundo a Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil (Apib) e lideran\u00e7as reunidas na Aty Guasu, no mesmo dia (22), dois ind\u00edgenas foram sequestrados por desconhecidos, tamb\u00e9m na cidade de Iguatemi.<\/p>\n<p>Moradores da Terra Ind\u00edgena Pyelito Kue, localizada em uma \u00e1rea j\u00e1 identificada como territ\u00f3rio tradicional ind\u00edgena e que os guarani kaiow\u00e1 tentam ampliar, os dois ind\u00edgenas foram encontrados horas depois, feridos. A Apib afirmou que, por seguran\u00e7a, n\u00e3o divulgar\u00e1 os nomes e outros detalhes que permitam a identifica\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n<p>Em um v\u00eddeo divulgado nas redes sociais, Phillipe conta que, ao deixar a Aty Guasu para ir \u00e0 aldeia em Iguatemi, o trio tinha ouvido que dois guarani kaiow\u00e1 haviam sido sequestrados naquele mesmo dia. \u201cEst\u00e1vamos indo para uma nova retomada depois de ouvir que algumas pessoas foram sequestradas [\u2026] O que aconteceu foi que umas 30 pessoas, a maioria [usando] algo na cabe\u00e7a, vieram at\u00e9 n\u00f3s, com caminhonetes e armas e simplesmente bateram em n\u00f3s. E levaram tudo. Minha c\u00e2mara, passaportes, celulares, tudo\u201d, disse o jornalista canadense.<\/p>\n<p>\u201cVimos a raiva de uma maneira que nunca t\u00ednhamos visto antes\u201d, acrescentou a antrop\u00f3loga, assegurando que um homem, \u201ctremendo de raiva\u201d, colocou uma faca junto a seu rosto. \u201cE enquanto est\u00e1vamos apanhando, a Pol\u00edcia Militar passou e eu fiz assim [um gesto com as m\u00e3os juntas] para eles, [como que pedindo] \u201cpor favor, fa\u00e7am alguma coisa, mas n\u00e3o fizeram nada\u201d.<\/p>\n<p>Em nota, a Defensoria P\u00fablica do Mato Grosso do Sul confirmou que est\u00e1 acompanhando o caso dos profissionais \u201cagredidos em uma \u00e1rea de retomada\u201d de terras. J\u00e1 a Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o (DPU) informou que uma defensora federal tamb\u00e9m esteve com as v\u00edtimas e relatou que Ana, Philippe e Galata sofreram v\u00e1rias les\u00f5es e estavam bastante assustados.<\/p>\n<p>Poucas horas antes, a DPU tinha encaminhado um of\u00edcio para a Delegacia de Amambai, pedindo que fossem investigadas as den\u00fancias de que \u201cseguran\u00e7as privados estariam efetuando disparos com armas de fogo\u201d pr\u00f3ximo \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Ainda segundo a DPU, embora Ana, Philippe e Galata tenham registrado o boletim na delegacia, a Pol\u00edcia Civil deixou a investiga\u00e7\u00e3o a cargo da Pol\u00edcia Federal (PF), j\u00e1 que \u201co fato ocorreu em um contexto de disputa de terras envolvendo comunidades ind\u00edgenas da regi\u00e3o de Iguatemi e em raz\u00e3o deste conflito\u201d.<\/p>\n<p>A PF confirmou que est\u00e1 investigando as den\u00fancias e afirmou que j\u00e1 realizou \u201cdilig\u00eancias nas localidades pr\u00f3ximas \u00e0 aldeia\u201d para onde as v\u00edtimas se dirigiam quando foram atacadas.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Pol\u00edcia Militar confirmou que uma equipe chegou a abordar Ana, Philippe e Galata antes destes serem agredidos, mas n\u00e3o recebeu nenhum pedido de apoio na regi\u00e3o de Iguatemi. Quanto \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de que militares teriam presenciado o trio ser agredido sem nada fazer, a corpora\u00e7\u00e3o destacou que, no boletim de ocorr\u00eancia, nenhuma das v\u00edtimas mencionou este fato.<\/p>\n<p>Consultada pela reportagem, a embaixada do Canad\u00e1 disse que foi informada de que um cidad\u00e3o canadense foi agredido no Mato Grosso do Sul. &#8220;Funcion\u00e1rios consulares no Brasil est\u00e3o em contato com os indiv\u00edduos e prestam assist\u00eancia consular. Devido a considera\u00e7\u00f5es de privacidade, nenhuma informa\u00e7\u00e3o adicional pode ser fornecida.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista canadense Renaud Philippe, 39 anos, e sua esposa, a antrop\u00f3loga brasileira Ana Carolina Mira Porto, 38, afirmam ter sido agredidos por um grupo de homens encapuzados e armados enquanto trabalhavam no sudoeste do Mato Grosso do Sul, documentando o conflito fundi\u00e1rio que envolve comunidades ind\u00edgenas e produtores rurais. 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