{"id":317796,"date":"2023-11-26T04:11:13","date_gmt":"2023-11-26T07:11:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=317796"},"modified":"2023-11-26T09:14:03","modified_gmt":"2023-11-26T12:14:03","slug":"lula-segura-redeas-e-mostra-servico-ou-devolve-planalto-a-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-segura-redeas-e-mostra-servico-ou-devolve-planalto-a-direita\/","title":{"rendered":"Lula segura r\u00e9deas e mostra servi\u00e7o ou devolve Planalto \u00e0 direita"},"content":{"rendered":"<p>Indesej\u00e1vel, o 19 de novembro argentino n\u00e3o surpreendeu \u00e0queles que apreciam os movimentos eleitorais perfurando a superf\u00edcie das enquetes de opini\u00e3o. Para esses, o campo da an\u00e1lise \u00e9 o processo social, lido a partir das li\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, simplesmente porque nenhuma elei\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 constitui um fato, aut\u00f4nomo do ponto de vista fenomenol\u00f3gico: trata-se mais de um desaguadouro de elementos que, em fus\u00e3o (que sup\u00f5e contradi\u00e7\u00f5es e choques), terminam por construir o fen\u00f4meno pol\u00edtico a considerar.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e9, pois, mais complexa, mas \u00e9 tamb\u00e9m a que mais nos aproximar\u00e1 da realidade. A agonia pol\u00edtica de nosso vizinho conta uma hist\u00f3ria de mais de meio s\u00e9culo, bem conhecida, mas muito pouco considerada na balan\u00e7a dos elementos. Se h\u00e1 fato novo a registrar, na interpreta\u00e7\u00e3o do que revelam os n\u00fameros, \u00e9 sua congru\u00eancia com o cen\u00e1rio internacional que, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 obra dos \u00faltimas dias.<\/p>\n<p>Tanto quanto a emerg\u00eancia do bolsonarismo em 2018, a elei\u00e7\u00e3o de Milei n\u00e3o deve ser considerada um raio em c\u00e9u azul. Como repetindo-se em todos os transes de crise econ\u00f4mica e como\u00e7\u00e3o social, a direita rapidamente traslada para a extrema-direita protofascista, e com o discurso &#8220;antissistema&#8221; conquista setores crescentes da classe m\u00e9dia e do proletariado, principalmente das massas perif\u00e9ricas. E, como ao fim da Rep\u00fablica de Weimar (1933), o c\u00edrculo de apoio se encerra com a alian\u00e7a com a alta burguesia.<\/p>\n<p>Foi esse cons\u00f3rcio que ensejou o crescimento do partido nazista (elei\u00e7\u00f5es de 1932), a al\u00e7ada de Hitler \u00e0 chancelaria (1932) e, finalmente, ao golpe de 1933. Depois, o prometido e o esperado: Segunda Guerra Mundial, holocausto&#8230;<\/p>\n<p>Se n\u00e3o estamos em face de fen\u00f4menos estanques, por outro lado o andamento nacional ou regional n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel a reflexo condicionado do cen\u00e1rio internacional (a ordem dirigida pelas grandes pot\u00eancias), embora reflita as fei\u00e7\u00f5es que o mundo vem tomando nas \u00faltimas d\u00e9cadas, com as crises siamesas do capitalismo, incapaz de resolver os problemas sociais por ele mesmo suscitados, e o descenso da hegemonia estadunidense, posta em quest\u00e3o pela emerg\u00eancia de uma Eur\u00e1sia liderada por uma China que n\u00e3o se cansa de crescer. Da\u00ed a guerra, saltando do plano dos bloqueios comerciais (a &#8220;guerra fria&#8221; contempor\u00e2nea) para o confronto b\u00e9lico direto (ainda quando valendo-se de interpostos ex\u00e9rcitos), na Europa e no Oriente M\u00e9dio, uma prov\u00e1vel avant-premi\u00e9re dos anos vindouros.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da extrema-direita amante do fascismo est\u00e1 sempre presente em momentos que tais. A crise social foi o fermento que levou as massas marginalizadas ao nazismo nos anos 1930: os dados objetivos falam da ascens\u00e3o de Hitler, Mussolini, Franco, Salazar e do imp\u00e9rio japon\u00eas, e nos falam da Segunda Guerra Mundial, redesenhando o mundo geogr\u00e1fico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o se repete como um decalque. Naquele ent\u00e3o, a inf\u00e2mia fascista se debateria com a resist\u00eancia de alian\u00e7a que juntou o ocidente capitalista \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica. A derrota militar Terceiro Reicht tamb\u00e9m ensejaria a consagra\u00e7\u00e3o do keynesianismo e de Bretton Woods, da ilus\u00e3o monetarista, mas tamb\u00e9m da URSS e dos comunistas, como movimento internacional de ideias com ambi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. \u00c9 o mundo perdurante at\u00e9 pelo menos a vit\u00f3ria dos EUA ao final da Guerra Fria, e a debacle da URSS, dando fim \u00e0 polaridade dos sistemas, ensejando a esp\u00edritos apressados a suposi\u00e7\u00e3o de que hav\u00edamos chegado ao fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar, por\u00e9m, que o cen\u00e1rio de quase um s\u00e9culo havia sido, em contraste com os dias da hist\u00f3ria presente, de resist\u00eancia pol\u00edtica e revolucion\u00e1ria, de organiza\u00e7\u00e3o progressista das massas e, principalmente, de confronto ideol\u00f3gico. Esse mundo parece em recesso.<\/p>\n<p>Silenciamos a batalha ideol\u00f3gica. Na sequ\u00eancia, os governos de esquerda e centro-esquerda n\u00e3o lograram responder \u00e0 crise do capitalismo, n\u00e3o acenaram \u00e0s massas com a alternativa revolucion\u00e1ria e fracassaram no reformismo, isolados pela classe dominante. Nenhuma reforma estrutural, por exemplo, o Brasil conseguiu, pela esquerda, levar a cabo a partir de 2003. A esquerda tem-se limitado a administrar o capitalismo, prometendo atenuar os efeitos de seus graves males, e, assim, reformistas e revolucion\u00e1rios, nos tornamos tribut\u00e1rios do mo\u00ednho do establishment, do sistema e da ordem de opress\u00e3o e repress\u00e3o &#8211; o qual, em vez de derrogar, estamos empenhados em &#8220;humanizar&#8221;, por meio de pol\u00edticas compensat\u00f3rias \u00e0s terr\u00edveis desigualdades impostas pela ditadura do &#8220;mercado&#8221;.<\/p>\n<p>O movimento sindical, ademais de fragilizado pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, que requer cada vez mais capital e menos m\u00e3o de obra, queda-se sem norte pol\u00edtico e o projeto geral da centro-esquerda, no governo ou fora dele, se limita, no Brasil, ao m\u00e1ximo que seu \u00e2nimo permite: dar sustenta\u00e7\u00e3o ao mandato (n\u00e3o exatamente ao governo) de Lula, que ainda n\u00e3o teve condi\u00e7\u00f5es de apresentar ao povo um projeto alternativo ao que herdou, ditado pela casa-grande e as aspira\u00e7\u00f5es fascistas que dominam o pensamento da caserna e o grande capital.<\/p>\n<p>Como sempre, a resposta das massas desempregadas e desesperan\u00e7adas, dos trabalhadores a caminho do lumpesinato, divorciadas da esperan\u00e7a, faz cessar a capacidade de luta tanto dos trabalhadores sindicalizados quanto principalmente das massas desorganizadas, um dos grandes produtos do capitalismo up-to-date, o governo do grande capital. Esta \u00e9 a base do fascismo e da direita em geral. Ganha a ordem, base de sustenta\u00e7\u00e3o do sistema de explora\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital.<\/p>\n<p>Abrindo o caminho, a marcha dos revolucion\u00e1rios para o reformismo, e destes para a socialdemocracia; a direita se volta para a extrema-direita e logo salta o trampolim que leva ao fascismo. Foi assim no s\u00e9culo passado, caminho que de novo se palminha desde o final do s\u00e9culo passado, desde que a R\u00fassia revolucion\u00e1ria deixou de ser uma ideia, e as for\u00e7as revolucion\u00e1rias renunciaram \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. A organiza\u00e7\u00e3o cede espa\u00e7o \u00e0 anomia. O combate ideol\u00f3gico cessa.<\/p>\n<p>O mundo que emerge correndo para a terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI \u00e9 o da insolv\u00eancia dos grandes partidos populares, da recess\u00e3o no combate ao capitalismo e, principalmente, \u00e9 o mundo em que a esquerda renuncia \u00e0 defesa do socialismo. Mesmo o reformismo parece ensarilhar as armas diante do imp\u00e9rio da ordem conservadora, que de fato \u00e9 a persist\u00eancia do passado impedindo o parto do futuro sonhado.<\/p>\n<p>O quadro internacional, por seu lado, n\u00e3o \u00e9 fruto da vontade dos astros. A alian\u00e7a da direita com o protofascismo \u00e9 a resposta necess\u00e1ria do sistema: n\u00e3o nos podem parecer estranhos os EUA de Trump e Biden, Israel da direita sionista, a Europa dominada pela direita e pela extrema-direita &#8212; apoiadas em manifesta\u00e7\u00f5es populares &#8212; transformada em protetorado dos EUA. Hoje, o continente foi reduzido ao papel de perigoso porta-avi\u00f5es olhando para a China, destino que foi dado ao Jap\u00e3o, e pode ser imposto \u00e0 \u00cdndia, pelos senhores da guerra. A Argentina chega a Milei depois de o Brasil, em grave crise social, conhecer o protofascismo de Bolsonaro, de base popular e religiosa e grav\u00edssimos v\u00ednculos militares.<\/p>\n<p>Quanto mais me debru\u00e7o sobre a trag\u00e9dia argentina, mais reflito sobre o Brasil de hoje, reacion\u00e1rio pela sua forma\u00e7\u00e3o, mas cujo car\u00e1ter \u2013 a um tempo \u00f3bvio e sempre tentativamente ignorado \u2013 s\u00f3 veio a despertar as preocupa\u00e7\u00f5es da esquerda org\u00e2nica, mesmo assim tateante, ap\u00f3s os idos de junho de 2013, mais exatamente ap\u00f3s o golpe de 2016 e seus desdobramentos, que chegam ao \u00faltimo 8 de janeiro. Esses s\u00e3o os rumos que os tempos de hoje sopram, dando rumo \u00e0s velas da nave em busca de rumo, como em busca de rumo persiste nosso mundo particular e poroso, porque dependente da trag\u00e9dia geogr\u00e1fica, que nos faz, Brasil, Argentina e a Am\u00e9rica do Sul como um todo, ref\u00e9ns do grande imp\u00e9rio e sua pol\u00edtica expansionista.<\/p>\n<p>Argentina e Brasil (como Peru e Equador, como a Am\u00e9rica latina de um modo geral) n\u00e3o constituem uma especificidade e na cola do impasse do capitalismo, em nosso pa\u00eds, o ponto mais assustador \u00e9 o desfalecimento da esquerda, como pensamento, como a\u00e7\u00e3o, como resposta pol\u00edtica ao descalabro capitalista, e assim deixamos de ser uma sa\u00edda; permanece o beco fechado, sem sugerir alternativa. Se esta jamais foi pensada no curto prazo, agora se queda desenganada mesmo no longo prazo. \u00c9 a crise da utopia.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pena que o PT, o melhor de nossa social-democracia, n\u00e3o tenha ainda compreendido o processo hist\u00f3rico em que navegamos, e que Lula (o melhor que pudemos produzir) se contente na ilus\u00e3o de que a hist\u00f3ria terminou com sua vit\u00f3ria em 2022, e que sua miss\u00e3o, dele e do Partido, se encerra neste in\u00e9dito 3\u00ba governo.<\/p>\n<p>Arrebatado pelo prest\u00edgio popular de Lula, o povo, nas urnas, impediu a consolida\u00e7\u00e3o do projeto protofascista. Foi muito importante como conditio sine qua non para a recupera\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, sem a qual n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica ou o que seja. H\u00e1 o que comemorar, pois, mas \u00e9 fundamental n\u00e3o perder de vista que se trata de um ponto de partida. A tarefa que se segue n\u00e3o \u00e9 mais de fazer gorar o ovo da serpente, mas de esmagar a pe\u00e7onha que sobrevive, forte e crescentemente perigosa. E, lembremos sempre, n\u00e3o s\u00f3 aqui.<\/p>\n<p>Fala-se em &#8220;stress da democracia&#8221;, quando o mais apropriado seria (ap\u00f3s a fal\u00eancia rotunda da socialdemocracia), discutir o relativo fracasso dos governos de centro e de centro-esquerda, incapazes de reverter as expectativas da crise social em nossos pa\u00edses \u2013 contaminados que se revelam, no governo, pelo discurso neoliberal que nos domina ideologicamente desde pelo menos o &#8220;consenso de Washington&#8221; e que se revivifica entre n\u00f3s com a dobradinha BC-Fazenda. A que se alia, pelo sil\u00eancio, o principal partido do governo e de nosso campo, embora se conhe\u00e7am dissensos em Bras\u00edlia e em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>*Ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia no primeiro governo Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Indesej\u00e1vel, o 19 de novembro argentino n\u00e3o surpreendeu \u00e0queles que apreciam os movimentos eleitorais perfurando a superf\u00edcie das enquetes de opini\u00e3o. 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