{"id":317884,"date":"2023-11-27T00:00:44","date_gmt":"2023-11-27T03:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=317884"},"modified":"2023-11-27T02:55:18","modified_gmt":"2023-11-27T05:55:18","slug":"pesquisadora-denuncia-racismo-no-sistema-de-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pesquisadora-denuncia-racismo-no-sistema-de-justica\/","title":{"rendered":"Pesquisadora denuncia racismo no sistema de Justi\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 maioria nos pres\u00eddios brasileiros. Isso a sociedade e os Poderes P\u00fablicos j\u00e1 sabem. O que falta trazer \u00e0 luz \u00e9 como essa realidade foi produzida e persiste. Uma das principais refer\u00eancias nesse tema na atualidade, a professora e doutora em estudos de g\u00eanero, mulheres e feminismos, Carla Akotirene, aponta o caminho para algumas respostas a partir de estudos inovadores, filosofia africana e rever\u00eancia aos Orix\u00e1s.<\/p>\n<p>Assistente social de forma\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica profissional, ela \u00e9 autora dos livros \u201cO que \u00e9 Interseccionalidade\u201d, da cole\u00e7\u00e3o \u201cFeminismos Plurais\u201d e \u201c\u00d3 pa \u00ed, prezada: racismo e sexismo institucionais tomando bonde nas penitenci\u00e1rias femininas\u201d. Em 2016, criou o programa Opar\u00e1 Saberes para estimular e apoiar o ingresso e perman\u00eancia de pessoas negras na universidade.<\/p>\n<p>A obra mais recente de Akotirene ser\u00e1 lan\u00e7ada em janeiro de 2024, com o t\u00edtulo \u201c\u00c9 fragrante fojado d\u00f4tor vossa excel\u00eancia&#8221;. Na publica\u00e7\u00e3o, ela denuncia a pr\u00e1tica criminosa de alguns agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica que forjam o flagrante de tr\u00e1fico de drogas, imputado a pessoas negras.<\/p>\n<p>\u201cOs promotores acreditam sempre na vers\u00e3o do policial, nunca na legalidade que est\u00e1 sendo trazida do ponto de vista do \u2018flagranteado\u2019. A\u00ed, fica um embate entre escrita e oralidade. A escrita acaba prevalecendo, porque ambos s\u00e3o servidores p\u00fablicos, promotor e policiais\u201d, ressalta Akotirene.<\/p>\n<p>A intelectual negra esteve em Bras\u00edlia na \u00faltima semana para uma palestra no Minist\u00e9rio P\u00fablico do DF (MPDFT) e da capital seguiu direto para a Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty (Flip), onde tamb\u00e9m era ansiosamente aguardada pelo p\u00fablico.<\/p>\n<p>\u201cO racismo participa das senten\u00e7as e dos flagrantes. Sobre os flagrantes forjados, os policiais tamb\u00e9m s\u00e3o trabalhadores, eles tamb\u00e9m ganham com a balan\u00e7a de precis\u00e3o registrada como verdadeira, ainda que seja em uma f\u00e9 p\u00fablica fraudada, na sua atua\u00e7\u00e3o profissional para o Estado, o que favorece a promo\u00e7\u00e3o de carreira.\u201d<\/p>\n<p>Carla Akotirene acusa a \u201cm\u00eddia sensacionalista\u201d de incentivar os flagrantes forjados que causam danos irrepar\u00e1veis \u00e0s v\u00edtimas. Haveria, na opini\u00e3o dela, um acordo t\u00e1cito entre essas m\u00eddias e a pol\u00edcia para gerar flagrantes e aumentar a audi\u00eancia das emissoras. Mesmo quando o flagrante \u00e9 considerado ilegal e a pris\u00e3o preventiva, convertida, homens e mulheres negras j\u00e1 tiveram suas vidas devastadas.<\/p>\n<p><strong>Encarceramento negro<\/strong><br \/>\nO 17\u00ba Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, mostrou o perfil da popula\u00e7\u00e3o encarcerada: negros e jovens. Em 2022, mais de dois ter\u00e7os (68,2%) do total da popula\u00e7\u00e3o prisional \u00e9 negra. E no que diz respeito \u00e0 faixa et\u00e1ria, a maior parte da popula\u00e7\u00e3o encarcerada (43% do total) continua sendo de jovens entre 18 e 29 anos.<\/p>\n<p>\u00c0 reportagem da Ag\u00eancia Brasil, Carla Akotirene tamb\u00e9m apontou como parte do problema a condu\u00e7\u00e3o das audi\u00eancias de cust\u00f3dia, realizadas ap\u00f3s as pris\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cA colonialidade do saber hierarquizou a nossa palavra, que \u00e9 um fundamento Ubantu. O que adianta voc\u00ea passar por uma audi\u00eancia de cust\u00f3dia, ser entrevistada, na presen\u00e7a de um defensor p\u00fablico constitu\u00eddo ou o advogado se, naquela cena colonial, a branquitude vai incorporar valores de incerteza e perman\u00eancia hierarquizada?\u201d, indaga a pesquisadora.<\/p>\n<p><strong>Feminismo negro<\/strong><br \/>\nAkotirene tem como foco central de seus estudos as mulheres negras. Assim sendo, ela vai al\u00e9m em suas an\u00e1lises e afirma que o racismo tem rela\u00e7\u00e3o com o poder de homens sobre mulheres, quando a figura masculina predomina em fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, autoridade moral e privil\u00e9gio social.<\/p>\n<p>\u201cOlho para a matriz colonial e concordo com [a ativista] Sueli Carneiro, quando diz que as mulheres [brancas] s\u00e3o t\u00e3o d\u00e9spotas quanto seus companheiros. \u00c9 por isso que n\u00f3s, feministas negras, estamos perto da luta antirracista, mas tamb\u00e9m contribuindo para a luta antipatriarcal.\u201d<\/p>\n<p>A partir das experi\u00eancias vividas dentro de pres\u00eddios de Salvador (BA) para elaborar a tese de seu mestrado, Carla Akotirene compreende que o racismo sempre teve rela\u00e7\u00e3o com o capitalismo, desde os tempos da escravid\u00e3o. \u00c9 dessa forma que ela problematiza a rela\u00e7\u00e3o entre dias trabalhados e redu\u00e7\u00e3o de pena.<\/p>\n<p>\u201cO homem branco, como \u00e9 fruto de uma experi\u00eancia burguesa hegem\u00f4nica, ele na condi\u00e7\u00e3o de criminoso, consegue facilmente um laudo m\u00e9dico que afirma que tem um problema de sa\u00fade, problema psiqui\u00e1trico. Mas, o menino da comunidade, que abusa de subst\u00e2ncia [t\u00f3xica] e rouba um celular para comprar drogas, ele n\u00e3o vai ser tratado como algu\u00e9m que tem problemas com subst\u00e2ncias e sim como um criminoso\u201d.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nCarla Akotirene cita como fonte de inspira\u00e7\u00e3o o pensamento de feministas dos Estados Unidos, como a abolicionista negra Sojourner Truth (1797-1883), que viu a maioria dos filhos ser vendida para a escravid\u00e3o naquele pa\u00eds. Al\u00e9m das contempor\u00e2neas Bell Hooks, pseud\u00f4nimo da escritora Gloria Jean Watkins (1952-2021) e a fil\u00f3sofa Angela Davis.<\/p>\n<p>Akotirene exalta, no entanto, a intelectualidade nacional neste campo. \u201cL\u00e9lia Gonzalez antecipou o movimento. Mas, a gente fala muito mais de Angela Davis como influente do que L\u00e9lia. E h\u00e1 outras entre n\u00f3s, como Luiza Bairros [1953-2016], que foi ministra de Igualdade Racial e montou o plano Juventude Viva que, agora, \u00e9 Juventude Negra Viva. Assim como Matilde Ribeiro, a primeira ministra de Igualdade Racial do Brasil.\u201c<\/p>\n<p>A estudiosa observou em sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica que a Lei de Cotas nas universidades p\u00fablicas mudou a realidade de cotistas que disputaram vagas no ensino superior.<\/p>\n<p>\u201cA partir dessa reconfigura\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica nas universidades, de 2004 para c\u00e1, com as cotas raciais, com os governos mais democr\u00e1ticos, muitas m\u00e3es de fam\u00edlia foram fazer um curso de Direito. Eu assisti em v\u00e1rias audi\u00eancias de cust\u00f3dia, que elas faziam cursos de Direito, exatamente, para defender seus filhos que n\u00e3o sa\u00edram do mundo do crime.\u201d<\/p>\n<p>Como alternativa \u00e0 pris\u00e3o em massa, Akotirene menciona a media\u00e7\u00e3o de conflitos. A partir do ponto de vista de uma tecnologia jur\u00eddica afrocentrada, ela acredita em um cen\u00e1rio onde, no futuro, \u201cn\u00e3o precise existir nenhum tipo de puni\u00e7\u00e3o, onde a gente possa abolir o c\u00e1rcere\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 maioria nos pres\u00eddios brasileiros. Isso a sociedade e os Poderes P\u00fablicos j\u00e1 sabem. O que falta trazer \u00e0 luz \u00e9 como essa realidade foi produzida e persiste. 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