{"id":317982,"date":"2023-11-28T13:20:35","date_gmt":"2023-11-28T16:20:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=317982"},"modified":"2023-11-28T13:22:28","modified_gmt":"2023-11-28T16:22:28","slug":"envelhecimento-acelerado-do-povo-brasileiro-desafia-o-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/envelhecimento-acelerado-do-povo-brasileiro-desafia-o-pais\/","title":{"rendered":"Envelhecimento acelerado do povo brasileiro desafia o pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p>A sexagen\u00e1ria Bras\u00edlia tem exatos 300 habitantes com 100 anos ou mais, segundo o Censo Populacional de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Com 103 anos, um desses centen\u00e1rios \u00e9 Ermando Armelindo Piveta, militar reformado da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB) e pioneiro na capital federal.<\/p>\n<p>Nascido em Laranjal Paulista (SP) em 1920 \u2013 mesmo ano de nascimento do poeta Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, da escritora Clarice Lispector, do craque Heleno de Freitas e do ator Anselmo Duarte \u2013, Piveta viveu ao menos duas grandes aventuras brasileiras do s\u00e9culo 20: a participa\u00e7\u00e3o na Segunda Guerra Mundial contra as for\u00e7as do Eixo (Alemanha, It\u00e1lia e Jap\u00e3o), e a constru\u00e7\u00e3o da nova capital federal.<\/p>\n<p>Em setembro de 1942, um m\u00eas depois de o Brasil entrar na guerra, Ermano Piveta foi chamado para prestar servi\u00e7o militar no 4\u00ba Regimento de Artilharia Montada do Ex\u00e9rcito, baseado em Itu (SP). \u201cNaquele tempo n\u00e3o tinha sorteamento. Era convocado\u201d, lembra, em v\u00eddeo gravado por sua filha Vivian Piveta e enviado \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>No ano seguinte, o expedicion\u00e1rio embarcou no navio de passageiro e carga Almirante Alexandrino, que navegou do Rio de Janeiro at\u00e9 Dakar (Senegal), para fazer treinamento no continente africano. Ele atuou na guarda do litoral brasileiro em Fernando de Noronha, Pontal do Cururipe (Alagoas), Natal e no Recife.<\/p>\n<p>J\u00e1 reformado como segundo-tenente do Ex\u00e9rcito, Piveta trabalhou em 1958 na constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia fazendo transporte de areia e cascalho. \u201cTodo mundo falava: \u2018Bras\u00edlia, capital da esperan\u00e7a\u2019. Botei aquilo na cabe\u00e7a e vim.\u201d Em 1968, ele voltou para morar definitivamente na cidade.<\/p>\n<p>Em abril de 2020, o expedicion\u00e1rio e pioneiro candango, ent\u00e3o com 99 anos, ganhou as primeiras p\u00e1ginas dos jornais ap\u00f3s receber alta de uma interna\u00e7\u00e3o de oito dias no Hospital das For\u00e7as Armadas (HFA) por causa da covid-19. A receita dele para a boa sa\u00fade e longevidade \u00e9 simples:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o beber e n\u00e3o fumar. [Consumir] alimento bom e sadio. [Ter] boa amizade com todo mundo e ganhar a alegria de todos.\u201d<\/p>\n<p><strong>Longevidade<\/strong><br \/>\nCenten\u00e1rios como Ermano Piveta representam 0,018% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, ou 37.814 pessoas (27.244 mulheres e 10.570 homens) que cruzaram a linha de um s\u00e9culo de vida. Os n\u00fameros na casa do milhar parecem modestos diante do total de 203.080.756 habitantes, mas, comparando as somas do Censo de 2010 e a contagem do Censo de 2022, o n\u00famero de \u201csuperidosos\u201d cresceu 66,7% (15.138 pessoas a mais). O dado \u00e9 indicador da longevidade ascendente da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com o dem\u00f3grafo Marcio Minamiguchi, do IBGE, esses n\u00fameros podem parecer \u201ccuriosidades estat\u00edsticas\u201d, uma vez que \u201ca probabilidade de chegar nessas idades extremas \u00e9 pequena\u201d. Mas, na sua avalia\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 mais interessante \u00e9 que \u201co fato de ter mais centen\u00e1rios est\u00e1 associado \u00e0 possibilidade de ter um n\u00famero maior de pessoas com seus 60, 70, 80 e 90 anos\u201d.<\/p>\n<p>Racioc\u00ednio semelhante faz o secret\u00e1rio nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, do Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania, Alexandre da Silva.<\/p>\n<p>\u201cA gente deve comemorar \u00e9 que n\u00f3s temos mais pessoas chegando aos 100 anos. Isso quer dizer, indiretamente, que tem mais pessoas chegando aos 95, aos 90, aos 85, aos 80. Ou seja, a longevidade cada vez mais \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o mais presente no nosso cotidiano.\u201d<\/p>\n<p>Para a pesquisadora Daniella Jinkings, mestre pela London School of Economics and Political Science (LSE) com disserta\u00e7\u00e3o sobre o cuidado dos idosos pelas fam\u00edlias, os dados revelados s\u00e3o positivos, mas \u201cn\u00e3o estamos preparados para o envelhecimento. Nem a sociedade brasileira, nem o Estado\u201d, pondera em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>\u201cAinda cultuamos muito a juventude. As pessoas se recusam a envelhecer, ou tratam o idosos de forma pejorativa, colocam o idoso de escanteio como se a partir dos 60 anos fosse uma pessoa completamente in\u00fatil. Temos que vencer essa quest\u00e3o cultural, temos que vencer o desafio de integra\u00e7\u00e3o, temos que reconhecer os idosos como sujeitos de direito, como pessoas que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de decidir sobre a sua pr\u00f3pria vida. As pessoas n\u00e3o querem envelhecer porque t\u00eam medo de se tornarem in\u00fateis, serem pessoas dependentes.\u201d<\/p>\n<p><strong>Ainda no papel<\/strong><br \/>\nQuanto \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do Estado e \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas, o pa\u00eds avan\u00e7ou no reconhecimento legal de direitos, reconhece Daniella Jinkings. No entanto, ela assinala que \u201cv\u00e1rios servi\u00e7os que est\u00e3o na Pol\u00edtica Nacional da Pessoa Idosa, reiterados no Estatuto da Pessoa Idosa, ainda n\u00e3o sa\u00edram do papel&#8221;. &#8220;N\u00e3o temos servi\u00e7os de cuidado domiciliar, temos uma rede muito pequena de centros dia para pessoas idosas ou de institui\u00e7\u00f5es de longa perman\u00eancia. A integra\u00e7\u00e3o entre as pol\u00edticas intersetorialmente ainda \u00e9 dif\u00edcil\u201d, avalia.<\/p>\n<p>A pesquisadora tamb\u00e9m destaca que o envelhecimento populacional no Brasil \u00e9 \u201cbastante desigual&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas com mais poder aquisitivo t\u00eam expectativa de vida maior do que as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade\u201d, diz Daniella Jinkings.<\/p>\n<p>O livro A Pessoa Idosa na Cidade de S\u00e3o Paulo: Subs\u00eddios para a Defesa de Direitos e Controle Social aponta que, na maior cidade do pa\u00eds, por exemplo, \u201cobserva-se que quanto mais prec\u00e1ria a condi\u00e7\u00e3o socioterritorial menor a propor\u00e7\u00e3o de idosos com idade acima de 75 anos.\u201d A publica\u00e7\u00e3o acrescenta que \u201cquanto mais vulner\u00e1vel a popula\u00e7\u00e3o, maior sua concentra\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rios cujas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais prec\u00e1rias\u201d. Publicado com apoio da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP), o livro est\u00e1 dispon\u00edvel na internet.<\/p>\n<p>No livro, a an\u00e1lise sobre as desigualdades territoriais apresenta as grandes diferen\u00e7as de condi\u00e7\u00e3o de vida entre os idosos que residem em distritos centrais, como Moema e Jardim Paulista, \u201cbem mais providos de infraestrutura urbana e servi\u00e7os\u201d, e os que habitam a periferia, como Brasil\u00e2ndia e Cap\u00e3o Redondo, \u201cde urbaniza\u00e7\u00e3o mais prec\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p><strong>Popula\u00e7\u00e3o menor<\/strong><br \/>\nA m\u00e9dia da expectativa de vida projetada em 2021 era de 77 anos \u2013 de 80,5 anos para mulheres e 73,6 anos para homens. Esses resultados ser\u00e3o atualizados com as estat\u00edsticas do Censo 2022, que dever\u00e3o confirmar a tend\u00eancia de envelhecimento, notada nas \u00faltimas d\u00e9cadas quando al\u00e9m do aumento da longevidade ainda se observou a diminui\u00e7\u00e3o do nascimento de beb\u00eas. A taxa de fecundidade (tamb\u00e9m em 2021) era de 1,76 filho por mulher.<\/p>\n<p>A previs\u00e3o \u00e9 que no futuro o Brasil ter\u00e1 mais velhos do que crian\u00e7as. Proje\u00e7\u00e3o publicada pelo Minist\u00e9rio da Fazenda &#8211; feita pela analista t\u00e9cnica de pol\u00edticas sociais Avelina Alves Lima Neta \u2013 calcula que, em 2060, \u201cpara cada 100 pessoas entre 0 e 14 anos teremos 206,2 idosos acima de 65 anos, ou seja, dois idosos nessa faixa et\u00e1ria para cada uma crian\u00e7a ou adolescente (0-14).\u201d<\/p>\n<p>Bem antes disso, a popula\u00e7\u00e3o brasileira come\u00e7ar\u00e1 a diminuir de tamanho por causa da redu\u00e7\u00e3o da fecundidade. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), assinado pela t\u00e9cnica de planejamento e pesquisa Ana Am\u00e9lia Camarano, prev\u00ea que a popula\u00e7\u00e3o brasileira crescer\u00e1 at\u00e9 2030, quando atingir\u00e1 seu m\u00e1ximo em \u201caproximadamente 215 milh\u00f5es.\u201d A partir da\u00ed, o desenho da curva se inverte, deixa de ser de crescimento populacional, pois o n\u00famero de brasileiros come\u00e7a a diminuir e em 2040 chegar\u00e1 a cerca de 209 milh\u00f5es, 6 milh\u00f5es a menos do que na d\u00e9cada anterior.<\/p>\n<p>O mercado de trabalho e a Previd\u00eancia Social ser\u00e3o bastante impactados pelo envelhecimento e pela diminui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o durante a forma\u00e7\u00e3o desses cen\u00e1rios. \u00c9 poss\u00edvel que as pessoas permane\u00e7am trabalhando por mais tempo e que tenham que se tornar mais produtivas \u2013 gerar mais valor naquilo que fazem, com menos recurso e\/ou em menos tempo.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise do Ipea alerta que \u201caumentar a produtividade do trabalho \u00e9 condi\u00e7\u00e3o fundamental para diminuir os efeitos da redu\u00e7\u00e3o populacional na competitividade da ind\u00fastria e, por isso, ela deveria ser um dos objetivos centrais das pol\u00edticas que visem a aumentar a competitividade e criar empregos&#8221;. &#8220;O aumento da produtividade poderia, tamb\u00e9m, minimizar a redu\u00e7\u00e3o da massa salarial, que \u00e9 resultado da diminui\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, e melhorar a rela\u00e7\u00e3o contribuinte\/benefici\u00e1rio e as condi\u00e7\u00f5es atuariais atuais do sistema previdenci\u00e1rio\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>O estudo evidencia que cuidar dos idosos vai al\u00e9m da assist\u00eancia social: \u201cA manuten\u00e7\u00e3o do trabalhador na atividade econ\u00f4mica por mais tempo requer pol\u00edticas de inclus\u00e3o digital, capacita\u00e7\u00e3o continuada, sa\u00fade ocupacional, adapta\u00e7\u00f5es no local de trabalho, como cargos e hor\u00e1rios flex\u00edveis, redu\u00e7\u00e3o de preconceitos com rela\u00e7\u00e3o ao trabalho do idoso, melhoria no transporte p\u00fablico, entre outras.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sexagen\u00e1ria Bras\u00edlia tem exatos 300 habitantes com 100 anos ou mais, segundo o Censo Populacional de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). 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