{"id":318005,"date":"2023-11-29T06:35:23","date_gmt":"2023-11-29T09:35:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=318005"},"modified":"2023-11-29T06:38:08","modified_gmt":"2023-11-29T09:38:08","slug":"como-todo-idoso-vivemos-presos-a-eterna-utopia-da-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/como-todo-idoso-vivemos-presos-a-eterna-utopia-da-esperanca\/","title":{"rendered":"Como todo idoso, vivemos presos \u00e0 eterna utopia da esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Hoje eu acordei e com saudades do meu tempo de crian\u00e7a. Lembrei da Banda de Chico Buarque e me emocionei com a Banda de Ronnie Von. S\u00e3o bandas diferentes, mas me fizeram lembrar daquele banco da pracinha, onde at\u00e9 os passarinhos me reconheciam. Ouvindo a banda passar, refletia sobre a vida e percebia desde aquela \u00e9poca como \u00e9 dif\u00edcil entender o ser humano, cuja maioria briga com os vivos, mas oferece flores aos mortos, manda os vivos \u00e0 PQP, mas deseja um bom lugar aos defuntos.<\/p>\n<p>Coisas que a gente s\u00f3 alcan\u00e7a quando lembra que temos entre n\u00f3s um morto vivo que ainda vai encher o saco dos brasileiros at\u00e9 que seja convidado para liderar, ao lado de Benjamin Netanyahu, o grupo palestino Hamas. Disso eles entendem.<\/p>\n<p>Com a devida licen\u00e7a de Zeca Baleiro, acordei tristinho, mais sem gra\u00e7a do que a top model magrela na passarela. Estava sozinho, mais solit\u00e1rio do que um paulistano e mais bobo do que um palha\u00e7o do Circo Vostok. De repente, descobri que cresci e que, ap\u00f3s d\u00e9cadas de novelas das duas, das cinco, seis, sete, nove e atualmente das 11h, a televis\u00e3o me deixou burro, muito burro demais.<\/p>\n<p>Como disseram os cabras do Tit\u00e3s, agora todas as coisas que eu penso me parecem iguais. At\u00e9 o sorvete da carrocinha me deixou gripado pelo resto da vida. Talvez eu esteja errado ao culpar as coisas pela minha aliena\u00e7\u00e3o p\u00f3s-juventude.<\/p>\n<p>Provavelmente eu tenha esquecido de que a culpa \u00e9 exclusiva da forma como utilizamos as tais coisas, entre elas a TV e o autom\u00f3vel. Sem mod\u00e9stia, me incluo na lista dos mais inteligentes, mas, \u00e0s vezes, chego \u00e0 sala e n\u00e3o me lembro o que pediram da cozinha. A lentid\u00e3o do c\u00e9rebro certamente \u00e9 causada pelo ac\u00famulo de conhecimento e, \u00e0s vezes, pela falta do que fazer.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o excesso de informa\u00e7\u00e3o nos causa defeitos na audi\u00e7\u00e3o. \u00c9 como um disco r\u00edgido de computador ficando lento porque est\u00e1 cheio de arquivos. Nada preocupante, na medida em que sabemos que pessoas da minha idade n\u00e3o t\u00eam mais fluxo menstrual, medo de morrer, tampouco de engravidar, pois a maioria tem a sorte de estar quase velha e preferir os tais casamentos abertos.<\/p>\n<p>Hor\u00e1rios? Morreremos sem eles. E sabem por qu\u00ea? Simples! N\u00e3o vamos mais \u00e0 escola e nem ao trabalho. Todos os nossos dias s\u00e3o s\u00e1bados e domingos. Temos mesada e moradia digna, n\u00e3o somos for\u00e7ados a chegar em casa na hora pr\u00e9-estabelecida, temos carteira de motorista e alguns at\u00e9 carro quitado.<\/p>\n<p>As mazelas s\u00e3o muitas. Contra elas, particularmente uso constantemente a positividade, os amigos, a alegria e as consequentes gargalhadas. Na aus\u00eancia de p\u00fablico, rio de minhas pr\u00f3prias piadas. Carn\u00edvoro por defini\u00e7\u00e3o, aprendi a comer salada e nozes por obriga\u00e7\u00e3o. Da mesma forma que bebo \u00e1gua sem sede, durmo o suficiente, ainda que n\u00e3o tenha sono.<\/p>\n<p>Jamais recorro \u00e0 idade, ao passado ou \u00e0s reclama\u00e7\u00f5es para resolver imbr\u00f3glios de hoje. Esperar para descansar, nem pensar. Como tenho meu pr\u00f3prio ritmo, descanso sem esperar. Por isso, sempre acordo \u201ccom uma vontade danada de mandar flores para o delegado, de bater na porta do vizinho para desejar-lhe um bom dia e de beijar o portugu\u00eas da padaria\u201d.<\/p>\n<p>Penso algumas vezes antes de atender \u00e0 sugest\u00e3o de Zeca Baleiro por conta de uma raz\u00e3o secular: vou acabar lembrando aquela bicha burra que torce pela reencarna\u00e7\u00e3o para voltar hetero. Habitualmente, fa\u00e7o tudo que quero pela manh\u00e3, de modo a sobrar mais tempo para ficar \u00e0 toa.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que nem sempre o dia \u00e9 dos mais felizes. Seria uma triste rotina. Dia desses, n\u00e3o perdi mais do que cinco minutos entrando, nessa ordem, no banco, na padaria e na farm\u00e1cia. Eram quadras diferentes, mas muito pr\u00f3ximas uma da outra. Mesmo contra a vontade, tive de me render a um novo segmento do empresariado brasileiro: os guardadores de carro, tamb\u00e9m conhecidos por carregadores de flanelas rasgadas e fedidas. Resumindo, remunerei devidamente os tr\u00eas para evitar preju\u00edzos futuros.<\/p>\n<p>Trocando em mi\u00fados, nasci ontem como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3, mas houve. Enfim, depois do para\u00edso infantil, mergulhei de cabe\u00e7a no Inferno de Dante e acabei como o Brasil: condenado \u00e0 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje eu acordei e com saudades do meu tempo de crian\u00e7a. Lembrei da Banda de Chico Buarque e me emocionei com a Banda de Ronnie Von. S\u00e3o bandas diferentes, mas me fizeram lembrar daquele banco da pracinha, onde at\u00e9 os passarinhos me reconheciam. 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