{"id":318599,"date":"2023-12-06T08:11:32","date_gmt":"2023-12-06T11:11:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=318599"},"modified":"2023-12-06T08:13:51","modified_gmt":"2023-12-06T11:13:51","slug":"experiencia-ensina-que-danca-e-conforme-a-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/experiencia-ensina-que-danca-e-conforme-a-musica\/","title":{"rendered":"Experi\u00eancia ensina que dan\u00e7a \u00e9 conforme a m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<p>Descobri ainda bem jovem que causava sensa\u00e7\u00e3o entre as garotas do bairro. Era \u2013 e sou \u2013 meio sem sal, n\u00e3o tinha dinheiro, carro, lambreta e nem ao menos romizetta. O cora\u00e7\u00e3o era gelado, a cara de tarado e na praia ou no cinema eu era um horror. Enfim, nada que chamasse aten\u00e7\u00e3o. O que fazia com alguma maestria era dan\u00e7ar, que \u00e9 a forma de qualquer macho alfa se imaginar livre como um p\u00e1ssaro e feroz como um le\u00e3o. Ta\u00ed o que elas queriam: um borboleto voador. Escondendo as an\u00e1guas e sem rodar a baiana, me sentia desse jeito quando ciscava pelos sal\u00f5es. Desde ent\u00e3o, tenho certeza de que, se a m\u00fasica pode unir as pessoas, a dan\u00e7a pode conect\u00e1-las. Magro de dar d\u00f3, meu forte sempre foi o sacolejo de um monte de ossos soltos pelo corpo.<\/p>\n<p>Mesmo sem molho e sem grana, n\u00e3o perdia um dos in\u00fameros bailes da vida. Se n\u00e3o conseguia acompanhar os conjuntos da \u00e9poca nos clubes, partia para os terreiros de umbanda, as quadras de samba e, principalmente, as gafieiras do Centro do Rio de Janeiro, onde a gente entrava com quaisquer dois mil r\u00e9is Ali, meus p\u00e9s se tornavam asas. As boas m\u00fasicas representavam o vento que me impulsionava para voar. S\u00f3 me sentava quando o crooner da banda se metia a puxar uma daquelas melodias que lembram as dan\u00e7as francesas populares na d\u00e9cada de 1840, todas associadas aos cabar\u00e9s da Fran\u00e7a, entre eles o Moulin Rouge. A mais famosa dessas dan\u00e7as \u00e9 o canc\u00e3 ou cancan.<\/p>\n<p>Preferia ficar sentado para vislumbrar as mo\u00e7as com o cancan de fora. Era o momento em que velhacamente minha picardia se expressava sem maldade, safadeza, promiscuidade, afronta ou falso decoro. Parecia provoca\u00e7\u00e3o dos deuses dos sal\u00f5es \u00e0 pirra\u00e7a de um jovem rec\u00e9m-iniciado nos campos das peladas. Nunca fui coroinha, mas, como tive acesso cedo \u00e0s hist\u00f3rias pornogr\u00e1ficas do Clero, eu j\u00e1 sabia que n\u00e3o h\u00e1 paix\u00e3o mais ego\u00edsta do que a lux\u00faria. No entanto, que mal h\u00e1 \u2013 na verdade havia \u2013 em ver um cancan esvoa\u00e7ante? Afinal, um baile de gafieira nada tem a ver com as palestinas cidade de Sodoma e Gomorra. Se tivesse, Deus j\u00e1 teria destru\u00eddo todos esses locais com fogo e\/ou enxofre ca\u00eddos do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m cedo aprendi com mestres do jornalismo rom\u00e2ntico, entre eles Appar\u00edcio Fernando Torelly, que o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro a gente est\u00e1. Compreendi, principalmente, que a vida come\u00e7a quando percebemos que ela n\u00e3o dura muito. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual continuo dan\u00e7ando, pois, sem muita criatividade ou imagina\u00e7\u00e3o, digo sempre que a dan\u00e7a \u00e9 como um livro em branco e que meu corpo \u00e9 a tinta que preenche cada p\u00e1gina como minhas emo\u00e7\u00f5es e sentimentos. Pelo sim, pelo n\u00e3o, nem sempre podemos escolher a m\u00fasica que a vida toca, mas podemos escolher o jeito de dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Tento fazer isso desde o despertar ao primeiro sono. O segundo \u00e9 o pr\u00f3ximo passo, do qual n\u00e3o fujo, mas, se puder, negocio para que ele me esque\u00e7a. Na medida do poss\u00edvel, sigo os ditames do fil\u00f3sofo alem\u00e3o Friedrich Nietzsche, para quem na vida \u00e9 preciso dan\u00e7ar conforme a m\u00fasica. \u201cE os que foram vistos dan\u00e7ando acabaram julgados como insanos por aqueles que n\u00e3o conseguiam ouvir a m\u00fasica\u201d. Em resumo, a vida \u00e9 uma festa. \u00c9 pura magia. Ent\u00e3o comece a dan\u00e7ar antes que a melodia acabe. Lembre-se sempre de que, na vida, quem n\u00e3o dan\u00e7a, dan\u00e7a!<\/p>\n<p>Continuo como aquele sujeito pobre que mete a m\u00e3o no bolso e s\u00f3 tira os dedos. O que fazer? N\u00e3o esquecer que o sucesso \u00e9 daqueles que batalham. Pois \u00e9 o que fa\u00e7o desde o ventre. Permane\u00e7o fazendo no dia a dia, na profiss\u00e3o e, sobretudo, nos contatos imediatos de terceiro grau. Minha coreografia n\u00e3o \u00e9 a mesma faz tempo. Hoje, lembro um \u00e1tomo que perde el\u00e9trons a cada esticada, tal e qual uma samambaia em vias de fal\u00eancia m\u00faltipla. Todavia, mesmo sem a picardia da juventude, continuo bailando, porque dan\u00e7ar \u00e9 a mais bela forma de contar uma hist\u00f3ria sem dizer uma \u00fanica palavra. N\u00e3o tenho e nunca tive certeza de nada. Contudo, bato no peito para dizer: Sem baitolagem e com muita picardia, \u00e9 claro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descobri ainda bem jovem que causava sensa\u00e7\u00e3o entre as garotas do bairro. Era \u2013 e sou \u2013 meio sem sal, n\u00e3o tinha dinheiro, carro, lambreta e nem ao menos romizetta. O cora\u00e7\u00e3o era gelado, a cara de tarado e na praia ou no cinema eu era um horror. Enfim, nada que chamasse aten\u00e7\u00e3o. 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