{"id":318696,"date":"2023-12-07T00:06:24","date_gmt":"2023-12-07T03:06:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=318696"},"modified":"2023-12-07T08:12:34","modified_gmt":"2023-12-07T11:12:34","slug":"povo-e-economia-frageis-transportam-brasil-a-colonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/povo-e-economia-frageis-transportam-brasil-a-colonia\/","title":{"rendered":"Povo e economia fr\u00e1geis transportam Brasil \u00e0 col\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>Como todos sabem, n\u00e3o conhece a Hist\u00f3ria um s\u00f3 exemplo de sociedade desenvolvida (qualquer que seja a acep\u00e7\u00e3o) que n\u00e3o seja, antes, uma economia de base industrial, avan\u00e7ada quase sempre, e nos dias da hist\u00f3ria presente ind\u00fastria e revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica constituem uma unidade. No entanto, por for\u00e7a da trai\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de nossa classe dominante, essa que vem da casa grande e do escravismo, permanecemos, no s\u00e9culo XXI como na col\u00f4nia, como no imp\u00e9rio, economia agr\u00e1ria prim\u00e1rio-exportadora (pau brasil, a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o, ouro e prata, os min\u00e9rios in natura e at\u00e9 \u00edndios escravizados pelos bandeirantes, e agora as mercadorias do agroneg\u00f3cio: soja, milho, frango&#8230;). Como sempre sem corar em face de insuport\u00e1veis \u00edndices de pobreza e concentra\u00e7\u00e3o de renda. Assim: exportamos min\u00e9rio de ferro para a China e importamos lingotes e trilhos. Somos hoje o terceiro produtor de alimentos, em pa\u00eds cuja popula\u00e7\u00e3o, em sua metade, n\u00e3o tem seguran\u00e7a alimentar, e mais de 37 milh\u00f5es de indiv\u00edduos passam fome.<\/p>\n<p>Sem desenvolvimento industrial n\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento qualquer, n\u00e3o h\u00e1 progresso, n\u00e3o h\u00e1 enfretamento ao desemprego e muito menos combate \u00e0 fome. Igualmente n\u00e3o se conhece desenvolvimento industrial sem pr\u00e9vio investimento em ci\u00eancia e tecnologia, e nada nesse ramo \u00e9 admiss\u00edvel se n\u00e3o precedido de alto desenvolvimento educacional, em todos os planos, pois n\u00e3o enseja a forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os aptos ao trabalho e \u00e0 liberdade uma escola que fracassa no ensino fundamental, \u00f3bvia base de tudo.<\/p>\n<p>O empresariado privado, associado ou n\u00e3o ao capital multinacional, resiste a investir em pesquisa, inova\u00e7\u00e3o e tecnologia de um modo geral. Prefere pagar royalties. O pa\u00eds, em busca do equil\u00edbrio fiscal destinar\u00e1 700 bilh\u00f5es de reais para amortizar os juros da d\u00edvida p\u00fablica. Para investimento est\u00e3o reservados parcos 70 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em ato de contri\u00e7\u00e3o e den\u00fancia o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Camilo Santana, nos diz que 73% do alunado dos cursos b\u00e1sicos saem das salas de aula jejunos em c\u00e1lculos; os que &#8220;aprendem a ler&#8221; n\u00e3o conseguem interpretar o texto lido. O fracasso da educa\u00e7\u00e3o no Brasil, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 fruto do acaso, mas, como lembrava Darcy Ribeiro, um projeto que deu certo. Deita suas ra\u00edzes na col\u00f4nia, e chega at\u00e9 n\u00f3s muito bem cultivado pelas chamadas elites. Nesse sucesso est\u00e3o muitas das explica\u00e7\u00f5es para o fato de sermos, em pleno s\u00e9culo XXI, um pa\u00eds por ser, por definir-se, por construir-se. A sa\u00edda, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 nos limites de governos e projetos espor\u00e1dicos. O fracasso rotundo de nossa sociedade de hoje certifica essa afirma\u00e7\u00e3o. Falta-nos algo e eu me atrevo a identificar como a voz de uma desejada na\u00e7\u00e3o. O que somos: povo exilado, na\u00e7\u00e3o silente.<\/p>\n<p>Certamente pelo fato de o povo haver sido sempre um exilado de nossa hist\u00f3ria, foi-nos dif\u00edcil criar as bases da nacionalidade \u2013 aquela que nasceria do encontro da terra e seu povo aqui achados, dos africanos trazidos pela viol\u00eancia do tr\u00e1fico negreiro, e do branco voltado para a cria\u00e7\u00e3o de um novo pa\u00eds em tanta terra livre, quando transita da explora\u00e7\u00e3o para a coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em texto contundente, Capistrano e Abreu nos diria: &#8220;O povo foi capado e recapado, sangrado e ressangrado&#8221;: tanto desapartado de sua condi\u00e7\u00e3o de sujeito quanto posto \u00e0 merc\u00ea da explora\u00e7\u00e3o do colonizador. Com poucas nuan\u00e7as, essa \u00e9 a hist\u00f3ria do povo brasileiro, &#8220;um povo por ser. Impedido de s\u00ea-lo&#8221;, grita-nos Darcy Ribeiro. E como uma sociedade de escravos e senhores pode construir uma na\u00e7\u00e3o unificada por uma vontade comum?<\/p>\n<p>Nascemos sem povo e sem na\u00e7\u00e3o, sociedade de escravos e senhores da terra pilhada. Sem povo, sem projeto de futuro, fizemos o imp\u00e9rio de inspira\u00e7\u00e3o inglesa e proclamamos uma rep\u00fablica que pretendeu reunir o positivismo franc\u00eas com o constitucionalismo dos EUA. Ambas as transforma\u00e7\u00f5es ditadas de cima para baixo, que \u00e9 a norma de nossa hist\u00f3ria toda. Ao povo, afastado do prosc\u00eanio, concedeu-se o direito de assistir \u00e0s paradas militares. A moderniza\u00e7\u00e3o se d\u00e1 sem povo e \u00e0s vezes contra o povo, a partir de 1930 e mais precisamente a partir da ditadura do &#8220;Estado Novo&#8221;, e ainda hoje marchamos em busca de um projeto.<\/p>\n<p>A dificuldade que se coloca, de in\u00edcio, nesse cen\u00e1rio, \u00e9 a da conceitua\u00e7\u00e3o de &#8220;Projeto nacional&#8221;. N\u00e3o se conhece seu texto, porque \u00e9 obra imaterial, n\u00e3o tem autoria a declinar. Comecemos pela abordagem mais f\u00e1cil, que \u00e9 simplesmente dizer o que n\u00e3o \u00e9 Projeto nacional: n\u00e3o \u00e9 programa de governo, nem obra de uma elite, ou de sua classe-dominante, ou de ilustrados, ou de fardados. N\u00e3o \u00e9 Projeto nacional o chamado &#8220;projeto Vargas&#8221; (nem o &#8220;tenentismo&#8221; de 1930 nem o autoritarismo esclarecido do &#8220;Estado novo&#8221;), muito menos com ele se confunde o despotismo da moderniza\u00e7\u00e3o conservadora dos militares depois de 1964.<\/p>\n<p>Numa tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o, mas ainda longe de um conceito satisfat\u00f3rio, digamos que Projeto nacional \u00e9 aquele ide\u00e1rio, ou sonho de futuro, que uma na\u00e7\u00e3o formula para si mesma; \u00e9 projeto fundante e perdurante, porque constitui o ser no presente, e declara o que pretende do futuro. \u00c9 o c\u00f3digo n\u00e3o escrito de uma gente. Esp\u00e9cie de constru\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica coletiva.<\/p>\n<p>O &#8220;Projeto nacional&#8221; \u00e9 mais que um programa de uma determinada elite, ou de um partido, de uma determinada dinastia, de uma determinada ditadura; n\u00e3o tem data de proclama\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem come\u00e7o nem fim, embora tenha finalidade; para al\u00e9m de fen\u00f4meno pol\u00edtico, \u00e9 processo psicossocial-cultural, hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Mas, o que seria uma na\u00e7\u00e3o? O que identifica a na\u00e7\u00e3o brasileira ou faz com que a gente que habita este espa\u00e7o se reconhe\u00e7a como um povo, para al\u00e9m do simples fato de morar no mesmo territ\u00f3rio, ou falar a mesma l\u00edngua, ou subordinar-se \u00e0 mesma ordem pol\u00edtica? Reconhecer-se na mesma origem? Identificar-se com a mesma hist\u00f3ria? Ou \u00e9 tudo isso e ainda ter aspira\u00e7\u00f5es comuns, como id\u00eantica vis\u00e3o de sociedade e o mesmo projeto de futuro? Ou \u00e9 a cren\u00e7a de pertencimento a um c\u00f3digo comum de valores e vontades?<\/p>\n<p>\u00c9 curial dizer-se que o Brasil nasce nos embates que no Nordeste uniram \u00edndios preados, negros escravizados, mamelucos e caboclos, portugueses e brasileiros na resist\u00eancia \u00e0 presen\u00e7a holandesa. A hip\u00f3tese \u00e9 que o \u00edm\u00e3 para a comunh\u00e3o de povos que se antagonizavam teria sido a defesa do territ\u00f3rio, com o qual todos se identificavam naquele momento embora n\u00e3o pertencesse a todos e sequer fosse conhecido da gente que o habitava: os muitos povos \u2013 ind\u00edgenas, escravos, brancos desgarrados &#8212; dispersos em aldeamentos perdidos na vastid\u00e3o de terras ignotas.<\/p>\n<p>\u00c9 fora de d\u00favida que seria desconhecido o sentimento de nacionalidade, na aus\u00eancia de na\u00e7\u00e3o, ou de p\u00e1tria, na aus\u00eancia mesmo de pa\u00eds: o Brasil, de fato, n\u00e3o existia. Passada a refrega, a prov\u00edncia retornava ao statu quo ante, reavivadas as contradi\u00e7\u00f5es impostas pelo sistema que dividia a gente entre uns poucos senhores e uma multid\u00e3o de escravos, arrancados de sua terra, separados entre si pela diversidade de etnias, l\u00ednguas e culturas, \u00edndios de variados est\u00e1gios de cultura, expulsos de suas aldeias, servos, camponeses sem sal\u00e1rio agregados \u00e0 terra e subordinados ao poder ilimit\u00e1vel do latif\u00fandio. \u00c9 dif\u00edcil de crer num comum sentimento de pertencimento entre senhores e escravos, entre propriet\u00e1rios e servos da terra.<\/p>\n<p>A na\u00e7\u00e3o anda, cria ou descobre uma identidade e passa a vive-la; essa identidade \u00e9 seu am\u00e1lgama. A na\u00e7\u00e3o se forma e se aglutina em fun\u00e7\u00e3o dessa identidade que, ao mesmo tempo, \u00e9 produto de sua hist\u00f3ria. Por enquanto digamos que a na\u00e7\u00e3o \u00e9 um ente hist\u00f3rico; como a tradi\u00e7\u00e3o, se faz com lembran\u00e7as, inven\u00e7\u00f5es e esquecimentos.<\/p>\n<p>Explorada pela metr\u00f3pole empobrecida, que dela tudo dependia, a col\u00f4nia abrigava uma burguesia mercantil que por seu turno explorava o trabalho compuls\u00f3rio de escravos africanos, de \u00edndios escravizados e trabalhadores brancos servilizados, a m\u00e3o de obra que chega ao final do Imp\u00e9rio. Na Rep\u00fablica de &#8220;trabalhadores livres&#8221; seus sucessores ser\u00e3o os trabalhadores rurais, os camponeses sem terra, sem teto e sem sal\u00e1rio, os &#8220;boias-frias&#8221;, de exist\u00eancia sub-humana, e proibidos de se organizarem.<\/p>\n<p>Na col\u00f4nia e no imp\u00e9rio o povo-na\u00e7\u00e3o, o brasileiro que n\u00e3o conta politicamente, o brasileiro produtor, \u00e9 o que Darcy Ribeiro chamar\u00e1 de &#8220;implante ultramarino da expans\u00e3o europeia&#8221; porque &#8220;n\u00e3o existe para si mesmo, mas para gerar lucros export\u00e1veis pelo exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o de provedor colonial de bens para o mercado mundial, atrav\u00e9s do desgaste da popula\u00e7\u00e3o que recruta no pa\u00eds, ou importa&#8221;. Recrutada quer dizer ca\u00e7ada a ferro e fogo para ser escravizada, quando n\u00e3o dizimada pela ferocidade dos bandeirantes, pioneiros no etnoc\u00eddio dos nativos da terra.<\/p>\n<p>O que a historiografia chamaria de povo-na\u00e7\u00e3o surge da concentra\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho escrava, apresada mediante o massacre sem termo de popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e na condena\u00e7\u00e3o dos povos afrodescendentes \u00e0 pobreza, e ao apartheid social.<\/p>\n<p>N\u00e3o se faz uma na\u00e7\u00e3o, nem se molda uma p\u00e1tria, como pensam os militares: a na\u00e7\u00e3o \u00e9 produto de um processo hist\u00f3rico insubstitu\u00edvel. Mas nada nos impede de tentar construir converg\u00eancias, a n\u00e3o ser a subordina\u00e7\u00e3o dos partidos de esquerda e de centro esquerda \u00e0 ordem burocr\u00e1tica que os afasta das quest\u00f5es que dizem respeito \u00e0 iniquidade social com a qual estamos conformados, ao ponto de evitarmos a mobiliza\u00e7\u00e3o social e, at\u00e9, o debate mobilizador.<\/p>\n<p>Nosso governo, ainda perdido estrategicamente, apenado pelas conting\u00eancias t\u00e1ticas que pressionam seu projeto original, &#8211;que dizia respeito aos interesses da classe trabalhadora &#8212; , precisa de cuidar, para al\u00e9m do aqui e agora (sua sobreviv\u00eancia formal), daquele que, na aus\u00eancia de express\u00e3o mais exata, chamaria de &#8220;discurso \u00e0 na\u00e7\u00e3o&#8221;, animando-a, organizando-a, politizando-a, colhendo com ela as diretrizes do que pode ser o Brasil. Penso que esta \u00e9 postura que a &#8220;na\u00e7\u00e3o&#8221;, se pudesse falar, estaria cobrando de Lula.<\/p>\n<p><strong>*Ministro a Ci\u00eancia e Tecnologia no primeiro governo Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como todos sabem, n\u00e3o conhece a Hist\u00f3ria um s\u00f3 exemplo de sociedade desenvolvida (qualquer que seja a acep\u00e7\u00e3o) que n\u00e3o seja, antes, uma economia de base industrial, avan\u00e7ada quase sempre, e nos dias da hist\u00f3ria presente ind\u00fastria e revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica constituem uma unidade. 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