{"id":319144,"date":"2023-12-14T07:30:01","date_gmt":"2023-12-14T10:30:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=319144"},"modified":"2023-12-14T07:47:31","modified_gmt":"2023-12-14T10:47:31","slug":"cop28-marca-comeco-do-fim-dos-combustiveis-fosseis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cop28-marca-comeco-do-fim-dos-combustiveis-fosseis\/","title":{"rendered":"COP28 marca &#8216;come\u00e7o do fim&#8217; dos combust\u00edveis f\u00f3sseis"},"content":{"rendered":"<p>Nos corredores da 28\u00aa Confer\u00eancia do Clima da ONU (a COP28), em Dubai, na \u00faltima segunda-feira (11) \u00e0 noite, a sensa\u00e7\u00e3o era de que tinha sido jogado um balde de \u00e1gua fria na cabe\u00e7a de todo mundo que pedia, havia duas semanas, por uma decis\u00e3o dos pa\u00edses de colocar um fim ao uso dos combust\u00edveis. Cerca de 42 horas depois, o humor tinha mudado e representantes de quase 200 pa\u00edses aplaudiam de p\u00e9 que havia se chegado a um acordo considerado hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O documento final da confer\u00eancia, batizado com o pretensioso nome de &#8220;Consenso dos Emirados Unidos&#8221;, pode at\u00e9 n\u00e3o propor, com todas as letras, o abandono de petr\u00f3leo, carv\u00e3o e g\u00e1s natural. Mas recomenda que os pa\u00edses contribuam com os esfor\u00e7os globais para que, de modo alinhado com a meta de conter o aumento da temperatura a 1,5 \u00baC, se fa\u00e7a &#8220;transi\u00e7\u00e3o para a sa\u00edda dos combust\u00edveis f\u00f3sseis nos sistemas energ\u00e9ticos de uma maneira justa, ordenada e equitativa, acelerando as a\u00e7\u00f5es nesta d\u00e9cada cr\u00edtica, de modo a atingir o zero l\u00edquido at\u00e9 2050, em linha com a ci\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 o mais perto que se conseguiu chegar da demanda feita pelos pa\u00edses mais vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, por cientistas e ambientalistas, que pediam a elimina\u00e7\u00e3o gradual dos combust\u00edveis f\u00f3sseis \u2013 o phase out, em ingl\u00eas. Apesar de n\u00e3o ter sido adotada essa express\u00e3o mais ambiciosa (ficou transitioning away no documento), a decis\u00e3o foi comemorada como vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 a primeira vez que uma confer\u00eancia do clima resolveu atacar o maior causador do problema que elas buscam solucionar. At\u00e9 ent\u00e3o, concentrava-se em esfor\u00e7os mais amplos para reduzir emiss\u00f5es, mas n\u00e3o se fazia men\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas sobre as fontes.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o referente \u00e0 energia foi o resultado mais simb\u00f3lico do chamado Global Stocktake (GST) \u2013 o balan\u00e7o global de tudo que foi feito (ou n\u00e3o) desde a ado\u00e7\u00e3o do Acordo de Paris, em 2015, e a defini\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias para fechar as lacunas, a fim de colocar o planeta nos trilhos para esquentar menos do que j\u00e1 aqueceu. H\u00e1 oito anos, quando cada pa\u00eds foi convidado a oferecer sua contribui\u00e7\u00e3o para resolver o problema, j\u00e1 se sabia que as metas combinadas eram insuficientes para isso. E o cen\u00e1rio do planeta s\u00f3 piorou desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>A crise clim\u00e1tica se instalou de modo estridente entre n\u00f3s. 2023 vai fechar como o ano mais quente do registro hist\u00f3rico, cerca de 1,2\u00baC acima da temperatura m\u00e9dia antes da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. A expectativa \u00e9 que chegaremos a 1,5\u00baC j\u00e1 na pr\u00f3xima d\u00e9cada, e a ci\u00eancia \u00e9 muito clara em dizer que s\u00f3 vamos conseguir parar por a\u00ed se as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa ca\u00edrem 43% at\u00e9 2030, chegando ao zero l\u00edquido at\u00e9 2050. Esse conceito implica em ter estrat\u00e9gias para compensar emiss\u00f5es que ainda estiverem ocorrendo, com restaura\u00e7\u00e3o florestal, por exemplo, ou outras tecnologias.<\/p>\n<p>Desse modo, era imprescind\u00edvel atacar o problema. \u00c9 a queima dos combust\u00edveis f\u00f3sseis a respons\u00e1vel por cerca de 70% das emiss\u00f5es globais de gases de efeito estufa. Mas no evento que se convencionou chamar de COP do petr\u00f3leo \u2013 por ocorrer nos Emirados \u00c1rabes, um dos maiores produtores do combust\u00edvel do mundo \u2013, e diante da press\u00e3o forte de outras na\u00e7\u00f5es petroleiras para que n\u00e3o se chegasse a nenhum acordo nesse sentido, as expectativas eram muito baixas. Fora todo o trabalho de mais de 2 mil lobistas da ind\u00fastria do petr\u00f3leo que estavam por l\u00e1 tentando influenciar todo mundo.<\/p>\n<p>Na segunda semana da c\u00fapula, que come\u00e7ou em 30 de novembro, o \u00e2nimo em torno do tema cresceu, depois de surgirem diversas propostas para que o phase out fosse inclu\u00eddo no balan\u00e7o global. A alternativa proposta pela presid\u00eancia, no entanto, para tentar conciliar os interesses diversos, era fraca demais. E chegou-se a temer que pudesse n\u00e3o haver um acordo. Isso comprometeria as pr\u00f3ximas etapas de negocia\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, inclusive a COP30, que ser\u00e1 realizada em Bel\u00e9m, em 2025.<\/p>\n<p>Daqui a dois anos, com base no que foi indicado no balan\u00e7o global, os pa\u00edses ter\u00e3o de apresentar novas metas, as chamadas contribui\u00e7\u00f5es nacionalmente determinadas (NDCs), mais ambiciosas que as de 2015 e alinhadas com o objetivo de manter a temperatura em 1,5\u00baC. Para isso, deixar fortes recomenda\u00e7\u00f5es sobre os caminhos para chegar l\u00e1 eram t\u00e3o importantes.<\/p>\n<p>Afinal, o Acordo de Paris j\u00e1 tinha uma meta de temperatura: ficar bem abaixo de 2\u00baC, com esfor\u00e7os para ficar em 1,5\u00baC. De l\u00e1 para c\u00e1, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00f3 a ci\u00eancia falou em alto e bom som: 2\u00baC vai dar ruim demais; como ficou evidente que os planos dos pa\u00edses eram singelos demais para o desafio.<\/p>\n<p>Em Dubai, os pa\u00edses concordaram em criar uma esp\u00e9cie de grupo de trabalho de agora at\u00e9 Bel\u00e9m, passando por Baku (Azerbaij\u00e3o), onde vai ocorrer a COP do ano que vem, para estabelecer o mapa do caminho para tra\u00e7ar a miss\u00e3o 1,5\u00baC \u2013 proposta feita pelo Brasil.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de pedir que os pa\u00edses fa\u00e7am a transi\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos f\u00f3sseis, h\u00e1 recomenda\u00e7\u00f5es para se triplicar o uso de energias renov\u00e1veis e duplicar a efici\u00eancia energ\u00e9tica at\u00e9 2030 e acelerar o uso de tecnologias de zero ou baixas emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>Uns dias antes da COP terminar, um diplomata brincou que talvez a gente pudesse ver o milagre de Dubai \u2013 em rela\u00e7\u00e3o justamente \u00e0 descren\u00e7a que se tinha de que haveria algum acordo mais substancioso na COP28. &#8220;Vai que?&#8221; Milagre talvez seja forte demais n\u00e3o tenha rolado, mas fiquemos, ent\u00e3o, com uma express\u00e3o que a Marina cunhou. Ela n\u00e3o queria que houvesse uma &#8220;pororoca de press\u00e3o&#8221; em Bel\u00e9m, caso nada ficasse resolvido agora.<\/p>\n<p>&#8220;Desde o come\u00e7o, todo trabalho que o Brasil vem fazendo \u00e9 no sentido de que a gente possa assimilar esse tema inadi\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o ao combust\u00edvel f\u00f3ssil no percurso das tr\u00eas COPs: a COP 28, a COP 29 e a COP 30. N\u00f3s n\u00e3o queremos uma pororoca de press\u00e3o na COP 30 de algo que n\u00e3o foi sendo assimilado ao longo do processo&#8221;, disse a ministra em uma conversa com a sociedade civil na segunda-feira.<\/p>\n<p>Perguntei para a Marina se ela achava que agora n\u00e3o vai ser uma pororoca. &#8220;Vamos ver como vai ser a COP29.&#8221; Vai ser quando v\u00e3o ser decididos os chamados &#8220;meios de implementa\u00e7\u00e3o&#8221;, como se diz no jarg\u00e3o cheio de siglas e palavrinhas pr\u00f3prias das confer\u00eancias do clima. Em portugu\u00eas claro: falta dinheiro e isso precisa ser acordado no ano que vem, para que a\u00ed sim os pa\u00edses possam dizer o que, na pr\u00e1tica, eles v\u00e3o fazer.<\/p>\n<p>Pois \u00e9. As coisas, quando se fala no esfor\u00e7o herc\u00faleo para combater a trag\u00e9dia clim\u00e1tica que estamos vivendo, nunca est\u00e3o realmente resolvidas e sempre tem a pr\u00f3xima COP pela frente, tudo com avan\u00e7os sempre muito incrementais. H\u00e1 exatos oito anos, em 12 de dezembro de 2015, era fechado o t\u00e3o aguardado Acordo de Paris. Eu estava l\u00e1, vi colegas jornalistas se abra\u00e7ando com l\u00e1grimas nos olhos, assim como diplomatas, ministros, ambientalistas. Era uma sensa\u00e7\u00e3o de: uhu, salvamos o mundo. Ainda estamos salvando o mundo. E ele ainda precisa ser salvo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos corredores da 28\u00aa Confer\u00eancia do Clima da ONU (a COP28), em Dubai, na \u00faltima segunda-feira (11) \u00e0 noite, a sensa\u00e7\u00e3o era de que tinha sido jogado um balde de \u00e1gua fria na cabe\u00e7a de todo mundo que pedia, havia duas semanas, por uma decis\u00e3o dos pa\u00edses de colocar um fim ao uso dos combust\u00edveis. 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