{"id":319591,"date":"2023-12-23T00:02:05","date_gmt":"2023-12-23T03:02:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=319591"},"modified":"2023-12-22T23:37:35","modified_gmt":"2023-12-23T02:37:35","slug":"por-que-conteudos-neonazistas-se-proliferam-nas-redes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/por-que-conteudos-neonazistas-se-proliferam-nas-redes-sociais\/","title":{"rendered":"Por que conte\u00fados neonazistas se proliferam nas redes sociais?"},"content":{"rendered":"<p>Transfobia, misoginia, racismo, xenofobia: quanto mais odi\u00e1vel, mais engajamento tem um conte\u00fado nas redes sociais. Estudiosos concordam que o cerne do problema est\u00e1 na perda do sentimento de coletividade por parte da sociedade, substitu\u00eddo pelo individualismo exacerbado que v\u00ea nas minorias a causa de todos os fracassos pessoais.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea demoniza o outro para se autoavaliar positivamente. Logo, se n\u00e3o fossem essas pessoas horr\u00edveis, esses monstros morais, se n\u00e3o fossem os judeus, se n\u00e3o fossem os negros, se n\u00e3o fossem os gays, a gente estaria bem no mundo de hoje\u201d, comenta o professor da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Vaz.<\/p>\n<p>O pesquisador tem se debru\u00e7ado nos \u00faltimos anos sobre temas relacionados ao discurso de \u00f3dio. Ele avalia que o neonazismo na contemporaneidade atrai muita gente, pois refor\u00e7a a ideia de que o indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 bem-sucedido, \u00e9 fracassado, porque est\u00e1 sendo prejudicado por outros grupos.<\/p>\n<p>Pondera ainda que, diferentemente de pa\u00edses como os da Europa e dos EUA, em que os imigrantes s\u00e3o os principais bodes expiat\u00f3rios dos problemas sociais e econ\u00f4micos no Brasil, os alvos s\u00e3o principalmente as minorias sexuais, as feministas e a popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>\u201cAqui no Brasil o que incomoda \u00e9 quando o Estado age em prol de minorias, com a\u00e7\u00f5es afirmativas de direito e de respeito a esses grupos\u201d, defende ele.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o tamb\u00e9m d\u00e1 uma s\u00e9rie de respostas para fracassos individuais, pontua Vaz, na l\u00f3gica da teologia da prosperidade, que se fortaleceu nos anos 1980, nos EUA, e hoje est\u00e1 muito presente no Brasil.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a f\u00e9 do indiv\u00edduo que vence por si mesmo com o discurso neoliberal. A f\u00e9 como forma de ascens\u00e3o social, gra\u00e7as a Deus \u2014 e contra [\u2026], portanto, qualquer a\u00e7\u00e3o coletiva, [qualquer] aux\u00edlio do Estado.\u201d<\/p>\n<p>Essa corros\u00e3o do sentimento coletivo tem efeitos tamb\u00e9m nas plataformas virtuais, salienta Vaz que, diferentemente das telecomunica\u00e7\u00f5es, n\u00e3o t\u00eam fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cRadicaliza\u00e7\u00e3o implica engajamento. O que importa para as plataformas \u00e9 ter audi\u00eancia, ter engajamento, e a radicaliza\u00e7\u00e3o favorece. Ent\u00e3o o interesse em barrar conte\u00fado, se tem audi\u00eancia, \u00e9 m\u00ednimo\u201d, explicitou Vaz. O exemplo mais recente e not\u00f3rio no caso brasileiro foi o ataque \u00e0 conta da primeira-dama, Janja Lula da Silva. A plataforma musical Spotify removeu a p\u00e1gina, mas n\u00e3o informou como o perfil conseguiu conta verificada.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Federal (PF) identificou que um dos respons\u00e1veis pela invas\u00e3o era dono do perfil \u201cMan\u00edaco\u201d e produzia m\u00fasicas sobre supremacia racial e temas afins em v\u00e1rias plataformas, com selo de artista verificado e m\u00e9dia mensal de mais de 4 mil ouvintes.<\/p>\n<p>Janja se pronunciou na ter\u00e7a-feira (19) sobre o assunto e destacou a import\u00e2ncia de responsabilizar as plataformas, a fim de que \u201cn\u00e3o sigam lucrando em cima do \u00f3dio&#8221;.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora em educa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, desinforma\u00e7\u00e3o, ra\u00e7a, g\u00eanero e tecnologia Gabriela de Almeida Pereira, a constru\u00e7\u00e3o de um ambiente virtual seguro e democr\u00e1tico demanda a regula\u00e7\u00e3o das plataformas e dos crit\u00e9rios claros:<\/p>\n<p>\u201cSobre o caso da Janja, por exemplo, o Spotify afirmou que \u2018as regras da plataforma deixam claro que n\u00e3o permitimos conte\u00fado que promova o extremismo violento ou conte\u00fado que incite \u00e0 viol\u00eancia ou ao \u00f3dio contra um grupo\u2019. Mas isso n\u00e3o \u00e9 suficiente, visto que o rapaz citado tinha perfil ativo, no qual publicava conte\u00fados de \u00f3dio contra mulheres e negros, com uma m\u00e9dia de 4 mil ouvintes mensais\u201d, frisa a especialista.<\/p>\n<p>A censura de conte\u00fados pontuais, como os pr\u00f3-Palestina, no atual conflito entre Israel e o grupo Hamas, tamb\u00e9m \u00e9 reflexo de atividades praticadas por empresas privadas, afirma Vaz, sem compromisso com a quest\u00e3o p\u00fablica, preocupada apenas com a imagem:<\/p>\n<p>\u201cTem o lobby pr\u00f3-Israel, muito poderoso, por exemplo, nos Estados Unidos. Antes de haver a guerra, n\u00e3o havia preocupa\u00e7\u00e3o com esses discursos. Ent\u00e3o, claramente, \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o com a imagem. Se n\u00e3o n\u00e3o for prejudicar a imagem deixa o nicho existir, deixa a audi\u00eancia existir\u201d, comenta o professor da UFRJ.<\/p>\n<p>De acordo com ambos os especialistas ouvidos, estudos revelam que os espa\u00e7os de jogos on-line s\u00e3o ambientes f\u00e9rteis para atrair jovens para grupos com ideias neonazistas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 desde o uso de c\u00f3digos para abordar temas espec\u00edficos e espalhar mensagens com conte\u00fados de \u00f3dio at\u00e9 falas mais expl\u00edcitas. Para a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado e um consequente espelhamento dos atos fora do ambiente virtual, h\u00e1, para al\u00e9m das m\u00fasicas, a constru\u00e7\u00e3o de jogos protagonizados por personagens extremistas e a pr\u00e1tica posterior dessas posturas em situa\u00e7\u00f5es reais de viol\u00eancia contra negros e judeus\u201d, exemplifica Pereira.<\/p>\n<p>Segundo Vaz, jovens especialmente do sexo masculino t\u00eam tido dificuldade de lidar com mudan\u00e7as morais e novas formas de sexualidade impulsionadas pelo feminismo e pelos movimentos LGBTQIA+. \u201cA\u00ed o neonazismo \u00e9 prato cheio. \u00c9 claro que essas pessoas v\u00e3o ouvir o discurso que vai refor\u00e7ar a cren\u00e7a delas\u201d, frisa.<\/p>\n<p><strong>Como acabar esse \u00f3dio?<\/strong><br \/>\nPara reverter isso, \u00e9 fundamental um di\u00e1logo acolhedor com os jovens antes que escale para uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, argumenta Gabriela, que tamb\u00e9m \u00e9 diretora de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais da organiza\u00e7\u00e3o Redes Cordiais, que promove educa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, com o apoio de influenciadores digitais, para tornar o ambiente virtual menos hostil:<\/p>\n<p>\u201cAcreditamos que o canh\u00e3o que esses criadores de conte\u00fado possuem \u00e9 um meio fundamental para alcan\u00e7armos pessoas que est\u00e3o consumindo informa\u00e7\u00f5es por vias que muitas vezes as escolas, os pais, o governo e a imprensa n\u00e3o conseguem alcan\u00e7ar. Assim, buscamos afastar grupos mais vulner\u00e1veis de c\u00edrculos odiosos, fortalecer a capacidade dessas pessoas de n\u00e3o cair em fake news e promover ambientes virtuais mais seguros e saud\u00e1veis para todas as pessoas\u201d, explica.<\/p>\n<p>Produzir dados e mapear esses conte\u00fados \u00e9 o primeiro passo para tentar reverter esse problema, segundo a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil precisa investir em pesquisas sobre esses grupos, quais caminhos levam os jovens ao radicalismo e a grupos de \u00f3dio, como s\u00e3o recrutados, como resolver as fragilidades emocionais que s\u00e3o basilares para essa aproxima\u00e7\u00e3o, entre outros fatores importantes\u201d, destaca a especialista.<\/p>\n<p>Pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, que promovam o di\u00e1logo, o acolhimento e a sa\u00fade mental de educadores e jovens tamb\u00e9m s\u00e3o necess\u00e1rias e urgentes, acrescenta.<\/p>\n<p>Segundo ela, uma iniciativa exitosa que deve ser replicada foi lan\u00e7ada no in\u00edcio do ano pela Secretaria de Pol\u00edticas Digitais da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, que vem produzindo materiais de combate \u00e0 viol\u00eancia nas escolas e diretrizes sobre educa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica em escolas de tempo integral.<\/p>\n<p>\u201cUm problema complexo como esse precisa de a\u00e7\u00f5es que envolvam a sociedade civil, o governo, as plataformas, os educadores, os pais e respons\u00e1veis e, claro, os jovens. Esses grupos que est\u00e3o mais vulner\u00e1veis e expostos a conte\u00fados de \u00f3dio precisam ser ouvidos e fazer parte da constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es\u201d, conclui Gabriela Pereira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transfobia, misoginia, racismo, xenofobia: quanto mais odi\u00e1vel, mais engajamento tem um conte\u00fado nas redes sociais. 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