{"id":319731,"date":"2023-12-25T00:00:19","date_gmt":"2023-12-25T03:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=319731"},"modified":"2023-12-25T09:30:32","modified_gmt":"2023-12-25T12:30:32","slug":"maior-presenca-de-negros-reflete-reconhecimento-racial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/maior-presenca-de-negros-reflete-reconhecimento-racial\/","title":{"rendered":"Maior presen\u00e7a de negros reflete reconhecimento racial"},"content":{"rendered":"<p>A popula\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 tendo mais orgulho em se reconhecer mais \u201cescurecida\u201d. Essa \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o de especialistas ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil ap\u00f3s os mais recentes resultados do Censo 2022, que revelaram que 55,5% da popula\u00e7\u00e3o se identifica como preta ou parda.<\/p>\n<p>O levantamento, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), apontou que os pardos s\u00e3o 45,3% da popula\u00e7\u00e3o e superaram a quantidade de brancos pela primeira vez desde 1872, quando foi realizado o primeiro recenseamento do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, a propor\u00e7\u00e3o de pretos mais que dobrou entre 1991 e 2022, alcan\u00e7ando 10,2% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O IBGE explica que a mudan\u00e7a no perfil \u00e9tnico-racial do pa\u00eds n\u00e3o reflete apenas a quest\u00e3o demogr\u00e1fica, ou seja, nascimento ou morte de pessoas, mas tamb\u00e9m outros fen\u00f4menos sociais.<\/p>\n<p>\u201cEssas varia\u00e7\u00f5es t\u00eam a ver com a percep\u00e7\u00e3o. Cor ou ra\u00e7a \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam de si mesmas. Tem a ver com contexto socioecon\u00f4micos, contextos das rela\u00e7\u00f5es interraciais\u201d, disse o pesquisador Leonardo Athias.<\/p>\n<p><strong>Reconhecimento<\/strong><br \/>\nPara a historiadora Wania Sant\u2019Anna, conselheira do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdade Raciais (Cedra), o Brasil passa por \u201cum momento de reconhecimento de pertencimento \u00e9tnico-racial no terreno da negritude e da afrodescend\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ela, o resultado consolida uma trajet\u00f3ria que j\u00e1 vinha desde o recenseamento de 1991 e que \u201cn\u00e3o tem volta\u201d.<br \/>\n\u201cO que comprova isso [reconhecimento com a afrodescend\u00eancia] \u00e9 essa mudan\u00e7a expressiva dos pretos, que mais que dobraram entre os anos 80 e os dias atuais\u201d, aponta Wania, que tamb\u00e9m \u00e9 presidente de governan\u00e7a do Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas (Ibase) e integrante da Coaliz\u00e3o Negra por Direitos.<\/p>\n<p>A pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) Tatiana Dias Silva converge com a explica\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 apenas a quest\u00e3o demogr\u00e1fica que causou o aumento de negros na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cTem alguns estudos da composi\u00e7\u00e3o de componentes demogr\u00e1ficos para identificar se tem mais taxa de natalidade e fecundidade da comunidade negra, e n\u00e3o conseguem justificar demograficamente essa mudan\u00e7a\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>Debates<\/strong><br \/>\nWania Sant\u2019Anna cita dois grandes fatores que explicam, na vis\u00e3o dela, o reconhecimento das pessoas com a negritude. Um s\u00e3o os debates p\u00fablicos mais abertos sobre desigualdades raciais, racismo e preconceito.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas s\u00e3o discriminadas por causa da sua cor. \u00c0 medida que esse debate se torna p\u00fablico, os sujeitos pensam \u2018isso poderia ter acontecido comigo porque essa \u00e9 a minha cor, esse \u00e9 o meu cabelo, esse \u00e9 o meu territ\u00f3rio\u2019. Ent\u00e3o o debate sobre racismo tem contribu\u00eddo muito\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Outro fator, aponta Wania, s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es culturais populares que falam sobre racismo, como m\u00fasica e literatura.<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o pode esquecer o impacto que o hip-hop e o funk est\u00e3o produzindo na popula\u00e7\u00e3o jovem e n\u00e3o t\u00e3o jovem tamb\u00e9m. Esse debate fala de ra\u00e7a, racismo e cor de pele. Isso informa as pessoas. As pessoas n\u00e3o est\u00e3o sendo informadas apenas pela branquitude\u201d, disse.<\/p>\n<p>O efeito dessa conscientiza\u00e7\u00e3o, acredita Wania Sant\u2019Anna, aparece quando o recenseador pergunta \u00e0s pessoas com qual ra\u00e7a se identificam.<\/p>\n<p>A integrante da Coaliz\u00e3o Negra por Direitos ressalta que esses debates p\u00fablicos n\u00e3o existiam com a mesma for\u00e7a d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Vis\u00e3o compartilhada com Tatiana, do Ipea. \u201cA gente est\u00e1 tendo ao longo dessas \u00faltimas duas d\u00e9cadas muito mais discuss\u00e3o sobre a quest\u00e3o racial. Isso deixa de ser encarado como um tabu, e as pessoas falam sobre isso e acabam tamb\u00e9m se reconhecendo mais a partir das suas origens como negras\u201d, diz a pesquisadora cedida ao Minist\u00e9rio da Igualdade Racial (MIR).<\/p>\n<p><strong>Cor e ra\u00e7a<\/strong><br \/>\nO IBGE explica que o Censo 2022 colhe as respostas com base na autodeclara\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos. Al\u00e9m disso, utiliza o conceito de ra\u00e7a como categoria socialmente constru\u00edda na intera\u00e7\u00e3o social e n\u00e3o como conceito biol\u00f3gico. As classifica\u00e7\u00f5es do instituto s\u00e3o branca, preta, parda, amarela (origem asi\u00e1tica) e ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Apesar de o IBGE n\u00e3o agrupar oficialmente, ativistas e o Estatuto da Igualdade Racial consideram negros o conjunto de pessoas pretas e pardas.<\/p>\n<p><strong>Campanha em 1980<\/strong><br \/>\nOs resultados vistos no Censo 2022 s\u00e3o, segundo Wania Sant\u2019Anna, uma tend\u00eancia tamb\u00e9m de uma campanha organizada no come\u00e7o da d\u00e9cada de 80, da qual ela foi uma das coordenadoras. Foi um chamamento p\u00fablico para as pessoas se reconhecerem com pretas ou pardas. \u201cSab\u00edamos que tinha um problema na autodeclara\u00e7\u00e3o das pessoas\u201d, lembra.<\/p>\n<p>A campanha criou o lema \u201cN\u00e3o deixe sua cor passar em branco \u2013 Responda com bom c\/senso\u201d, fazendo ambiguidade com as palavras branco, censo e senso.<\/p>\n<p><strong>Vozes negras<\/strong><br \/>\nA cofundadora e conselheira do Centro de Estudos das Rela\u00e7\u00f5es de Trabalho e Desigualdades (Ceert) Cida Bento interpreta os resultados do Censo 2022 com um encontro do Brasil.<\/p>\n<p>\u201cO crescimento de pretos e pardos tem a ver com o quanto o Brasil vai se encontrando consigo, como uma na\u00e7\u00e3o onde a presen\u00e7a negra, n\u00e3o branca, \u00e9 grande em termos de fen\u00f3tipo [caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas e proporcionadas pelo ambiente no qual se vive], de cultura, de religiosidade\u201d.<\/p>\n<p>Cida Bento considera ainda que houve uma ressignifica\u00e7\u00e3o do que representa ser negro.<\/p>\n<p>\u201cAntes era [um significado] negativo e hoje vem associado a uma cultura plural, diversa, que acolhe outras. Agora \u00e9 poss\u00edvel se reconhecer negro como uma coisa boa. A discuss\u00e3o disso tem vindo das vozes negras sacudindo a sociedade para olhar para aquilo que o pa\u00eds \u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Outra ressignifica\u00e7\u00e3o, segundo Cida, \u00e9 entender que o branco contou com privil\u00e9gios da coloniza\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o e, por isso, ocupa atualmente os postos de mais destaques, melhores remunera\u00e7\u00f5es e com mais poderes.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um lugar n\u00e3o mais visto como m\u00e9rito, mas como resultante de uma hist\u00f3ria de atos anti-humanit\u00e1rios\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Estat\u00edstica como evid\u00eancia<\/strong><br \/>\nOs n\u00fameros do Censo 2022 s\u00e3o vistos por especialistas e ativistas como uma ferramenta estat\u00edstica e tamb\u00e9m uma evid\u00eancia para a busca por mais representatividade e pol\u00edticas p\u00fablicas. Wania Sant\u2019Anna d\u00e1 como exemplo a campanha de movimentos negros pela indica\u00e7\u00e3o de uma mulher negra para o Supremo Tribunal Federal (STF).<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 como se fossem 55% da popula\u00e7\u00e3o pedindo essa vaga\u201d, diz, fazendo refer\u00eancia \u00e0 propor\u00e7\u00e3o de pretos e pardos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ela acredita que pol\u00edticas afirmativas bem avaliadas, como cotas para negros nas universidades, sejam estendidas para outros ambientes de representa\u00e7\u00e3o, como minist\u00e9rios e parlamentos.<\/p>\n<p>\u201cTemos que olhar para as representatividades que est\u00e3o a\u00ed e question\u00e1-las\u201d, defende.<\/p>\n<p>Outra utilidade dos dados na vis\u00e3o de especialistas \u00e9 analisar recortes das informa\u00e7\u00f5es demogr\u00e1ficas com indicadores de trabalho, educa\u00e7\u00e3o e expectativa de vida, por exemplo. \u00c0 frente da Diretoria de Avalia\u00e7\u00e3o, Monitoramento e Gest\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o do MIR, Tatiana Dias Silva defende o uso de informa\u00e7\u00f5es qualificadas, produzidas por v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os, como embasamento para discuss\u00f5es e elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas sobre desigualdades raciais. O MIR, por exemplo, mant\u00e9m o HUB da Igualdade Racial.<\/p>\n<p>Diretora de Avalia\u00e7\u00e3o, Monitoramento e Gest\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o do MIR, Tatiana Silva &#8211; Foto: Helio Montferre\/Ipea<br \/>\nCida Bento chama aten\u00e7\u00e3o para um cuidado espec\u00edfico que deve haver na hora de se executarem pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas. Ela lembra que c\u00e2maras de verifica\u00e7\u00e3o de cotas em universidades j\u00e1 mostraram casos de pessoas brancas se classificando como pardas para poderem usufruir de a\u00e7\u00f5es afirmativas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um assunto que precisa estar sempre em debate. As pol\u00edticas p\u00fablicas focadas em negros, ind\u00edgenas e quilombolas t\u00eam que ser dirigidas a esses segmentos a sociedade\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>M\u00e3o dupla<\/strong><br \/>\nTatiana Dias Silva, do Ipea e do MIR, espera que o pa\u00eds e a sociedade brasileira vivenciem uma esp\u00e9cie de c\u00edrculo virtuoso envolvendo debates sobre quest\u00f5es raciais, reconhecimento e pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Ela faz uma primeira rela\u00e7\u00e3o ligando a amplia\u00e7\u00e3o da discuss\u00e3o nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, a cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os como a Secretaria de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial (Seppir) pelo governo federal, em 2023, e o MIR, em 2023, e o autorreconhecimento da popula\u00e7\u00e3o negra nos question\u00e1rios de recenseamento.<\/p>\n<p>Para ela, um pr\u00f3ximo passo necess\u00e1rio \u00e9 que haja uma m\u00e3o dupla, com amplia\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento de pol\u00edticas p\u00fablicas e a\u00e7\u00f5es da sociedade para enfrentamento das desigualdades.<\/p>\n<p>\u201cPara a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade com mais justi\u00e7a racial, sem tantos abismos entre os grupos por conta de sua cor ou ra\u00e7a. O enfrentamento ao racismo como um valor cada vez mais importante na nossa sociedade. \u00c9 um caminho que nos fortalece como sociedade, como pa\u00eds, como democracia\u201d, deseja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A popula\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 tendo mais orgulho em se reconhecer mais \u201cescurecida\u201d. Essa \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o de especialistas ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil ap\u00f3s os mais recentes resultados do Censo 2022, que revelaram que 55,5% da popula\u00e7\u00e3o se identifica como preta ou parda. 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