{"id":319759,"date":"2023-12-27T06:47:56","date_gmt":"2023-12-27T09:47:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=319759"},"modified":"2023-12-27T06:50:32","modified_gmt":"2023-12-27T09:50:32","slug":"informacao-truncada-gera-mais-dor-de-cabeca-que-fake-news","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/informacao-truncada-gera-mais-dor-de-cabeca-que-fake-news\/","title":{"rendered":"Informa\u00e7\u00e3o truncada gera mais dor de cabe\u00e7a que fake news"},"content":{"rendered":"<p>Tradutor da alegria, do prazer e das gargalhadas do cotidiano profano, bizarro e engra\u00e7ado, costumo deixar as mazelas, o vampirismo e as dores do mundo para os colegas obrigados a produzir desgra\u00e7a para os notici\u00e1rios popularescos das emissoras de r\u00e1dio e televis\u00e3o. Sou como o imortal Wilson Simonal, o rei do swing (n\u00e3o a suruba) e criador, junto com o maestro Erlon Chaves, da Banda Veneno, para quem o grande lance sempre foi rosetar. Normalmente me dou mal, mas n\u00e3o me canso de tentar.<\/p>\n<p>Dia desses, deparei-me com uma dessas \u201cgostosas\u201d na academia. Indaguei do treinador Dari Valenzuela que m\u00e1quina deveria usar para impressionar a mo\u00e7a. Dari me olhou de cima a baixo e respondeu: \u201cEu tentaria o caixa eletr\u00f4nico no fim do corredor\u201d. Estou at\u00e9 hoje de mal com o teacher.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, entro em furadas dignas do anedot\u00e1rio dos velhotes. Em uma tarde ensolarada do Novembro Azul, parti para o consult\u00f3rio de um urologista indicado por um amigo surdo. Eu havia pedido o endere\u00e7o de um m\u00e9dico entendido em furico, mas, acho que, por m\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o, o tal amigo me encaminhou para o escrit\u00f3rio de um advogado especializado em varas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabendo do mal-entendido, adentrei a sala do caus\u00eddico e fui logo informando que estava com dores no ovo esquerdo. Sem me alertar sobre o erro de doutor, o advogado disse que era formado em direito.<\/p>\n<p>Aborrecido, sa\u00ed da sala resmungando a respeito do exagero da especializa\u00e7\u00e3o: Meu Deus, agora tem um m\u00e9dico para cada ovo. Coisas da informa\u00e7\u00e3o truncada.<\/p>\n<p>Lembro de meu av\u00f4 e de minha av\u00f3 assistindo um desses programas televisivos de cura. De olhos fechados, o pastor presbicheriano pediu que eles colocassem a m\u00e3o na TV e outra na parte doente. Minha av\u00f3 colocou uma na tela e outra nas costas, enquanto meu av\u00f4 levava a segunda m\u00e3o \u00e0s partes \u00edntimas, hoje tamb\u00e9m conhecida por bilau em desuso. Com o carinho de sempre, a velha foi com os dois p\u00e9s no saco do veio: \u201cIdiota, ele disse que vai curar os doentes e n\u00e3o ressuscitar os mortos\u201d. Morreram e nem no c\u00e9u se falam.<\/p>\n<p>Informar pela metade realmente n\u00e3o \u00e9 o melhor caminho, principalmente quando a refer\u00eancia s\u00e3o o av\u00f4 e a av\u00f3, entes t\u00e3o queridos. Pior \u00e9 lembrar deles com remorso. \u00c9 o meu caso.<\/p>\n<p>Certa feita, me aproximei da cama de meu av\u00f4 e pedi para que ele fechasse os olhos um pouquinho. \u201cMas por qu\u00ea?\u201d, perguntou o veio. Fingindo inoc\u00eancia, respondi sem rodeios: &#8211; \u00c9 que mam\u00e3e disse que quando o senhor fechar os olhos n\u00f3s vamos ficar ricos.<\/p>\n<p>Ainda hoje, o mais dif\u00edcil \u00e9 esquecer o safan\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o boi na sombra, engra\u00e7ado e bem-humorado at\u00e9 em missas de s\u00e9timo dia, meu v\u00f4 era portugu\u00eas de ber\u00e7o, mas se achava mineiro das Gerais. Segundo ele, os das Minas eram mais prepotentes. Numa de suas andan\u00e7as pelas ruas suburbanas do Rio, encontrou um amigo cuja naturalidade era desconhecida. Ao saber que o companheiro nasceu em Pelotas, seu Ara\u00fajo perdeu a oportunidade da piada: \u201cEu nasci interim, duma veis s\u00f3\u201d.<\/p>\n<p>Antes que algu\u00e9m pense que minha vida \u00e9 baseada em um texto inacabado ou em uma desgraceira, melhor informar que, de vez em quando, jogo no bicho e acerto no milhar da perereca. Em um fim de tarde inesquec\u00edvel, passei em frente a uma casa de sali\u00eancia de p\u00e9ssima reputa\u00e7\u00e3o. Aos berros, uma das mo\u00e7as perguntou por que eu n\u00e3o experimentava. Disse que n\u00e3o podia mais.<\/p>\n<p>\u201c\u00c2nimo, entre e vamos tentar\u201d, brincou a profissional do vuco vuco. Entrei e, sem descanso, atuei tr\u00eas vezes como um jovem de 19 anos incompletos. \u201cCaramba! E o senhor disse que j\u00e1 n\u00e3o podia!\u201d, resmungou a professora substituta. Meio sem gra\u00e7a, disse quase silenciosamente: &#8211; Voc\u00ea entendeu errado. Transar eu posso. O que eu n\u00e3o posso \u00e9 pagar!<\/p>\n<p>Mesmo com o joanete \u00e0 flor da pele, tive de pular a janela para fugir da surra com toalha molhada.<\/p>\n<p>Outra surra da qual me safei por conta do entendimento \u00e0s avessas foi em um vag\u00e3o do Metr\u00f4 de Bras\u00edlia. Era fim de semana, o trem meio vazio, sentou-se \u00e0 minha frente um jovem do tipo punk, com cabelos multicoloridos, a maior parte vermelha, um grande topete amarelo e listras parecendo um arco-\u00edris. Diante do exagero dos meus olhares, o rapazola grita: \u201cQual\u00e9, meu? T\u00e1 me tirando? Vai dizer que nunca fez extravag\u00e2ncias quando era jovem?\u201d<\/p>\n<p>Sem ter o que responder de forma mais ponderada e justa, apelei para a dissimula\u00e7\u00e3o: &#8211; Claro que sim. Certa vez, meio papudo, fiz sali\u00eancia com uma arara azul. Por isso, estava olhando para voc\u00ea. Achei que podia ser meu filho.<\/p>\n<p>Novamente a janela foi minha salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradutor da alegria, do prazer e das gargalhadas do cotidiano profano, bizarro e engra\u00e7ado, costumo deixar as mazelas, o vampirismo e as dores do mundo para os colegas obrigados a produzir desgra\u00e7a para os notici\u00e1rios popularescos das emissoras de r\u00e1dio e televis\u00e3o. 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