{"id":320171,"date":"2024-01-06T01:20:34","date_gmt":"2024-01-06T04:20:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=320171"},"modified":"2024-01-06T01:21:45","modified_gmt":"2024-01-06T04:21:45","slug":"saga-de-capoeiras-a-barreiros-vira-ex-doce-sonho-de-consumo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/saga-de-capoeiras-a-barreiros-vira-ex-doce-sonho-de-consumo\/","title":{"rendered":"Saga de Capoeiras a Barreiros vira ex-doce sonho de consumo"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o fosse paulista &#8211; e n\u00e3o se tem not\u00edcia de que tenha andado pelos lados do agreste pernambucano &#8211; o poeta Vicente de Carvalho teria nominado brom\u00e9lia ou orqu\u00eddea a planta que ficou para a eternidade no poema A <em>Flor e a Fonte<\/em>. Delicadas como o bater das asas de um beija-flor, elas florescem todos os anos \u00e0s margens do Rio Una, numa regi\u00e3o que se imagina um agreste \u00e1rido, mas que tem vida e cores primaveris.<\/p>\n<p>Essas flores s\u00e3o verdadeiras hero\u00ednas da natureza na &#8216;Terra dos Altos Coqueiros&#8217;, tamb\u00e9m conhecida como &#8216;Nova Roma de Bravos Guerreiros&#8217; ou simplesmente &#8216;Pernambuco imortal, imortal&#8217;. Ali\u00e1s, &#8216;o nosso pa\u00eds&#8217;, como os pernambucanos definem carinhosamente seu Estado.<\/p>\n<p>Mesmo gozando um longo per\u00edodo de f\u00e9rias, jornalista &#8211; e isso est\u00e1 no sangue &#8211; sempre arranja um pretexto para escrever algo. Como n\u00e3o sou avexado, dei tempo ao tempo. E passados vinte dias admirando o mar de Itapuama, tomei emprestada a frase de Luiz Gonzaga e fui viajar pelo &#8216;pa\u00eds&#8217; que \u00e9 Pernambuco.<\/p>\n<p>A ideia de conhecer a nascente do Una, no quase povoado de Capoeiras, e acompanhar seu percurso at\u00e9 &#8216;invadir&#8217; o Atl\u00e2ntico, onde ele &#8216;se despede de Barreiros e emboca pra dentro do mar&#8217;, como canta Jorge de Altinho, era um velho sonho de consumo.<\/p>\n<p>A aventura ganhou contornos de realidade na noite anterior, alimentada no restaurante Rota da Costa, um ponto paradis\u00edaco que tem como anfitri\u00f5es S\u00e9rgio e as filhas Vera e Cibele &#8211; esta \u00faltima, por curtos per\u00edodos, quando no Ver\u00e3o troca a selva de pedras que \u00e9 S\u00e3o Paulo por um coqueiral que separa o restaurante das \u00e1guas mornas de Itapuama.<\/p>\n<p>&#8216;Apois&#8217; &#8211; um dialeto pr\u00f3prio, que pode ser, por exemplo, ent\u00e3o &#8211; foi ali que tudo come\u00e7ou. Serviam-me um camar\u00e3o com caldo (e n\u00e3o um caldinho de camar\u00e3o) degustado com uma original cacha\u00e7a da terra como tira-gosto, tendo a brisa do mar beijando-me as faces, quando Vav\u00e1 Galdino sentou-se em seu banquinho e fez soar os primeiros acordes do viol\u00e3o. Deu vida nova a Djavan. [&#8230;Do p\u00e9 que brotou Maria, nem Margarida nasceu&#8230;]. Cantava como um can\u00e1rio de olho em uma canarinha no cio. E disp\u00f4s-se a atender pedidos, desde que parte do seu repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>Vav\u00e1 fez Gonzag\u00e3o viajar no Riacho do Navio e atravessar a ponte sobre o Rio S\u00e3o Francisco que transforma Petrolina e Juazeiro, juntas, numa metr\u00f3pole sertaneja. Sertaneja de sert\u00e3o, n\u00e3o essas que confundem fazer amor com trepada. Ressuscitou Patativa do Assar\u00e9, com Vozes da Seca, e apresentou aos ouvintes a Bela da Tarde, aquela garota de Boa Viagem que Alceu Valen\u00e7a fez ser cantada em diferentes idiomas.<\/p>\n<p>Cantando, Vav\u00e1 olhou-me, sorrindo. Gesticulou para que eu, ocupando uma mesa pr\u00f3xima ao palco improvisado, cantasse com ele. Meneei a cabe\u00e7a, agradeci. Mas pedi a m\u00fasica que me consumia por dentro. &#8220;Essa n\u00e3o d\u00e1&#8221;, respondeu-me. &#8220;S\u00e3o muitas cidades e me perco pelo caminho&#8221;. Por\u00e9m, prometeu-me, iria decorar para cantar oportunamente. Imp\u00f4s uma condi\u00e7\u00e3o. Que cantasse com ele.<\/p>\n<p>Ontem, ent\u00e3o, j\u00e1 era hoje, ou seja, passava da meia-noite. O microfone foi desligado e o viol\u00e3o silenciado sob protestos dos clientes. Algu\u00e9m gritou &#8216;manda a saideira&#8217;, e Vav\u00e1 fez o p\u00fablico viajar como elefante pisando em pitomba, antecipando um clima carnavalesco de quem sempre tem pela frente mais um dia feliz.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-320173 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/97bd5ff4-f950-420d-831f-c18473e19c98-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"544\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/97bd5ff4-f950-420d-831f-c18473e19c98-300x225.jpeg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/97bd5ff4-f950-420d-831f-c18473e19c98-768x576.jpeg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/97bd5ff4-f950-420d-831f-c18473e19c98.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 544px) 100vw, 544px\" \/><\/p>\n<p>O dono da voz de can\u00e1rio que paquera as f\u00eameas no cio, foi para um lado. Paguei minha conta (inclu\u00eddo a\u00ed o cach\u00ea), atravessei a rua e fui ouvir em casa Rio Una. Vav\u00e1 tem raz\u00e3o. S\u00f3 mesmo Jorge de Altinho para n\u00e3o se perder percorrendo desde a nascente, no Planalto da Borborema, at\u00e9 desembocar sua \u00e1gua doce e cristalina no verde e suavemente salgado Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Mal nasce em <em>Capoeiras<\/em>, o Una &#8216;sai correndo a galopar em dire\u00e7\u00e3o ao mar&#8217;. A segunda cidade que ele banha \u00e9 <em>S\u00e3o<\/em> <em>Bento,<\/em> de onde vaza como uma corrente para <em>Cachoeirinha<\/em>. L\u00e1 ele demora &#8216;um tiquinho&#8217; e logo segue para <em>Altinho<\/em>. \u00c9 quando &#8216;se alegra e se agita como quem v\u00ea mo\u00e7a bonita na barreira matutina&#8217;. Um r\u00e1pido flerte e vai descendo para <em>Agrestina<\/em>, com suas \u00e1guas batendo nas pedras como se fosse uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Irreverente, o rio continua a galopar em dire\u00e7\u00e3o ao mar. Em <em>Palmares<\/em>, &#8216;ele mata a saudade, passa dentro da cidade valente como um le\u00e3o&#8217;, mas deixa de ser arisco em <em>\u00c1gua Preta<\/em>, onde se desvia como um primo desgarrado e pede ao Velho Chico sua b\u00ean\u00e7\u00e3o. S\u00f3 ent\u00e3o o Una &#8216;entristece, bota pra chorar, se despede de <em>Barreiros<\/em> e emboca pra dentro do mar&#8217;.<\/p>\n<p>E &#8216;apois&#8217;&#8230; Vav\u00e1 est\u00e1 certo. Decorar as oito cidades \u00e9 como ser oper\u00e1rio na &#8216;constru\u00e7\u00e3o&#8217; de Chico Buarque. Fiz meu percurso sem pressa. Realizei meu sonho de consumo como um leigo a inspirar-se no dif\u00edcil mundo dos poetas. E vou aguardar neste &#8216;pa\u00eds&#8217; dos pernambucanos o dia em que silenciarei feliz, &#8216;guardando as recorda\u00e7\u00f5es das terras onde passei&#8217;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o fosse paulista &#8211; e n\u00e3o se tem not\u00edcia de que tenha andado pelos lados do agreste pernambucano &#8211; o poeta Vicente de Carvalho teria nominado brom\u00e9lia ou orqu\u00eddea a planta que ficou para a eternidade no poema A Flor e a Fonte. 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