{"id":320318,"date":"2024-01-09T10:41:39","date_gmt":"2024-01-09T13:41:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=320318"},"modified":"2024-01-09T10:41:52","modified_gmt":"2024-01-09T13:41:52","slug":"viagem-musical-ao-bordel-onde-o-golpe-fracassou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/viagem-musical-ao-bordel-onde-o-golpe-fracassou\/","title":{"rendered":"Viagem musical ao bordel onde o golpe fracassou"},"content":{"rendered":"<p>L\u00e1 pelos idos dos anos 60, Wilson Simonal, o preto que mais incomodou a elite e os brancos, principalmente os intelectuais, cantou \u201cO Brasil est\u00e1 vazio na tarde de domingo\u201d. Na m\u00fasica Aqui \u00e9 o pa\u00eds do futebol, o que ele quis dizer \u00e9 o que eu digo hoje: domingo sem futebol \u00e9 o mesmo que o Brasileir\u00e3o sem o Flamengo, o r\u00e1dio sem Ary Barroso, os campos de futebol sem grama original, o banco de reservas sem Zagallo, a Alemanha sem Beckenbauer, os cruzeiros mar\u00edtimos sem o rei Roberto Carlos e o Brasil sem democracia.<\/p>\n<p>Na aus\u00eancia do contato alegre com a Na\u00e7\u00e3o Rubro-Negra, usei o domingo, 8 de janeiro, tamb\u00e9m conhecido como o dia que acabou com a carreira de um falso profeta, para cutucar meus alfarr\u00e1bios cin\u00e9filo-musicais e viajar na maionese da hist\u00f3ria cinematogr\u00e1fica e musical.<\/p>\n<p>De imediato, imaginei um encontro interestelar em um bordel de periferia entre o mundialmente amado Dr. Spock, do filme Jornada nas Estrelas, e o abobalhado Dr. Zachary Smith, da s\u00e9rie televisiva Perdidos no Espa\u00e7o. H\u00edbrido (vulcano e humano), Spock \u00e9 daqueles que todos odeiam amando. Ufanista, f\u00e3 de Dom &amp; Ravel (Eu te amo meu Brasil) e apegado a joias alheias, Smith se supera nas estultices. Por isso, a maioria ama odi\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Perplexo e esfuziante com o fracassado golpe planejado estabanadamente pelo pseudo cientista das causas perdidas, o oficial comandante da nave USS Enterprise respondeu \u00e0 barb\u00e1rie cometida pelo antagonista lembrando a saudosa Beth Carvalho: \u201cVoc\u00ea pagou com trai\u00e7\u00e3o a quem sempre lhe deu a m\u00e3o&#8230;\u201d N\u00e3o importa quem seja o tra\u00eddo ou o traidor. Importante \u00e9 o desfecho da letra: \u201c\u00c9, o teu castigo&#8230;\/Eu vou festejar, vou festejar o teu sofrer, o teu penar&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Nas andan\u00e7as c\u00f3smicas durante o domingo em que, no ano passado, a Rep\u00fablica e a democracia enfrentaram os horrores produzidos por mercen\u00e1rios e comandados por renegados bastardos, nada melhor do que tripudiar sarcasticamente de uma intentona que serviu apenas para que o Satan\u00e1s de rabo quebrasse a cara. \u00c9 claro que, antes, ele e seus \u201cpatriotas\u201d quebraram a Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, incomodaram o povo ordeiro, mas n\u00e3o assustaram El Diablo de barba, tamb\u00e9m conhecido por Sapo Barbudo.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi uma briga de sacos roxos porque dessa cor somente um tem. Imbrochavelmente covarde e sem apoio, o outro fugiu correndo para se avistar com o espantalho Trump, primo irm\u00e3o do Pato Donald. Sem papas na l\u00edngua, Dr. Spock, agora travestido de excel\u00eancia na terceira encarna\u00e7\u00e3o, levantou a espada e berrou: \u201cSe voc\u00ea quer brigar&#8230;\/Pode vir quente que estou fervendo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>P\u00edfia, a rea\u00e7\u00e3o de Smith pipoqueiro incomodou o tamb\u00e9m saudoso Altemar Dutra: \u201cAcabei de saber que voc\u00ea riu de mim\/E depois perguntou se eu vivi, se eu morri&#8230;\u201d A r\u00e9plica partiu de um desses supostos comunistas escondidos em um dos quartos da esquerdopata casa de sali\u00eancia: \u201cMeu docinho de coco&#8230;\/Minha Bras\u00edlia amarela\/T\u00e1 de portas abertas\/Pra mode a gente se amar\/Pelados em Santos\u201d.<\/p>\n<p>Vixe! Metido a g\u00f3tico, punk, skinhead e avexado como Mohamed, o cidad\u00e3o em quest\u00e3o preferiu se aquietar e amea\u00e7ou solfejar mais uma de Altemar:\u201cQue tolice n\u00f3s dois brigarmos tanto assim\/Se depois vamos n\u00f3s a sorrir\/Trocar de bem no fim&#8230;\/Para qu\u00ea?\/Se essa gente o que quer \u00e9 nossa separa\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O bicho pegou quando, escondidos em uma beirada do c\u00e9u estelar, Lupic\u00ednio Rodrigues e Jamel\u00e3o autorizaram o atual a adaptar e cantar para o ex o cl\u00e1ssico Ela disse-me assim: \u201cTenha pena de mim\/V\u00e1 embora&#8230;\/E o remorso est\u00e1 te torturando\/Por ter feito a loucura que fez\/Por um simples prazer\/Foi fazer o Brasil infeliz&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Mais uma vez, a resposta de Darth Vader foi chul\u00e9: \u201cO sapo n\u00e3o lava o p\u00e9\/N\u00e3o lava porque n\u00e3o quer\/Ele mora com a Janja na lagoa\/N\u00e3o lava o p\u00e9 porque n\u00e3o quer&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Convenhamos que, como era o pr\u00f3prio, a tr\u00e9plica foi meio sem gra\u00e7a. O que mais chamou minha aten\u00e7\u00e3o foi o fato de, ainda que de forma fict\u00edcia, eu reunir dois antag\u00f4nicos registrados em cart\u00f3rio circulando no mesmo ambiente sem xingamentos. Nada sobre ladr\u00e3o, corrupto, miliciano, genocida, mensaleiro, baitola, paneleiro, joinho ou coisas do g\u00eanero.<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado foi ouvir a pedida de um forasteiro do bordel ao cantor solo do sagrado recinto. \u201cCanta a\u00ed Cume, do astro Falc\u00e3o\u201d. Meio desajeitado, o sujeito pegou o reco-reco e tascou: \u201cNo alto daquele cume&#8230;\/Plantei uma roseira\/O vento no cume bate\/A rosa no cume cheira\/&#8230;Quando cessa a chuva\/No cume volta a alegria\/Pois torna a brilhar de novo\/O sol que no cume ardia&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Senti a picardia do mo\u00e7o, mas n\u00e3o captei no cume de quem entrou. N\u00e3o sei, mas imagino. Antes que algu\u00e9m pudesse tornear o salutar ambiente, lembrei que n\u00e3o valia m\u00fasica a respeito de John, de Paul ou de cornos. Isso n\u00e3o \u00e9 papo de homem. Afinal, todo corno \u00e9 um protegido de Deus.<\/p>\n<p>S\u00f3 ameacei parar de sonhar quando adentrou o pudico sal\u00e3o uma turma liderada pelo japon\u00eas da Federal. Apesar dos males irrepar\u00e1veis causados ao Dr. Spock por determina\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o da vara sem vaselina, o japon\u00eas \u00e9 coisa do passado.<\/p>\n<p>Acompanhado de backing vocals nordestinos, o japon\u00eas &#8211; outrora um \u201cpatriota\u201d embandeirado e entrincheirado nas redondezas do QG do Ex\u00e9rcito &#8211; soltou a voz: \u201cAi, ai, se eu te pego&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Ainda no espa\u00e7o et\u00e9reo, viajei rapidamente pela trajet\u00f3ria do imortal Jorge Ben, cuja prote\u00e7\u00e3o divina \u00e9 a mesma que, nos anos 60 e 70, protegeu Julinho da Adelaide, o meu, o seu, o nosso Chico Buarque. Como se fosse um recado aos terrivelmente \u201cpatriotas\u201d, Ben mudou o dia para Domingo 23 e pediu a Jorge da Capad\u00f3cia para, montado em seu cavalo branco, mostrar aos seguidores do \u00f3dio que, \u201ccom uma rosa e o cantar de um passarinho, nunca nesse mundo se est\u00e1 sozinho\u201d. E salve Jorge, salve Jorge.<\/p>\n<p>Acordei desse sonho louco com o fundo musical do rapper Jax Maromba, a quem nunca fui apresentado: \u201cSe liga no Xand\u00e3o, mata a cobra e mostra o pau\/O \u00faltimo her\u00f3i que derrota todo o mal&#8230;\/Quem exala energia?\/O super Xand\u00e3o&#8230;\u201d Eita que sonho doido. Doido, mas real no amadorismo \u201cgolp\u00edstico\u201d do mito fraudulento. O que ele fez de fato foi consolidar a democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 pelos idos dos anos 60, Wilson Simonal, o preto que mais incomodou a elite e os brancos, principalmente os intelectuais, cantou \u201cO Brasil est\u00e1 vazio na tarde de domingo\u201d. 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