{"id":320418,"date":"2024-01-11T10:24:17","date_gmt":"2024-01-11T13:24:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=320418"},"modified":"2024-01-11T10:24:17","modified_gmt":"2024-01-11T13:24:17","slug":"bebado-padre-e-louco-todos-temos-um-pouco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bebado-padre-e-louco-todos-temos-um-pouco\/","title":{"rendered":"B\u00eabado, padre e louco, todos temos um pouco"},"content":{"rendered":"<p>Professores, m\u00e9dicos, padres, gar\u00e7ons, benzedeiras, feirantes, gorozeiros, lavadores de carro, padeiros, barbeiros e at\u00e9 coveiros fazem parte da lista de figuras que, amados por uns e odiados por outros, n\u00e3o se esgotam nunca. Melhoral era o b\u00eabado doid\u00e3o do meu bairro no sub\u00farbio do Rio de Janeiro. Querido pela maioria, quase foi trucidado pelo dono do sobrado e da farm\u00e1cia de marquise de zinco sob a qual o inofensivo transeunte dormia. Certa feita, madrugada alta, mamado at\u00e9 a alma, Melhoral bateu seguidamente na porta de a\u00e7o do estabelecimento. Morador do andar de cima, nada t\u00e3o complicado para seu Ludgero abrir a loja para atender um &#8220;vizinho&#8221; adoentado.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, ap\u00f3s colocar o jaleco de servi\u00e7o, o farmac\u00eautico deu de cara com o tal bebum querendo apenas se pesar. \u00c9 \u00f3bvio que a f\u00faria de seu Ludgero recebeu o aval de todos os lojistas da regi\u00e3o. Desajeitado de ber\u00e7o, mas lindo gra\u00e7as \u00e0 natureza brincalhona, Jo\u00e3o do Fusca era vendedor de hortifrutas, galinhas, tomates e ovos frescos. No bairro, n\u00e3o h\u00e1 um (ou uma) que nunca tenha provado ou apertado seu rabanete, sua cenoura, seus ovos, tomates ou o pepino que sempre levava escondido no fundo do carrinho. As carambolas, seriguelas e os mam\u00f5es papaias ficavam mais expostos. A estrat\u00e9gia era simples: evitar que toques mais robustos das madames da periferia deixassem os ovos e os tomates meio bambos.<\/p>\n<p>Tocador de trombone de vara nas horas vagas, seu Jo\u00e3o era um homem simples, mas ficou marcado por um tr\u00e1gico acidente at\u00e9 hoje mal interpretado pelos contadores de hist\u00f3ria. Jo\u00e3o era maestro da bandinha da Igreja Matriz, localizada na \u00e1rea mais \u00edngreme do bairro servido por \u00f4nibus do tipo jardineira. Ao participar de uma das prociss\u00f5es em homenagem ao Senhor Morto, ele n\u00e3o viu a condu\u00e7\u00e3o descendo a ladeira sem freio. Em um embargo auricular meio truncado, foi informado pelo coroinha do tr\u00e1gico sucedido. Como entendeu mal, sinalizou para os companheiros da banda, deu o primeiro acorde e tascou Jardineira, a can\u00e7\u00e3o de maior sucesso do saudoso Orlando Silva.<\/p>\n<p>Entre mortos e feridos, salvou-se apenas padre Ambr\u00f3sio, o mesmo que, pouco tempo depois, recebeu diploma de reconhecimento de um circo mambembe que estava afixado em uma pra\u00e7a do bairro. Por isso, acabou excomungado pelas beatas mais senhorinhas. O problema ocorreu em um dia em que o enviado de Francisco estava no confession\u00e1rio atendendo os paroquianos, quando avistou um rapaz que n\u00e3o conhecia. Era o acrobata do circo. Surpreso e ne\u00f3fito no tema, padre Ambr\u00f3sio pediu para que o mo\u00e7o fizesse uma demonstra\u00e7\u00e3o. Terminada a confiss\u00e3o, o jovem deixou o confession\u00e1rio dando cambalhotas e plantando bananeiras.<\/p>\n<p>Na fila das confiss\u00f5es, duas velhinhas se entreolharam e uma disse para a outra: &#8220;Comadre, vamos embora r\u00e1pido. A penit\u00eancia hoje \u00e9 complicada e eu estou sem calcinha&#8221;. Para evitar queda dr\u00e1stica na arrecada\u00e7\u00e3o da igreja, padre Ambr\u00f3sio foi transferido para o interior do Estado. Entre as figuras que n\u00e3o se acabam, Valdir, o primog\u00eanito da fam\u00edlia dos Schneider, era o supervisor geral dos coveiros do cemit\u00e9rio local. Frequentador de currutelas, Didi Lingui\u00e7\u00e3o nunca enterrou ningu\u00e9m, mas era conhecido de todos na vizinhan\u00e7a. Sem estat\u00edsticas sobre os companheiros que j\u00e1 havia visto sendo literalmente enterrados, Didi criou um macabro bord\u00e3o que at\u00e9 hoje \u00e9 marca registrada de sua longa e feliz vida: &#8220;Quem \u00e9 vivo sempre aparece&#8221;.<\/p>\n<p>As bizarrices s\u00e3o das mais diversas. Dona Odete, a benzedeira de novos e velhos, me ensinou que pouco sexo atrapalha a mem\u00f3ria. Por causa dela, nunca mais esqueci a f\u00f3rmula da Cibalena (Dimetilaminofenilpirazolona). Lavador de carro e dos melhores gar\u00e7ons nas horas de folga, Dezinho do Boga quase morreu no fim de uma festa de casamento na quadra de ensaios do Solta o Bicho, bloco carnavalesco do bairro. Comes e bebes j\u00e1 quase fartando, Dezinho todo fantasiado e de gravata borboleta, eis que algu\u00e9m gritou: &#8220;Todos os homens casados, por favor, fiquem ao lado da pessoa que tem feito sua vida valer a pena&#8221;. Dezinho por pouco n\u00e3o perdeu o boga e foi esmagado na confus\u00e3o. Dizem que Dezinho foi quem inspirou Reginaldo Rossi, o conde do Brega, na can\u00e7\u00e3o Gar\u00e7om. No balan\u00e7ar dos ovos, de m\u00e9dico, padre, b\u00eabado e louco todos temos um pouco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professores, m\u00e9dicos, padres, gar\u00e7ons, benzedeiras, feirantes, gorozeiros, lavadores de carro, padeiros, barbeiros e at\u00e9 coveiros fazem parte da lista de figuras que, amados por uns e odiados por outros, n\u00e3o se esgotam nunca. 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