{"id":320833,"date":"2024-01-19T00:55:42","date_gmt":"2024-01-19T03:55:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=320833"},"modified":"2024-01-19T05:28:09","modified_gmt":"2024-01-19T08:28:09","slug":"racismo-climatico-mostra-sua-insanidade-com-briga-nas-redes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/racismo-climatico-mostra-sua-insanidade-com-briga-nas-redes\/","title":{"rendered":"Racismo clim\u00e1tico mostra sua insanidade com briga nas redes"},"content":{"rendered":"<p>Tem um qu\u00ea de deprimente a pol\u00eamica da vez das redes sociais no Brasil em torno do termo &#8220;racismo clim\u00e1tico&#8221;. O conceito n\u00e3o \u00e9 novo. \u00c9 usado pela academia j\u00e1 h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, pela ONU e at\u00e9 por organiza\u00e7\u00f5es internacionais insuspeitas de serem &#8220;coisa de esquerda&#8221;, como o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial. \u00c9 um dos pilares de um conceito ainda mais amplo, de justi\u00e7a clim\u00e1tica, sem a qual \u00e9 imposs\u00edvel de fato combater a crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Mas num pa\u00eds em que tudo vira motivo para um FLA x FLU digital, a express\u00e3o usada pela ministra Anielle Franco ao comentar o desastre das chuvas no Rio de Janeiro no fim de semana passado, que causaram pelo menos 12 mortes, causou um au\u00ea.<\/p>\n<p>No domingo, a titular da pasta de Igualdade Racial postou em sua conta no Twitter\/X: &#8220;Estou acompanhando os efeitos da chuva de ontem nos munic\u00edpios do Rio e o estado de alerta com as iminentes trag\u00e9dias, fruto tamb\u00e9m dos efeitos do racismo ambiental e clim\u00e1tico.&#8221;<\/p>\n<p>&#8221; Num pa\u00eds que n\u00e3o lida bem com seu hist\u00f3rico escravocrata, que odeia ser chamado de racista, que nega at\u00e9 mesmo que o racismo seja parte da nossa sociedade, ver uma ministra negra, de um governo de esquerda, falando em: &#8220;o qu\u00ea? racismo ambiental?&#8221;, pareceu um absurdo de outro mundo.<br \/>\nEstava ali, entregue numa bandeja de prata, o tema para a lacra\u00e7\u00e3o das redes nos dias que se seguiram. Uma rea\u00e7\u00e3o, diga-se, completamente desproporcional.<\/p>\n<p>Sem parar para pensar um segundo no que ela estava dizendo ou tentar entender o problema de fundo, a causa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou. Primeiro com as piadas: &#8220;S\u00e3o Pedro raciste&#8221;, disseram alguns. &#8220;A neve \u00e9 branca. \u00c9 isso o racismo?&#8221;, disseram outros. Um monte de gente postou que o racismo era tirar a roupa do varal quando se v\u00eaem nuvens negras no c\u00e9u. Engra\u00e7adinhos. S\u00f3 que n\u00e3o. E isso era o mais leve.<\/p>\n<p>No fundo, havia uma irrita\u00e7\u00e3o enraizada: &#8220;Tudo agora \u00e9 racismo?&#8221;, resumiu algu\u00e9m. Teve coisa muito pior, como ofensas diretas \u00e0 Anielle, que por motivos \u00f3bvios n\u00e3o vou reproduzir aqui.<\/p>\n<p>A\u00ed veio a turma do &#8220;racismo ambiental\/clim\u00e1tico n\u00e3o existe, o problema \u00e9 a desigualdade social, a falta de moradia, de saneamento, que atinge tamb\u00e9m brancos, etc, etc&#8221;. O economista Joel Pinheiro da Fonseca defendeu mais ou menos essa ideia na sua coluna na Folha, o que acabou colocando mais lenha na fogueira das redes.<\/p>\n<p>Para Fonseca, Anielle usou em seu post um &#8220;lugar-comum do discurso progressista&#8221; e um &#8220;roteiro pregui\u00e7oso&#8221;. Falar em racismo ambiental, argumenta ele, \u00e9 in\u00f3cuo e fazer um recorte racial n\u00e3o ajuda na resolu\u00e7\u00e3o do problema. &#8220;Embora o problema social continue o mesmo, nossa maneira de olhar para ele mudou. Quando falamos em racismo, j\u00e1 apagamos quaisquer v\u00edtimas brancas&#8221;, escreveu, iniciando sua linha de racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>A\u00ed segue: &#8220;Tratar o problema como um tipo de racismo nos afasta das solu\u00e7\u00f5es. Em vez de discutir obras de infraestrutura urbana, novas moradias \u2013 que nada t\u00eam a ver com cor de pele \u2013 vamos discutir o racismo na sociedade, discuss\u00e3o cuja conclus\u00e3o obrigat\u00f3ria, j\u00e1 sabemos, \u00e9 que ele \u00e9 &#8216;estrutural&#8217; e portanto s\u00f3 ser\u00e1 resolvido com o fim do capitalismo. Era t\u00e3o mais f\u00e1cil melhorar o escoamento urbano&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 poderia questionar um monte de coisa a\u00ed, mas a\u00ed ele continua: &#8220;H\u00e1 \u00e1reas em que o recorte racial \u00e9 relevante, porque joga luz em mazelas de que a simples desigualdade social n\u00e3o d\u00e1 conta. Um negro pobre sofrer\u00e1 mais ass\u00e9dio de seguran\u00e7as de um shopping do que um branco pobre. Mas ser\u00e1 que as chuvas castigam mais um negro favelado do que seu vizinho branco? Claro que n\u00e3o. (&#8230;) Ou ser\u00e1 que, resolvendo o problema do racismo, estariam tamb\u00e9m resolvidas as enchentes nas periferias? Talvez at\u00e9 o aquecimento global?&#8221;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o vou aqui debater ponto a ponto porque tem gente muito mais capaz e habilitada e com lugar de fala que eu fazendo isso. Recomendo esse v\u00eddeo da jornalista Flavia Oliveira e esse post do advogado Thiago Amparo. Mas vamos em dois pontos: N\u00e3o Joel, de fato um &#8220;negro favelado&#8221; e &#8220;seu vizinho branco&#8221; muito provavelmente ser\u00e3o afetados da mesma forma diante de um deslizamento de terra ou de uma inunda\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 essa a conta, n\u00e9?<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 porque existem brancos vivendo em favelas que isso atenua o fato de que a maioria ali \u00e9 negra. Que a maioria das v\u00edtimas nesse tipo de desastre \u00e9 negra. Ou que os lugares com menos estragos, mais seguros, com menos v\u00edtimas, sejam de maioria branca&#8221;.<\/p>\n<p>O impacto \u00e9 desproporcional, e isso n\u00e3o \u00e9 apenas fruto da desigualdade social. O que ser\u00e1 que empurra mais negros \u00e0 pobreza e a condi\u00e7\u00f5es desumanas de vida?<\/p>\n<p>Resolver o racismo resolveria a enchente ou o aquecimento global? Poxa, n\u00e3o \u00e9 essa a pergunta, n\u00e9? Agora, quem ser\u00e1 que se sente mais amea\u00e7ado diante de uma enchente ou do aquecimento global? Tentar &#8220;resolver&#8221; esses problemas sem levar essas diferen\u00e7as em conta vai s\u00f3 aumentar essa disparidade.<\/p>\n<p>O jornalista Pedro Doria usou um argumento de que talvez a gente n\u00e3o devesse falar em racismo ambiental ou clim\u00e1tico ou o que seja. N\u00e3o precisa da express\u00e3o, diz ele, se os pontos que ela encerra s\u00e3o bem aceitos e conhecidos: de que os negros est\u00e3o entre os mais pobres e os com menos acesso. Para ele, ao lan\u00e7ar m\u00e3o da express\u00e3o, o que se cria imediatamente \u00e9 atrito entre os lados polarizados do pa\u00eds. Falar em racismo ambiental, argumenta, &#8220;\u00e9 fazer pol\u00edtica da lacra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pol\u00edtica da solu\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Que loucura, n\u00e9? Ent\u00e3o quer dizer que \u00e9 melhor n\u00e3o usar o nome certo das coisas, ou isso vai ati\u00e7ar sensibilidades e a\u00ed j\u00e1 era o debate s\u00e9rio sobre o problema.<\/p>\n<p>Isso me lembrou uma palestra que vi h\u00e1 muitos anos de um jornalista ambiental americano que tinha feito uma mat\u00e9ria sobre pol\u00edticas adotadas na Fl\u00f3rida \u2013 estado dominado por republicanos nos Estados Unidos \u2013, de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Ele disse que v\u00e1rias medidas vinham sendo tomadas tendo em vista o aumento do n\u00edvel do mar, de tempestades, de risco de enchentes e inunda\u00e7\u00f5es e tal, todas levando em conta as estimativas de cientistas do clima. Mas sem nunca falar em mudan\u00e7a do clima, aquecimento global, nada.<\/p>\n<p>Usar essas palavras era proibido, para n\u00e3o espantar os republicanos. S\u00f3 assim as pol\u00edticas passavam. Dourar a p\u00edlula, usar outros argumentos, para n\u00e3o virar lacra\u00e7\u00e3o. Que infantil. Que coisa mais triste&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem um qu\u00ea de deprimente a pol\u00eamica da vez das redes sociais no Brasil em torno do termo &#8220;racismo clim\u00e1tico&#8221;. 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