{"id":321197,"date":"2024-01-26T05:27:34","date_gmt":"2024-01-26T08:27:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=321197"},"modified":"2024-01-26T05:02:14","modified_gmt":"2024-01-26T08:02:14","slug":"questao-vira-questao-de-ordem-para-moral-do-nosso-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/questao-vira-questao-de-ordem-para-moral-do-nosso-jornalismo\/","title":{"rendered":"&#8216;Quest\u00e3o&#8217; vira quest\u00e3o de ordem para moral do nosso jornalismo"},"content":{"rendered":"<p>Por dever de of\u00edcio, sou ouvinte e telespectador ass\u00edduo e voraz dos notici\u00e1rios das principais emissoras de r\u00e1dio e de televis\u00e3o. Em decorr\u00eancia da afinidade profissional e, nos \u00faltimos quatro anos, da antipatia obrigat\u00f3ria com as ex-coirm\u00e3s (hoje madrastas), minha prefer\u00eancia \u00e9 pelo Sistema Globo Lixo. Coisas de empatia ocupacional e, talvez, da necessidade de acessar jornalismo um pouco menos comprometido. Nesses dias em que o futebol nacional est\u00e1 em banho maria, quase parando, me dediquei \u00e0 pr\u00e1tica do \u201csentamento\u201d no sof\u00e1. Explico mais adiante o neologismo. Nunca fui, n\u00e3o sou e tenho raiva de quem \u00e9 cr\u00edtico profissional de TV. No entanto, zapeando daqui para l\u00e1 de l\u00e1 para c\u00e1 no sof\u00e1, fiquei decepcionado com a qualidade do jornalismo televisivo local. Cidade relativamente nova e muito apegada ao segmento administrativo, Bras\u00edlia \u00e9 muito mais do que lixo nas ruas, esgoto a c\u00e9u aberto, filas nos hospitais p\u00fablicos, parquinhos quebrados, eros\u00f5es e governo incipiente.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o a import\u00e2ncia do trabalho de utilidade p\u00fablica, mas quero crer que a Capital da Rep\u00fablica n\u00e3o seja somente um celeiro de coisas ruins. Queiram ou n\u00e3o, a TV Globo est\u00e1 algumas d\u00e9cadas \u00e0 frente. Todavia, n\u00e3o posso deixar de lembrar alguns sen\u00f5es. Para come\u00e7o de assunto, estranho a facilidade de relacionamento dos rep\u00f3rteres, editores e comentaristas da Venus Platinada com as autoridades do Planalto Central. Dif\u00edcil achar uma das muitas empresas do setor que n\u00e3o estejam ou j\u00e1 estiveram com o \u201cbode\u201d em suas reda\u00e7\u00f5es. Ali\u00e1s, \u201cbodes\u201d faladores, daqueles que falam, tomam caf\u00e9, lancham, almo\u00e7am e jantam a cada dez minutos com suas fontes palacianas e pol\u00edticas. \u00c9 claro que n\u00e3o h\u00e1 veracidade nesse monte de conversas ou encontros di\u00e1rios. Como sou benevolente, se a ideia \u00e9 nos fazer acreditar que eles empurram a porta dos gabinetes de Lula, de Geraldo Alckmin e do Luiz Roberto Barroso quando querem, acreditemos. D\u00f3i menos.<\/p>\n<p>\u00c9 a necessidade de se mostrar mais informado do que realmente s\u00e3o. Acho que at\u00e9 Vladimir Putin, Benjamin Netanyahu, Volodymyr Zelensky, o chefe supremo do Hamas e o l\u00edder das mil\u00edcias do Rio de Janeiro j\u00e1 participaram desses rapap\u00e9s globais. Certamente pediram off aos \u00f3bvios \u201ccomentaristas\u201d matutinos, vespertinos e noturnos da casa (sempre os mesmos). Por isso, n\u00e3o foram citados como fontes seguras, parceiras e fidedignamente vinculadas ao cora\u00e7\u00e3o dos craques da not\u00edcia. As demais TVs n\u00e3o fogem \u00e0 regra, mas em escala infinitamente menor. Pelo menos seus \u201canalistas\u201d e apresentadores aparecem menos e t\u00eam afinidades exclusivamente profissionais com seus entrevistados, sejam eles autoridades ou representantes da sociedade. Tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam, com os \u201cadvers\u00e1rios\u201d globais, conhecimento vasto a respeito de qualquer tema. Aprendi com meu av\u00f4 que todos aqueles que se sublimam merecem ser olhados com desconfian\u00e7a. \u00c9 o que fa\u00e7o. Ou\u00e7o, assisto, enalte\u00e7o quando necess\u00e1rio, mas desconfio. Afinal, perfei\u00e7\u00e3o s\u00f3 a divina. Vem da\u00ed a express\u00e3o popular quem fala demais d\u00e1 bom dia a cavalo.<\/p>\n<p>Com a globaliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, acabou aquela hist\u00f3ria de aguardar o Jornal Nacional para veicular uma not\u00edcia bomb\u00e1stica. Atualmente, a maioria das empresas do ramo est\u00e1 on-line 24 horas e tem o mesmo poder de fogo da TV Globo. A escolha \u00e9 de cada um. A minha \u00e9 p\u00fablica. Portanto, n\u00e3o entendam como simples cr\u00edtica a narrativa de hoje. \u00c9 uma constata\u00e7\u00e3o. Da mesma forma que questiono o excesso de superioridade da turma do Plim Plim, particularmente do canal pago, sou cr\u00edtico do que, imagino, os jornalistas do s\u00e9culo 21 supostamente entendem como licen\u00e7a po\u00e9tica o que n\u00e3o passa de um temer\u00e1rio e terr\u00edvel v\u00edcio de linguagem. Por exemplo, os \u201ccolegas\u201d aprenderam a utilizar o termo \u201cquest\u00e3o\u201d para definir acidente de tr\u00e2nsito, briga de casal, desmoronamento de barragem, decis\u00f5es do Judici\u00e1rio, vota\u00e7\u00f5es no Congresso, inaugura\u00e7\u00f5es, assaltos e at\u00e9 estupro. Tudo \u00e9 a \u201cquest\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Principalmente para a turma que sai das faculdades direto para as bancadas das emissoras de r\u00e1dio e de TV, a \u201cquest\u00e3o\u201d virou sin\u00f4nimo de pergunta, resposta, interroga\u00e7\u00e3o, problema, argumento, conte\u00fado, objeto, caso, tese, tema, confus\u00e3o, neg\u00f3cio, controv\u00e9rsia, disputa, pend\u00eancia, dissid\u00eancia, desacordo e disc\u00f3rdia, entre outras express\u00f5es. Tudo com anu\u00eancia das chefias. Na Globo, \u201cquest\u00e3o\u201d parece regra.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o um pre\u00e2mbulo para lembrar aos chefes um famoso pensamento do fil\u00f3sofo S\u00f3crates: \u201cAquilo que n\u00e3o puderes controlar, n\u00e3o ordenes\u201d.<\/p>\n<p>Perd\u00e3o pelo extremismo, mas \u00e9 chato ficar sem entender aonde os coleguinhas querem chegar com a tal da \u201cquest\u00e3o\u201d. O a\u00ed para tudo eu j\u00e1 consigo engolir. Ainda mais complicado \u00e9 aceitar a troca do nome de uma autoridade citada no texto mais de uma vez por objetos. Pior de tudo \u00e9 o neologismo \u201cmeximento\u201d para substituir o verbo mexer em movimento. Se os globais podem \u201cmeximento\u201d, eu posso \u201csentamento\u201d.<\/p>\n<p>Novamente digo que a licen\u00e7a po\u00e9tica ou sinais distantes de met\u00e1foras n\u00e3o existem, por exemplo, quando o rep\u00f3rter ou apresentador quer se referir a uma fonte de um minist\u00e9rio, de uma secretaria ou de um organismo oficial e diz que a pasta informou. Desde o ensino prim\u00e1rio aprendi que animais, coisas, tro\u00e7os, trecos e pe\u00e7as n\u00e3o falam. Quem fala \u00e9 a pessoa que representa a pasta. As normas do bom jornalismo n\u00e3o mudaram.<\/p>\n<p>Portanto, sem trocadilhos, ainda prefiro que o cateto fant\u00e1stico nos salve da hipotenusa. Sei que dir\u00e3o que, ocupado em descobrir os defeitos alheios, esque\u00e7o de investigar os meus. N\u00e3o \u00e9 bem assim. A quest\u00e3o \u00e9 que, como a pasta n\u00e3o resolve meu problema, optei pela m\u00e1xima do Marqu\u00eas de Sade: \u201cS\u00f3 me dirijo \u00e0s pessoas capazes de me entender. Essas poder\u00e3o ler-me sem perigo\u201d. Eis a quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por dever de of\u00edcio, sou ouvinte e telespectador ass\u00edduo e voraz dos notici\u00e1rios das principais emissoras de r\u00e1dio e de televis\u00e3o. Em decorr\u00eancia da afinidade profissional e, nos \u00faltimos quatro anos, da antipatia obrigat\u00f3ria com as ex-coirm\u00e3s (hoje madrastas), minha prefer\u00eancia \u00e9 pelo Sistema Globo Lixo. 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