{"id":321505,"date":"2024-02-01T06:50:39","date_gmt":"2024-02-01T09:50:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=321505"},"modified":"2024-02-01T06:40:38","modified_gmt":"2024-02-01T09:40:38","slug":"fertil-para-extremismo-brasil-cria-espaco-a-criancas-radicais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fertil-para-extremismo-brasil-cria-espaco-a-criancas-radicais\/","title":{"rendered":"F\u00e9rtil para extremismo, Brasil cria espa\u00e7o a crian\u00e7as radicais"},"content":{"rendered":"<p>O contato com conte\u00fado extremista on-line est\u00e1 ocorrendo cada vez mais cedo, sendo hoje por volta dos dez anos de idade, incluindo a radicaliza\u00e7\u00e3o de meninas e os desafios com pr\u00eamios para aqueles que cometem atos violentos. Em reportagem especial, analistas explicam \u00e0 Sputnik Brasil quais as causas dessa tend\u00eancia e como combat\u00ea-la.<\/p>\n<p>A faixa et\u00e1ria de crian\u00e7as brasileiras radicalizadas ap\u00f3s terem contato com conte\u00fado extremista nas redes sociais caiu. Se antes o primeiro contato se dava por volta dos 15 anos, hoje ele ocorre aos dez anos de idade, conforme explicam especialistas.<\/p>\n<p>Outra mudan\u00e7a alarmante apontada \u00e9 o avan\u00e7o na radicaliza\u00e7\u00e3o de meninas. Antes, os principais alvos de extremistas eram ataques on-line ou no mundo f\u00edsico. Hoje, elas v\u00eam sendo cooptadas e transformadas em agentes da radicaliza\u00e7\u00e3o em subculturas on-line, como s\u00e3o chamadas as comunidades em redes sociais, como o Discord e f\u00f3runs on-line criados para difundir conte\u00fado extremista.<\/p>\n<p>Voando fora do radar dos familiares, em uma \u00e9poca onde os dispositivos eletr\u00f4nicos s\u00e3o usados como uma esp\u00e9cie de bab\u00e1 eletr\u00f4nica para manter crian\u00e7as sob controle, essas subculturas lan\u00e7am din\u00e2micas que premiam aqueles que realizam atos violentos, seja contra pessoas ou animais. Os que conseguem executar o ato, \u00e0s vezes filmando, ganham status dentro do grupo.<\/p>\n<p>Michele Prado, pesquisadora do grupo Monitor do Debate Pol\u00edtico no Meio Digital e pesquisadora fellow na Social Change Initiative (SCI), explica que esse processo de radicaliza\u00e7\u00e3o ocorre sem necessariamente a exist\u00eancia de um l\u00edder ou adulto por tr\u00e1s, cooptando e aliciando crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, atualmente n\u00e3o existe apenas um l\u00edder, mas v\u00e1rios pequenos l\u00edderes que acessam conte\u00fados plenamente dispon\u00edveis nas redes, se autorradicalizam e passam a reproduzir conte\u00fado extremista.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes, essa radicaliza\u00e7\u00e3o ocorre entre eles, \u00e9 rec\u00edproco, entre os pr\u00f3prios adolescentes, entre as pr\u00f3prias crian\u00e7as ocorre essa radicaliza\u00e7\u00e3o. Um menino daqui da Bahia se conecta on-line, numa subcultura on-line nociva, com um menino de Vit\u00f3ria, no Esp\u00edrito Santo, e um radicaliza o outro. E essa radicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 rec\u00edproca.\u201d<\/p>\n<p>Nesse contexto, a radicaliza\u00e7\u00e3o tem como uma das for\u00e7as motrizes a fun\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica das redes sociais, que sugere conte\u00fados voltados ao que o usu\u00e1rio pesquisa, sem uma regula\u00e7\u00e3o capaz de coibir o acesso a temas danosos.<\/p>\n<p>\u201cEsse conte\u00fado extremista, hoje, voc\u00ea n\u00e3o precisa procurar por ele. \u00c0s vezes, a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica das plataformas, de funcionamento da web, em geral, traz para voc\u00ea, traz para uma crian\u00e7a de dez anos, nove, oito, um conte\u00fado extremista, mesmo que ela n\u00e3o procure por esse conte\u00fado.\u201d<\/p>\n<p>Ademais, ela afirma que plataformas como o Discord, por exemplo, criado para a troca de \u00e1udios e usado, em especial, pelo p\u00fablico gamer, n\u00e3o t\u00eam fun\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, mas serve como um espa\u00e7o seguro para a radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma rede onde todas essas plataformas se conectam, ent\u00e3o o indiv\u00edduo est\u00e1 no TikTok, do TikTok ele \u00e9 direcionado para uma subcultura on-line no Discord. No Discord ele consegue um espa\u00e7o seguro, porque \u00e9 mais dif\u00edcil a modera\u00e7\u00e3o dentro do Discord pelo pr\u00f3prio design da plataforma, e a partir da\u00ed ele come\u00e7a um processo de autorradicaliza\u00e7\u00e3o on-line, que pode chegar at\u00e9 o extremismo violento, ideologicamente motivado, em forma, por exemplo, de atentados em ambientes escolares.\u201d<\/p>\n<p><strong>Onda de radicaliza\u00e7\u00e3o on-line<\/strong><br \/>\nA pesquisadora aponta que toda essa tend\u00eancia \u00e9 fruto da chamada terceira onda de radicaliza\u00e7\u00e3o on-line. Ela afirma que a primeira onda de radicaliza\u00e7\u00e3o se deu entre os anos 1980 e 2000, com a ascens\u00e3o de blogs e f\u00f3runs ligados a supremacistas brancos. A segunda onda se deu entre os anos 2000 e 2010, com o surgimento das redes sociais.<\/p>\n<p>\u201cA\u00ed tudo se amplifica de uma forma muito mais r\u00e1pida. Porque voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais sozinho falando no blog ou num mural ou num f\u00f3rum. Voc\u00ea est\u00e1 se conectando com outras pessoas de forma global. Aqueles conte\u00fados que voc\u00ea produz s\u00e3o rapidamente disseminados, sem nenhum tipo de fronteira, de barreira f\u00edsica, que n\u00f3s t\u00ednhamos antes nas comunica\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Em seguida, veio a terceira onda de radicaliza\u00e7\u00e3o on-line, que, segundo Michele, foi alimentada por uma s\u00e9rie de novas funcionalidades trazidas pela tecnologia, como a web descentralizada, a chamada web 3.0, e a intelig\u00eancia artificial, que ampliou o alcance do conte\u00fado extremista, em especial, aquele voltado para a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Crian\u00e7as s\u00e3o principal alvo<\/strong><br \/>\nMichele explica que as crian\u00e7as e os adolescentes s\u00e3o a parcela da sociedade mais vulner\u00e1vel \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o. Isso porque eles ainda est\u00e3o em fase de forma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria personalidade e carecem de conhecimento sobre fatos hist\u00f3ricos relevantes, como a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e outros genoc\u00eddios e eventos violentos ocorridos ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o elas s\u00e3o como um livro em branco, onde quem chega consegue escrever e moldar aquela crian\u00e7a da forma que bem entender. Al\u00e9m disso, a gente tem mudan\u00e7as na pr\u00f3pria sociedade que foram ocorrendo e que, obviamente, mudaram tamb\u00e9m o jeito da crian\u00e7a viver hoje.\u201d<\/p>\n<p>A pesquisadora acrescenta que a falta de contato e de atividades fora do ambiente virtual tamb\u00e9m tem um papel nesse processo. Ela destaca que h\u00e1 30 anos as crian\u00e7as n\u00e3o tinham acesso a tantos elementos eletr\u00f4nicos, e as brincadeiras, as gincanas e outra atividades eram feitas nas ruas. Em contraponto, hoje a principal atividade das crian\u00e7as \u00e9 a Internet.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, o que acontece com isso? Seu escopo social, de sociabilidade, o contato social que \u00e9 necess\u00e1rio para a crian\u00e7a se desenvolver e conhecer outras pessoas, tamb\u00e9m foi restrito a rela\u00e7\u00f5es parassociais, ou seja, s\u00f3 pela Internet. Isso, claro, traz consequ\u00eancias n\u00e3o apenas no \u00e2mbito do extremismo e da radicaliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m da sa\u00fade mental e em diversas outras esferas.\u201d<\/p>\n<p>Diante disso, queixas leg\u00edtimas normais dessa fase da vida \u2014 como o bullying, a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o se sentir pertencente dentro de seu grupo e a dificuldade para conseguir namorar \u2014 passam a ser extravasadas nas redes e acabam servindo como adubo para a radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes, eles t\u00eam ali queixas leg\u00edtimas. \u00c0s vezes, aquela crian\u00e7a est\u00e1 sofrendo algum tipo de preconceito, algum tipo de viol\u00eancia. \u00c0s vezes, ela n\u00e3o consegue se relacionar. Ent\u00e3o ela fica mais vulner\u00e1vel a outros indiv\u00edduos maliciosos que chegam para poder trazer novas ideias extremistas para aquela pessoa e falar para ela: \u2018Olha, mas isso \u00e9 culpa desse tal grupo\u2019, ou \u2018Isso \u00e9 culpa dos judeus\u2019, ou \u2018Isso \u00e9 culpa de um suposto grupo globalista&#8217;\u201d, afirma a pesquisadora.<\/p>\n<p>Essa aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 alimentada pela sensa\u00e7\u00e3o de acolhimento que o contato com subculturas on-line traz, como aponta a pesquisadora Cleo Garcia, mestranda em educa\u00e7\u00e3o pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), graduada em direito pela Universidade Anhanguera S\u00e3o Paulo, integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educa\u00e7\u00e3o Moral (Gepem) da Unicamp e autora, junto com a pesquisadora Telma Vinha, da pesquisa \u201cAtaques de viol\u00eancia extrema em escolas no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s temos que pensar que o adolescente necessita desse acolhimento e desse pertencimento. E, realmente, [a Internet] \u00e9 um local onde as pessoas que fazem esse tipo de aliciamento s\u00e3o experts em trazer esse pertencimento. Porque elas acolhem quem for, quem chegar. Ent\u00e3o, n\u00e3o se olha ali cor, ra\u00e7a, g\u00eanero, idade\u2026 Eles aceitam a pessoa como ela \u00e9. Ent\u00e3o isso traz um grau de pertencimento muito grande\u201d, afirma a pesquisadora.<\/p>\n<p>Ela acrescenta que, diante do acolhimento, \u00e9 criado um grau de confian\u00e7a, no qual conte\u00fados, principalmente teorias conspiracionistas, passam a ser aceitos sem questionamento.<\/p>\n<p>\u201cEle [jovem] acaba entrando em muitos discursos de conspira\u00e7\u00e3o que n\u00e3o s\u00e3o constru\u00eddos nem provados cientificamente. H\u00e1 um grande sentimento de pertencimento naquela comunidade. \u2018Eles pensam como eu penso, eles me aceitam como eu sou. Ent\u00e3o o que eles est\u00e3o dizendo \u00e9 verdade.\u2019 Toma-se por verdade not\u00edcias que n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo embasamento. Mas, mais uma vez, essas not\u00edcias, esses discursos de \u00f3dio, t\u00eam uma raz\u00e3o de ser. Elas n\u00e3o s\u00e3o apenas divulgadas inocentemente. Tudo tem um encaixamento de como isso se deve dar e a quem isso deve atingir.\u201d<\/p>\n<p>Cida Alves, psic\u00f3loga, doutora em educa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) e membro do grupo de aten\u00e7\u00e3o a crian\u00e7as e adolescentes Rede N\u00e3o Bata, Eduque, ressalta que, nesse contexto, as subculturas atuam como uma fraternidade on-line, onde crian\u00e7as e jovens encontram eco para as suas ang\u00fastias.<\/p>\n<p>\u201cCom uma sensa\u00e7\u00e3o de fraternidade, eles passam a apresentar um comportamento de seita. Em alguns casos, essa viol\u00eancia on-line migra para o mundo f\u00edsico na forma de ataques a escolas.\u201d<\/p>\n<p>Ela acrescenta, ainda, que a ideia de anonimato presente nas redes e de n\u00e3o responsabiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m contribui para a radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cInclusive, uma grande te\u00f3rica, que \u00e9 a Hannah Arendt, vai falar disso nos estudos dela sobre os fen\u00f4menos totalit\u00e1rios, ou seja, quando voc\u00ea quebra as identidades grupais, seja familiar, religiosa, comunit\u00e1ria, algum v\u00ednculo que te d\u00e1 identidade grupal e se transforma numa massa indefinida.\u201d<\/p>\n<p><strong>V\u00edcio em videogames<\/strong><br \/>\nCleo Garcia, por sua vez, lembra que a busca por acolhimento e pela sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento tem apelo, em especial, em jovens que sofrem bullying. Ela cita como exemplo o Massacre de Columbine, ocorrido em abril de 1999, o primeiro ataque a escola divulgado em tempo real pela m\u00eddia.<\/p>\n<p>\u201cO que eu quero dizer \u00e9 que existem v\u00e1rios fatores que levam a esse tipo de extremismo, e n\u00e3o necessariamente que os adolescentes sejam engajados nessa ideologia. Por exemplo, vamos voltar para Columbine. Existiam aqueles casacos pretos que ainda hoje alguns autores [de ataques a escolas] utilizam, sobretudos pretos. Mas isso nada mais era do que uma vestimenta utilizada por adolescentes de anos anteriores a Columbine, que eram veteranos. Ent\u00e3o eles se chamavam de \u2018m\u00e1fia do sobretudo\u2019. E eles eram exclu\u00eddos, se sentiam exclu\u00eddos. Era uma turma de uns 12 que usava aqueles casacos.\u201d<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, o uso dos sobretudos era uma forma de os estudantes se sentirem temidos. Ela afirma que os autores do Massacre de Columbine gostariam de participar do grupo, mas quando ele existia, eles ainda estavam no primeiro ano, enquanto os outros membros do grupo eram veteranos. Por\u00e9m, no dia do ataque, eles usaram a vestimenta.<\/p>\n<p><strong>Isca para crian\u00e7as<\/strong><br \/>\nUma das principais estrat\u00e9gias difundidas em subculturas on-line para radicalizar crian\u00e7as e adolescentes \u00e9 o uso de humor, especialmente na forma de memes replicados nas redes sociais, que t\u00eam como principal alvo mulheres e negros.<\/p>\n<p>Segundo dados do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo (MPSP) obtidos pela Sputnik Brasil, nessa estrat\u00e9gia, extremistas assumem a posi\u00e7\u00e3o de trolls, figuras on-line que t\u00eam como objetivo instigar rea\u00e7\u00f5es fortes e se alimentar da pr\u00f3pria capacidade de gerar confrontos e expor os outros ao rid\u00edculo. Em contraponto, os trolls se colocam como defensores do humor sem limites, livres das amarras do politicamente correto, como aponta a cartilha \u201cOrienta\u00e7\u00f5es para a defesa de crian\u00e7as e adolescentes no ambiente digital\u201d, elaborada pelo MPSP.<\/p>\n<p>\u201cAssumindo a posi\u00e7\u00e3o de trolls, os movimentos extremistas conseguem inserir no debate que se desenvolve na Internet mensagens de cunho racista, mis\u00f3gino, neonazista e de apologia \u00e0 viol\u00eancia, as quais, contudo, v\u00eam camufladas com um verniz humor\u00edstico, como se n\u00e3o precisassem ser levadas a s\u00e9rio. Assim, n\u00e3o apenas espalham as suas ideologias no formato de memes como ainda criam uma armadilha para seus opositores, que, ao reagirem com indigna\u00e7\u00e3o, tornam-se alvo de chacota dos trolls e os ajudar\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a trazer para o seu lado aqueles que querem recrutar; sobretudo, crian\u00e7as e adolescentes, indiv\u00edduos especialmente vulner\u00e1veis a essas t\u00e1ticas\u201d, diz a cartilha.<\/p>\n<p>Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Extremos, grupo de estudos de pol\u00edtica, religi\u00e3o e viol\u00eancia, Michel Gherman afirma que essa estrat\u00e9gia \u00e9 fortalecida pela chamada economia da aten\u00e7\u00e3o, amplamente utilizada pelas big techs, como s\u00e3o chamadas as gigantes da tecnologia como a Meta \u2014 dona das redes Facebook, Instagram e WhatsApp e cujas atividades s\u00e3o proibidas na R\u00fassia por serem consideradas extremistas \u2014 e a ByteDance \u2014 dona do TikTok. Ele explica que, na economia da aten\u00e7\u00e3o, o lucro \u00e9 gerado pela quantidade de acessos e cliques e tem no p\u00fablico infanto-juvenil seu principal gerador de conte\u00fado.<\/p>\n<p>\u201cHoje, por exemplo, voc\u00ea tem redes como TikTok, cujo p\u00fablico majorit\u00e1rio \u00e9 [\u2026] de menos de 15 anos de idade. E essas redes ganham dinheiro [\u2026] produzindo aten\u00e7\u00e3o, produzindo respostas r\u00e1pidas para demandas complexas e produzindo a ideia de que tem muita gente que pensa como eu, aquilo que alguns autores v\u00e3o chamar de pol\u00edtica do eco, que \u00e9 a ideia de que eu falo e todo mundo escuta o que eu estou dizendo porque todo mundo concorda comigo. Todo mundo, nesse caso, s\u00e3o as bolhas produzidas por esse clique que eu dou.\u201d<\/p>\n<p><strong>Espa\u00e7o para extremistas<\/strong><br \/>\nH\u00e1 anos, Gherman se dedica a estudar as estruturas de ideologias extremistas. \u00c0 reportagem, ele explica como a onda de extremismo on-line conseguiu permear o Brasil. Segundo ele, nessa tend\u00eancia, pesou o fato de o Brasil ter um passado colonial e escravocrata.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea parar para ver as pesquisas feitas sobre o in\u00edcio da radicaliza\u00e7\u00e3o, o in\u00edcio do extremismo pol\u00edtico, voc\u00ea vai perceber que tem duas coisas que contribuem para isso. A primeira s\u00e3o os eventos externos, mudan\u00e7as pol\u00edticas no pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Gherman afirma que o avan\u00e7o de pol\u00edticas p\u00fablicas de integra\u00e7\u00e3o e ressarcimento de grupos espec\u00edficos de exclu\u00eddos, vivenciado no Brasil a partir dos anos 2000, criou uma rea\u00e7\u00e3o em setores da sociedade que confundem a expans\u00e3o de direitos com a perda de privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Ele cita como exemplo a promulga\u00e7\u00e3o da Emenda Constitucional n\u00ba 72, em abril de 2013, que criou um arcabou\u00e7o legal para a prote\u00e7\u00e3o de mulheres que trabalham como empregadas dom\u00e9sticas. Gherman afirma que ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da lei, mulheres \u2014 em grande maioria negras, que trabalhavam como empregadas dom\u00e9sticas, sem direitos trabalhistas, muitas vezes tendo de dormir em servi\u00e7o, sendo privadas de serem mulheres, m\u00e3es de fam\u00edlia que cuidam dos seus filhos \u2014 passaram a ter direitos como d\u00e9cimo terceiro, hor\u00e1rio de trabalho e benef\u00edcios em lei.<\/p>\n<p>\u201cAo mesmo tempo, essa classe m\u00e9dia remediada come\u00e7a a se sentir prejudicada porque perde o privil\u00e9gio. Os pr\u00e9dios constru\u00eddos a partir desse momento s\u00e3o pr\u00e9dios que come\u00e7am a n\u00e3o ter mais quartos de empregada. O que significa que essa pequena senzala, produzida em cada casa de cada fam\u00edlia de classe m\u00e9dia, come\u00e7a a desaparecer.\u201d<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo argumenta que isso levou alguns setores da classe m\u00e9dia a se radicalizar, aderindo ao extremismo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7a a ter uma rea\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso. A percep\u00e7\u00e3o \u00e9 que o direito das mulheres que come\u00e7am a poder educar suas crian\u00e7as afeta o privil\u00e9gio das classes m\u00e9dias.\u201d<\/p>\n<p>Gherman afirma que essa rea\u00e7\u00e3o criou um terreno f\u00e9rtil no Brasil para a difus\u00e3o de conte\u00fados extremistas, que invertiam propositadamente a l\u00f3gica dos elementos ao afirmar que os autores de pol\u00edticas sociais eram os respons\u00e1veis por fomentar a divis\u00e3o. Dessa forma, aponta o especialista: o problema n\u00e3o era o negro, mas o negro que resiste; o problema n\u00e3o era a mulher, mas a feminista; o problema n\u00e3o era o judeu, mas o judeu progressista.<\/p>\n<p>E, a\u00ed, aponta o especialista, a segunda contribui\u00e7\u00e3o vem do campo tecnol\u00f3gico, com a ascens\u00e3o de determinadas modalidades de jogos on-line.<\/p>\n<p>\u201cJogos que tamb\u00e9m s\u00e3o vinculados a essas redes de adolescentes e crian\u00e7as e que acabam produzindo uma linguagem meta clara, uma coisa que est\u00e1 sublinear nas estruturas dos jogos e acaba produzindo a no\u00e7\u00e3o de que aqueles jogos reproduzem na din\u00e2mica deles a vida real\u201d, explica o professor, destacando que, assim, crian\u00e7as de at\u00e9 dez anos de idade s\u00e3o submetidas a uma gram\u00e1tica extremista.<\/p>\n<p>Cida Alves explica que o \u00f3dio e outros sentimentos extremos, como medo e raiva, geram um componente ps\u00edquico que, em alguns aspectos, pode ser viciante. N\u00e3o \u00e0 toa, esses s\u00e3o os principais sentimentos acionados por aqueles que promovem a radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cExistem pessoas que acabam vivendo tantos conflitos de viol\u00eancia, e isso afeta at\u00e9 a adrenalina do corpo, que em ambientes de mais calma e tranquilidade eles se sentem desprovidos de vitalidade\u201d, argumenta a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Ela afirma que, na grande maioria das vezes, esse \u00f3dio \u00e9 calcado na exalta\u00e7\u00e3o da cultura masculinista, que tem a mulher como principal \u201cinimiga\u201d, enquanto exalta a constru\u00e7\u00e3o de uma subjetividade masculina que usa a viol\u00eancia como forma de resolu\u00e7\u00e3o de conflitos. Ela cita como principais grupos masculinistas os incels (aglutina\u00e7\u00e3o do termo \u201ccelibat\u00e1rios involunt\u00e1rios\u201d em ingl\u00eas) e os red pills (movimento que considera o feminismo uma conspira\u00e7\u00e3o para subjugar os homens).<\/p>\n<p>\u201cOs meninos tendem a ser capturados por esses grupos, inicialmente pela pauta de uma rejei\u00e7\u00e3o, de uma dificuldade com o feminino, com a sexualidade e o feminino. A partir do ingresso desses conte\u00fados, v\u00eam outros que v\u00e3o se incrementando, que s\u00e3o os conte\u00fados racistas, ent\u00e3o vem a ideologia supremacista, muito implementada.\u201d<\/p>\n<p>Ela afirma que nesses grupos h\u00e1 uma ampla gama de teorias conspirat\u00f3rias, que apresentam pautas com o combate ao machismo e ao racismo como tramas criadas para subverter a sociedade.<\/p>\n<p>\u201cExiste, por exemplo, contra o feminino uma ideia que associa a supremacia branca, que \u00e9 de que os povos que s\u00e3o de origem africana e de religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s, que s\u00e3o os isl\u00e2micos, que eles t\u00eam mais mulheres, eles t\u00eam mais filhos e, proporcionalmente, eles v\u00e3o dominar o mundo porque, em termos num\u00e9ricos, s\u00e3o mais numerosos.\u201d<\/p>\n<p>Cida Alves cita como exemplo o ataque \u00e0 escola de Realengo, no Rio de Janeiro, ocorrido em abril de 2011, um dos casos que ela estudou.<\/p>\n<p>\u201cO pr\u00f3prio atentado de Realengo \u00e9 muito simb\u00f3lico nesse aspecto. Se voc\u00ea pega as v\u00edtimas, n\u00e9, as meninas, ele atirava em partes letais, principalmente na cabe\u00e7a, para matar, e os meninos para ferir.\u201d<\/p>\n<p><strong>Supremacismo pardo<\/strong><br \/>\nO termo \u201csupremacismo pardo\u201d \u00e9 utilizado de forma pejorativa em discuss\u00f5es quando vem \u00e0 tona epis\u00f3dios nos quais jovens pardos promovem ataques calcados na ideologia nazista pela qual, paradoxalmente, eles mesmos seriam as v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Michele explica que essa tend\u00eancia reflete o que \u00e9 classificado como \u201cextremismo violento composto\u201d, tamb\u00e9m chamado por pesquisadores do tema de \u201cextremismo de buffet de salada\u201d.<\/p>\n<p>Nessa tend\u00eancia, ideologias extremistas, como o nazismo, atuam como pano de fundo para ecoar queixas leg\u00edtimas que nada t\u00eam a ver com a ideologia, mas que contribuem para a radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDentro do extremismo p\u00f3s-organizacional, o que a gente tem tamb\u00e9m? A gente tem um extremismo violento composto. O que seria isso? Que \u00e9 indefinido. Muitas vezes, aquele jovem que se radicalizou e cometeu um atentado violento, ele n\u00e3o se radicalizou apenas numa ideologia extremista, ou apenas no neonazismo ou apenas no incelismo [termo usado para designar os incels], n\u00e3o\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cEle monta um combo. Ent\u00e3o, de cada ideologia extremista, ele tira um pouco do que responde \u00e0s suas queixas e depois pega de uma outra ideologia extremista o que responde a algumas outras queixas dele. E forma o seu pr\u00f3prio prato, n\u00e9, o seu pr\u00f3prio combo de ideologias extremistas\u201d, complementa.<\/p>\n<p>Ela acrescenta como exemplo o ataque ao Col\u00e9gio Estadual Helena Kolody, em Camb\u00e9, no Paran\u00e1, ocorrido em 19 de junho de 2023, quando um ex-aluno de 21 anos invadiu o col\u00e9gio e disparou contra estudantes, causando a morte de dois adolescentes. Na ocasi\u00e3o, investiga\u00e7\u00f5es apontaram que o jovem teve contato com conte\u00fado extremista on-line.<\/p>\n<p>\u201cO indiv\u00edduo [autor do ataque] claramente, a partir das evid\u00eancias emp\u00edricas que a gente colheu, se radicalizou tanto no incelismo quanto no aceleracionismo, [na inten\u00e7\u00e3o de] causar um caos, produzir um atentado terrorista em nome de uma suposta supremacia para conseguir promover uma guerra racial. Mas ele tamb\u00e9m se radicalizou no extremismo violento isl\u00e2mico, as pegadas digitais dele indicaram [isso]. Manifestos ou v\u00eddeos que ele gravou indicaram que ele tamb\u00e9m teve contato com o conte\u00fado do extremismo violento isl\u00e2mico, especificamente ligado ao Estado Isl\u00e2mico. Ent\u00e3o, nesse caso espec\u00edfico do atentado em Camb\u00e9, n\u00f3s tivemos a\u00ed um exemplo n\u00edtido, cristalino, de extremismo violento composto.\u201d<\/p>\n<p><strong>Como impedir a radicaliza\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nQuestionados sobre o que poderia ser feito para impedir a radicaliza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens, os quatro entrevistados apontam que uma das principais medidas seria a regula\u00e7\u00e3o das redes, debate em pauta no Brasil e no mundo. Cida Alves afirma considerar a regula\u00e7\u00e3o urgente.<\/p>\n<p>\u201cAs redes sociais n\u00e3o t\u00eam nenhuma forma de regula\u00e7\u00e3o e, \u00e0s vezes, at\u00e9 a pr\u00f3pria circula\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, os cidad\u00e3os mesmo, por exemplo, no WhatsApp, em outras redes, que \u00e0s vezes querem denunciar uma situa\u00e7\u00e3o, exp\u00f5em a imagem da v\u00edtima. Eles n\u00e3o percebem que, ao denunciar, eles aumentam a circula\u00e7\u00e3o daquela imagem, o que aumenta o ibope daquele autor de viol\u00eancia. Ent\u00e3o a gente precisa urgentemente fazer essa regulamenta\u00e7\u00e3o. A gente tem que investir todas as nossas fichas nesse momento, porque existem etapas do enfrentamento.\u201d<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga afirma que os pais tamb\u00e9m podem auxiliar no combate \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o promovendo o que ela chama de \u201cmonitoramento positivo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA gente sabe que a crian\u00e7a precisa ter o seu espa\u00e7o, a sua intimidade, mas as fam\u00edlias precisam fazer um acordo com os filhos, [dizer]: \u2018Olha, eu vou precisar monitorar os conte\u00fados que voc\u00ea est\u00e1 tendo acesso.\u2019 Crian\u00e7as pequenas, adolescentes, os pais precisam monitorar. Isso faz parte do cuidado mesmo. Isso tem que ser dito, tem que ser acordado.\u201d<\/p>\n<p>Ela acrescenta que \u00e9 preciso investir na desconstru\u00e7\u00e3o da cultura armamentista e em a\u00e7\u00f5es de conscientiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cIsso tem que entrar em todos os espa\u00e7os. Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 muito importante, em especial depois da pandemia, quando aumentaram os casos de ansiedade, as tentativas de suic\u00eddio. N\u00f3s estamos vivendo num ambiente muito hostil. Eu acho que a gente precisa fazer um amplo trabalho de retomada da conviv\u00eancia entre as pessoas, pr\u00e1ticas de esporte, de prefer\u00eancia pr\u00e1ticas de lazer na natureza. Se a gente n\u00e3o fizer essa virada de chave, n\u00f3s estaremos criando um clima muito adoecedor para os nossos jovens\u201d, alerta a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p><strong>\u2018Temos que postar na Internet\u2019<\/strong><br \/>\nMichele Prado, por sua vez, concorda com a necessidade da regula\u00e7\u00e3o das redes sociais, e destaca a import\u00e2ncia de combater a tend\u00eancia de desumaniza\u00e7\u00e3o daqueles que pensam diferente, componente tamb\u00e9m presente na radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cUm dos principais marcadores dentro de grupos extremistas e ecossistemas extremistas \u00e9 justamente a desumaniza\u00e7\u00e3o do outro. Quando voc\u00ea coloca intragrupo versus extragrupo. Ent\u00e3o aquele outro \u00e9 visto como um inimigo a ser aniquilado, e a misantropia tamb\u00e9m \u00e9 muito forte dentro desses ecossistemas extremistas\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cA desumaniza\u00e7\u00e3o que vem, por exemplo, a partir de memes, o discurso de desumaniza\u00e7\u00e3o da s\u00e1tira, as caracter\u00edsticas que transformam aquela pessoa humana, animaliza aquelas caracter\u00edsticas. Por exemplo, chama de verme, de rato, de barata, de inseto. Tudo isso s\u00e3o marcadores muito importantes dentro de processos de radicaliza\u00e7\u00e3o. Por sinal, serve at\u00e9 como um alerta para pais, professores. Quando escutarem, lerem discursos desse tipo vindo de adolescentes, esse \u00e9 um sinal importante de radicaliza\u00e7\u00e3o do extremismo violento.\u201d<\/p>\n<p><strong>O que dizem as big techs?<\/strong><br \/>\nA Meta, a ByteDance e a Discord foram procuradas para saber que medidas as empresas tomam para coibir a replica\u00e7\u00e3o de conte\u00fado extremista em suas plataformas.<\/p>\n<p>A Meta afirmou \u00e0 reportagem que suas pol\u00edticas \u201cpro\u00edbem conte\u00fado que incite ou promova viol\u00eancia, e isso inclui contas ou conte\u00fados elogiando atos violentos e seus autores\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, a empresa n\u00e3o permite a presen\u00e7a de pessoas ou organiza\u00e7\u00f5es que anunciem uma miss\u00e3o violenta ou estejam envolvidas em atos de viol\u00eancia nas plataformas da Meta. Isso inclui atividade terrorista, atos organizados de \u00f3dio, assassinato em massa (incluindo tentativas) ou chacinas, tr\u00e1fico humano e viol\u00eancia organizada ou atividade criminosa. A Meta remove, ainda, conte\u00fado que expresse apoio ou exalte grupos, l\u00edderes ou pessoas envolvidas nessas atividades, e tamb\u00e9m n\u00e3o tolera discurso de \u00f3dio no Facebook e no Instagram e remove qualquer conte\u00fado que viole nossos Padr\u00f5es da Comunidade.\u201d<\/p>\n<p>Quanto ao aplicativo de troca de mensagens WhatsApp, a Meta afirmou que \u201ccomo informado nos Termos de Servi\u00e7o e na Pol\u00edtica de Privacidade do aplicativo, o WhatsApp n\u00e3o permite o uso do seu servi\u00e7o para fins il\u00edcitos ou que instigue ou encoraje condutas que sejam il\u00edcitas ou inadequadas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNos casos de viola\u00e7\u00e3o destes termos, o WhatsApp toma medidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s contas como desativ\u00e1-las ou suspend\u00ea-las. O aplicativo encoraja que as pessoas reportem condutas inapropriadas diretamente nas conversas, por meio da op\u00e7\u00e3o \u2018denunciar\u2019 dispon\u00edvel no menu do aplicativo (menu &gt; mais &gt; denunciar). Os usu\u00e1rios tamb\u00e9m podem enviar den\u00fancias para o e-mail support@whatsapp.com, detalhando o ocorrido com o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es poss\u00edvel e at\u00e9 anexando uma captura de tela.\u201d<\/p>\n<p>Procuradas, a Discord e a ByteDance, dona do TikTok, n\u00e3o enviaram retorno at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o da reportagem.<\/p>\n<p><strong>Soberania digital<\/strong><br \/>\nMichel Gherman aponta uma necessidade urgente de o Brasil passar pelo que ele chama de letramento digital, no qual crian\u00e7as e adultos passam a aprender como usar as redes sociais.<\/p>\n<p>\u201cA gente est\u00e1 passando por uma fase agora de constru\u00e7\u00e3o de soberania digital. Isso come\u00e7a com letramento e passa por uma estrutura legal que a gente ainda n\u00e3o tem. \u00c9 uma compara\u00e7\u00e3o que a gente faz com as outras formas de soberania.\u201d<\/p>\n<p>Ele afirma que, assim como ocorre com a soberania territorial, a\u00e9rea e mar\u00edtima, que impedem a atua\u00e7\u00e3o de grupos em territ\u00f3rio brasileiro sem o conhecimento do Estado, \u00e9 necess\u00e1rio construir tamb\u00e9m a soberania digital.<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o tem ainda essa no\u00e7\u00e3o de fronteira digital. As institui\u00e7\u00f5es, a partir de uma perspectiva de mundo globalizado, de economia globalizada, funcionam dentro do nosso pa\u00eds sem que elas tenham compromisso, em termos de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, com as leis do nosso pa\u00eds. Se a gente n\u00e3o tiver uma no\u00e7\u00e3o de que as redes sociais s\u00e3o parte do territ\u00f3rio brasileiro e precisam funcionar a partir da soberania brasileira, a gente perdeu a guerra contra o extremismo.\u201d<\/p>\n<p>Gherman acrescenta que dialogar com aqueles que foram radicalizados \u00e9 necess\u00e1rio para reverter o processo de radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 fundamental que a gente adote as estrat\u00e9gias feitas fora do Brasil e traga para c\u00e1. As estrat\u00e9gias para que a gente tire dessas seitas radicalizadas pessoas que est\u00e3o por l\u00e1, porque em algum sentido receberam respostas para dramas e traumas que elas t\u00eam na fam\u00edlia, dramas e traumas que elas t\u00eam na vida. \u00c9 preciso come\u00e7ar um processo de desradicaliza\u00e7\u00e3o no Brasil, sem sombra de d\u00favida.\u201d<\/p>\n<p>Ele aponta, ainda, as resolu\u00e7\u00f5es do grupo de trabalho criado pelo Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), em fevereiro de 2023, para a apresenta\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de combate ao discurso de \u00f3dio e ao extremismo, o qual integrou.<\/p>\n<p>Dentre as estrat\u00e9gias tra\u00e7adas pelo grupo de trabalho para enfrentar o discurso de \u00f3dio e o extremismo on-line, est\u00e1 a capacita\u00e7\u00e3o das escolas para lidar com o tema. Isso porque as escolas, atualmente, utilizam \u201cconte\u00fados de 20 anos atr\u00e1s para crian\u00e7as que est\u00e3o vivendo 20 anos \u00e0 frente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA gente desenvolveu uma rela\u00e7\u00e3o com o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, onde se produziu uma esp\u00e9cie de estrat\u00e9gia de forma\u00e7\u00e3o de professores e de alunos para lidar com esses temas\u201d, destaca, acrescentando que, com o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, o grupo tra\u00e7ou um plano de puni\u00e7\u00e3o aos que usam as redes sociais para promover a radicaliza\u00e7\u00e3o ou obter lucro com ela.<\/p>\n<p>\u201cEsse controle vai ser feito a partir da aprova\u00e7\u00e3o de leis que intimidem uma liberdade supostamente incontrol\u00e1vel dessas redes sociais. As redes sociais n\u00e3o funcionam de forma livre, elas funcionam a partir de uma l\u00f3gica de mercado e lucro. E essa l\u00f3gica de mercado e lucro \u00e9 o que condiciona as formas que elas t\u00eam de funcionar. O que a gente est\u00e1 tentando produzir a partir do grupo de trabalho s\u00e3o leis que impe\u00e7am que essa suposta liberdade continue sem controle e vinculando essas leis \u00e0 lei do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o combate radicaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 Cleo Garcia destaca que a educa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica pode ser uma das estrat\u00e9gias para reverter a tend\u00eancia de radicaliza\u00e7\u00e3o de jovens no mundo virtual e impedir que ela escale para a viol\u00eancia no mundo f\u00edsico.<\/p>\n<p>\u201cA educa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica \u00e9 necess\u00e1ria, muito necess\u00e1ria. Eu falo tamb\u00e9m em educa\u00e7\u00e3o digital. A midi\u00e1tica, n\u00f3s estamos aqui falando sobre os conte\u00fados que s\u00e3o acessados. E n\u00e3o somente para os adolescentes, com certeza, mas para adultos. E a educa\u00e7\u00e3o digital \u00e9 como n\u00f3s fazemos esse acesso, como eu chego a esses conte\u00fados.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Garcia, para esse aprendizado produzir resultados efetivos, ele n\u00e3o deve abranger apenas crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, adultos, tamb\u00e9m fomos jogados para esse mundo virtual sem termos conhecimento, sem termos uma prepara\u00e7\u00e3o de como utiliz\u00e1-lo. Ent\u00e3o n\u00f3s s\u00f3 podemos orientar esses adolescentes se tamb\u00e9m tivermos uma prepara\u00e7\u00e3o e uma educa\u00e7\u00e3o\u201d, explica a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas mudan\u00e7as, por \u00faltimo, a especialista acredita na necessidade de uma transforma\u00e7\u00e3o um pouco mais subjetiva, que \u00e9 o resgate de valores perdidos, como a empatia e o respeito ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s temos hoje no Brasil, acho que n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, acho que no mundo todo, um tribunal virtual, n\u00e9? Todos querem apontar o dedo e mostrar que a pessoa est\u00e1 errada, julgando, dizendo o que \u00e9 melhor, e muitas vezes esquecem de olhar para si mesmos. Ent\u00e3o acredito que a regula\u00e7\u00e3o talvez permita que as pessoas possam fazer essa reflex\u00e3o. Mas, antes de tudo, \u00e9 necess\u00e1ria a educa\u00e7\u00e3o\u201d, afirma a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cEduca\u00e7\u00e3o transforma mais do que leis. Eu acredito que as leis s\u00e3o necess\u00e1rias, sim, porque n\u00f3s precisamos delas para viver em sociedade, regularmos o nosso conv\u00edvio, mas a educa\u00e7\u00e3o faz com que n\u00f3s tenhamos essa criticidade e essa consci\u00eancia de que \u00e9 necess\u00e1rio compreender as leis, e n\u00e3o apenas aplicar como uma puni\u00e7\u00e3o se n\u00e3o h\u00e1 transforma\u00e7\u00e3o. As leis cerceiam, regulam, mas n\u00e3o transformam. O que transforma realmente \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 a conscientiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 a responsabiliza\u00e7\u00e3o\u201d, finaliza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O contato com conte\u00fado extremista on-line est\u00e1 ocorrendo cada vez mais cedo, sendo hoje por volta dos dez anos de idade, incluindo a radicaliza\u00e7\u00e3o de meninas e os desafios com pr\u00eamios para aqueles que cometem atos violentos. Em reportagem especial, analistas explicam \u00e0 Sputnik Brasil quais as causas dessa tend\u00eancia e como combat\u00ea-la. 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